DIDACTICA MAGNA - COMENIUS
menumark

Didactica Magna (1621-1657)
Iohannis Amos Comenius (1592-1670)

Verso para eBook
eBooksBrasil.com

Fonte Digital

Digitalizao de
Didctica Magna
Introduo, Traduo e Notas de
JOAQUIM FERREIRA GOMES

Copyright:
 2001 FUNDAO CALOUSTE GULBENKIAN
[Nota de Copyright]

NDICE

Nota do Editor
Didtica Magna
Saudao aos Leitores
A todos aqueles de presidem as coisas humanas
Utilidade da Arte Didtica
Assuntos dos Captulos
Notas do Tradutor

Nota do Editor

     Deixo que o prprio Autor justifique a presente edio em eBook de sua obra:
"16. Dai nasceu este meu tratado, onde o tema , assim o espero, desenvolvido mais
longamente e mais claramente do que nunca o foi at ao presente. Escrito
inicialmente em vernculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns homens
eminentes, vertido em latim, para que, se possvel, aproveite a
todos.
     17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvao do gnero 
humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didtica, se no esconda
dos mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efetivamente,  da natureza de todos os 
bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos; e quanto
mais  a riqueza e se pe em comum, tanto melhor  e tanto mais cabe a todos.
     18.  tambm uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em 
auxilio do prximo para o tirar das suas dificuldades, no se deve hesitar;
sobretudo quando se trata, no de um homem s, mas de muitos, e no apenas de muitos 
homens, mas de muitas cidades, provncias e reinos e, digo at, do
gnero humano inteiro, como  o caso presente."
     E ainda:
15. Peo tambm e suplico, em nome de Deus, que nenhum douto despreze estas coisas, 
pelo fato de virem de um homem menos instrudo que ele. Na verdade,
s vezes, mesmo um campons diz coisas muito oportunas, e talvez o que tu no sabes o 
saiba um burrinho, como disse Crsipo. E Cristo disse tambm: O
esprito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas no sabes de onde ele vem, nem para 
onde vai. Juro diante de Deus que no fui movido a fazer estas
coisas, nem pela confiana na minha inteligncia, nem pela sede da fama, nem pela 
esperana de da tirar algum proveito pessoal; mas o amor de Deus e o
desejo de tornar melhores as coisas dos homens, pblicas e particulares, estimula-me de 
tal maneira que no posso deixar envolto no silncio aquilo que
um oculto instinto me sugere constantemente. Se algum, portanto, podendo fazer andar 
para a frente os nossos desejos, os nossos votos, as nossas advertncias
e os nossos esforos, em vez disso, lhes faz resistncia e os combate, saiba que declarar 
guerra, no a ns, mas a Deus,  sua conscincia e  natureza
humana que quer que os bens pblicos sejam comuns, de direito e de fato.
     O mesmo esprito que moveu o Autor a escrever, o tradutor  traduo e a Fundao 
Calouste Gulbenkian a public-la em papel, nos moveu nesta verso
para eBook.
     E, tenho certeza, Comenius, to entusiasmado pela imprensa, teria adorado os eBooks, 
pelo que potencializam das oportunidades que to bem apontou em
sua obra.

     Na presente verso para eBook, feita antes de tudo visando o leitor brasileiro, apenas a 
ortografia foi abrasileirada; convervmos, contudo, os acentos
diacrticos do pretrito, nem que seja pela clareza, mas sobretudo como sugesto para uma 
futura reforma ortogrfica.

     No constam desta verso a magnfica Introduo de Joaquim Ferreira Gomes, nem as 
ilustraes e, com certeza, por se tratar de texto processado por
OCR, apesar de duas revises, no tem a correo da obra impressa.
     E a verso mais completa, em eBook,  a em eBoolPro.

     Minha busca pelas livrarias virtuais brasileiras resultou em nada, mas recomenda-se 
aos estudiosos que se dirijam ao website da Fundao Calouste Gulbenkian
[http://www.gulbenkian.pt/] para verificar da disponibilidade da obra, que tambm 
poder, com certeza, ser encontrada nas boas bibliotecas das boas Faculdades.

     Sobre a Fundao Calouste Gulbenkian:
A Fundao Calouste Gulbenkian  uma instituio portuguesa de direito privado e 
utilidade pblica, cujos fins estatutrios so a Educao, a Cincia,
a Beneficncia (Sade e Proteo Social) e as Artes. Criada por disposio testamentria 
de Calouste Sarkis Gulbenkian, os seus estatutos foram aprovados
em 1956. A Fundao tem a sua sede em Lisboa. Na prossecuo dos seus fins 
estatutrios a Fundao promove e apoia a realizao de exposies, cursos,
encontros e colquios, concertos, ciclos de espetculos dos mais variados gneros; atribui 
subsdios a projetos, concede bolsas de estudo, apoia programas
de natureza cientfica, educacional e artstica tanto em Portugal como no estrangeiro. So 
importantes os projetos de cooperao com os pases africanos
lusfonos e tambm, desde 1999, em Timor-Lorosae (Servio da Cooperao para o 
Desenvolvimento), os de preservao dos testemunhos da presena portuguesa
no mundo e os de divulgao da cultura portuguesa no estrangeiro (ambos no mbito da 
ao do Servio Internacional), bem como os de apoio  dispora armnia
(Servio das Comunidades Armnias). A Fundao mantm em todo o Pas um conjunto 
de bibliotecas. Na rea de interveno do Servio de Sade e Proteo
Social  relevante a sua ao junto dos hospitais portugueses. No campo das edies, a 
Fundao desenvolve uma intensa atividade (principalmente atravs
do Servio de Educao e Bolsas).
     O leitor est cordialmente convidado a visitar o website da Fundao, para conhecer 
um pouco mais dos relevantes servios por ela prestados a Portugal,
aos pases de lngua portuguesa e  humanidade.

     Sobre o Tradutor:

     O Professor Doutor Joaquim Ferreira Gomes, da Faculdade de Letras de Coimbra e de 
tantas outras instituies,  nome que dispensa apresentao para
os educadores brasileiros. Para conhec-lo melhor, e surpreender-se com suas 
contribuies para o conhecimento humano, basta uma rpida pesquisa no Google,
no Sapo, ou qualquer outra ferramenta de busca.
     Recomendamos, ainda, a leitura do Ensaios em Homenagem a Joaquim Ferreira 
Gomes, publicado em Setembro de 1998, por ocasio do seu jubileu acadmico.
Trata-se da coletnea de artigos escritos por alguns dos seus antigos alunos, por colegas 
e amigos de vrias Universidades portuguesas e estrangeiras,
em reconhecimento do contributo muito significativo que deu para o desenvolvimento da 
Psicologia e das Cincias da Educao em Portugal.
     E no apenas a Portugal! Ns, no Brasil, lhe devemos muito, muito, inclusive a 
maravilhosa traduo da obra que voc vai ler.

DIDTICA
MAGNA

COMENIUS

DIDTICA MAGNA

Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos

ou

     Processo seguro e excelente de instituir, em todas as comunidades de qualquer Reino 
cristo, cidades e aldeias, escolas tais que toda a juventude de
um e de outro sexo, sem excetuar ningum em siveiarte alguma, possa ser formada nos 
estudos, educada nos bons costumes, impregnada de piedade, e, desta
maneira, possa ser, nos anos da puberdade, instruda em tudo o que diz respeito  vida 
presente e  futura, com economia de tempo e de fadiga, com agrado
e com solidez.
     Onde os fundamentos de todas as coisas que se aconselham so tirados da prpria 
natureza das coisas; a sua verdade  demonstrada com exemplos paralelos
das artes mecnicas; o curso dos estudos  distribudo por anos, meses, dias e horas; e, 
enfim,  indicado um caminho fcil e seguro de pr estas coisas
em prtica com bom resultado.

     A proa e a popa da nossa Didtica ser investigar e descobrir o mtodo segundo o qual 
os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais; nas
escolas, haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho intil, e, ao contrrio, haja 
mais recolhimento, mais atrativo e mais slido progresso; na Cristandade,
haja menos trevas, menos confuso, menos dissdios, e mais luz, mais ordem, mais paz e 
mais tranqilidade.

     Que Deus tenha piedade de ns e nos abenoe! Faa brilhar sobre ns a luz da sua face 
e tenha piedade de ns! Para que sobre esta terra possamos conhecer
o teu caminho,  Senhor, e a tua ajuda salutar a todas as gentes (Salmo 66, 1-2).

SAUDAO AOS LEITORES

     1. Didtica significa arte de ensinar. Acerca desta arte, desde h pouco tempo, alguns 
homens eminentes, tocados de piedade pelos alunos condenados
a rebolar o rochedo de Ssifo, puseram-se a fazer investigaes, com resultados diferentes.

     2. Alguns esforaram-se por arranjar compndios apenas para ensinar mais facilmente, 
esta ou aquela lngua. Outros procuraram encontrar os mtodos
mais breves para ensinar, mais rapidamente, esta ou aquela cincia ou arte. Outros fizeram 
outras tentativas. Quase todos por meio de algumas observaes
externas recolhidas com o mtodo mais fcil, ou seja, com o mtodo prtico, isto , a 
posteriori, como lhe chamam.

     3. Ns ousamos prometer uma Didtica Magna, isto , um mtodo universal de ensinar 
tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossvel
no conseguir bons resultados. E de ensinar rapidamente, ou seja, sem nenhum enfado e 
sem nenhum aborrecimento para os alunos e para os professores, mas
antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar solidamente, no 
superficialmente e apenas com palavras, mas encaminhando os alunos para uma
verdadeira instruo, para os bons costumes e para a piedade sincera. Enfim, 
demonstraremos todas estas coisas a priori, isto , derivando-as da prpria
natureza imutvel das coisas, como de uma fonte viva que produz eternos arroios que vo, 
de novo, reunir-se num nico rio; assim estabelecemos um mtodo
universal de fundar escolas universais.

     4. Na verdade, a promessa que fazemos  enorme e corresponde a um desejo muito 
vivo, mas podemos facilmente imaginar que haver pessoas que nela vero
mais um sonho que um propsito fundado na realidade. No entanto, quem quer que tu 
sejas, leitor, suspende o teu juzo, at que tenhas conhecido a substncia
das coisas; ento ters a liberdade, no somente de julgar, mas tambm de te 
pronunciares. Com efeito, eu no desejo, para no dizer que no ambiciono,
arrastar ningum, com os artifcios da persuaso, a dar o seu assentimento a uma coisa 
que no oferece qualquer certeza. Mas, com toda a alma, advirto,
exorto e suplico, a quem quer que olhe o nosso trabalho, que nele fixe o seu prprio olhar 
e que o fixe com toda a sua penetrao, pois  o nico meio
de se no deixar perturbar pelas opinies fascinantes de outrem.

     5. O assunto  realmente da mais sria importncia e, assim como todos devem augurar 
que ele se concretize, assim tambm todos devem examin-lo com
bom senso, e todos, unindo as suas prprias foras, o devem impulsionar, pois dele 
depende a salvao de todo o gnero humano. Que presente mais belo e
maior podemos ns oferecer  Ptria que o de instruir e educar a juventude, 
principalmente quando, pelos costumes e pelas condies dos tempos atuais,
a juventude, como diz Ccero
[1],
entrou num tal caminho que, com os esforos de todos, deve ser travada e refreada? Filipe 
Mclanchton, com efeito, escreveu que a educao perfeita da juventude
 coisa um pouco mais difcil que a tomada de Tria
[2].
E S. Gregrio Nazianzeno pensa da mesma maneira quando diz:

isto , a arte das artes est em formar o homem, o qual  o mais verstil e o mais 
complexo de todos os animais
[3].

     6. Ensinar a arte das artes , portanto, um trabalho srio e exige perspiccia de juizo, e 
no apenas de um s homem, mas de muitos, pois um s homem
no pode estar to atento que lhe no passem desapercebidas muitssimas coisas.

     7.  por isso que, com razo, peo aos meus leitores, mais ainda, em nome da salvao 
do gnero humano, suplico a todos aqueles que tiverem ocasio
de lanar um olhar sobre a minha obra: primeiro, que no imputem  presuno o fato de 
ter havido algum que, no apenas tenha tentado, mas ousado prometer
levar a bom termo to grande empresa, pois esta foi empreendida com um objetivo 
salutar. Segundo, que no desesperem se a experincia no resultar logo
ao primeiro ensaio, e no der completamente os resultados desejados.  necessrio, com 
efeito, que primeiro germinem as sementes das coisas; estas viro
a seguir, gradualmente, segundo a sua natureza. Por mais imperfeita que seja a minha 
tentativa e no chegue a atingir o objetivo que eu me havia proposto,
o meu exemplo trar, todavia, ao menos, a prova de que foi percorrida uma longa etapa 
que jamais havia sido percorrida e que o cume a escalar est mais
prximo que at aqui. Enfim, peo aos meus leitores que prestem ateno, sejam 
corajosos e julguem com liberdade e perspiccia, como convm nas coisas
da mxima importncia. Dito isto,  meu dever, por um lado, indicar em poucas palavras 
aquilo que me proporcionou a ocasio de empreender este trabalho,
e, por outro lado, resumir as principais caractersticas das novidades que ele contm, antes 
de o entregar, com inteira confiana,  boa f e s ulteriores
investigaes de todos aqueles que julgam com sensatez.

     8. Esta arte de ensinar e de aprender, levada ao ponto de perfeio que parece agora 
esforar-se por atingir, foi, em boa parte, desconhecida nos sculos
passados e, por esse fato, os estudos e as escolas curvavam ao peso de fadigas e de 
caprichos, de hesitaes e de iluses, de erros e de faltas, de tal
maneira que apenas podiam adquirir,  fora de lutar, uma instruo slida, aqueles que 
tinham a felicidade de possuir uma inteligncia divina.

     9. Mas, desde h algum tempo, Deus comeou a propiciar-se do sculo nascente, 
verdadeiramente novo, direi quase uma aurora, e suscitou, na Alemanha,
alguns homens de bem que, desgostosos com a confuso dos mtodos utilizados nas 
escolas, se puseram a investigar um mtodo mais curto e mais fcil para
ensinar as lnguas e as artes; depois dos primeiros vieram outros, e precisamente por isso 
alguns obtiveram sucesso maior que outros, como se revela evidente
pelos livros e ensaios didticos por eles publicados.

     10. Quero referir-me a Ratke
[4],
Lubin
[5],
Helwig
[6],
Ritter
[7],
Bodin
[8],
Glaum
[9],
Vogel
[10],
Wolfstirn
[11]
e quele que deveria ser nomeado entre os primeiros, Joo Valentim Andrea
[12] (
o qual, assim como ps a claro os males da Igreja e do Estado, assim tambm, aqui e 
alm, nos seus escritos puros como ouro, mostrou os males das escolas
e, em vrios lugares, indicou os remdios), e a outros, se os h, os quais nos so ainda 
desconhecidos. A prpria Frana comeou a rebolar esse rochedo,
quando Jean-Ccile Frey
[13]
publicou, em Paris, em 1629, uma excelente didtica, sob o ttulo Novo e rapidssimo 
mtodo que conduz s cincias divinas, s artes, s lnguas e aos discursos
improvisados.

     11. Tendo-se-me apresentado a ocasio de toda a parte, pus-me a ler os livros desses 
escritores; e se dissesse quanto prazer experimentei e como foram
grandementc aliviadas as dores em mim provocadas pela runa da minha ptria e pelo 
triste estado de toda a Germnia, ningum me acreditaria. Comecei, na
verdade, a esperar que a Providncia divina no fazia coincidir em vo todos esses 
infortnios, uma vez que,  runa das velhas escolas correspondia, ao
mesmo tempo, a ecloso de escolas novas no quadro de projetos novos. Com efeito, quem 
projeta construir um novo edifcio comea habitualmente por aplanar
o terreno, indo at  demolio do velho edifcio, pouco cmodo e a ameaar runa.

     12. Este pensamento despertava em mim uma bela esperana acompanhada de um 
doce prazer; mas, a seguir, apercebi-me de que, pouco a pouco, a esperana
se dilua, uma vez que, querendo desentulhar o terreno completamente, de baixo at cima, 
julgava no ser capaz de to grande empresa.

     13. Por isso, desejando possuir informaes mais completas sobre certos pontos e dar a 
minha opinio sobre alguns outros, escrevi a um, a um outro
e depois a um terceiro dos autores atrs citados, mas em vo, pois, por um lado, quase 
todos guardaram ciosamente segredo a respeito das suas descobertas
e, por outro lado, as minhas cartas foram-me devolvidas sem resposta, porque os 
destinatrios eram desconhecidos no endereo indicado.

     14. S um deles, o eminente J. V. Andrea, me respondeu, dizendo que, de bom grado, 
me daria quaisquer esclarecimentos, e encorajando a ousadia do meu
empreendimento. Foi assim que, picado, por assim dizer, pela espora, me pus de novo a 
pensar mais freqentemente neste trabalho e que, finalmente, um ardente
amor do bem pblico me obrigou a tentar a empresa, comeando pelos fundamentos.

     15. Postas, portanto, de lado as descobertas, as opinies, as observaes e as 
advertncias dos outros, decidi-me a refazer tudo por mim mesmo e a
examinar o assunto e a procurar as causas, os mtodos, os processos e os fins daquilo que, 
com Tertuliano
[14],
chamamos, se isso nos  licito, aprendizagem (discentia).

     16. Dai nasceu este meu tratado, onde o tema , assim o espero, desenvolvido mais 
longamente e mais claramente do que nunca o foi at ao presente.
Escrito inicialmente em vernculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns 
homens eminentes, vertido em latim, para que, se possvel, aproveite
a todos.

     17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvao do gnero 
humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didtica
[15],
se no esconda dos mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efetivamente,  da 
natureza de todos os bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados
a todos; e quanto mais  a riqueza e se pe em comum, tanto melhor  e tanto mais cabe a 
todos.

     18.  tambm uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em 
auxilio do prximo para o tirar das suas dificuldades, no se deve hesitar;
sobretudo quando se trata, no de um homem s, mas de muitos, e no apenas de muitos 
homens, mas de muitas cidades, provncias e reinos e, digo at, do
gnero humano inteiro, como  o caso presente.

     19. Se, todavia, houver algum esprito to impertinente que pense que  coisa estranha 
 vocao de um telogo estudar os problemas escolares, saiba
que esse escrpulo pesou to fortemente sobre o meu corao a ponto de o fazer sangrar. 
Apercebi-me, porm, de que no poderia libertar-me dele de outra
maneira seno prestando homenagem a Deus e pedindo publicamente conselho a todos 
acerca de tudo aquilo que uma intuio divina me sugeriu.

     20. Deixai-me,  almas crists, falar-vos com toda a confiana! Quem me conhece 
muito de perto sabe muito bem que sou homem de fraca inteligncia e
quase de nenhuma instruo; e sabe tambm que choro os infortnios da nossa poca e 
desejo vivamente suprir, se isso  possvel, quer com as minhas invenes,
quer com as dos outros (todas as invenes derivam, de resto, do nosso bom Deus), a tudo 
o que nos falta de mais importante.

     21. Se, portanto, encontrei agora alguma boa idia, ela no deve ser minha, mas 
dAquele que costuma obter louvores da boca das crianas
[16],
e que, para se mostrar de fato fiel, veraz e benigno, d a quem pede, abre a quem bate e 
oferece a quem procura (Luc., II, 9), porque at ns cumulamos
de dons aqueles por quem deles fomos tambm cumulados. O meu Cristo sabe que tenho 
um corao to simples que no h para mim diferena alguma entre ensinar
e ser ensinado, advertir e ser advertido, entre ser mestre dos mestres (se me  lcito falar 
assim) e discpulo dos discpulos (se acaso posso esperar
algum progresso).

     22. Por isso, as observaes que o Senhor me concedeu fazer, eis que as ponho em 
pblico e em comum com todos.

     23. Se algum encontrar melhor, faa o mesmo, para no ser acusado pelo Senhor de 
colocar os seus dinheiros no cofre e de os esconder, pois o Senhor
quer que os seus servos negoceiem, para que os dinheiros de cada um deles, postos no 
banco, rendam outros dinheiros (Luc., 19).

      lcito, foi lcito e sempre ser lcito procurar as coisas grandes. E nunca ser em vo 
o trabalho comeado em nome do Senhor.

A TODOS AQUELES
QUE PRESIDEM S COISAS HUMANAS,
AOS MINISTROS DE ESTADO,
AOS PASTORES DAS IGREJAS,
AOS DIRETORES DAS ESCOLAS,
AOS PAIS E AOS TUTORES,
SEJA DADA A GRAA E A PAZ DE DEUS,
PAI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO,
NO ESPRITO SANTO

As duas mais excelentes obras da criao: o paraso e o homem.

1. Deus, no princpio do mundo, criou o homem, plasmando-o com a terra, e colocou-o 
num paraso de delcias, por Ele plantado no Oriente, no s para que
o guardasse e cultivasse (Gnesis, 2, 15), mas tambm para que ele prprio fosse para o 
seu Deus um jardim de delcias.

Comparao entre o homem e o paraso.

2. Na verdade, assim como o paraso era a parte mais amena do mundo, assim o homem 
era a mais amada das criaturas. O paraso foi plantado a Oriente; o homem,
 imagem dAquele que teve origem desde o princpio, desde os dias da eternidade. No 
paraso, cresceram todas as plantas belas para serem vistas, e deliciosas
para serem comidas, escolhidas entre todas aquelas que estavam espa1hadas, aqui e alm, 
por toda a terra; no homem, foram acumulados, por assim dizer,
como num s monte, todos os elementos do mundo, todas as formas e todos os graus das 
formas, para que manifestasse toda a arte da divina sabedoria. O paraso
tinha a rvore da cincia do bem e do mal; o homem tem a mente para distinguir e a 
vontade para escolher o que existe de bem ou de mal. No paraso, existia
a rvore de vida; no homem, existe tambm a rvore da imortalidade, ou seja, a sabedoria 
de Deus, a qual colocou no homem razes eternas (Eclesistico,
I, 16). Desse lugar de delcias, saa um rio, que regava o paraso e depois se dividia em 
quatro ramos principais (Gnesis, 2, 10); no corao do homem,
confluem vrios dons do Esprito Santo, que vo irrig-lo, e depois, do seu seio, brotam 
rios de gua viva (S. Joo, 7, 38), isto , no homem e por obra
do homem, difunde-se, de vrios modos, a sabedoria de Deus, como rios que se derramam 
em todas as direes. Isto  atestado tambm pelo Apstolo, quando
afirma que, por meio da Igreja, se torna manifesta aos principados e s potestades dos 
cus a multiforme sabedoria de Deus (Efsios, 3, 10).

3. Verdadeiramente, portanto, cada homem  para o seu Deus um paraso de delcias, se se 
mantm no lugar que lhe foi marcado. De modo semelhante, tambm
a Igreja, que  a comunidade de todos os homens consagrados a Deus, , muitas vezes, 
comparada, na Sagrada Escritura, ao paraso, ao jardim e  vinha de
Deus.

Perda de ambos os parasos

4. Mas que desventura foi a nossa! Estvamos no paraso das delcias corporais, e 
perdemo-lo; e, ao mesmo tempo, perdemos o paraso das delcias espirituais,
que ramos ns mesmos. Fomos expulsos para as solides da terra, e tornamo-nos ns 
prprios uma solido e um autntico deserto escuro e esqulido. Com
efeito, fomos ingratos para com aqueles bens, dos quais, no paraso, Deus nos havia 
cumulado com abundncia relativamente  alma e ao corpo; merecidamente,
portanto, fomos despojados de uns e de outros, e a nossa alma e o nosso corpo tornaram-
se o alvo das desgraas.

Deus lamenta-se disso.

5. Acerca destes fatos, ouamos um profeta, que fala alegoricamente a um rei de Tiro, 
soberbo e condenado a ser punido pela sua soberba: Tu vivias no meio
das delcias do paraso de Deus; e o teu vestido estava ornado de toda a casta de pedras 
preciosas: o srdio, o topzio, o jaspe, o crislito, a cornelina,
o berilo, a safira, o carbnculo, a esmeralda, juntamente com objetos de ouro. Tmpanos e 
gaitas de foles foram preparados, no dia em que foste feito rei,
para tocarem em tua honra. Tu eras um querubim e por isso te ungi como protetor (senhor 
das outras criaturas); por isso te fiz chefe; vivias no monte santo
de Deus e caminhavas no meio de pedras preciosas incessantemente flamejantes. 
Andando pelos teus caminhos, eras perfeito desde o dia da tua assuno ao
reino, at que foi encontrada em ti a iniquidade! Na multido das tuas traficncias, as tuas 
vsceras encheram-se de iniquidade e cometeste pecados. Por
isso te expulsei do monte de Deus, te entreguei  runa, etc. Quando o teu corao se 
encheu de soberba com a tua magnificncia, tu perdeste a sabedoria,
e eu lancei-te por terra, etc. (Ezequiel, 28, 12 e ss.). Num momento da sua justa 
indignao, lanou-nos por terra e expulsounos, e assim, embora fssemos
como um jardim do den, doravante tornamo-nos como uma solido do deserto.

Reconquista do nosso paraso por meio da graa de Deus.

6. Seja glorificado e louvado e honrado e bendito para sempre o nosso misericordioso 
Deus que, embora nos tenha abandonado por um certo tempo, todavia,
no nos deixou na solido eternamente; pelo contrrio, manifestando a sua sabedoria, 
mediante a qual delineou o cu e a terra e todas as outras coisas,
com a sua misericrdia fortificou, de novo, o seu abandonado paraso, ou seja, o gnero 
humano; e assim, com o machado e a serra e a foice da sua lei,
cortadas pelo p e podadas as rvores meio mortas e secas do nosso corao, a plantou 
novos rebentos escolhidos no paraso celeste; e para que estes pudessem
pegar e crescer, irrigou-os com o seu prprio sangue, e nunca mais deixou de os regar 
com vrios dons do seu Esprito Santo, que so como que arroios de
gua viva; e mandou tambm os seus operrios, jardineiros espirituais, a tratar com 
cuidado fiel a nova plantao de Deus. Efetivamente, assim fala Deus
a Isaas e, na pessoa dele, a outros: Pus as minhas palavras na tua boca e protegi-te com a 
sombra da minha mo, para que plantes os cus e fundes a terra
e digas a Sio: o meu povo s tu (Isaas, 51, 16).

A Igreja reverdece o paraso.

7. Verdeja, portanto, outra vez, o jardim da Igreja, delcia do corao divino, como de 
novo diz Isaas (51, 3): O Senhor consolar, pois, Sio, e consolar
todas as suas runas; e transformar o seu deserto num lugar de delcias e a sua solido 
num jardim do Senhor. Ai haver gozo e alegria, ao de graas
e vozes de louvor. E em Salomo: Jardim completamente fechado, irm minha, minha 
esposa; jardim completamente fechado, fonte selada. As tuas plantas
formam um jardim de delcias cheio de toda a qualidade de roms, de frutos de cipre e de 
nardo, etc. (Cntico dos Cnticos, 4, 12-13). Responde-lhe a
esposa, a Igreja: Tu, a fonte dos jardins, o poo das guas vivas, que com mpeto correm 
do Lbano! Levanta-te, aquilo, e vem tu, vento do meio-dia,
assopra de todos os lados no meu jardim, e espalhem-se os seus aromas. Que o meu 
amado venha para o jardim e coma as suas frutas preciosas (Ibid., 15,
16 e 17).

Com o andar do tempo, porm, as plantas murcham.

8. Mas, verdadeiramente, esta nova plantao teve um sucesso correspondente s 
esperanas nela depositadas? Todos os rebentos crescem bem? Todas as rvores
as plantas da nova plantao produzem nardo e aafro, ou mirra, ou aromas, ou frutos 
preciosos?
[1].
Ouamos a voz de Deus, que fala  sua Igreja: Eu plantei-te,  vinha, com sarmentos 
todos de boa qualidade. Como, pois, degeneraste para mim, convertendo-te
em vinha bastarda? (Jeremias, 2, 21). Eis Deus que se lamenta, dizendo que tambm esta 
nova plantao se abastardou!

Queixas de Deus e dos homens sbios acerca deste assunto.

9. A Sagrada Escritura est cheia de queixas semelhantes: esto cheios de todo o gnero 
de confuso os olhos de todos aqueles que alguma vez se dispuseram
a examinar as condies humanas e tambm as da Igreja. O mais sbio dos homens, 
Salomo, refletindo profundamente em tudo o que acontece sob o sol, mesmo
nas coisas por ele mesmo pensadas, ditas e feitas, comeou a deplorar que nunca se lhe 
apresentasse  mente outra coisa seno vaidade e desordem; que
as perversidades se no pudessem corrigir e os defeitos enumerar (Eclesiastes, I, 15). De 
tal maneira que at a verdadeira sabedoria  uma aflio do
esprito e multiplica a indignao e a desgraa (Ibid., 8).

Porque  que o povo no se cura destas coisas.

10. Com efeito, assim como quem ignora que tem uma doena, no a cura; quem no 
sente dores, no se lamenta; quem no se apercebe do perigo, no se arrepia,
mesmo que esteja sobre um abismo ou sobre um precipcio; assim tambm no  de 
admirar que as desordens, que corroem o gnero humano e a Igreja, no faam
impresso a quem as no considera. Mas quem se v a si mesmo, e os outros, cobertos de 
infinitas manchas, e sente j que as suas lceras e as dos outros
supuram cada vez mais, e tem o nariz cheio do terrvel odor que delas sai; quem se v a si 
e aos outros estar no meio de pericolusssimas voragens e despenhadeiros,
e girar entre laos tensos; mais ainda, quem se v conduzido por precipcios ininterruptos, 
e que este e aquele se precipitaram j,  difcil que no se
arrepie, que no se sinta aterrado, que no morra de dor.

Demostra-se por induo que tudo o que nos pertence est pervertido e depravado.

11. Na verdade, do que existe em ns ou do que a ns pertence, haver algo que esteja no 
seu devido lugar ou no seu estado? Nada, em parte alguma. Invertido
e estragado, tudo est destrudo ou arruinado. No lugar da inteligncia, pela qual 
deveremos igualar os anjos, est, na maior parte de ns, uma estupidez
to grande que, precisamente como os animais brutos, ignoramos at as coisas que mais 
necessidade temos de saber. No lugar da prudncia, pela qual, sendo
ns destinados  eternidade, deveremos preparar-nos para a eternidade, est um to grande 
esquecimento, no s da eternidade, mas at da morte, que a maior
parte dos homens so presa de coisas terrenas e passageiras e at de iminentssima morte. 
No lugar da sabedoria celeste, pela qual nos fora concedido reconhecer
e venerar os aspectos timos das coisas timas e saborear, por isso, os seus frutos 
dulcssimos, est uma repugnantssima averso quele Deus que nos d
a vida, o movimento e o ser
[2],
e uma estultssima irritao contra a sua divina potncia. No lugar do amor mtuo e da 
mansido, esto dios recprocos, inimizades, guerras e carnificinas.
No lugar da justia, est a iniquidade, a injustia, as opresses, os furtos e as rapinas. No 
lugar da castidade, est a impureza e a obscenidade dos pensamentos,
das palavras e das aes. No lugar da simplicidade e da veracidade, esto as mentiras, as 
fraudes e os enganos. No lugar da humildade, est o fausto e
a soberba de uns para com os outros.

E ns estamos completamente perdidos.

12. Ai de ti, infeliz gerao, que degeneraste tanto! O Senhor olha do cu para os filhos 
dos homens, para ver se h quem tenha prudncia e busque a Deus.
Todos  uma se extraviaram e se perverteram; no h quem faa o bem, no h sequer 
um (Salmo 13, 2-3). Mesmo aqueles que se apresentam como guias de outros
seguem por caminhos maus e tortuosos; aqueles que deveriam ser portadores de luz, a 
maioria das vezes, difundem trevas. Efetivamente, se, aqui ou alm,
h um pouquinho de bem e de verdade,  mutilado, dbil e disperso, no passando de uma 
sombra, de uma opinio, se se confronta com aquilo que verdadeiramente
deveria ser. Se h algum que se no aperceba disto, saiba que sofre de vertigens: os 
sbios, contemplando as coisas que lhes dizem respeito e as alheias,
no com os culos das opinies comuns, mas com a luz clara da verdade, vem aquilo que 
vem.

Duplo conforto:
1 - O Paraso eterno.

13. Resta, todavia, para ns um duplo conforto. Primeiro: Deus prepara para os seus 
eleitos o paraso eterno, onde readquiriro a perfeio e at uma perfeio
mais plena e mais slida que aquela primeira perfeio, agora perdida. Nesse paraso 
habita Cristo (Lucas, 23, 43), a ele foi arrebatado Paulo (Corntios,
II, 12, 4), e Joo pde ver a sua glria (Apocalipse, 2, 7 e 21, 10).

Tambm aqui, de tempos a tempos, se pode renovar o paraso da Igreja.

14. O segundo conforto vem do fato de que Deus, costuma renovar, de tempos a tempos, 
mesmo aqui na terra, a sua Igreja, e transformar os desertos num jardim
de delcias, como o mostram precisamente as promessas divinas acima referidas. Sabemos 
que, destas transformaes, algumas foram feitas de modo solene:
depois da Queda; depois do Dilvio; depois da entrada do povo hebreu na terra de 
Canaan; no tempo de David e no tempo de Salomo; depois do regresso da
Babilnia e da reedificao de Jerusalm; depois da ascenso de Cristo ao cu e da 
pregao do Evangelho aos gentios; no tempo de Constantino e em outras
ocasies. Se, porventura, tambm agora, aps os furores de guerras to atrozes e aps to 
grandes devastaes de naes, o Pai das misericrdias se prepara
para nos olhar com uma face mais benigna, somos obrigados a caminhar ao encontro de 
Deus e a concorrer tambm ns para o aperfeioamento da nossa vida,
segundo os modos e os caminhos que nos mostrar o mesmo sapientssimo Deus, o qual 
ordena tudo conforme os seus caminhos.

O modo mais eficaz desta renovao fornece-a uma reta formao da juventude.

15. Um dos primeiros ensinamentos, que a Sagrada Escritura nos d,  este: sob o sol no 
h nenhum outro caminho mais eficaz para corrigir as corrupes
humanas que a reta educao da juventude. Com efeito, Salomo, depois de ter percorrido 
todos os labirintos dos erros humanos e de se ter lamentado porque
se no podiam corrigir as perversidades e enumerar os defeitos dos homens, volta-se 
finalmente para os jovens, suplicando-lhes que se lembrem do seu Criador
nos dias da juventude e O temam e observem os mandamentos, porque isto  o essencial 
para o homem (Eclesiastes, 12, 13). E noutro lugar diz: Instrui
o jovem no caminho que deve seguir, e ele no se afastar dele, mesmo quando for velho 
(Provrbios, 22, 6). E por isso David diz: Vinde filhos, ouvi-me,
eu vos ensinarei o temor de Deus (Salmo 33, 11). Mas tambm o prprio David celeste e 
o autntico Salomo, o Filho eterno de Deus, enviado do cu para
regenerar a humanidade, nos ensinou, como que levantando o dedo, o mesmo caminho, 
quando disse: Deixai vir a mim as criancinhas, e no as afasteis de
mim, porque  delas o reino dos cus (Marcos, 10,14). E a ns disse: Se no vos 
converterdes e vos no tornardes como meninos, no entrareis no reino
dos cus (Mateus, 18,3).

As crianas no so apenas o objeto, mas tambm o exemplar da verdadeira regenerao

16. Mas que palavras so estas?! Ouvi-as bem e examinai-as atentamente todos, para ver 
que coisa queria dizer o Mestre e Senhor de todos. Como proclama
que s as crianeinhas so merecedoras do reino de Deus, admitindo a participar na 
herana apenas os homens que se tenham tornado semelhantes s criancinhas!
Oxal vs, diletas criancinhas, possais entender este vosso celeste privilgio! Eis no que 
ele consiste:  vosso o resto de dignidade que ficou ainda no
gnero humano, ou seja, o direito que ele tem ainda  ptria celeste! (Cristo  vosso, vossa 
 a santificao do Esprito, vossa a graa de Deus, vossa
a herana da vida futura; sim, tudo isto  vosso, pertence-vos a vs particularmente e 
infalivelmente, pertence mesmo s a vs, a no ser que qualquer
outro, convertendo-se, se torne como vs. Eis que ns, adultos, que julgamos que s ns 
somos homens e vs sois macaquinhos, s ns sbios e vs doidinhos,
s ns faladores inteligentes e vs ainda no aptos para falar, eis que, enfim, somos 
obrigados a vir  vossa escola! Vs fostes-nos dados como mestres,
e as vossas obras so dadas s nossas como espelho e exemplo!

Porque  que Deus tem em tanta considerao as criancinhas.

17. Se algum quiser saber porque  que Deus tem em to grande considerao as 
criancinhas e as aprecia tanto, por mais que reflita, no encontrar uma
razo mais forte que esta: as criancinhas tm todas as faculdades mais simples e mais 
aptas para receber os remdios que a misericrdia divina oferece
para a cura das coisas humanas, em estado to deplorvel. Com efeito, embora a 
corrupo, produzida pela queda de Ado, tenha invadido toda a substncia
do nosso ser, todavia, uma vez que Cristo, segundo Ado, enxertou de novo em si mesmo, 
rvore da vida, a natureza humana, e no  excludo seno quem se
exclui a si mesmo pela sua prpria incredulidade (Marcos, 16, 16) (a qual no pode ainda 
verificar-se nas criancinhas), resulta que as criancinhas, no
estando ainda novamente manchadas, nem pelos pecados nem pela incredulidade, so 
proclamadas herdeiras da herana patrimonial do reino de Deus, desde que
saibam conservar a graa de Deus j recebida e manter-se limpas do mundo. Alm disso, 
estas coisas podem ensinar-se mais facilmente s crianas que aos
outros, pois no esto ainda dominadas pelos maus hbitos.

Porque nos obriga a ns, adultos, a ir junto das crianas.

18. Cristo ordena que ns, adultos, nos convertamos para que nos faamos como 
criancinhas, isto , para que desaprendamos os males que havamos contrado
com uma m educao e aprendido com os maus exemplos do mundo, e regressemos ao 
primitivo estado de simplicidade, de mansido, de humildade, de castidade,
de obedincia, etc. E, na verdade, uma vez que no h coisa mais difcil que desabituar-se 
daquilo a que se estava habituado (com efeito, o hbito  uma
segunda natureza, e a natureza, ainda que se expulse com a forca, volta sempre a aparecer
[3]),
da resulta que no h coisa mais difcil que voltar a educar bem um homem que foi mal 
educado. Na verdade, uma rvore, tal como cresce, alta ou baixa,
com os ramos bem direitos ou tortos, assim permanece depois de adulta e no se deixa 
transformar. Os pedaos de madeira, curvados para fazer as rodas,
endurecidos ali no seu posto, quebram de preferncia a tornarem-se direitos, como a 
experincia o mostra de modo evidente. Acerca dos homens habituados
a fazer o mal, Deus afirma o mesmo: Acaso um Etope pode mudar a cor da sua pele e 
um leopardo as suas malhas? Acaso podeis fazer o bem, vs que no aprendestes
seno a fazer o mal? (Jeremias, 13, 23).

 necessrio que a reforma da Igreja comece pelas criancinhas.

19. Daqui se infere esta concluso necessria: se se devem aplicar remdios s corruptelas 
do gnero humano, importa faz-lo de modo especial por meio de
uma educao sensata e prudente da juventude. Importa fazer precisamente como quem 
quer renovar um pomar, o qual tem necessariamente de plantar novas arvorezinhas
e de as tratar com muito cuidado, para que cresam belas e grandes; com efeito, para 
transplantar rvores velhas e nelas infundir fecundidade, no basta
a fora da arte. Portanto, as mentes simples e no ainda ocupadas e estragadas por vos 
preconceitos e costumes mundanos, so as mais aptas para amar a
Deus.

Testemunho de Deus.

20. Deus mostra isto pela boca do profeta, quando, ao lamentar-se da corrupo universal, 
afirma que j no h a quem Ele possa ensinar a sabedoria, a
quem possa fazer entender a sua doutrina, a no ser aos meninos acabados de desquitar, 
aos que acabam de ser desmamados (Isaas, 28, 9).

Ao sintomtica realizada por Cristo.

21. E parece que o Senhor tenha querido mostrar esta mesma verdade alegoricamente 
quando, no momento de partir para Jerusalm, ordenou que lhe fossem buscar
uma jumenta e o jumentinho, filho da jumenta; todavia, no montou a jumenta, mas o 
jumentinho. E o evangelista acrescenta que o Senhor enviou dois dos
seus discpulos, dizendo: Ide a essa aldeia, que est fronteira; entrando nela, encontrareis 
um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma (Lucas,
19, 30). Ser que tudo isto foi feito e consagrado no Evangelho para nada? Nem pensar 
nisso. Todas as coisas, as de mnima e as de mxima importncia,
ditas e feitas por Cristo, assim como tambm todas as vrgulas da Sagrada Escritura, 
contm um mistrio para nossa instruo. Por isso, tenha-se por certo
que, embora Cristo chame a si os velhos e os jovens e acabe por receber uns e outros, para 
os conduzir  Jerusalm celeste, todavia, os mais jovens, no
ainda subjugados pelo mundo, esto mais aptos para se habituarem ao jugo de Cristo que 
aqueles a quem o mundo j estragou e viciou, mantendo-os sob os
seus graves tributos. A equidade exige, portanto, que a nossa infncia seja conduzida a 
Cristo; e Cristo tem prazer em colocar a infncia sob o seu doce
jugo e sob si mesmo (Mateus, II, 30).

Que significa educar a juventude providamente.

22. Educar, pois, providamente a juventude  providenciar para que os espritos dos 
jovens sejam preservados das corruptelas do mundo e para que as sementes
de honestidade neles lanadas sejam, por meio de admoestaes e exemplos castos e 
contnuos, estimuladas para que germinem felizmente, e, por fim, providenciar
para que as suas mentes sejam imbudas de um verdadeiro conhecimento de Deus, de si 
mesmas e da multiplicidade das coisas; para que se habituem a ver a
luz  luz de Deus
[4],
e a amar e a venerar, acima de tudo, o Pai das luzes.

E que fruto se tira da.

23. Se se fizesse assim, revelar-se-ia claro que  realmente verdadeiro aquilo que canta o 
Salmista: Da boca das crianas e meninos de peito, Deus fez
sair um louvor perfeito contra os seus adversrios, para reprimir o inimigo e o agressor 
(Salmo 8, 2), isto , para confundir Satans, que, para se vingar
da sua condenao, quer destruir as arvorezinhas de Deus, ou seja, a juventude, ferindo-as 
de vrios modos com as suas fraudulentssimas maquinaes, e
com o veneno infernal (dos exemplos de vria impiedade e dos maus instintos) quer 
infect-las at s razes, para que sequem de todo e caiam, ou, ao menos,
murchem, definhem e se tornem inteis.

De que modo prov Deus  juventude.

24. Precisamente por esta razo, Deus deu s criancinhas os anjos custdios (Mateus, 18, 
10) e constituiu os pais em educadores, ordenando-lhes que educassem
os filhos com ensinamentos e correes conformes  doutrina do Senhor (Efsios, 6, 4), e 
admoestou seriamente todos os outros a que no escandalizassem
nem corrompessem a juventude com maus exemplos, anunciando, para quem procedesse 
de modo diverso, castigos eternos (Mateus, 18, 6 e 7).

Qual  a nossa obrigao; o exemplo dos patriarcas.

25. Mas de que modo poderemos fazer isso, neste imenso dilvio de confuso mundial? 
No tempo dos Patriarcas, como esses santos homens habitavam separadamente,
segregados do resto do mundo, e, nas suas famlias, eram, no s chefes de famlia, mas 
tambm sacerdotes, mestres e professores, as coisas corriam muito
mais facilmente. Com efeito, afastados os seus filhos da companhia dos maus, e 
iluminando-os com o bom exemplo de pessoas virtuosas, com doces advertncias,
exortaes e, se necessrio, com repreenses, conduziam-nos consigo. Que Abrao fazia 
assim,  o prprio Deus que o testemunha, quando diz: Eu sei que
h-de ordenar a seus filhos, e  sua casa depois dele, que guardem os caminhos do Senhor, 
e que pratiquem a equidade e a justia. (Gnesis, 18, 19).

Agora as ms companhias lanam a juventude na perdio.

26. Mas agora habitamos promiscuamente, os bons misturados com os maus, e o nmero 
dos maus  infinitamente maior que o dos bons. E a juventude  de tal
maneira arrastada pelos seus exemplos, que os preceitos dados como antdoto do mal, 
acerca do modo de cultivar a virtude, so de pouca ou nenhuma eficcia.

E os pais no se preocupam ou no sabem opor-se aos males.

27. Mas qual  a razo por que os preceitos acerca da virtude se ministram to raramente? 
Dos pais, poucos so aqueles que podem ensinar aos filhos qualquer
coisa de bom, quer porque eles prprios nunca aprenderam nada de bom, quer porque, 
devendo ocupar-se de outras coisas, descuram este seu dever.

E nem todos os mestres.

28. E, dos mestres, poucos so aqueles que sabem instilar bem no nimo da juventude 
coisas boas; e, se por vezes aparece um, logo qualquer strapa o chama
para prestar os seus servios em privado, em proveito dos seus; mas o povo no pode dar-
se a este luxo.

Por isso tudo se torna selvagem e vai de mal em pior.

29. Daqui resulta que o resto da juventude cresce sem a devida cultura, como uma selva 
que ningum planta, ningum rega, ningum poda e ningum se esfora
por fazer crescer direita. Por este motivo, costumes e hbitos grosseiros e depravados 
enchem o mundo, todas as cidades e praas fortes, todas as casas
e todas as pessoas, cujos corpos e almas esto totalmente cheios de confuso. Se hoje 
voltassem a viver entre ns Digenes, Scrates, Sneca e Salomo,
no encontrariam seno o que era nos tempos passados. Se Deus nos falasse do cu, no 
diria coisa diferente daquilo que disse: Todos esto corrompidos
e tornaram-se abominveis em todas as suas paixes (Salmo 13, 2).

Todos  uma portanto, devemos pensar na salvao comum; ou ento s nos resta esperar 
os castigos de Deus.

30. Por isso, se, em qualquer parte do mundo, h algum que possa dar ou descobrir 
algum bom conselho, ou que possa,  fora de gemidos, de suspiros, de
prantos e de lamentaes, obter de Deus a graa de ver qual a melhor maneira possvel de 
conduzir a juventude, no deve estar calado, mas aconselhar, pensar
e pedir. Maldito aquele que faz um cego errar no caminho, disse Deus (Deuteronmio, 
27, 18). Maldito, portanto, tambm aquele que, podendo reconduzir
o cego ao bom caminho, o no reconduz. Ai daquele que escandalizar um s destes 
pequeninos, disse Cristo (Mateus, 18, 6 e 7). Portanto, ai tambm daquele
que, podendo afastar os escndalos, os no afasta. Deus no quer que se abandone o 
jumento ou o boi que anda errante pelas selvas e pelos campos, ou que
caiu debaixo da carga, mas quer que se socorra, ainda que se no saiba de quem , ainda 
que se saiba que  de um inimigo nosso (xodo, 2, 3, 4; Deuteronmio,
22, 1). E ser-lhe- agradvel que ns, vendo desviar-se, no um animal bruto, mas uma 
criatura racional, passemos  frente irrefletidamente, sem lhe estender
a mo? Longe de ns semelhante pensamento!

 necessrio empunhar a espada contra a Babilnia das confuses.

31. Maldito aquele que faz a obra do Senhor com m f; e maldito aquele que mantm 
afastada do sangue da Babilnia a sua espada (Jeremias, 48, 10). E
poderemos esperar estar sem culpa ns que, sem nos preocuparmos, toleramos a 
abominvel confuso das nossas Babilnias? Ah! quem quer que tu sejas, desembainha
a espada que tens  cinta, ou que sabes estar escondida em qualquer bainha, e para seres 
bendito por Jeov, contribui para o extermnio de Babilnia!

Que se espera dos magistrados polticos.

32. Fazei ir para a frente esta obra do Senhor,  governantes, ministros do Deus altssimo, 
e com a espada que o Senhor vos colocou  cinta, com a espada
da justia, exterminai as desordens, com as quais o mundo encheu a medida e despertou a 
ira de Deus.

E dos ministros da Igreja.

33. Fazei tambm ir para a frente esta obra,  campees da Igreja, ministros fiis de Jesus 
Cristo, e com a espada de dois gumes que vos foi entregue, a
espada da palavra, cortai todos os males!
[5].
Com efeito, fostes colocados nesse lugar para desenraizar, destruir, dissipar e exterminar 
o mal, e para exaltar e plantar o bem (Jeremias, I, l0; Salmo
101, 5; Romanos, 13, 14, etc.). E compreendestes j que, no gnero humano, no pode 
resistir-se aos males com maior eficcia, que resistindo-lhe na primeira
idade da vida; que no pode plantar-se com maior eficcia arvorezinhas que duram at  
eternidade, que plantando e fazendo desenvolver arvorezinhas novas;
que se no pode, com maior eficcia, edificar Sion no lugar de Babilnia, que trabalhando 
desde cedo as pedras vivas de Deus, ou seja, a juventude, e desbastando-as
e polindo-as e adaptando-as  construo celeste. Se, portanto, queremos Igrejas e Estados 
bem ordenados e florescentes e boas administraes, primeiro
que tudo ordenemos as escolas e faamo-las florescer, a fim de que sejam verdadeiras e 
vivas oficinas de homens e viveiros eclesisticos, polticos e econmicos.
Assim facilmente antigiremos o nosso objetivo; doutro modo, nunca o atingiremos.

Agora importa expor e examinar o modo de obter tal efeito.

34. De que modo, pois, se deva abordar o assunto e conseguir o efeito desejado, eis que o 
patenteamos agora, porque o Senhor despertou o nosso esprito!
Vs que recebestes de Deus olhos para ver, ouvidos para ouvir e mente para julgar, vede, 
ouvi e julgai.

Quer algum veja algo de uma nova luz, quer no, que deve fazer-se?

35. Se a algum surgir uma flgida luz, no advertida anteriormente, honre a Deus e no 
recuse  nova idade esse novo fulgor. Se, depois, nessa luz, notares
qualquer falta de luz, ainda que mnima, completa-a tu, ou esclarece-a, ou adverte para 
que possa ser esclarecida: muitos olhos vem mais que um.

As pessoas ativas devem esperar os prmios merecidos.

36. Assim nos ajudaremos mutuamente a seguir, de bom acordo, as obras de Deus; assim 
fugiremos  maldio anunciada para aqueles que realizam as obras do
Senhor de modo fraudulento, assim nos ocuparemos da melhor maneira das mais 
preciosas riquezas do mundo, isto , da juventude; assim participaremos no
fulgor prometido queles que educam os outros para a justia (Daniel, 12, 3).
     Deus tenha piedade de ns, para que, na sua luz, vejamos a luz
[6].
Amen.

UTILIDADE DA ARTE DIDTICA

     Que a Didtica se baseie em retos princpios interessa:

1. Aos pais que, at agora, na maioria dos casos, ignoravam o que deveriam esperar de 
seus filhos. Contratavam preceptores, pediam-lhes, acarinhavam-nos
com presentes e at os mudavam, quase sempre em vo e s vezes com algum fruto. 
Conduzido, porm, o mtodo didtico a uma certeza infalvel, ser impossvel,
com a ajuda de Deus, no obter sempre o efeito esperado.

2. Aos professores, a maior parte dos quais ignorava completamente a arte de ensinar; e 
por isso, querendo cumprir o seu dever, gastavam-se e,  fora de
trabalhar diligentemente, esgotavam as foras; ou ento mudavam de mtodo, tentando, 
ora com este ora com aquele, obter um bom sucesso, no sem um enfadonho
dispndio de tempo e de fadiga.

3. Aos estudantes, porque podero, sem dificuldade, sem tdio, sem gritos e sem 
pancadas, como que divertindo-se e jogando, ser conduzidos para os altos
cumes do saber.

4. s escolas, porque, corrigido o mtodo, podero, no s conservar-se sempre 
prsperas, mas ser aumentadas at ao infinito. Com efeito, sero verdadeiramente
um divertimento, casas de delcias e de atraes. E quando (pela infalibilidade do 
mtodo), de qualquer aluno se fizer um professor (do ensino superior
ou do primrio), nunca ser possvel que faltem pessoas aptas para dirigir as escolas e que 
os estudos no estejam prsperos.

5. Aos Estados, segundo o testemunho de Cicero
[1],
atrs citado. Com o qual concorda o seguinte passo (referido por Stobeo) de Digenes, 
discpulo de Pitgoras: Qual  o fundamento de todo o Estado? A educao
dos jovens. Com efeito, as videiras que no so bem cultivadas nunca produzem bom 
fruto
[2].

6.  Igreja, pois somente a reta organizao das escolas pode ter como resultado que s 
igrejas no faltem professores instrudos, e aos professores instrudos
no faltem alunos apropriados.

7. Finalmente, interessa ao Cu que as escolas sejam reformadas de modo a ministrarem 
aos espritos uma cultura exata e universal, no sendo assim de admirar
que, com o fulgor da luz divina, mais facilmente sejam libertados das trevas aqueles a 
quem o som da trombeta divina no consegue acordar. Efetivamente,
embora se pregue o Evangelho aqui e alm, e oxal seja pregado at ao fim do mundo, 
todavia, como em qualquer reunio pblica, nas feiras, nas penses
ou em qualquer outro tumultuoso ajuntamento da gente, costuma acontecer que no se faz 
ouvir somente ou principalmente quem pronuncia timos discursos,
mas, conforme algum se encontra com outro ou lhe est vizinho, de p ou sentado, assim 
o ocupa ou detm com as suas ninharias; de igual modo acontece
no mundo. Cumpram os ministros da palavra o seu dever com todo o zelo possvel: falem, 
exortem, supliquem; todavia, no sero ouvidos pela parte mais importante
da populao. Muitos, na verdade, no freqentam as reunies sacras, a no ser num ou 
noutro caso; outros vo, mas com os olhos e os ouvidos fechados,
porque, a maioria das vezes, interiormente ocupados em outras coisas, esto pouco atentos 
ao que ali se faz. Mas admitamos tambm que estejam atentos e
que consigam ver o objetivo das sagradas admoestaes;  certo, todavia, que no 
recebem nem uma impresso nem uma comoo to forte como seria conveniente,
porque o costumado torpor da alma e o j contrado hbito do vcio engrossam, fascinam e 
endurecem de tal modo as suas mentes, que no podem libertar-se
daquela espcie de letargo. Permanecem, portanto, na costumada cegueira e nos seus 
pecados, como que amarrados a grilhes, de tal maneira que, ningum,
exceto apenas Deus, os pode libertar dos males inveterados e ruinosos; como disse um dos 
Santos Padres,  quase um milagre que um pecador inveterado se
resolva a fazer penitncia. Mas porque, por outro lado, onde Deus fornece abundantes 
meios, pretender milagres  tentar Deus
[3],
impe-se aceitar que, tambm no nosso caso, o problema no se pe de modo diverso. 
Cremos, portanto, que  nosso dever pensar nos meios pelos quais toda
a juventude crist seja mais fervidamente impelida para o vigor da mente e para o amor 
das coisas Celestes. E se conseguirmos obter este efeito, veremos
que o reino dos cus nos infundir a sua fora, como nos tempos passados.
     Ningum, portanto, distraia os seus pensamentos, os seus desejos, as suas energias e as 
suas foras deste santssimo propsito. Quem nos concedeu a
boa vontade, conceder-nos- tambm a realizao do fim; mas convm suplicar  
misericrdia divina, pedir-lho todos sem exceo, e confiar que a nossa esperana
se realize. Trata-se aqui, com efeito, da salvao dos homens e da glria do Altssimo.

Joo Valentim Andrea.

Desesperar do bom xito  inglrio;
Desdenhar dos conselhos alheios  injurioso
[4].

ASSUNTOS DOS CAPTULOS

I.
O homem  a mais alta, a mais absoluta e a mais excelente das criaturas.

II.
O fim ltimo do homem est fora desta vida.

III.
Esta vida no  seno uma preparao para a vida eterna.

IV.
Os graus da preparao para a eternidade so trs: conhecermo-nos a ns mesmos (e 
conosco todas as coisas), governarmo-nos e dirigirmo-nos para Deus.

V.
As sementes destas trs coisas (da instruo, da moral e da religio) so postas dentro de 
ns pela natureza.

VI.
O homem tem necessidade de ser formado para que se torne homem.

VII.
A formao do homem faz-se com muita facilidade na primeira idade, e chego a dizer que 
no pode fazer-se seno nessa idade.

VIII.
 necessrio, ao mesmo tempo, formar a juventude e abrir escolas.

IX.
Toda a juventude de ambos os sexos deve ser enviada s escolas.

X.
Nas escolas, a formao deve ser universal.

XI.
At agora, no tem havido escolas que correspondam perfeitamente ao seu fim.

XII.
As escolas podem ser reformadas.

XIII.
O fundamento das reformas escolares  a ordem em tudo.

XIV.
A ordem perfeita da escola deve ir buscar-se  natureza.

XV.
Fundamentos para prolongar a vida.

XVI.
Requisitos para ensinar e para aprender, isto , como se deve ensinar e aprender para que 
seja impossvel no obter bons resultados.

XVII.
Fundamentos para ensinar e aprender com facilidade.

XVIII.
Fundamentos para ensinar e aprender solidamente.

XIX.
Fundamentos para ensinar com vantajosa rapidez.

XX.
Mtodo para ensinar as Cincias em geral.

XXI.
Mtodo para ensinar as Artes.

XXII.
Mtodo para ensinar as Lnguas.

XXIII.
Mtodo para ensinar a Moral.

XXIV.
Mtodo para incutir a Devoo ou Piedade.

XXV.
Se realmente queremos escolas reformadas segundo as verdadeiras normas do autntico 
Cristianismo, os livros dos pagos, ou devem ser afastados das escolas,
ou ao menos devem ser utilizados com mais cautela que at aqui.

XXVI.
Da disciplina escolar.

XXVII.
As instituies escolares devem ser de quatro graus, em conformidade com a idade e com 
o aproveitamento.

XXVIII.
Plano da escola materna.

XXIX.
Plano da escola de lngua nacional.

XXX.
Plano da escola latina.

XXXI.
Da Academia, das viagens e da associao didtica.

XXXII.
Da organizao universal e perfeita das escolas.

XXXIII.
Dos requisitos necessrios para comear a pr em prtica este mtodo universal.

Captulo 1

O HOMEM
 A MAIS ALTA,
A MAIS ABSOLUTA
E A MAIS EXCELENTE
DAS CRIATURAS

Supunha-se que o conhece-te a ti mesmo tivesse vindo do cu.

1. Quando Ptaco
[1]
pronunciou o seu conhece-te a ti mesmo
 os sbios acolheram esta mxima com to grandes aplausos que, para a recomendarem ao 
povo, afirmaram que ela viera do cu, e tiveram o cuidado de a fazer
inscrever, em letras de ouro, no templo de Apolo, em Delfos, onde o povo afluia em 
grande nmero. Este foi um ato de sabedoria e de piedade; aquela foi,
de fato, uma fico, mas absolutamente conforme  verdade, como para ns  evidente 
mais que para eles.

Veio verdadeiramente do cu.

2. Efetivamente, a voz que, vindo do cu, ressoa nas Sagradas Escrituras, que outra coisa 
quer dizer seno:  homem, que tu me conheas, que tu te conheas?
Eu, fonte de eternidade, de sabedoria e de beatitude; tu, criatura, imagem e delcia minha.

Sublimidade da natureza humana.

3. Com efeito, destinei-te a compartilhar comigo da eternidade; para teu uso, preparei o 
cu, a terra e tudo o que neles est contido; s em ti juntei,
ao mesmo tempo, todas as prerrogativas, das quais as outras criaturas apenas tm uma: o 
ser, a vida, os sentidos e a razo. Fiz-te soberano das obras das
minhas mos, e coloquei tudo a teus ps, as ovelhas, os bois e os outros animais da terra, 
as aves do cu e os peixes do mar, e desta maneira coroei-te
de glria e de honra (Salmo 8, 6-9). A ti, finalmente, para que nada te faltasse, dei-me eu 
prprio, mediante a unio hiposttica, ligando para sempre
a minha natureza com a tua, sorte que no coube a nenhuma das outras criaturas visveis e 
invisveis. Com efeito, qual das outras criaturas, no cu ou
na terra, se pode gloriar de que Deus se revelasse na sua prpria carne e apresentado pelos 
anjos? (Timteo, I, 3, i6), ou seja, no apenas para que vejam
e se admirem a ver quem desejavam ver (Pedro, I, 1, 12), mas ainda para que adorem a 
Deus que se revelou vestido de carne, ou seja, Filho de Deus e do
homem (Hebreus, I, 6; Joo, I, 51; Mateus, 4, 11). Deves, portanto, compreender que s o 
prottipo, o admirvel compndio das minhas obras, o representante
de Deus no meio delas, a coroa da minha glria.

 necessrio colocar esta verdade debaixo dos olhos de todos os homens.

4. Oxal todas estas verdades sejam esculpidas, no nas portas dos templos, no nos 
frontispcios dos livros, no, enfim, nas lnguas, nos ouvidos e nos
olhos de todos os homens, mas nos seus coraes. Deve procurar-se, na verdade, que 
todos aqueles a quem cabe a misso de formar homens faam com que todos
vivam conscientes desta dignidade e excelncia, e empreguem todos os meios para atingir 
o objetivo desta sublimidade.

Captulo II

O FIM
LTIMO DO HOMEM
EST
FORA DESTA VIDA

A mais excelente das criaturas deve necessariamente ter a finalidade mais excelente.

1. A prpria razo nos diz que uma criatura to excelente  destinada a um fim mais 
excelente que o de todas as outras criaturas, isto , sem dvida, a
gozar, juntamente com Deus, que  o cume da perfeio, da glria e da beatitude, para 
sempre, a mais absoluta glria e beatitude.

O que  evidente.

2. Mas embora isto se infira claramente da Sagrada Escritura e ns acreditemos 
firmemente que  de fato assim, todavia, no ser tempo perdido ver de quantos
modos, nesta vida, Deus nos tenha figurado o Alm (Plus ultra) ou de quantos modos a 
ele possamos chegar.

1. Da histria da criao.

3. Em primeiro lugar, no prprio momento da criao. Com efeito, no ordenou ao 
homem simplesmente, como aos outros seres, que viesse ao mundo; mas, aps
uma solene deliberao, formou-lhe o corpo como que com os seus prprios dedos e 
insuflou-lhe por alma uma parte de si mesmo.

2. Da constituio do nosso ser.

4. A constituio do nosso ser mostra que no nos bastam as coisas que possuimos nesta 
vida. Com efeito, temos aqui trs espcies de vida: vegetativa, animal,
e intelectual ou espiritual  a primeira das quais nunca se manifesta fora do corpo; a 
segunda, mediante as operaes dos sentidos e do movimento, pe-nos
em relao com os objetos exteriores; a terceira pode existir tambm separadamente, 
como se verifica nos anjos. Ora, uma vez que  evidente que este grau
supremo da vida  fortemente obscurecido e perturbado em ns pelos outros dois, segue-
se necessariamente que o ser tambm no lugar onde ela for conduzida
ao mais elevado grau de perfeio
.

3. De tudo o que fazemos e sofremos nesta vida.

5. Tudo o que fazemos e sofremos nesta vida mostra que no atingimos aqui o nosso fim 
ltimo, mas que tudo o que  nosso, e bem assim ns prprios, tende
para outro lugar. Com efeito, tudo o que somos, fazemos, pensamos, falamos, 
imaginamos, adquirimos e possumos no  seno uma espcie de escada, na qual,
subindo cada vez mais acima,  certo que subimos sempre degraus mais altos, mas nunca 
chegamos ao ltimo. A princpio, com efeito, o homem nada , como
nada era ab aeterno; comea a desenvolver-se somente no tero materno, a partir de uma 
gota de sangue paterno. Que , portanto, o homem no princpio? Matria
informe e bruta. A seguir, assume os traos de um pequeno corpo, mas ainda sem sentidos 
nem movimentos. Depois, comea a mover-se e, por fora da natureza,
vem  luz; e, pouco a pouco, comeam a abrir-se os olhos, os ouvidos e os restantes 
sentidos. Aps um certo lapso de tempo, revela-se o sentido interno,
quando sente que v, que ouve e que sente. Depois, notando as diferenas entre as coisas, 
manifesta-se o intelecto; finalmente, a vontade, aplicando-se
a certos objetos e fugindo de outros, assume o papel de diretora.

Em todas estas coisas h uma gradao, mas sem termo.

6. Mas em cada uma daquelas coisas h uma mera gradao. De fato, pouco a pouco, 
aparece a inteligncia, como a luz radiante da aurora, e comea a emergir
da profunda escurido da noite; e, durante todo o tempo que dura a vida, cresce sempre 
mais a luz intelectual (a no ser que se trate de um dbil), at
ao momento da morte. De igual modo, as nossas aes so, a princpio, tnues, dbeis, 
rudes e muito confusas; depois, a pouco e pouco, juntamente com as
foras do corpo, tambm as potencialidades da alma se desenvolvem, de tal maneira que, 
durante todo o tempo da vida (exceto quem  tomado de um extremo
torpor, sendo como que um morto vivo), h sempre qualquer coisa a fazer, a propor e a 
tentar; todas aquelas faculdades, numa alma generosa, tendem sempre
mais para cima, sem um termo. Com efeito, nesta vida, nunca se consegue encontrar o 
fim, nem dos nossos desejos nem das nossas tentativas.

Tudo isto  demonstrado pela experincia.

7. Para qualquer parte que algum se volte, conhecer esta verdade por experincia. Se 
algum ama o poder e as riquezas, no encontrar onde saciar a sua
fome, ainda que chegue a possuir todo o mundo, o que  evidente pelo exemplo de 
Alexandre. Se algum arde com sede de honras, no poder ter paz ainda
que seja adorado por todo o mundo. Se algum se entrega aos prazeres, embora todos os 
seus sentidos nadem num mar de delcias, todas as coisas lhe parecem
gastas e o seu apetite corre de um objeto para outro. Se algum aplica a mente ao estudo 
da sabedoria, nunca encontra o fim, pois, quanto mais coisas uma
pessoa sabe, tanto melhor compreende que lhe restam mais para saber. Efetivamente, com 
toda a razo, Salomo disse: Os olhos no se saciam de ver e os
ouvidos tm sempre desejo de escutar (Eclesiastes, 1, 8).

Nem mesmo a morte pe fim s nossas aspiraes.

8. Os exemplos dos moribundos provam que nem a morte marca o ltimo termo das 
nossas aspiraes. Com efeito,  hora da morte aqueles que passaram honestamente
a vida exultam ao pensar que  para entrar numa vida melhor; ao contrrio, aqueles que 
mergulharam no amor da vida presente, apercebendo-se de que a vo
abandonar e de que devero emigrar para outro stio, comeam a tremer, e se, de um 
modo ou de outro, ainda o podem fazer, reconciliam-se com Deus e com
os homens. E embora o corpo, enfraquecido pelas dores, se debilite, os sentidos se 
ofusquem e a prpria vida expire, todavia, a mente, com mais vivacidade
que nunca, realiza as suas funes, tomando com devoo, gravidade e circunspeco as 
necessrias disposies acerca de si mesmo, da famlia, da herana,
do Estado, etc.; de tal maneira que, quem v morrer um homem piedoso e sbio parece 
ver um pedao de terra que se esboroa, e quem o ouve falar, parece
ouvir um anjo; e tem necessariamente que confessar que no se trata seno de um hspede 
que se prepara para abandonar um pequeno tugrio prestes a cair
em runas. Os prprios pagos compreenderam esta verdade; e por isso os romanos, como 
se l em Festo
[1],
chamaram  morte partida, (ecabitio), e os gregos usam, muitas vezes, a palavra
 que significa ir-se embora, em vez de perecer ou de morrer. Porqu, seno porque se 
compreende que, pela morte, se passa para um outro lugar?

O exemplo do Cristo-Homem ensina que os homens so destinados  eternidade.

9. Mas, a ns cristos, esta verdade parece mais clara depois que Cristo, Filho de Deus 
vivo, enviado do cu a reproduzir a imagem de Deus desaparecida
de ns, mostrou a mesma coisa com o seu exemplo. Efetivamente, concebido e dado  luz 
mediante o nascimento, andou entre os homens; depois de morto, ressuscitou
e subiu aos cus, e a morte j O no tem sob o seu domnio. Ora Ele  chamado, e  de 
fato, o nosso precursor (Hebreus, 6, 20), o primognito dos irmos
(Romanos, 8,29), a cabea dos seus membros (Efsios, 1, 22 e 23), o arqutipo de todos 
aqueles que devem ser reformados  imagem de Deus (Romanos, 8, 29).
Portanto, assim como Ele no veio para continuar a viver neste mundo, mas para passar, 
terminado o curso da vida, s habitaes eternas, assim tambm ns,
uma vez que nos cabe a mesma sorte que a Ele, no devemos permanecer aqui, mas 
emigrar para outro lugar.

O Homem tem trs espcies de morada.

10. Para cada um de ns, portanto, esto estabelecidas trs espcies de vida e trs espcies 
de morada: o tero materno, a terra e o cu. Da primeira, entra-se
para a segunda, mediante o nascimento; da segunda, para a terceira, mediante a morte e a 
ressurreio; da terceira, nunca mais se sai, eternamente. Na
primeira, recebemos apenas a vida, juntamente com um movimento e sentidos incipientes; 
na segunda, a vida, o movimento e os sentidos com os primrdios
da inteligncia; na terceira, a plenitude perfeita de todas as coisas.

E trs espcies de vida.

11. A primeira vida de que falei  uma preparao para a segunda; a segunda para a 
terceira; a terceira, de sua prpria natureza, nunca termina. A passagem
da primeira para a segunda e da segunda para a terceira  estreita e acompanhada de dores, 
e num e noutro caso se devem depor os despojos ou invlucros
(ou seja, no primeiro caso, a placenta, e, no segundo, o prprio organismo do corpo), 
como faz o pintainho, quando, quebrada a casca, sai para fora. A
primeira e a segunda morada, portanto, so como duas oficinas: naquela forma-se o corpo 
para uso da vida seguinte; nesta, forma-se a alma racional para
uso da vida eterna; a terceira morada produz a verdadeira perfeio e prazer de ambos.

Os israelitas so smbolo disto.

12. Assim, os israelitas (seja-nos lcito adaptar este smbolo ao nosso caso) foram gerados 
no Egito e de l, pelos estreitos caminhos dos montes e do Mar
Vermelho, transferidos para o deserto, a acamparam em tendas, aprenderam a lei, lutaram 
com vrios inimigos; finalmente, atravessado pela fora o Jordo,
foram constitudos herdeiros da terra de Canaan, onde corriam rios de leite e de mel.

Captulo III

ESTA VIDA
NO 
SENO UMA PREPARAO
PARA A VIDA ETERNA

Testemunhos desta verdade

1. Que esta vida, uma vez que tende para outra, no  vida (falando com rigor), mas um 
promio da vida verdadeira e que durar para sempre, tornar-se-
evidente, primeiro, pelo testemunho de ns mesmos; segundo, pelo testemunho do 
mundo; e, finalmente, pelo testemunho da Sagrada Escritura.

1. Pelo testemunho de ns mesmos.

2. Se lanarmos um olhar introspectivo sobre ns mesmos, veremos que todas as coisas da 
nossa vida procedem de tal modo gradualmente, que a antecedente
prepara o caminho para a seguinte. Por exemplo: a nossa primeira vida desenvolve-se nas 
vsceras maternas. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de
si mesma? De modo algum. Trata-se apenas de formar convenientemente um pequenino 
corpo para servir de habitao e de instrumento  alma, para comodidade
e uso da vida seguinte, a qual vivemos  luz do sol. E apenas aquele pequenino corpo est 
perfeito, somos dados  luz, pois j no h nenhuma razo para
que continui naquelas trevas. Do mesmo modo, portanto, esta vida que vivemos  luz do 
sol no  seno uma preparao para a vida eterna, de tal maneira
que no  de admirar que a alma se sirva do corpo para conseguir aquelas coisas que lhe 
sero teis para a vida futura. Apenas feitos estes preparativos,
emigramos daqui, porque nada mais temos aqui a fazer.  verdade que alguns, antes que 
tenham feito esses preparativos, so arrebatados, ou antes, lanados
no seio da morte, do mesmo modo que, nos casos de aborto, o feto  lanado fora do 
tero, no para o seio da vida, mas para o seio da morte; em ambos os
casos, porm, isso acontece,  certo que com a permisso de Deus, mas contudo, por culpa 
dos homens.

2. O mundo visvel foi criado somente para servir de sementeira, de alimentador e de 
escola aos homens.

3. Tambm o mundo visvel, de qualquer parte que se olhe, atesta que no foi criado para 
outro fim seno para servir para a multiplicao, para a alimentao
e para a educao do gnero humano.
     Com efeito, uma vez que a Deus no aprouve criar os homens todos juntos, no mesmo 
momento, como fez com os anjos, mas produziu apenas um macho e uma
fmea, dando-lhes, a fim de que, por via de gerao, se multiplicassem, as foras 
necessrias e a sua beno, foi preciso conceder um espao de tempo necessrio
para esta sucessiva multiplicao, pelo que foram concedidos alguns milhares de anos. E 
para que esse tempo no fosse um tempo de confuso, de surdez e
de cegueira, fez a extenso dos cus, guarnecidos com o sol, a lua e as estrelas, e ordenou 
que estes astros, com as suas revolues, servissem para medir
as horas, os dias, os meses e os anos. A seguir, uma vez que o homem seria uma criatura 
corprea, com necessidade de um lugar para habitar, de um espao
para respirar e para se mover, de alimento para crescer e de vestidos para se adornar, fez 
(na parte mais baixa do mundo) um pavimento slido, a terra:
e circundou-a de ar e banhou-a com as guas, e ordenou-lhe que produzisse plantas e 
animais multiformes, no apenas para satisfazer as necessidades do
homem, mas tambm para seu deleite. E, uma vez que formara o homem  sua imagem, 
dotado de inteligncia, para que tambm no faltasse  inteligncia o
seu alimento, derivou de cada uma das criaturas muitas e vrias espcies, para que este 
mundo visvel aparecesse como um lucidssimo espelho da infinita
potncia, sabedoria e bondade de Deus, na contemplao do qual o homem fosse 
arrebatado por um sentimento de admirao pelo Criador e impelido a conhec-lo
e movido a am-lo. Efetivamente, a solidez, a beleza e a doura do Criador permanece 
invisvel e escondida no abismo da eternidade, mas por toda a parte
brilha por meio das coisas visveis e presta-se a ser apalpada, observada e saboreada. 
Portanto, este mundo nada mais  que a nossa sementeira, o nosso
alimentador e a nossa escola. Deve, por isso, existir um mais alm (Plus ultra), onde, 
uma vez sados das aulas desta escola, nos matricularemos na Academia
Eterna. Pela razo, portanto, consta que as coisas se passam assim; mas  ainda mais 
evidente pelas Sagradas Escrituras.

3. O prprio Deus o atesta com as suas palavras.

4. O prprio Deus afirma, pela boca de Osias, que os cus existem por causa da terra, a 
terra por causa do trigo, do vinho e do azeite, e tudo isto por
causa dos homens (Oseias, 2,22). Tudo, portanto, existe por causa do homem, at o 
prprio tempo. Com efeito, no ser concedida ao mundo uma durao mais
longa que a necessria para completar o nmero dos eleitos (Apocalipse, 6, 11). Apenas 
este nmero esteja completo, os cus e a terra desaparecero e no
se encontrar mais lugar para eles (Apocalipse, 20,7), pois surgir um novo cu e uma 
nova terra, onde habitar a justia (Apocalipse, 21,1 e 2; Pedro,
II, 3, 18). Finalmente, at os nomes que as Sagradas Escrituras do a esta vida do a 
entender que esta no  seno uma preparao para outra. Com efeito,
do-lhe o nome de via, viagem, porta, espera; e a ns, o nome de peregrinos, forasteiros, 
inquilinos, aspirantes a uma outra cidadania, a qual ser verdadeiramente
permanente (Gnesis, 47,9; Salmo 29, 13; Job, 7, 12; Lucas, 12, 36).

A experincia.

5. Todas estas coisas so demonstradas pelos prprios fatos e pela condio de todos os 
homens, o que  colocado sob os olhos de todos ns. Com efeito,
quem de todos os que nasceram, depois que apareceu no mundo, no desapareceu de 
novo? Precisamente porque somos destinados  eternidade. Porque, portanto,
pertencemos  eternidade,  necessrio que esta vida seja apenas uma passagem. Por isso 
Cristo disse: Estai preparados, porque no sabeis em que hora
vir o Filho do homem (Mateus, 24, 44). E  esta a razo (sabemo-lo tambm pela 
Escritura) por que Deus chama deste mundo alguns ainda na primeira idade
da vida: chama-os certamente quando os v preparados como Enoc (Gnesis, 4, 24; 
Sabedoria, 4, 14). Porque  que, ao contrrio, usa de longanimidade para
com os maus? Sem dvida, porque no quer surpreender ningum no preparado, mas que 
todos se convertam (Pedro II, 3, 9). Se, todavia, algum continua a
abusar da pacincia de Deus, este ordena que seja arrebatado pela morte.

Concluso.

6. Portanto, assim como  certo que a estadia no tero materno  uma preparao para 
viver no corpo, assim tambm  certo que a estadia no corpo  uma preparao
para aquela vida que ser uma continuao da vida presente e durar eternamente. Feliz 
aquele que sai do tero materno com os membros bem formados! Mil
vezes mais feliz aquele que sair desta vida com a alma bem limpa!

Captulo IV

OS GRAUS
DA PREPARAO
PARA A ETERNIDADE
SO TRS:
CONHECER-SE A SI MESMO
(E CONSIGO TODAS AS COISAS),
GOVERNAR-SE
E DIRIGIR-SE PARA DEUS

De onde se adquire o conhecimento dos fins secundrios do homem, subordinados ao fim 
supremo (a eternidade)?

1.  evidente, portanto, que o fim ltimo do homem  a beatitude eterna com Deus. Quais 
sejam os fim subordinados quele e conformes a esta vida transitria,
torna-se evidente pelas palavras com que Deus manifestou a resoluo de criar o homem: 
Faamos o homem  nossa imagem e semelhana, e presida aos peixes
do mar, e s aves do cu, e aos animais selvticos, e a toda a terra, e a todos os rpteis que 
se movem sobre a terra (Gnesis, 1, 26).

So trs:
1. que conhea todas as coisas;
2. que seja rei de si mesmo;
3. que seja delcia de Deus.

2. Ora, desta passagem, torna-se evidente que foi colocado entre as criaturas visveis para 
que seja:

     I. Criatura racional.
     II. Criatura senhora das outras criaturas
     III. Criatura imagem e delcia do seu Criador

     Estas trs coisas esto de tal modo ligadas que no pode admitir-se nenhum divrcio 
entre elas, porque sobre elas se funda a base da vida presente
e da futura.

Que significa que  criatura racional?

3. Que  criatura racional quer dizer que observa, d o nome e se apercebe de todas as 
coisas, isto , que pode conhecer e dar um nome a todas as coisas
deste mundo e entend-las, como  evidente (Gnesis, 2, 19). Ou ento, segundo a 
enumerao de Salomo (Sabedoria, 7, 17 e ss.): conhecer a constituio
do mundo e a fora dos elementos, o princpio e o fim e o meio das estaes, as mudanas 
dos solstcios e a variabilidade do tempo, a durao do ano e
a posio das estrelas, a natureza dos animais e a alma dos brutos, as foras dos espritos e 
os pensamentos dos homens, as diferenas das plantas e a
potncia das suas razes: numa palavra, todas as coisas ocultas ou manifestas, etc. Nisto 
est compreendido tambm a cincia dos artfices e a arte da
palavra; de tal maneira que (como diz o Eclesistico) em nenhuma coisa, pequena ou 
grande, haja algo de desconhecido (Eclesistico, 5, 18). Somente assim,
com efeito, poder de fato conservar o ttulo de animal racional, isto , se conhecer os 
fundamentos de todas as coisas.

Que significa que  senhor das outras criaturas?

4. Que  o senhor das outras criaturas quer dizer que, ordenando tudo para fins legtimos, 
faz reverter tudo utilmente em seu proveito; quer dizer que,
portando-se por toda a parte, no meio das criaturas, como um rei, isto , grave e 
santamente (ou seja, adorando apenas o Criador acima de si mesmo; os
anjos de Deus, seus companheiros, como a si mesmo, e todas as outras coisas menos que a 
si mesmo) defende a dignidade que lhe  concedida; que no est
sujeito a nenhuma criatura, nem mesmo  prpria carne e que aproveita de tudo e de tudo 
se serve livremente; que no ignora onde, quando, como e at que
ponto deve obedecer ao corpo, e onde, quando, como e at que ponto deve servir o 
prximo. Numa palavra, que pode regular prudentemente os movimentos e
as aes, externas e internas, de si mesmo e dos outros.

Que significa que  imagem de Deus?

5. Finalmente, que  imagem de Deus, quer dizer que representa ao vivo a perfeio do 
seu arqutipo, como diz o prprio Arqutipo: Sede santos, porque
Eu, o vosso Deus, sou santo (Levtico, 19, 2).

Os referidos trs atributos reduzem-se:
1.  instruo;
2.  virtude;
3.  piedade.

6. Daqui se segue que os autnticos requisitos do homem so: 1. que tenha conhecimento 
de todas as coisas; 2. que seja capaz de dominar as coisas e a si
mesmo; 3. que se dirija a si e todas as coisas para Deus, fonte de tudo. Estas trs coisas, se 
as quisermos exprimir por trs palavras vulgarmente conhecidas,
sero:

I. Instruo,
II. Virtude, ou seja, honestidade de costumes,
III. Religio, ou seja, piedade;

entendendo-se por instruo, o conhecimento pleno das coisas, das artes e das lnguas; por 
costumes, no apenas a urbanidade exterior, mas a plena formao
interior e exterior dos movimentos da alma; e por religio, a venerao interior, pela qual 
a alma humana se liga e se prende ao Ser supremo.

Estas trs coisas so o essencial do homem nesta vida; todas as outras so acessrias
.

7. Nestas trs coisas reside toda a excelncia do homem, porque s estas so o 
fundamento da vida presente e da futura; as outras (a sade, a fora, a beleza,
o poder, a dignidade, a amizade, o sucesso, a longevidade) no so seno acrscimos e 
ornamentos externos da vida, se acaso Deus os junta a ela, ou vaidades
suprfluas, pesos inteis e estorvos nocivos, se algum, desejando-os apaixonadamente, 
os vai procurar, e, descuradas as coisas mais importantes, deles
se ocupa e neles se mergulha.

Ilustra-se isto com o exemplo:
1. do relgio.

8. Ilustro a minha afirmao com exemplos. O relgio (solar ou mecnico)  um 
instrumento elegante e muito necessrio para medir o tempo, cuja substncia
ou essncia  constituda por uma correspondncia perfeita de todas as suas partes. Os 
estojos em que se coloca, as esculturas, as pinturas e os dourados
so coisas acessrias que acrescentam qualquer coisa  sua beleza, mas nada  sua 
bondade. Se algum quiser um instrumento destes de preferncia belo a
bom, ser escarnecida a sua puerilidade, pois no repara onde est sobretudo a utilidade.

2. do cavalo.

     Do mesmo modo, o valor de um cavalo est na sua fora junta com a magnanimidade 
ou agilidade e a prontido do voltear; a cauda solta ou atada, a crina
penteada e ereta, os freios dourados, a gualdrapa com bordados de ouro, e os colares, 
sejam de que espcie forem,  verdade que acrescentam ornamento,
mas, se vssemos algum medir por estas coisas a excelncia do cavalo, chamar-lhe-amos 
estpido.

3. da sade

     Finalmente, o bom estado da nossa sade depende de uma digesto regular e de uma 
boa disposio interior. Deitar-se em leitos moles, trazer vestidos
luxuosos e comer alimentos saborosos, no s no favorece a sade, mas at a prejudica; 
por isso, quem procura coisas deleitveis de preferncia a coisas
ss,  um insensato. E  um insensato infinitamente mais prejudicial aquele que, 
desejando ser homem, se preocupa mais com os ornamentos que com a essncia
do homem. Por isso, o Sbio chama mpio e estulto a quem julga que a nossa vida  
coisa de burla e um mercado lucrativo e diz e repete que a aprovao
e a beno de Deus est muito longe de semelhante homem (Sabedoria, 15, 12 e 19).

Concluso.

9. Fique, portanto, assente isto: quanto maior  a atividade que, nesta vida se despende por 
amor da instruo, da virtude e da piedade, tanto mais nos
aproximamos do fim ltimo. Por isso, sejam estas trs coisas a obra essencial da nossa 
vida
; tudo o resto  acessrio, empecilho, aparncia enganosa.

Captulo V

AS SEMENTES
DAQUELAS TRS COISAS
(DA INSTRUO, DA MORAL E DA RELIGIO)
SO POSTAS
DENTRO DE NS
PELA NATUREZA

A primitiva natureza do homem era boa: a ela (libertando-nos da corrupo) devemos 
regressar.

1. Neste lugar, por natureza, entendemos, no a corrupo que, depois da queda, a todos 
atingiu (e por causa da qual somos chamados, por natureza, filhos
da ira
[1],
incapazes, por ns prprios, de pensar seja o que for de bom), mas o nosso estado 
primitivo e fundamental, ao qual devemos regressar como nosso princpio.
Neste sentido, Lus de Vives disse: Que outra coisa  o cristo seno o homem 
regressado  sua natureza e restitudo, por assim dizer,  sua origem, de
onde o demnio o havia afastado? (Da Concrdia e da Discrdia, livro I)
[2].
Neste sentido tambm pode tomar-se aquilo que Sneca escreveu: A sabedoria est em 
regressar  natureza e em voltar quele lugar de onde o erro pblico
(ou seja, o erro cometido pelo gnero humano atravs dos primeiros pais)
[3]
nos expulsou. E diz ainda: O homem no  bom, mas, lembrando-se da sua origem, 
transforma-se em bom, para que tenda a igualar Deus. Desonestamente, ningum
consegue subir ao lugar de onde descera (Carta 93)
[4].

A fora proveniente da providncia eterna impele para o estado primitivo.

2. Entendemos tambm pela palavra natureza a providncia universal de Deus, ou seja, o 
influxo incessante da bondade divina para operar tudo em todos, ou
seja, em cada criatura aquilo para que a destinou. Na verdade, o objetivo da sabedoria 
divina foi nada fazer em vo, isto , nem sem qualquer finalidade,
nem sem os meios adequados para conseguir esse fim. Por conseqncia, tudo o que 
existe, existe para qualquer fim, e para que o possa atingir foi dotado
dos necessrios orgos e auxlios; mais ainda, foi dotado tambm de uma verdadeira 
tendncia, a fim de que nunca seja impelido para o seu fim contra a
sua vontade e com relutncia, mas antes com prontido e com prazer pelo instinto da 
prpria natureza, de modo que, se disso  mantido afastado, advenha
o sofrimento e a morte.  certo, por isso, que tambm o homem foi feito, por natureza, 
apto para a inteligncia das coisas, para a harmonia dos costumes
e para o amor a Deus sobre todas as coisas (vimos j, com efeito, que foi destinado para 
estas coisas), e  to certo que as razes daquelas trs coisas
se encontram nele, quanto  certo que a cada planta foram dadas as razes sob a terra.

A sabedoria colocou no homem razes eternas.

3. Para que se torne mais evidente o que pretende dizer o Eclesistico quando proclama 
que a sabedoria colocou fundamentos eternos nos homens (Eclesistico,
1, 14), vejamos que fundamentos de Sabedoria, de Virtude e de Religio foram postos em 
ns, para que nos apercebamos quo maravilhoso organismo de sabedoria
 o homem.

I. Tornando-o apto para adquirir conhecimento das coisas. O que  evidente, porque o fez:
1. sua imagem

4.  evidente que todo o homem nasce apto para adquirir conhecimento das coisas: 
primeiro, porque  imagem de Deus. Com efeito, a imagem, se  perfeita,
apresenta necessariamente os traos do seu arqutipo, ou ento no ser uma imagem. 
Ora, uma vez que, entre os atributos de Deus, se destaca a omniscincia,
necessariamente brilhar no homem algo de semelhante a ela. E porque no? Sem dvida 
que o homem est no meio das obras de Deus, tendo uma mente lcida,
como um espelho esfrico, suspenso na parede de uma sala, o qual recebe a imagem de 
todas as coisas, digo, de todas as coisas que o rodeiam. Efetivamente,
a nossa mente no apreende somente as coisas vizinhas, mas tambm aproxima de si as 
que esto afastadas (quer quanto ao lugar, quer quanto ao tempo), ergue-se
s que esto elevadas, investiga as ocultas, desvela as veladas e esfora-se por perscrutar 
at as imperscrutveis, de tal maneira  algo de infinito e
de indeterminvel. Se fossem concedidos ao homem mil anos de vida, durante os quais 
aprendesse constantemente qualquer coisa, deduzindo uma coisa de outra,
todavia, teria sempre onde receber outras coisas que se lhe apresentassem, a tal ponto a 
mente do homem  de capacidade inesgotvel que, no conhecimento,
se apresenta como um abismo.
     O nosso pequeno corpo est encerrado num crculo estreito; a nossa voz vai um pouco 
mais alm; a vista apenas chega  cpula celeste; mas  nossa mente
no pode fixar-se um limite, nem no cu nem fora do cu: tanto se eleva acima dos cus 
dos cus, como desce abaixo do abismo do abismo; e mesmo que estes
espaos fossem milhes de vezes mais vastos do que so, ela a penetraria, todavia, com 
incrvel rapidez. E havemos ento de negar que todas as coisas
lhe so acessveis, que ela  capaz de tudo?

2. Resumo do universo.

5. O homem  chamado pelos filsofos
, resumo do universo, compreendendo, de modo obscuro, todas as coisas que se vem por 
toda a parte amplamente espalhadas pelo universo (macro-cosmos). Que
assim , demonstrar-se- noutro lugar
[5].
Em conseqncia disso, a mente do homem que entra no mundo compara-se com muita 
razo a uma semente ou a um caroo, no qual, embora no exista ainda em
ato a figura da erva ou da rvore, todavia, nele existe j de fato a erva ou a planta, como 
se torna evidente quando a semente, metida debaixo da terra,
lana para baixo as razes e para cima os rebentos, os quais, pouco depois, por uma fora 
ingnita, se alongam em ramos e em ramagens, se cobrem de folhas
e se adornam de flores e de frutos.

N.B.

No  necessrio, portanto, introduzir nada no homem a partir do exterior, mas apenas 
fazer germinar e desenvolver as coisas das quais ele contm o grmen
em si mesmo e fazer-lhe ver qual a sua natureza. Por isso, aceitamos que Pitgoras 
costumava dizer que era to natural ao homem saber tudo que, se um menino
de sete anos fosse prudentemente interrogado acerca de todas as questes de toda a 
filosofia, com certeza que poderia responder a todas, precisamente porque
a luz da razo  a forma e a norma suficiente de todas as coisas. Simplesmente agora, aps 
a queda, que o obscurece e confunde,  incapaz de se libertar
pelos seus prprios meios; e aqueles que deveriam ajud-lo no contribuem seno para 
aumentar o embarao em que se encontra.

3. Dotado de sentidos

6. Alm disso,  alma racional que habita em ns, foram acrescentados rgos e como que 
emissrios e observadores, com a ajuda dos quais, ou seja, da vista,
do ouvido, do olfato, do gosto e do tato, ela procura chegar a tudo aquilo que se encontra 
fora dela, de tal maneira que, de todas as coisas criadas, nada
pode permanecer-lhe escondido. Uma vez que, portanto, no mundo visvel, nada h que se 
no possa ver, ou ouvir, ou apalpar, e, por isso, que se no possa
saber o que  e de que natureza , da se segue que nada existe no mundo que o homem, 
dotado de sentidos e de razo, no consiga apreender.

4. Estimulado pelo desejo de saber.

7. Est implantado tambm no homem o desejo de saber; e no apenas a aceitao 
resignada, mas at o apetite do trabalho
[6].
Surge logo na primeira idade infantil e acompanha-nos durante toda a vida. Com efeito, 
quem no experimenta a impacincia de ouvir, de ver ou de apalpar
sempre algo de novo? Quem no sente prazer em comparecer todos os dias em qualquer 
lugar, ou em conversar com algum, em perguntar qualquer coisa? Em resumo,
eis o que se passa: os olhos, os ouvidos, o tato e tambm a mente, procurando sempre o 
seu alimento, lanam-se sempre para fora de si mesmos, nada havendo,
para uma natureza viva, to intolervel como o cio e o torpor. E uma vez que at os 
idiotas admiram os homens doutos, que significa isto seno que tambm
os idiotas experimentam pelo saber os atrativos de um desejo natural, nos quais eles 
prprios gostariam de participar, se achassem que isso era possvel?;
mas porque vem que isso no  possvel, suspiram e olham com reverncia aqueles que 
vem de inteligncia mais elevada.

De onde resulta que muitos, tomando-se a si mesmos por guia, conseguem penetrar no 
conhecimento das coisas.

8. Os exemplos dos autodidatas mostram, de maneira evidente, que o homem, conduzido 
pela natureza, pode aprender todas as coisas. Com efeito, alguns foram
mais adiante que os seus prprios mestres, ou (como diz S. Bernardo)
[7],
ensinados pelos carvalhos e pelas faias (ou seja, passeando e meditando nas florestas) 
fizeram mais progressos que outros, instrudos na escola de diligentes
professores. Acaso no nos mostra isto que, dentro do homem, esto, de fato, todas as 
coisas, isto , o facho e o candieiro, o azeite e a torcida, e tudo
o necessrio? Basta-lhe saber riscar o fsforo, fazer tomar fogo  acendalha, e acender as 
luzes para que veja, tanto em si mesmo como no vasto mundo (observando
como todas as coisas foram ordenadas com nmero, medida e peso
[8]),
os maravilhosos tesouros da sabedoria de Deus, num espetculo cheio de beleza. Se, 
porm, a sua luz interior no est acesa, mas apenas se faz girar do
exterior,  volta dele, as lmpadas das opinies alheias, no pode acontecer diversamente 
do que acontece;  como se se fizesse girar archotes  volta
de uma priso obscura e fechada, dos quais entrariam pelos respiradouros somente alguns 
raios, mas no a plena luz.  precisamente como disse Sneca: As
sementes de todas as artes esto colocadas dentro de ns, e Deus, nosso mestre, de uma 
maneira oculta, produz os gnios
[9].

A nossa mente  comparada:
1.  terra;
2. a um jardim;
3. a uma tbua rasa.

9. O mesmo nos ensinam as coisas a que se compara a nossa mente. Com efeito, a terra ( 
qual, muitas vezes, a Sagrada Escritura compara o nosso corao)
[10]
no recebe acaso sementes de toda a espcie? E acaso um s e o mesmo jardim no 
permite que nele se plantem ervas, flores e plantas aromticas de toda a
espcie? Com certeza, se ao jardineiro no falta prudncia e zelo. E quanto maior for a 
variedade, tanto mais belo ser o espetculo para os olhos, tanto
mais suave  o prazer para o nariz e tanto mais forte  o conforto para o corao.
     Aristteles comparou a alma humana a uma tbua rasa, onde nada est escrito e onde 
se pode escrever tudo
[11].
Portanto, da mesma maneira que, numa tbua, onde no h nada, o escritor pode escrever, 
e o pintor pintar aquilo que quer, desde que saiba da sua arte,
assim tambm na mente humana, com a mesma facilidade, quem no ignora a arte de 
ensinar pode gravar a efgie de todas as coisas. E se isto no acontece,
com toda a certeza que no  por culpa da tbua (exceto, uma ou outra vez, quando ela  
demasiado rugosa), mas por ignorncia do escrivo ou do pintor.
H, porm, uma diferena: na tbua, no  possvel traar linhas seno at ao limite em 
que as margens o permitem, ao passo que, na mente, por mais que
se escreva ou esculpa, nunca se encontra um sinal que indique o termo, pois (como atrs 
se observou), ela no tem termo.

4.  cera, onde podem imprimir-se infinitos selos.

10. Compara-se tambm, com razo, o nosso crebro, oficina dos pensamentos,  cera, 
onde, ou se imprime um selo, ou de que se fazem estatuetas. Com efeito,
da mesma maneira que a cera, adaptando-se a receber qualquer forma, se submete como 
se quer a tomar e a mudar de figura, assim tambm o crebro, prestando-se
a receber as imagens de todas as coisas, recebe em si tudo o que o universo contm. Com 
este exemplo, mostra-se, ao mesmo tempo, de uma maneira elegante,
o que  o nosso pensamento e o que  a nossa cincia. Tudo o que me impressiona a vista, 
o ouvido, o olfato, o gosto e o tato  para mim como um selo,
pelo qual a imagem de uma coisa se imprime no crebro; e nele o imprime de tal maneira 
que, mesmo que a coisa se afaste dos olhos, dos ouvidos, do nariz
e das mos, permanece sempre a sua imagem; e no  possvel que ela no permanea, a 
no ser quando uma ateno negligente formou uma impresso dbil.
Por exemplo: se fixo um homem ou lhe falo; se, viajando, contemplo uma montanha, um 
rio, um campo, uma floresta, uma cidade, etc.; se, por vezes, ouo
troves, msica e discursos; se leio atentamente algumas linhas num livro, etc.; todas 
estas coisas se imprimem no meu crebro, de tal maneira que, todas
as vezes que a sua recordao se me renova,  o mesmo que se me estivessem diante dos 
olhos, me ressoassem aos ouvidos e as saboreasse ou apalpasse neste
momento. E embora um crebro, ou receba estas impresses de modo mais distinto, ou as 
represente com maior clareza, ou as retenha com maior fidelidade
que outro, no entanto, cada um deles as recebe, representa e retm, de qualquer maneira.

A capacidade da nossa mente  um milagre de Deus.

11. A este propsito, devemos admirar o espelho da sabedoria de Deus, a qual 
providenciou de modo que a massa do crebro, que no  grande sob aspecto nenhum,
fosse capaz de receber milhares e milhes de imagens. Com efeito, tudo aquilo que cada 
um de ns (principalmente as pessoas instrudas), durante tantos
anos, viu, ouviu, saboreou, leu e adquiriu com a experincia e com o raciocnio, e de que, 
segundo as suas foras, se pode recordar,  evidente que tudo
isso se conserva ordenado no crebro, ou seja, as imagens das coisas uma vez vistas, 
ouvidas, lidas, etc., embora existam por milhes e se multipliquem
at ao infinito, com o fato de ver, de ouvir e de ler, quase cada dia, qualquer coisa de 
novo, todavia, esto contidas no crebro. Que coisa  esta imperscrutvel
sabedoria da omnipotncia de Deus? Salomo maravilha-se que todos os rios desaguem 
no oceano e, todavia, no encham o mar (Eclesiastes, 1, 7); e quem no
h-de admirar-se com este abismo da nossa memria que tudo recebe e tudo restitui, sem 
jamais se encher e sem jamais se esvasiar? Assim, a nossa mente
 verdadeiramente maior que o mundo, do mesmo modo que o continente  
necessariamente maior que o contedo.

A nossa mente  um espelho.

12. Finalmente, o olho ou o espelho simboliza muito bem a nossa mente, pois de tudo o 
que se lhe apresenta, de qualquer forma ou cor que seja, imediatamente
mostrar em si uma imagem parecidssima, a no ser que se lhe apresente um objeto s 
escuras, ou da parte detrs, ou demasiado longe, por causa da distncia
maior que o devido, ou que se impea de receber a impresso, ou esta seja baralhada por 
um movimento contnuo; nestes casos, temos de confess-lo, no
se obtm xito. Falo, porm, daquilo que costuma acontecer naturalmente, quando h luz 
e o objeto  apresentado como convm. Da mesma maneira que, portanto,
no  necessrio forar os olhos a abrirem-se e a fixarem os objetos, porque (tal como 
aquele que naturalmente tem sede de luz) eles experimentam prazer
em olhar espontaneamente, e so capazes de olhar todas as coisas (desde que os no 
perturbem, apresentando-lhes ao mesmo tempo demasiados objetos) e nunca
podem saciar-se de olhar; assim tambm a nossa mente  sequiosa das coisas, est sempre 
atenta, toma, ou melhor, agarra todas as coisas, sem nunca se cansar,
desde que no seja ofuscada com uma multido de objetos e que, com a devida ordem, se 
lhe d a observar uma coisa aps outra.

II. No homem, a raiz da honestidade  a harmonia.

13. Os prprios pagos viram que  natural ao homem a harmonia dos costumes, embora, 
ignorando outra luz divinamente acrescentada e o guia mais seguro que
nos foi dado para chegar  vida eterna, temham considerado (tentativa v) aquelas 
centelhas, verdadeiros faris. Com efeito, assim fala Ccero: Nas nossas
faculdades espirituais esto inatos os grmens da virtude, os quais, se pudessem 
desenvolver-se e crescer, seriam suficientes, por natureza, para nos conduzirem
 beatitude (isto  exagerado!). Porm, apenas somos dados  luz e comeamos a ser 
educados, rebolamo-nos continuamente em toda a espcie de imundcies,
de tal maneira que parece que, juntamente com o leite da ama, bebemos os erros 
(Tusculanae, III)
[12].
Que  verdadeiro que certos grmens de virtude nascem juntamente com o homem, infere-
se destes dois argumentos: primeiro, todo o homem sente prazer com
a harmonia; segundo, ele prprio no  seno harmonia, interior e exteriormente.

1. Com a qual se deleita em toda a parte: em todas as coisas visveis,

14. Que o homem se deleita com a harmonia e procura ardentemente chegar a ela,  
evidente. Efetivamente, a quem se no deleitaria ao ver um homem formoso,
um cavalo elegante, uma esttua bela e uma pintura linda? De onde nasce esse prazer 
seno do fato de que a perfeita proporo das partes e das cores produz
o agrado? Essa proporo  o prazer mais natural para os olhos.

nas coisas audveis,

     Pergunto igualmente: a quem no agrada a msica? E porqu? Sem dvida porque a 
harmonia das vozes produz um som agradvel.

nas coisas que se saboreiam,

     A quem no agradam os alimentos bem temperados? Sem dvida porque a temperatura 
dos sabores deleita agradavelmente o paladar.

nas coisas palpveis,

     Cada um goza com um calor bem proporcionado, com uma frescura bem repartida, 
com uma posio justa e um movimento equilibrado dos membros. Porqu?
Precisamente porque todas as coisas temperadas so amigas e salutares para a natureza e 
todas as coisas desmesuradas so suas inimigas e prejudiciais.

e at nas prprias virtudes.

     Se ns amamos at as virtudes uns nos outros (de fato, mesmo quem  privado de 
virtude admira as virtudes dos outros, mesmo que os no imite, uma vez
que considera impossvel vencer os seus maus hbitos), porque  que, portanto, cada um 
no h-de amar a virtude em si mesmo? Cegos de ns, se no reconhecemos
que esto em ns as razes de toda a harmonia!

2. A qual se encontra tambm no homem: tanto relativamente ao corpo

15. Mas tambm o prprio homem no  seno harmonia, tanto relativamente ao corpo, 
como relativamente  alma. Com efeito, assim como o grande mundo  parecido
com um enorme relgio, de tal modo fabricado segundo as regras da arte, com 
muitssimas rodas e maquinismos, que para produzir movimentos contnuos e perfeitamente
ordenados, uma parte os comunica  outra, atravs de todo o relgio, assim tambm o 
homem.
     Com efeito, quanto ao corpo, construdo com arte admirvel, em primeiro lugar est o 
corao, que  mvel, fonte de vida e de atividade; dele os outros
membros recebem o movimento e a medida do movimento. Mas o peso, ou seja, a 
verdadeira fora motriz,  o crebro, o qual, servindo-se dos nervos, como
de cordas, faz andar as outras rodas (os membros) para diante e para trs. Na verdade, a 
variedade das operaes interiores e exteriores corresponde 
exata e perfeita correspondncia dos movimentos do relgio.

como no que diz respeito  alma

16. Assim, nos movimentos da alma, a principal roda  a vontade; os pesos que a fazem 
mover so os desejos e as paixes que inclinam a vontade para esta
ou para aquela parte. A vlvula, que abre e fecha o movimento,  a razo, a qual mede e 
determina que coisa, onde e at que ponto se deve abraar ou afastar.
Os outros movimentos da alma so como que as rodas menores, que seguem a principal. 
Por isso, se aos desejos e s paixes se no atribui um peso demasiado
grande, e a vlvula, ou seja, a razo, abre e fecha convenientemente,  impossvel no se 
seguir uma ordem e um acordo perfeito de virtudes, isto , um
perfeito equilbrio das aes e das paixes.

A harmonia perturbada pode remediar-se.

17. Eis, portanto, que realmente o homem em si mesmo no  seno harmonia. Por isso, 
assim como acerca de um relgio ou de um instrumento musical, feito
pelas mos de um artfice perito, se acaso se estraga ou se torna desafinado, no dizemos 
imediatamente que j no serve para nada (pode, com efeito, consertar-se
e tornar a afinar-se), assim tambm acerca do homem, embora corrompido pelo pecado, 
deve afirmar-se que, com determinados meios,  possvel san-lo, por
graa da virtude de Deus.

III. Que no homem esto as razes da religio argumenta-se:
1. pela natureza da sua imagem,

18. Que as razes da religio esto no homem, por natureza, demonstra-se pelo fato de que 
ele  a imagem de Deus. Com efeito, a imagem implica semelhana:
e que todo o semelhante se congratula com o seu semelhante  lei imutvel de todas as 
coisas (Eclesistico, 13, 19). O homem, portanto, uma vez que nada
tem de igual a si, a no ser Aquele  imagem do qual foi feito,  natural que no seja 
conduzido pelos seus desejos seno para a fonte de onde derivou,
contanto que a conhea com suficiente clareza.

2. pela reverncia inata em todos para com a divindade,

19. Isto  evidente tambm pelo exemplo dos pagos, os quais, no sendo ajudados por 
nenhuma palavra de Deus, apenas pelo oculto instinto da natureza chegaram,
no s a conhecer Deus, mas tambm a vener-lo e a desej-lo, embora errassem quanto 
ao nmero dos deuses e  forma do culto. Todos os homens tm a noo
dos deuses e todos atribuem o lugar supremo a qualquer potncia divina, escreve 
Aristteles no livro I Do Cu, cap. 3
[13].
E Sneca: Em primeiro lugar, o culto divino consiste em acreditar nos deuses; depois, 
em atribuir-lhes a majestade devida e em atribuir-lhes a bondade,
sem a qual no h qualquer majestade; em saber que so eles que governam o mundo, que 
regulam todas as suas coisas e que providenciam pela conservao
do gnero humano (Carta 96)
[14].
Acaso esta opinio difere muito da do Apstolo? Porquanto  necessrio que o que se 
aproxima de Deus acredite que Ele existe e que  remunerador dos que
O buscam (Hebreus, II, 6).

3. pelo desejo natural do Sumo Bem (que  Deus),

20. Plato diz: Deus  o sumo bem, superior a toda a substncia e a toda a natureza, o 
qual  naturalmente desejado por todas as criaturas (Timeu)
[15].
E isto (que Deus  o sumo bem, naturalmente desejado por todas as criaturas)  de tal 
modo verdadeiro que Ccero diz: A primeira mestra da piedade  a
natureza (Da natureza dos deuses, I)
[16].
E isto porque (como escreve Lactncio, no livro 4, cap. 28) fomos gerados com a 
condio de prestarmos a Deus, que nos criou, as justas e devidas homenagens
e de apenas reconhecermos a Ele como Deus e de O seguirmos. Com este vnculo da 
piedade somos atados e ligados a Deus; de onde a prpria religio recebe
o seu nome
[17].

que nem sequer pela queda do gnero humano foi extinto.

21. Deve, todavia, confessar-se que este desejo natural de Deus, como sumo bem, foi 
corrompido com a queda do pecado e degenerou numa espcie de vertigem,
que no  capaz de regressar  retido com as suas prprias foras; naqueles, porm, que 
Deus de novo ilumina com o seu Verbo e com o seu Esprito, ele
volta a aguar-se de tal modo que David, voltado para Deus, clama: Quem tenho eu, l 
no cu, exceto tu? E, fora de ti, nada me deleita sobre a terra.
Desfalece a minha carne e o meu corao, e o rochedo do meu corao e a minha herana 
 Deus para sempre (Salmo 72, 24 e 25).

, portanto, impiamente que se procuram pretextos contra o exerccio da piedade.

22. Que ningum, portanto, enquanto se procuram remdios para corrupo, nos oponha a 
corrupo, porque Deus, por obra do seu Esprito e com a interveno
de meios adequados, prepara-se para a fazer desaparecer. De fato, assim como a 
Nabucodonosor, quando foi privado do sentido humano e provido de um corao
bestial, lhe foi deixada, todavia, a esperana de poder readquirir a mente humana, e at 
mesmo tambm a dignidade real, logo que reconhecesse que o poder
vem do cu (Daniel, 4, 23); assim tambm, a ns, plantas excludas do paraso de Deus, 
foram deixadas as razes, as quais, sobrevindo a chuva e o sol da
graa de Deus, podem de novo germinar.
     Porventura o nosso Deus, logo a seguir  queda e  proclamao da nossa runa (a pena 
de morte) no plantou imediatamente (com a promessa da semente
bendita), de novo, nos nossos coraes, rebentos de nova graa? Acaso no nos enviou o 
seu Filho, pelo qual nos seriam restitudos os bens perdidos?

E no deve sublevar-se o velho Ado contra o novo.

23.  coisa torpe e nefanda e sinal evidente de ingratido estar sempre a apelar para a 
corrupo e dissimular a redeno. Correr atrs daquilo que o velho
Ado em ns deixou e no procurar aquilo que Cristo, novo Ado, nos proporcionou! 
Muito acertadamente, o Apstolo, em seu nome e no de todos os regenerados,
diz: Tudo posso naquele que me conforta, Cristo (Filipenses, 4, 13). Se  possvel que 
um garfo de rvore domstica, enxertado num salgueiro, num espinheiro
ou em qualquer rvore brava, germine e frutifique, porque no h-de acontecer o mesmo 
se for enxertado bem sobre a prpria raiz? Veja-se a argumentao
do Apstolo (Romanos, 11, 24). Alm disso, se Deus, de pedras, pode fazer nascer filhos 
de Abrao (Mateus, 3, 9), porque no h-de despertar os homens,
feitos j filhos de Deus desde a criao, adotados de novo por Cristo e regenerados pelo 
Esprito da graa, para toda a espcie de boas obras?

A graa de Deus no se deve coarctar, mas reconhecer com gratido.

24. Abstinhamo-nos de coarctar a graa de Deus, pois Ele est pronto a infundi-la em ns 
liberalssimamente. Com efeito, se ns, enxertados em Cristo por
meio da f e dados a Ele por meio do Esprito de adoo, se ns, digo, com a nossa 
gerao, no somos aptos para as coisas do Reino de Deus, como  que
ento Cristo, falando das criancinhas, afirmou que  delas o reino de Deus?
[18]
Ou como  que no-las apresenta como modelo, ordenando a todos que se convertam e se 
faam como crianas, se querem entrar no reino dos cus? (Mateus,
18, 3). Como  que o Apstolo proclama santos e nega que sejam impuros os filhos dos 
cristos (mesmo quando s um deles pertence ao nmero dos fiis)?
(Corntios, I, 7, 14). Pelo contrrio, at daqueles que j mergulharam na prtica de vcios 
gravssimos, o Apstolo ousa afirmar: E tais reis alguns
de vs; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de 
Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Esprito do nosso Deus (Corntios,
I, 6, 11). Precisamente por isto, quando dizemos que os filhos dos cristos (no a gerao 
do velho Ado, mas a gerao regenerada pelo novo Ado, isto
, os filhos de Deus, os irmos e as irms de Cristo) pedem para serem formados e esto 
aptos a receber as sementes da eternidade, a quem pode parecer
que isto seja impossvel? A ningum, pois no procuramos obter frutos de uma oliveira 
brava, mas ajudamos os rebentos da rvore da vida, novamente plantados,
para que produzam frutos.

Concluso.

25. Fique, portanto, assente que  mais natural e, pela graa do Esprito Santo, mas fcil, 
que o homem se torne sbio, honesto e santo, do que a perversidade
adventcia poder impedir o progresso. Com efeito, qualquer coisa regressa facilmente  
sua natureza. E  esta a advertncia que nos faz a Escritura: A
sabedoria facilmente se deixa ver por aqueles que a amam; ela corre mesmo atrs de quem 
a pede, antes de ser conhecida, e por aqueles que a esperam faz-se
encontrar, sem fadiga, sentada  sua porta (Sabedoria, 6, 13 e ss.). E  conhecida a 
sentena do poeta venusino: Ningum  to selvagem que, prestando
paciente ouvido  cultura, no possa ser domesticado
[19].

Captulo VI

O HOMEM
TEM NECESSIDADE
DE SER FORMADO,
PARA QUE SE TORNE
HOMEM

As sementes no so ainda frutos.

1. Como vimos, a natureza d as sementes do saber da honestidade e da religio, mas no 
d propriamene o saber, a virtude e a religio; estas adquirem-se
orando, aprendendo, agindo. Por isso, e no sem razo, algum definiu o homem um 
animal educvel, pois no pode tornar-se homem a no ser que se eduque.

 inata no homem a aptido para saber, mas no o prprio saber.

2. Efetivamente, se consideramos a cincia das coisas,  prprio de Deus saber tudo, sem 
princpio, sem progresso, sem fim, mediante um s e simples ato
de intuio; mas nem ao homem nem ao anjo pode dar este saber, pois no lhe podia dar a 
infinitude e a eternidade, isto , a divindade. Aos homens e aos
anjos basta aquele grau de excelncia de haverem recebido a agudeza de inteligncia, com 
a qual podem indagar as obras de Deus e assim acumular para si
um tesouro intelectual. Precisamente por isso, consta, acerca dos anjos, que eles, 
contemplando, aprendem (Pedro, I, 1, 12; Efsios, 3, 10; Reis, I, 22,
20; Job, 1, 6); e, por isso, o conhecimento deles, de igual modo que o nosso,  
experimental.

Que o homem deve ser formado ad humanitatem, mostra-se:
1. com o exemplo das outras criaturas.

3. Ningum acredite, portanto, que o homem pode verdadeiramente ser homem, a no ser 
aquele que aprendeu a agir como homem, isto , aquele que foi formado
naquelas virtudes que fazem o homem. Isto  evidente pelos exemplos de todas as 
criaturas, as quais se no tornam teis ao homem, embora a isso destinadas,
a no ser depois de adaptadas pela nossa mo. Por exemplo: as pedras foram-nos dadas 
para servirem para construir casas, torres, muros, colunas, etc.;
mas, de fato, no servem para isso, a no ser depois de talhadas, desbastadas e 
esquadriadas pelas nossas mos. Do mesmo modo, as prolas e as gemas, destinadas
a servirem de ornamentos humanos, devem ser cortadas, raspadas e polidas pelos homens; 
os metais, produzidos para usos notveis da nossa vida, devem ser
cavados, liquefeitos, depurados, fundidos e trabalhados a martelo de vrios modos; sem 
tudo isso, so para ns menos teis que a lama. Das plantas, extramos
alimentos, bebidas e remdios, com a condio, porm, de que  necessrio semear, 
sachar, ceifar, debulhar, moer e pisar os cereais e as ervas; as rvores
 necessrio plant-las, pod-las e estrum-las; os frutos colh-los, sec-los, etc.; e, muito 
mais, se qualquer destas coisas deve servir para remdio
ou para construir, pois nesse caso  necessrio prepar-las de muitssimos outros modos. 
Os animais, uma vez que dotados de vida e de movimento, parece
que se bastem a si mesmos; todavia, se algum se quer servir deles para o uso para que 
foram concedidos,  necessrio que primeiro os submeta a exerccios.
Eis, com efeito, um cavalo de batalha, um boi para carretos, um burro de carga, um co de 
guarda ou de caa, um falco e um gavio de caa, etc., cada
um tem inata a aptido para esse servio determinado; todavia, valem bem pouco, se no 
so treinados para o exerccio da sua funo.

2. Com o exemplo do prprio homem, quanto s aes corpreas.

4. O homem, enquanto tem um corpo,  feito para trabalhar; vemos, todavia, que de inato 
ele no tem seno a simples aptido; pouco a pouco,  necessrio
ensinar-lhe a estar sentado e a estar de p, a caminhar e a mover as mos, a fim de que 
aprenda a fazer qualquer coisa. Como pode, portanto, a nossa mente,
sem uma preparao prvia, ter a prerrogativa de se mostrar perfeita em si e por si? No  
possvel, porque  lei de todas as coisas criadas o comear
do nada e elevar-se gradualmente, tanto no que diz respeito  essncia como no que diz 
respeito s aes. Com efeito, at acerca dos anjos, muito vizinhos
de Deus em perfeio, consta que no sabem tudo, mas progridem gradualmente no 
conhecimento da admirvel sabedoria de Deus, como notmos pouco atrs.

3. E porque j antes da queda, era necessrio exercitar o homem, muito mais  necessrio 
agora, depois da corrupo.

5.  evidente tambm que, j antes da queda, havia sido aberta, para o homem, no paraso 
terrestre, uma escola, na qual ele ia, pouco a pouco, fazendo progressos.
Com efeito, embora s duas primeiras criaturas, apenas criadas, no faltasse nem o 
movimento, nem a palavra, nem o raciocnio, todavia, do colquio de
Eva com a serpente, torna-se evidente que no tinham conhecimento das coisas, o qual 
vem da experincia; pois se aquela desventurada fosse dotada de uma
experincia mais rica, no teria admitido com tanta simplicidade quanto a serpente lhe 
disse, pois teria ento a certeza de que aquela criatura no podia
ser dotada da capacidade de discorrer, e que, por isso, devia estar a ser vtima de um 
engano. Com maior razo, portanto, se poder sustentar que agora,
no estado de corrupo, se se quer saber alguma coisa,  necessrio aprend-la, porque 
realmente vimos ao mundo com a mente nua como uma tbua rasa, sem
saber fazer nada, sem saber falar, nem entender; mas  necessrio edificar tudo a partir 
dos fundamentos. E, na verdade, isto consegue-se mais dificilmente
do que se conseguiria no estado de perfeio, porque as coisas so para ns obscuras e as 
lnguas confusas (de tal modo que, em vez de uma s, se devem
agora aprender vrias, se algum, para se instruir, quer falar em vrias lnguas, vivas e 
mortas); alm disso, porque as lnguas vernculas se tornaram
mais complicadas, e, quando nascemos, nada conhecemos delas.

E porque os exemplos mostram que o homem sem instruo no se torna mais que um 
bruto.

6. Temos exemplos de alguns que, raptados na infncia pelas feras e crescidos no meio 
delas
[1],
nada mais sabiam que os brutos; mais ainda, com a lngua, com as mos e com os ps, no 
eram capazes de fazer nada de diverso daquilo que fazem os animais,
a no ser que, de novo, tenham sido conservados, durante algum tempo, entre os homens. 
Aduzirei dois exemplos: por 1540, numa aldeia de Hessen, situada
no meio de florestas, aconteceu que um menino de trs anos, por incria dos pais, se 
perdeu. Alguns anos depois, os camponeses viram correr, juntamente
com os lobos, um animal de forma diferente, quadrpede, mas com face semelhante  do 
homem; como,  fora de se falar no caso, a novidade se espalhou,
o chefe daquela aldeia ordenou-lhes que vissem se havia maneira de o prender vivo. Em 
conformidade com esta ordem, foi apanhado e conduzido ao chefe da
aldeia, e finalmente enviado ao prncipe de Kassel. Introduzido na sala do prncipe, ps-se 
a correr, fugiu, e foi esconder-se debaixo de um banco, olhando
com ar ameaador e lanando terrveis uivos. O prncipe f-lo alimentar entre homens, e 
assim a fera comeou, a pouco e pouco, a tornar-se mansa, depois
a manter-se direita sobre os ps e a caminhar como os bpedes, finalmente a falar com 
inteligncia e a agir como homem. E ento, quanto podia recordar-se,
contou que tinha sido raptado e alimentado pelos lobos, tendo-se depois habituado a andar 
 caa com eles. M. Dresser escreve esta histria no livro De
nova et antiqua disciplina
[2]
e recorda-a tambm Camerrio nas suas Horas (t. I, Cap. 7)
[3],
acrescentando outra histria parecida. Goularte, nas Maravilhas do nosso sculo, escreve 
que em Frana, em 1563, aconteceu que alguns nobres, andando 
caa, e depois de haverem matado doze lobos, acabaram por apanhar, com um lao, um 
rapaz, de cerca de sete anos, nu, de pele amarelada e de cabeleira encrespada.
Tinha as unhas aduncas como uma guia; no falava nenhuma lngua, mas emitia uma 
espcie de mugido grosseiro. Conduzido a uma fortaleza, conseguiu-se com
grande dificuldade met-lo a ferros, de tal modo se tornara feroz; mas, submetido, durante 
alguns dias, s austeridades da fome, comeou a amansar, e,
dentro de sete meses, a falar. Levaram-no de cidade em cidade, para o apresentar como 
espetculo, o que era fonte de grandes receitas para os seus proprietrios.
Finalmente, uma pobre mulher reconheceu-o como sendo seu filho
[4].
Deste modo, vemos que  verdadeiro aquilo que Plato deixou escrito (Leis, livro 6): o 
homem  um animal cheio de mansido e de essncia divina, se  tornado
manso por meio de uma verdadeira, educao; se, pelo contrrio, no recebe nenhuma ou 
a recebe falsa, torna-se o mais feroz de todos os animais que a terra
produz
[5].

Tm necessidade de ensino:
1. os estpidos e os inteligentes,

7. Estes fatos demonstram em geral, que a cultura  necessria a todos. Se agora 
lanarmos um olhar s diversas condies dos homens, verificamos o mesmo.
Com efeito, quem poder pr em dvida que os estpidos tenham necessidade de 
instruo, para se libertarem da sua estupidez natural? Mas, na realidade,
os inteligentes tm muito mais necessidade de instruo, porque a mente sutil, se no for 
ocupada em coisas teis, ocupar-se- ela mesma em coisas inteis,
frvolas e perniciosas. Com efeito, assim como um campo, quanto mais frtil , tanto mais 
produz espinhos e cardos, assim tambm o engenho perspicaz est
sempre cheio de pensamentos frvolos, a no ser que nele se semeiem as sementes da 
sabedoria e da virtude. E assim como, se  m que gira no  fornecido
o gro, de que  feita a farinha, ela se gasta a si mesma e inutilmente se enche de poeira, 
produzindo p, com estrpito e fragor e ainda com o esfarelamento
e a ruptura das partes, assim tambm o esprito gil, se permanece privado de trabalhos 
srios, mergulha inteiramente em coisas vs, frvolas e nocivas,
e ser a causa da sua prpria runa.

2. os ricos e os pobres,

8. Que so os ricos sem sabedoria seno porcos engordados com farelo? Que so os 
pobres sem compreenso das coisas seno burros condenados a transportar
a carga? Um homem formoso privado de cultura, que  seno um papagaio de plumagem 
brilhante ou, como disse algum, uma banha de ouro com uma espada de
chumbo?
[6]

3. aqueles que devero ser postos  cabea dos outros e aqueles que devero ser sditos.

9. Aqueles que, alguma vez, devero ser postos  cabea dos outros, como os reis, os 
prncipes, os magistrados, os procos e os doutores da Igreja devem
embeber-se de sabedoria to necessariamente como o guia dos viajantes deve ter olhos, o 
intrprete deve ter lngua, a trombeta, som e a espada, gume. De
modo semelhante, tambm os sditos devem ser esclarecidos, para que saibam obedecer 
prudentemente queles que governam sabiamente: no coagidamente, com
uma sujeio asinina, mas voluntariamente, por amor da ordem. Com efeito, a criatura 
racional no deve ser conduzida por meio de gritos, de prises e de
bastonadas, mas pela razo. Se se procede de modo diverso, a ofensa redunda contra Deus 
que tambm neles deps a sua imagem; e as coisas humanas estaro
cheias, como de fato esto, de violncias e de inquietao.

Todos, portanto, sem nenhuma exceo.

10. Fique, portanto, assente que a todos aqueles que nasceram homens  necessria a 
educao, porque  necessrio que sejam homens, no animais ferozes,
nem animais brutos, nem troncos inertes. Da se segue tambm que, quanto mais algum  
educado, mais se eleva acima dos outros. Seja, portanto, o Sbio
a concluir este captulo: Aquele que no faz caso nenhum da sabedoria e do ensino  um 
infeliz, as suas esperanas so vs (ou seja, espera em vo conseguir
o seu fim), infrutuosas as suas fadigas e inteis as suas obras (Sabedoria, 3, 11).

Captulo VII

A FORMAO DO HOMEM
FAZ-SE COM MUITA FACILIDADE
NA PRIMEIRA IDADE,
E NO PODE FAZER-SE
SENO NESSA IDADE

O modo de desenvolver-se do homem  semelhante ao da planta.

1. Do que foi dito,  evidente que  semelhante a condio do homem e a da rvore. 
Efetivamente, da mesma maneira que uma rvore de fruto (uma macieira,
uma pereira, uma figueira, uma videira) pode crescer por si e por sua prpria virtude, mas, 
sendo brava, produz frutos bravos, e para dar frutos bons e
doces tem necessariamente que ser plantada, regada e podada por um agricultor perito, 
assim tambm o homem, por virtude prpria, cresce com feies humanas
(como tambm qualquer animal bruto cresce com as suas feies prprias), mas no pode 
crescer animal racional, sbio, honesto e piedoso, se primeiramente
nele se no plantam os grmens da sabedoria, da honestidade e da piedade. Agora importa 
demonstrar que esta plantao deve ser feita enquanto as plantas
so novas.

A formao do homem deve comear com a primeira idade:
1. por causa da incerteza da vida presente.

2. Quanto aos homens, as razes fundamentais desta necessidade so seis. Em primeiro 
lugar, a incerteza da vida presente, da qual  certo que se tem de
sair, mas  incerto onde e quando. O perigo de algum ser surpreendido impreparado  to 
grave que no se pode afastar. Com efeito, o tempo presente foi
concedido para que, durante ele, o homem ganhe ou perca para sempre a graa de Deus. 
Efetivamente, assim como no tero da me o corpo do homem se forma,
de tal maneira que, se algum de l sai com qualquer membro a menos, necessariamente 
ficar sem ele durante toda a vida, assim tambm a alma, enquanto vivemos
no corpo, de tal maneira se forma para o conhecimento e para a participao de Deus, que, 
se algum no consegue adquiri-la neste mundo, uma vez sado do
corpo, j lhe no resta nem lugar nem tempo para fazer tal aquisio. Uma vez que, 
portanto, se trata aqui de um negcio de to grande importncia, convm
faz-lo o mais depressa possvel, para que se no seja surpreendido pela morte, antes de o 
haver conduzido ao fim.

2. para que seja instrudo naquilo que deve fazer nesta vida, antes de comear a faz-lo.

3. Mas, mesmo que a morte no esteja iminente e se esteja seguro de uma vida muito 
longa, deve, todavia, comear-se a formao muito cedo, pois no deve
passar-se a vida a aprender, mas a fazer. Convm, portanto, instruir-se, o mais cedo 
possvel, naquilo que deve fazer-se nesta vida, a fim de no sermos
obrigados a partir, antes de termos aprendido o que devemos fazer. Mesmo que fosse do 
agrado de algum passar toda a vida a aprender,  infinita a multido
das coisas que o Criador das mesmas coisas fez objeto de especulao agradvel, de tal 
maneira que se a algum fosse concedida uma vida to longa como
a Nestor, teria sempre em que a empregar de modo muito til, investigando os tesouros da 
sabedoria divina espalhados por toda a parte, e adquirindo com
eles apoios para a vida eterna. Deve, portanto, desde cedo, abrir-se os sentidos do homem 
para a observao das coisas, pois, durante toda a sua vida,
ele deve conhecer, experimentar e executar muitas coisas.

3. todas as coisas formam-se muito mais facilmente, enquanto so tenras.

4.  uma propriedade de todas as coisas que nascem o fato de, enquanto so tenras, se 
poderem facilmente dobrar e formar, mas, uma vez endurecidas, j no
obedecem. A cera mole deixa-se amassar e modelar, mas, endurecida, quebra mais 
facilmente. Uma arvorezinha deixa-se plantar, transplantar, podar, dobrar
para aqui ou para ali, mas uma rvore j crescida de modo algum. Assim, quem quer fazer 
um vencelho, deve tomar um ramo verde e novo, pois no pode ser
torcido um que seja velho, seco e nodoso. De ovos frescos, chocados, nascem no devido 
tempo os pintainhos, os quais, em vo se esperariam, de ovos ressessos.
O carroceiro ensina o cavalo, o lavrador o boi, o caador o co e o falco a trabalhar 
(assim como o homem de circo ensina o urso a bailar, e a bruxa ensina
a pega, o corvo, e o papagaio a falar), mas escolhem aqueles que so muito novos, pois, se 
tomam os que so j velhos, perdem o tempo.

Tambm o homem.

5. Evidentemente, estes resultados obtm-se, da mesma maneira, no homem cujo cerebro 
(que, como atras dissemos,  semelhante  cera, recebendo as imagens
das coisas que lhe so transmitidas pelos sentidos), na idade infantil,  inteiramente 
hmido e mole e apto a receber todas as figuras que se lhe apresentam;
mas depois, pouco a pouco, seca e endurece, de tal modo que nele mais dificilmente se 
imprimem ou esculpem as coisas, como a experincia demonstra. Daqui,
a seguinte afirmao de Ccero: as crianas apreendem rapidamente inmeras coisas
[1].
Assim tambm as nossas mos e os nossos outros membros no podem exercitar-se nas 
artes e nos ofcios seno nos anos da infncia, em que os nervos esto
tenros. Se algum quer vir a ser bom escrivo, pintor, alfaiate, ferreiro, msico, etc., deve 
aplicar-se ao seu ofcio desde os primeiros anos, enquanto
a imaginao  gil e os dedos flexveis; de outro modo, nunca far nada de bom. De 
modo semelhante, portanto, se se quer que a piedade lance razes no
corao de algum, importa plant-la nos primeiros anos; se se deseja que algum se torne 
um modelo de apurada moralidade,  necessrio habitu-lo aos
bons costumes desde tenra idade; a quem deve fazer grandes progressos no estudo da 
sabedoria, importa abrir-lhe os sentidos para todas as coisas, nos primeiros
anos, enquanto o seu ardor  vivo, o engenho rpido e a memria tenaz.  coisa torpe e 
ridcula um velho sentado nos bancos da escola primria: ao jovem
compete preparar-se; ao velho realizar-se, escreve Sneca, na Carta, 36
[2].

4. Ao homem foi dado um longo espao de tempo para se formar, o qual no deve ser 
gasto noutras coisas.

6. Para que o homem pudesse formar-se ad humanitatem, Deus concedeu-lhe os anos 
da juventude, durante os quais, sendo inbil para outras coisas, fosse
apto apenas para a sua formao.  certo, com efeito, que o cavalo, o boi, o elefante e 
todos os outros animais, de qualquer tamanho, em um ano ou dois,
atingem uma estatura perfeita; o homem, porm, s o consegue em vinte ou trinta anos. Se 
algum, porm, julgar ter chegado a essa estatura perfeita por
um mero acaso ou devido a quaisquer causas segundas, certamente despertar admirao. 
A todas as outras coisas, Deus fixou uma medida; s ao homem, senhor
das coisas, permitiu passar o seu tempo ao acaso? Ou pensaremos que, relativamente ao 
homem, Deus tenha concedido  natureza a graa de proceder a passo
lento, a fim de que mais facilmente possa realizar a sua formao? Ora, sem nenhuma 
fadiga, em alguns meses, ela forma corpos maiores. No resta, portanto,
nenhuma outra hiptese seno que o nosso Criador, com nimo deliberado, se dignou 
conceder-nos a graa de retardar o nosso desenvolvimento, para que fosse
mais longo o espao de tempo para nos dedicarmos ao estudo; e tornar-nos, durante tanto 
tempo, inbeis para os negcios econmicos e polticos, para que,
durante o restante tempo da vida (e tambm na eternidade), nos tornssemos mais hbeis 
nesses assuntos.

5. Permanece firme somente aquilo de que se embebe a primeira idade.

7. No homem, s  firme e estvel aquilo de que se embebe a primeira idade; o que  
evidente pelos mesmos exemplos. Um vaso de barro conserva, at que se
quebre, o odor daquilo com que foi enchido quando era novo
[3].
Uma rvore, da maneira como, ainda tenrinha, estendeu os ramos para cima ou para 
baixo, para este ou para aquele lado, assim os mantm durante cem anos,
enquanto a no cortarem. A l conserva to tenazmente a primeira cor de que se embebeu 
que no h perigo de que desbote. Os arcos de uma roda, depois de
endurecidos, fazem-se mais facilmente em mil pedaos do que voltam a ficar direitos. Do 
mesmo modo, no homem, as primeiras impresses estampam-se de tal
maneira que  um autntico milagre faz-las tomar nova forma; por isso,  de aconselhar 
que elas sejam modeladas logo nos primeiros anos da vida, segundo
as verdadeiras normas da sabedoria.

6. No educar bem  uma coisa sumamente perigosa.

8. Finalmente,  uma coisa sumamente perigosa no embeber o homem, logo desde os 
primeiros anos, dos preceitos salutares  vida. Com efeito, porque a alma
humana, apenas os sentidos externos comeam a desempenhar o seu papel, de modo 
algum pode estar quieta, tambm j no pode abster-se, se no est j ocupada
em coisas teis, de se ocupar em coisas vs de toda a espcie, e at (dados os maus 
exemplos do nosso sculo corrupto) tambm em coisas prejudiciais, que
depois  impossvel ou muito difcil desaprender, como advertimos j. Por isso, o mundo 
est cheio de enormidades, para fazer cessar as quais no bastam
nem os magistrados polticos nem os ministros da Igreja, enquanto se no trabalhar 
seriamente para estancar as primeiras fontes do mal.

Concluso.

9. Portanto, na medida em que a cada um interessa a salvao dos seus prprios filhos, e 
queles que presidem s coisas humanas, no governo poltico e eclesistico,
interessa a salvao do gnero humano, apressem-se a providenciar para que, desde cedo, 
as plantazinhas do cu comecem a ser plantadas, podadas e regadas,
e a ser prudentemente formadas, para alcanarem eficazes progressos nos estudos, nos 
costumes e na piedade.

Captulo VIII

 NECESSRIO,
AO MESMO TEMPO,
FORMAR A JUVENTUDE
E ABRIR ESCOLAS

O cuidado dos filhos diz respeito propriamente aos pais.

1. Demonstrado que as plantazinhas do paraso, ou seja, a juventude crist, no podem 
crescer  maneira de uma selva, mas precisam de cuidados, vejamos
agora a quem incumbe esses cuidados. Naturalssimamente, isso compete aos pais, de tal 
maneira que, assim como foram os autores da vida, sejam tambm os
autores de uma vida racional, honesta e santa. Que para Abrao isso fosse uma obrigao 
solene, atesta-o Deus: Porque eu sei que h-de ordenar a seus
filhos e  sua casa, depois dele, que guardem os caminhos do Senhor, e que pratiquem a 
equidade e a justia (Gnesis, 18, 19). A mesma coisa exige Deus
dos pais, em geral, ao ordenar: Esforar-te-s por ensinar aos teus filhos as minhas 
palavras e falar-lhes-s delas quando estiveres sentado em tua casa
e quando andares pelos caminhos, quando fores para a cama e quando te levantares 
(Deuteronmio, 6, 7). E pela boca do Apstolo: Vs, pais, no provoqueis
 ira os vossos filhos, mas educai-os na disciplina e nas instrues do Senhor (Efsios, 6, 
4).

So-lhes dados, todavia, como auxiliares, os professores das escolas.

2. Todavia, porque, tendo-se multiplicado tanto os homens como os afazeres humanos, 
so raros os pais que, ou saibam, ou possam, ou pelas muitas ocupaes,
tenham tempo suficiente para se dedicarem a educao de seus filhos, desde h muito, por 
salutar conselho
[1],
se introduziu o costume de muitos, em conjunto, conconfiarem a educao de seus filhos a 
pessoas escolhidas, notveis pela sua inteligncia e pela pureza
dos seus costumes. A esses formadores da juventude,  costume dar o nome de 
preceptores, mestres, mestres-escola e professores; os locais destinados a
esses exerccios comuns recebem o nome de escolas, institutos, auditrios, colgios, 
ginsios, academias, etc.

Origem e desenvolvimento das escolas.

3. Jos atesta
[2]
que o primeiro a abrir escola, imediatamente a seguir ao Dilvio, foi o patriarca Sem, a 
qual depois foi chamada escola judaica. E quem no sabe que na
Caldia, principalmente na Babilnia, havia numerosas escolas, onde se cultivavam tanto 
outras cincias e artes como a astronomia?  sabido, com efeito,
que, depois (no tempo de Nabucodonosor), nessa sabedoria dos Caldeus foram instrudos 
Daniel e os seus companheiros (Daniel, 1, 20). Havia-as tambm no
Egito, onde foi educado Moiss (Atos dos Apstolos, 7, 22). No povo de Israel, por ordem 
de Deus, em todas as cidades foram construdas escolas, chamadas
sinagogas, onde os levitas ensinavam a Lei, as quais duraram at ao tempo de Cristo, 
tornando-se clebres pela pregao dEle e dos Apstolos. Dos egpcios,
os gregos, e destes, os romanos receberam o costume de fundar escolas; a partir dos 
romanos, espalhou-se o louvvel costume de abrir escolas por todo o
Imprio, principalmente, aps a propagao da religio de Cristo, pela solicitude fiel de 
prncipes e bispos piedosos. Acerca de Carlos Magno, atesta a
histria que,  medida que ia submetendo cada povo pago, logo lhe enviava bispos e 
professores, e erigia templos e escolas. Seguiram o seu exemplo outros
imperadores cristos, reis, prncipes e governadores de cidades; e de tal modo 
aumentaram o nmero das escolas que estas se tornaram inumerveis.

Explica-se que, finalmente, devem ser abertas escolas por toda a parte.

4. Que este santo costume se deve, no apenas manter, mas at aumentar, interessa a toda 
a Cristandade, a fim de que em toda e qualquer comunidade de homens
bem ordenada (quer seja cidade, ou vila ou aldeia), se construa uma escola para a 
educao comum da juventude. Exige-o, com efeito:

1. o decoro da ordem que deve ser observada por toda a parte,

5. A ordem louvvel das coisas. Com efeito, se um pai de famlia no tem disponibilidade 
para fazer tudo o que a administrao dos negcios domsticos exige,
mas se serve de vrios empregados, porque no h-de fazer o mesmo no nosso caso? Na 
verdade, quando ele tem necessidade de farinha, dirige-se ao moleiro;
quando tem necessidade de carne, ao carniceiro; quando tem necessidade de bebidas, ao 
taberneiro; quando tem necessidade de um fato, ao alfaiate; quando
tem necessidade de calado, ao sapateiro; quando tem necessidade de uma casa, de uma 
relha do arado, de um prego, etc., dirige-se ao marceneiro, ao pedreiro,
ao ferreiro, etc. Uma vez que, para instruir os adultos na religio, temos os templos; para 
discutir as causas em litgio, e para convocar o povo e para
o informar acerca das coisas necessrias, temos os tribunais e os parlamentos, porque no 
havemos de ter escolas para a juventude? Alm disso, nem sequer
os camponeses apascentam, cada um por si, os seus porcos e as suas vacas, mas contratam 
pastores assalariados que servem ao mesmo tempo a todos, dedicando-se
eles, entretanto, com menos distraes, aos seus outros negcios. Na verdade, h uma 
grande economia de fadiga e de tempo, quando uma s pessoa faz uma
s coisa, sem ser distrada por outras coisas; deste modo, com efeito, uma s pessoa pode 
servir utilmente a muitas, e muitas podem servir a uma s.

2. a necessidade,

6. Em segundo lugar, a necessidade. Porque, com efeito, raramente os pais esto 
preparados para educar bem os filhos, ou raramente dispem de tempo para
isso, da se segue como conseqncia que deve haver pessoas que faam apenas isso 
como profisso e desse modo sirvam a toda a comunidade.

3. a utilidade,

7. E mesmo que no faltassem pais a quem fosse possvel dedicar-se inteiramente  
educao dos seus filhos, seria, todavia, muito melhor educar a juventude
em conjunto, num grupo maior, porque, sem dvida, o fruto e o prazer do trabalho  
maior, quando uns recebem exemplo e incitamento de outros. Com efeito,
 naturalssimo fazer o que fazem os outros, ir onde vemos ir os outros, seguir os que vo 
 frente e ir  frente dos que vm atrs.
     Aberto o curral, tanto melhor corre o forte cavalo, quanto tem a quem passar  frente e 
a quem seguir
[3].

     Alm disso, a idade infantil conduz-se e governa-se muito melhor com exemplos que 
com regras. Se se lhe ordena alguma coisa, pouco se interessar;
se se lhe mostra os outros a fazer alguma coisa, imit-los-, mesmo que lho no ordenem.

4. os exemplos constantes da natureza

8. Finalmente, a natureza d-nos, por toda a parte, o exemplo de que aquelas coisas que 
devem crescer abundantemente devem ser criadas em um s lugar. Assim,
as rvores nas florestas, as ervas nos campos, os peixes nas guas, os metais nas 
profundidades da terra, etc., nascem em grupos. E isso de tal maneira
que, em geral, a floresta que produz pinheiros ou cedros ou carvalhos, produ-los 
abundantemente, enquanto que as outras espcies de rvores nela se no
desenvolvem igualmente bem; a terra que produz ouro, no produz, com a mesma 
abundncia, os outros metais. Todavia, aquilo que queremos dizer encontra-se
ainda mais bem expresso no nosso corpo, onde  necessrio que cada membro receba uma 
parte do alimento que se toma, e todavia no se d a cada um a sua
poro ainda crua para que a prepare e adapte a si, mas h determinados membros, que 
so como que oficinas destinadas a esse trabalho, os quais, para utilidade
de todo o corpo, recebem os alimentos, fazem-nos fermentar, digerem-nos e, finalmente, 
distribuem o alimento assim preparado pelos outros membros. Assim,
o estmago forma o quilo, o fgado o sangue, o corao o esprito vital, e o crebro o 
esprito animal, os quais, j preparados, difundem-se facilmente
por todos os membros e conservam agradavelmente a vida em todo o corpo. Porque  que, 
portanto, no se h-de crer que, do mesmo modo que as oficinas reforam
e regulam os trabalhos, os templos a piedade, os tribunais a justia, assim tambm as 
escolas produzem, depuram e multiplicam a luz da sabedoria e a distribuem
a todo o corpo da comunidade humana?

5. e da arte

9. Finalmente, nas coisas artificiais, todas as vezes que se procede racionalmente, 
observamos o mesmo.  certo que o sivicultor, girando pelas florestas
e pelos pinhais, no planta os mergulhes por toda a parte onde os encontra prprios para 
a plantao, mas arranca-os e transporta-os para um viveiro e
trata-os juntamente com centenas de outros. Do mesmo modo, quem se ocupa em 
multiplicar os peixes para uso da cozinha, constri um viveiro, onde os faz
multiplicar, todos juntos, aos milhares. E quanto maior  a plantao, tanto melhor 
costumam crescer as plantas; e quanto maior  o viveiro, tanto maiores
se tornam os peixes. Ora, assim como se devem fazer viveiros para os peixes e plantaes 
para as plantas, assim se devem construir escolas para a juventude.

Captulo IX

TODA
A JUVENTUDE
DE AMBOS OS SEXOS
DEVE SER ENVIADA
S ESCOLAS

As escolas devem ser asilos comuns da juventude.

1. Que devem ser enviados s escolas no apenas os filhos dos ricos ou dos cidados 
principais, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes
e raparigas, em todas as cidades, aldeias e casais isolados, demonstram-no as razes 
seguintes:

1. Por que todos devem ser reformados  imagem de Deus.

2. Em primeiro lugar, todos aqueles que nasceram homens, nasceram para o mesmo fim 
principal, para serem homens, ou seja, criatura racional, senhora das
outras criaturas, imagem verdadeira do seu Criador. Todos, por isso, devem ser 
encaminhados de modo que, embebidos seriamente do saber, da virtude e da
religio, passem utilmente a vida presente e se preparem dignamente para a futura. Que, 
perante Deus, no h pessoas privilegiadas, Ele prprio o afirma
constantemente
[1].
Portanto, se ns admitimos  cultura do esprito apenas alguns, exclundo os outros, 
fazemos injria, no s aos que participam conosco da mesma natureza,
mas tambm ao prprio Deus, que quer ser conhecido, amado e louvado por todos aqueles 
em quem imprimiu a sua imagem. E isso ser feito com tanto mais fervor,
quanto mais acesa estiver a luz do conhecimento: ou seja, amamos tanto mais, quanto 
mais conhecemos
[2].

2. Todos se devem preparar para os ofcios da sua futura vocaco.

3. Em segundo lugar, porque no nos  evidente para que coisa nos destinou a divina 
providncia.  certo, porm, que, por vezes, de pessoas pauprrimas,
de condio baixssima e obscurantssima, Deus constitui rgos excelentes da sua glria. 
Imitemos, por isso, o sol celeste, que ilumina, aquece e vivifica
toda a terra, para que tudo o que pode viver, verdejar, florir e frutificar, viva, verdeje, 
floresa e frutifique.

3. Alguns sobretudo (os estpidos e os dbeis por natureza) devem ser muito ajudados.

4. No deve fazer-nos obstculo o fato de vermos que alguns so rudes e estpidos por 
natureza, pois isso ainda mais recomenda e torna mais urgente esta
universal cultura dos espritos. Com efeito, quanto mais algum  de natureza lenta ou 
rude, tanto mais tem necessidade de ser ajudado, para que, quanto
possvel, se liberte da sua debilidade e da sua estupidez brutal. No  possvel encontrar 
um esprito to infeliz, a que a cultura no possa trazer alguma
melhoria. Certamente, da mesma maneira que um vaso esburacado, muitas vezes lavado, 
embora no conserve nenhuma gota de gua, todavia, torna-se mais liso
e mais limpo, assim tambm os dbeis e os estpidos, mesmo que nos estudos no faam 
nenhum progresso, tornam-se, todavia, mais brandos nos costumes, de
modo a saberem obedecer s autoridades polticas e aos ministros da Igreja. Consta, de 
resto, pela experincia, que certos indivduos, por natureza muito
lentos, depois de terem seguido o curso dos estudos, passaram  frente de outros mais bem 
dotados. E isto  to verdadeiro que um poeta afirmou: O trabalho
obstinado vence tudo
[3].
Alm disso, da mesma maneira que algum, na infncia,  belo e forte de corpo, e depois 
se torna enfermio e emagrece, e um outro, ao contrrio, em jovem,
 de constituio doentia, e depois adquire fora e cresce robusto, assim tambm se 
verifica com as inteligncias, de tal maneira que algumas so precoces,
mas depressa se esgotam e acabam por se tornar obtusas, e outras a princpio so rudes, 
mas depois tornam-se finas e muito penetrantes. Alm disso, gostamos
de ter nos pomares, no apenas rvores que produzem frutos precoces, mas tambm 
rvores que produzem frutos de meia estao, e frutos serdios, porque
cada coisa  boa no seu tempo (como diz algures o Eclesistico)
[4]
e, embora tarde, acaba por mostrar, em determinada altura, que no existia em vo. 
Porque  que, ento, no jardim das letras, apenas queremos tolerar as
inteligncias de uma s espcie, ou seja, as precoces e geis? Ningum, por conseguinte, 
seja excludo, a no ser a quem Deus negou a sensibilidade e a
inteligncia.

Deve admitir-se nos estudos tambm o sexo frgil? Sim.

5. No pode aduzir-se nem sequer um motivo vlido pelo qual o sexo fraco (para que 
acerca deste assunto diga particularmente alguma coisa) deva ser excludo
dos estudos (quer estes se ministrem em latim, quer se ministrem na lngua maternal. Com 
efeito, as mulheres so igualmente imagens de Deus, igualmente
participantes da graa e do reino dos cus, igualmente dotadas de uma mente gil e capaz 
de aprender a sabedoria (muitas vezes at mais que o nosso sexo),
igualmente para elas est aberto o caminho dos ofcios elevados; uma vez que, 
freqentemente, so chamadas pelo prprio Deus para o governo dos povos,
para dar salutares conselhos a reis e a prncipes, para exercer a medicina e outras artes 
salutares ao gnero humano, para pronunciar profecias e exprobar
sacerdotes e bispos. Porque  que, ento, as havamos de admitir ao abc e depois as 
havamos de afastar do estudo dos livros? Temos medo que cometam temeridades?
Mas quanto mais lhes tivermos ocupado o pensamento, tanto menor lugar encontrar a 
temeridade, a qual, normalmente,  originada pela desocupao da mente.

Todavia, com que precauo?

6. Todavia, de tal maneira que lhes no seja dado como alimento toda a espcie de livros 
(do mesmo modo que  juventude de outro sexo; sendo deplorvel
que, at aqui, este mal no tenha sido evitado com maior precauo), mas livros nos quais 
possam haurir constantemente, com o verdadeiro conhecimento de
Deus e das suas obras, verdadeiras virtudes e a verdadeira piedade.

Rebate-se uma objeo.

7. Ningum, portanto, me objete com as palavras do Apstolo: No permito  mulher 
que ensine (Timteo, I, 2, 12), ou com as de Juvenal, na Stira 6:
     Que a mulher que se deita juntamente contigo no tenha a mania de falar ou de enrolar 
frases para construir entimemas, nem saiba todas as histrias
[5].

ou com aquilo que, em Euripedes, diz Hiplito:

     Odeio a mulher erudita, para que em minha casa nunca se encontre uma que saiba mais 
do que convm saber a uma mulher. Com efeito, Vnus inspira maior
astcia s mulheres eruditas
[6].

     Estas afirmaes, repito, nada obstam ao nosso conselho, pois  nossa opinio que as 
mulheres sejam instrudas, no para a curiosidade, mas para a
honestidade e para a beatitude. Sobretudo naquelas coisas que a elas importa saber e que 
podem contribuir quer para administrar dignamente a vida familiar,
quer para promover a sua prpria salvao, a do marido, dos filhos e de toda a famlia.

Outra objeo.

8. Se algum disser: onde iremos ns parar, se os operrios, os agricultores, os moos de 
fretes e finalmente at as mulheres se entregarem aos estudos?
Respondo: acontecer que, se esta educao universal da juventude for devidamente 
continuada, a ningum faltar, da em diante, matria de bons pensamentos,
de bons desejos, de boas inspiraes e tambm de boas obras. E todos sabero para onde 
devem dirigir todos os atos e desejos da vida, por que caminhos
devem andar e de que modo cada um h-de ocupar o seu lugar. Alm disso, todos se 
deleitaro, mesmo no meio dos trabalhos e das fadigas, meditando nas palavras
e nas obras de Deus, e evitaro o cio, causa de pecados carnais e de delitos de sangue, 
lendo freqentemente a Bblia e outros bons livros (e estes prazeres,
muito doces, atraiem quem j os saboreou). E, para que diga tudo de uma s vez, 
aprendero a ver Deus por toda a parte, a louv-lo por toda a parte, a
aproximar-se dele por toda a parte; e, deste modo, aprendero a passar com maior alegria 
esta vida de misrias e a esperar, com maior desejo e maior esperana,
a vida eterna. Acaso no  verdade que semelhante estado da Igreja representaria para ns 
o paraso, tal como  possvel t-lo na terra?

Captulo X

NAS ESCOLAS,
A FORMAO
DEVE SER UNIVERSAL

Que se entende por aquele tudo que, nas escolas, se deve ensinar e aprender?

1. Importa agora demonstrar que, nas escolas, se deve ensinar tudo a todos. Isto no quer 
dizer, todavia, que exijamos a todos o conhecimento de todas as
cincias e de todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exato e profundo). 
Com efeito, isso, nem, de sua natureza,  til, nem, pela brevidade
da nossa vida,  possvel a qualquer dos homens. Vemos, com efeito, que cada cincia se 
alarga to amplamente e to sutilmente (pense-se, por exemplo,
nas cincias fsicas e naturais, na matemtica, na geometria, na astronomia, etc. e ainda na 
agricultura ou na sivicultura, etc.) que pode preencher toda
a vida, mesmo de inteligncias grandemente dotadas que acaso queiram dedicar-se  
teoria e  prtica, como aconteceu com Pitgoras na matemtica
[1],
com Arquimedes na mecnica, com Agrcola na mineralogia
[2],
com Longlio na retrica (o qual se ocupou de uma s coisa, para que viesse a ser um 
perfeito ciceroniano)
[3].
Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as razes e os 
objetivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza
como das que se fabricam, pois somos colocados no mundo, no somente para que 
faamos de espectadores, mas tambm de atores. Deve, portanto, providenciar-se
e fazer-se um esforo para que a ningum, enquanto est neste mundo, surja qualquer 
coisa que lhe seja de tal modo desconhecida que sobre ela no possa
dar modestamente o seu juzo e dela, se no possa servir prudentemente para um 
determinado uso, sem cair em erros nocivos.

Ou seja, aquelas coisas que dizem respeito  cultura do homem todo.

2. Deve, portanto, tender-se inteiramente e sem exceo para que, nas escolas, e, 
conseqentemente, pelo benfico efeito das escolas, durante toda a vida:
I. se cultivem as inteligncias com as cincias e com as artes; II. se aperfeioem as 
lnguas; III. se formem os costumes para toda a espcie de honestidade;
IV. se preste sinceramente culto a Deus.

Cincia, prudncia, piedade.

3. Efetivamente, disse uma palavra de sbio aquele que afirmou que as escolas so 
oficinas de humanidade
[4],
contribuindo, em verdade, para que os homens se tornem verdadeiramente homens, isto  
(tendo em vista os objetivos atrs estabelecidos): I. criatura racional;
II. criatura senhora das outras criaturas (e tambm de si mesma); III. criatura delcia do 
seu Criador. O que acontecer se as escolas se esforarem por
produzir homens sbios na mente, prudentes nas aes e piedosos no corao.

Que estas coisas se no devem separar, prova-se:

4. Por conseguinte, estas trs coisas devero ser implantadas em todas as escolas para 
benefcio de toda a juventude. O que demonstrarei, indo buscar o
fundamento de meu raciocinio: I. s coisas que neste mundo nos rodeiam; II. a ns 
mesmos; III. a Cristo, Homem-Deus
, modelo perfeitssimo da nossa perfeio.

1. a partir da coerncia das prprias coisas.

5. As prprias coisas, enquanto nos dizem respeito, no podem ser divididas seno em trs 
espcies. Na verdade: algumas so apenas objeto de observao,
como o cu e a terra e as coisas que neles existem; outras so objeto de imitao, como a 
ordem admirvel espalhada por toda a parte, a qual o homem tem
obrigao de exprimir tambm nas suas obras; outras, enfim, so objeto de fruio, como 
o favor da divindade e a sua multplice beno, neste mundo e para
sempre. Se o homem deve ser semelhante a estas coisas, importa necessariamente que se 
prepare, tanto para conhecer as coisas, que, neste maravilhoso anfiteatro,
se oferecem  sua observao, como para fazer aquelas coisas que se lhe ordena que faa, 
como, finalmente, para gozar daquelas que, com mo liberal, o
benignssimo Criador lhe oferece (como a um hspede que esteja em sua casa) para sua 
fruio.

2. a partir da essncia da nossa alma.

6. Se nos observarmos a ns mesmos, depreendemos igualmente que a todos, por igual, 
convm a instruo, a moralidade e a piedade, quer observemos a essncia
da nossa alma, quer a finalidade para que fomos criados e postos no mundo.

7. A essncia da alma  constituda por trs faculdades (as quais refletem a Trindade 
incriada): inteligncia, vontade e memria. A inteligncia alarga-se
a observar as diferenas das coisas (at s mais pequenas mincias); a vontade dirige-se  
escolha das coisas, ou seja, a escolher as que so boas e a
rejeitar as que so prejudiciais; a memria, por sua vez, retm, para uso futuro, as coisas 
de que, alguma vez, se ocuparam a inteligncia e a vontade,
e lembra  alma a sua origem (deriva de Deus) e a sua misso; sob este aspecto, chama-se 
tambm conscincia. Ora, para que estas trs faculdades possam
cumprir bem a sua misso,  necessrio instru-las perfeitamente em coisas que iluminem 
a inteligncia, dirijam a vontade e estimulem a conscincia, de
modo que a inteligncia penetre profundamente, a vontade escolha sem erro, e a 
conscincia refira tudo avidamente a Deus. Ora, assim como aquelas trs
faculdades (a inteligncia, a vontade e a conscincia), uma vez que constituem uma 
mesma alma, no podem separar-se, assim tambm aqueles trs ornamentos
da alma, a instruo, a virtude e a piedade, no devem separar-se.

E a partir do fim da nossa misso no mundo.

8. Se agora considerarmos porque  que fomos colocados no mundo, de novo se tornar 
evidente que as finalidades so trs: para servir a Deus, s criaturas
e a ns mesmos; e para gozar o prazer emanante de Deus, das criaturas e de ns mesmos.

1. Para que sirvamos a Deus, ao prximo e a ns mesmos.

9. Se queremos servir a Deus, ao prximo e a ns mesmos,  necessrio que tenhamos, em 
relao a Deus, piedade; em relao ao prximo, honestidade; e em
relao a ns mesmos, cincia. Estas coisas esto, porm, de tal maneira ligadas que, do 
mesmo modo que o homem deve ser, para consigo mesmo, no s prudente,
mas tambm morigerado e piedoso, assim tambm no s os nossos costumes, mas 
tambm o nosso saber e a nossa piedade devem servir para utilidade do prximo;
e no somente a nossa piedade, mas tambm o nosso saber e os nossos costumes devem 
servir para louvor de Deus.

3. Para que gozemos um trplice prazer permanente:

10. Se consideramos o prazer, vemos que Deus afirmou na criao que o homem  
destinado a goz-lo, uma vez que o introduziu num mundo j dotado de toda
a espcie de bens, e, alm disso, em ateno a ele, criou um paraso de delcias; e, 
finalmente, resolveu torn-lo participante da sua eterna beatitude.

11. Deve, todavia, entender-se por prazer, no o do corpo (embora tambm este, uma vez 
que no  seno o vigor da sade, e o agrado do alimento e do sono,
no possa derivar seno da virtude da temperana), mas o da alma, o qual resulta, ou das 
coisas que nos cercam, ou de ns mesmos, ou ento de Deus.

a) das prprias coisas,

12. O prazer que brota das prprias coisas  aquela alegria que o homem sbio 
experimenta nas suas observaes. Com efeito, seja o que for que ele faa,
para qualquer lado que se volte, em qualquer coisa que fixe a sua ateno, em tudo e por 
tudo permanece preso de tamanha alegria, que, muitas vezes, como
que arrebatado fora de si, se esquece de si mesmo.  precisamente o que afirma o livro da 
sabedoria: Conservar a sabedoria no produz amargura e conviver
com ela no produz tdio, mas alegria e contentamento (Sabedoria, 8, 16). E um sbio 
pago escreveu:

:

Na vida, nada h mais doce que o filosofar
[5].

b) de ns mesmos,

13. O prazer que cada um goza em si mesmo  aquele dulcssimo deleite que o homem, 
entregue  virtude, goza pela sua boa disposio interior, sentindo-se
pronto para tudo o que a ordem da justia requer. Esta alegria  muito maior que aquela de 
que, h pouco, falmos, segundo esta mxima: A boa conscincia
 um banquete perene
[6].

c) de Deus.

14. O prazer que nos vem de Deus  o mais alto grau de alegria que se pode experimentar 
nesta vida, uma vez que o homem, sentindo que Deus lhe  eternamente
propcio, exulta de tal maneira no seu paternal e imutvel favor, que o corao se lhe 
consome no amor de Deus; e j no sabe nem fazer nem desejar outra
coisa seno, imergindo-se todo na misericrdia de Deus, viver uma doce tranqilidade e 
saborear, j neste mundo, a alegria da vida eterna. Esta  a paz
que Deus nos concede e que est acima de todo o entendimento humano (Filipenses, 4, 
7), no sendo possvel desejar nem pensar coisa mais sublime. Portanto,
aquelas trs coisas, a instruo, a virtude e a piedade, so as trs fontes, das quais brotam 
todos os arroios dos mais perfeitos prazeres.

3. Pelo exemplo de Cristo, nosso modelo.

15. Por ltimo, que estas trs coisas devem existir em todos e em cada um, ensinou-o com 
o seu exemplo aquele que se manifestou na carne (para mostrar em
si a forma e a norma de todas as coisas), Deus. Com efeito, o evangelista afirma que ele, 
enquanto crescia em idade, crescia em sabedoria e em graa, diante
de Deus e dos homens (Lucas, 2, 52). Eis onde se encontram aquelas trs bases dos nossos 
ornamentos! Efetivamente, que  a sabedoria seno o conhecimento
de todas as coisas como so na realidade? Que  que produz a graa diante dos homens, 
seno a amabilidade dos costumes? E que  que nos grangeia a graa
diante de Deus, seno o temor do Senhor, ou seja, a ntima, sria e fervorosa piedade? 
Sintamos, portanto, em ns aquilo que se encontra em Cristo Jesus,
o qual  o prottipo perfeitssimo de toda a perfeio, com o qual nos devemos conformar.

16. Precisamente por isso, com efeito, Ele disse: Aprendei de mim (Mateus, 11, 29). E 
porque o prprio Cristo foi dado ao gnero humano como mestre sapientssimo,
sacerdote santssimo e rei potentssimo,  evidente que os cristos devem ser formados 
segundo o modelo de Cristo, e tornar-se sbios na mente, santos
na pureza de conscincia e fortes (cada um segundo a sua vocao) nas obras. Portanto, as 
nossas escolas viro a ser, finalmente, verdadeiras escolas crists,
se nos fazem o mais semelhantes possvel a Cristo.

Infeliz divrcio.

17. Verifica-se, portanto, um infeliz divrcio, em todos os casos em que estas trs coisas 
no esto unidas por um ligame adamantino. Infeliz a instruo
que se no converte em moralidade e em piedade! Com efeito, que  a cincia sem a 
moral? Quem progride na cincia e regride na moral ( mxima antiga),
anda mais para trs que para a frente
[7].
Por isso, aquilo que Salomo disse da mulher formosa, mas inimiga da sabedoria, pode 
dizer-se tambm de um homem douto, mas de maus costumes: A instruo
infundida num homem inimigo da virtude  um colar de ouro colocado no focinho de um 
porco (Provrbios, 11, 22). Da mesma maneira que as pedras preciosas
se no encastoam no chumbo, mas no ouro, para que em conjunto irradiem um brilho 
mais esplendoroso, assim tambm a cincia no deve juntar-se  libertinagem,
mas  virtude, para que uma aumente o brilho da outra. E quando a uma e outra se junta 
uma piedade verdadeira, ento a perfeio ficar completa. De fato,
o temor de Deus, da mesma maneira que  o princpio e o fim da sabedoria,  tambm o 
cume e a coroa da cincia, porque a plenitude da sabedoria consiste
em temer o Senhor. (Provrbios, 1, 7; Eclesistico, 1, 14 e noutros lugares)
[8].

Concluso.

18. Em resumo, uma vez que dos anos da infncia e da educao depende todo o resto da 
vida, se os espritos de todos no forem preparados desde ento para
todas as coisas de toda a vida, est tudo perdido. Portanto, assim como no tero materno 
se formam os mesmos membros para todo o ser que h-de tornar-se
homem, e para cada um se formam todos, as mos, os ps, a lngua, etc., embora nem 
todos venham a ser artesos, corredores, escrives e oradores, assim
tambm, na escola, deve ensinar-se a todos todas aquelas coisas que dizem respeito ao 
homem, embora, mais tarde, umas venham a ser mais teis a uns e outras
a outros.

Captulo XI

AT AGORA
NO TEM HAVIDO ESCOLAS
QUE CORRESPONDAM
PERFEITAMENTE AO SEU FIM

Que  uma escola que corresponda exatamente ao seu fim?

1. Parecerei excessivamente presunoso com esta afirmao ousada. Mas vou abordar o 
assunto de frente, constituindo o leitor como juiz e no representando
eu prprio seno o papel de ator. Chamo escola perfeitamente correspondente ao seu fim 
aquela que  uma verdadeira oficina de homens, isto , onde as mentes
dos alunos sejam mergulhadas no fulgor da sabedoria, para que penetrem prontamente em 
todas as coisas manifestas e ocultas (como diz o Livro da Sabedoria,
7, 21), as almas e as inclinacs da alma sejam dirigidas para a harmonia universal das 
virtudes, e os coraes sejam trespassados e inebriados de amores
divinos, de tal maneira que, j na terra, se habituem a viver uma vida celeste todos aqueles 
que, para se embeberem de verdadeira sabedoria, so enviados
s escolas crists. Numa palavra: onde absolutamente tudo seja ensinado absolutamente a 
todos (ubi Omnes, Omnia, Omnino, doceantur).

Que as escolas devem ser assim, mas que, de fato, o no so, demonstra-se:

2. Mas qual  a escola que, at hoje, se props este grau de perfeio? No falemos sequer 
em alguma que o tenha atingido. Mas para que no parea que acalentamos
ideias platnicas e sonhamos com uma perfeio que no existe em parte alguma, nem 
talvez possa esperar-se nesta vida, mostraremos, com outro argumento,
que as escolas devem ser como disse, e que, todavia, at agora, no tm sido assim.

1. Com o voto de Lutero

3. Lutero, na sua exortao s cidades do Imprio, para que constitussem escolas (em 
1525), entre outras coisas, emitiu estes dois votos: Primeiro, que,
em todas as cidades, vilas e aldeias, sejam fundadas escolas, para educar toda a juventude 
de ambos os sexos (precisamente como, no captulo IX, mostrmos
dever fazer-se), de tal maneira que, mesmo aqueles que se dedicam  agricultura e s 
profisses manuais, freqentando a escola, ao menos duas horas por
dia, sejam instrudos nas letras, na moral e na religio. Segundo: que sejam instrudos 
com um mtodo muito fcil, no s para que se no afastem dos
estudos, mas at para que para eles sejam atrados como para verdadeiros deleites, e, 
como ele diz, para que as crianas experimentem nos estudos um
prazer no menor que quando passam dias inteiros a brincar com pedrinhas, com a bola, e 
s corridas. Assim falava Lutero
[1].

2. Com o testemunho das prprias coisas. Com efeito:

4. Conselho verdadeiramente sbio e digno de to grande homem. Mas quem no v que, 
at agora, permaneceu um simples voto? Onde esto, com efeito, essas
escolas universais? Onde est esse mtodo atraente?

1) Ainda no foram fundadas escolas por toda a parte.

5. Vemos precisamente o contrrio: nas aldeias e nos pequenos povoados, no foram 
ainda fundadas escolas.

2) E no se pensa em que, onde existem, sejam para todos.

6. E, onde existem, no so indistintamente para todos, mas apenas para alguns, ou seja, 
para os ricos, porque, sendo dispendiosas, nelas no so admitidos
os mais pobres, salvo casos raros, ou seja, quando algum faz uma obra de misericrdia. 
No entanto,  provvel que, de entre os pobres, inteligncias muitas
vezes excelentes passem a vida e morram sem poder instruir-se, com grave dano para a 
Igreja e para o Estado.

3) No so escolas, mas padarias.

7. Alm disso, na educao da juventude, usou-se quase sempre um mtodo to duro que 
as escolas so consideradas como os espantalhos das crianas, ou as
cmaras de tortura das inteligncias. Por isso, a maior e a melhor parte dos alunos, 
aborrecidos com as cincias e com os livros, preferem encaminhar-se
para as oficinas dos artesos, ou para qualquer outro gnero de vida.

4. Em lugar algum se ensina tudo, e nem sequer as coisas principais.

8. queles que ficam na escola (ou constrangidos pela vontade dos pais e dos benfeitores, 
ou aliciados pela esperana de, com os estudos, conseguirem um
dia um pouco de autoridade, ou impelidos por uma fora espontnea da natureza para uma 
educao liberal), a esses, ministra-se uma cultura,  certo, mas
sem a seriedade e a prudncia necessrias, anacrnica e m sob todos os aspectos. 
Efetivamente, aquilo que sobretudo se devia implantar na alma dos jovens,
isto , a piedade e a moralidade, descura-se de modo particular. E afirmo que estas duas 
coisas, em todas as escolas (mesmo nas Universidades, que deviam
ser o ponto mais alto da cultura humana), tm sido as mais descuradas, e, em 
conseqncia disso, a maioria das vezes, saiem de l, em vez de cordeiros
mansos, ferozes burros selvagens e mulos indmitos e petulantes; e, em vez de uma ndole 
modelada pela virtude, trazem de l um conjunto de boas maneiras
que de moral tm apenas o verniz, e os olhos, as mos e os ps adestrados para as 
vaidades mundanas. Na verdade, a quantos destes homnculos, polidos durante
tanto tempo com o estudo das lnguas e das artes, vir  mente ser, para todos os outros 
homens, exemplo de temperana, de castidade, de humildade, de
humanidade, de gravidade, de pacincia, de continncia, etc.? E de onde nasce o mal 
seno do fato de que se no exige s escolas que ensinem a viver honestamente?
Isto  testemunhado pela disciplina dissoluta de quase todas as escolas, pelos costumes 
relaxados de todas as classes sociais e pelos infinitos lamentos,
suspiros e lgrimas de muitas pessoas piedosas. E h ainda algum que possa defender o 
estado das escolas? A doena hereditria, descida at ns a partir
das duas primeiras criaturas, domina-nos de tal modo que, posta de parte a rvore da vida, 
voltamos desordenadamente os nossos apetites s para a rvore
da cincia. E as escolas, secundando estes apetites desordenados, at agora no tm 
procurado seno a cincia.

5) No com um mtodo atraente, mas violento.

9. E, mesmo isto, com que mtodo e com que resultado? De modo a reter os estudantes 
durante cinco, dez, ou mais anos, em coisas que a mente humana  capaz
de aprender em um ano. O que se poderia inculcar e infundir suavemente nos espritos,  
neles impresso violentamente, ou melhor,  neles enterrado e ensacado.
O que poderia ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto,  apresentado de modo 
obscuro, confuso e intrincado, como que por meio de enigmas.

6.  ministrada uma instruo mais verbal que real.

10. Deixo de lado que, nas presentes circunstncias, quase nunca os espritos so 
alimentados com coisas verdadeiramente substanciosas, mas, na maior parte
dos casos, so atulhados com palavras ocas (palavras de vento e linguagem de papagaio) e 
com opinies que pesam tanto como a palha e o fumo.

O ensino da lngua latina  prolixo e confuso.

11. O prprio estudo da lngua latina (abordo-o de passagem, apenas para citar um 
exemplo),  bom Deus, como  intrincado, como  penoso, como  longo!
Quaisquer serventes, criados ou moos de recados, entregues aos trabalhos da cozinha, 
aos servios militares ou a outros servios vis, aprendem mais depressa
uma lngua qualquer, ou at duas ou trs, embora diferente da sua lngua materna, que os 
alunos das escolas aprendem s o latim, embora tenham todo o tempo
livre e se entreguem ao estudo com todas as suas foras. E como  desigual o resultado! 
Os primeiros, aps alguns meses, falam correntemente em lngua
estrangeira; os segundos, mesmo depois de quinze ou vinte anos, na maior parte dos casos 
no so capazes de dizer seno certas coisas em latim, a no ser
que se socorram de gramticas e de dicionrios como os coxos de muletas; e, mesmo 
essas coisas, no sem hesitar e titubear. De onde pode vir este deplorvel
dispndio de tempo e de esforo, seno de um mtodo defeituoso?

Lamento de Lubin acerca disto.

12. A respeito deste mtodo, escreveu, com razo, o eminente Eilhard Lubin, doutor em 
Teologia e professor na Universidade de Rostock: O mtodo corrente
de educar as crianas nas escolas parece-me inteiramente como algo que algum, 
empregando todo o seu esforo e toda a sua capacidade, fosse encarregado
de pensar a maneira ou o mtodo com o qual os professores conduzissem e os alunos 
fossem conduzidos ao conhecimento da lngua latina apenas com imensas
fadigas, com enorme tdio e com infinitas penas, e apenas aps um longussimo espao de 
tempo.
     Quanto mais penso neste erro, ruminando no meu esprito atormentado, tanto mais 
sinto o corao apertar-se e arrepios percorrerem os meus ossos.
     E, logo a seguir, acrescenta: Enquanto, comigo mesmo, penso freqentemente nestas 
coisas, confesso que, mais de uma vez, fui levado a pensar e a crer
firmemente que estas coisas foram introduzidas nas escolas por um gnio maligno e 
invejoso, inimigo do gnero humano
[2].
Assim fala este mestre. De entre muitos outros testemunhos de pessoas de valor, quis citar 
apenas este.

E do autor.

13. Mas, afinal, que necessidade h de procurar testemunhos? Quantos de ns, terminados 
os estudos, saimos das escolas e das academias, apenas com umas
vagas tintas de uma verdadeira cultura! Eu prprio, msero homnculo, sou um desses 
muitos milhares que passaram e gastaram miseravelmente a amenssima
primavera da vida e os anos florescentes da juventude nas banalidades da escola. Ah! 
quantas vezes, mais tarde, quando comecei a ver as coisas um pouco
melhor, a recordao do tempo perdido me arrancou suspiros do peito, lgrimas dos olhos 
e gritos de dor do corao. Ah! quantas vezes essa dor me levou
a exclamar:
     oh! se Jpiter me voltasse a dar os anos passados!
[3].

Lamentos e votos para que as coisas mudem para melhor.

14. Mas estes desejos so vos, pois o dia que passa no voltar mais. Nenhum de ns, 
que estamos j carregados de anos, voltar a rejuvenescer de modo
a poder dar  vida uma nova direo e a preparar-se melhor para ela com a instruo. Para 
ns, j no h remdio. Resta-nos apenas uma coisa, uma s coisa
 possvel: que tudo aquilo que pudermos fazer em proveito dos nossos vindouros, o 
faamos, ou seja, demonstrado em que erros nos lanaram os nossos professores,
lhes mostremos o caminho de evitar esses erros. E isto se far no nome e sob a direo 
daquele que  o nico que pode enumerar os nossos defeitos e endireitar
as nossas idias tortas (Eclesiastes, I, 15).

Captulo XII

AS ESCOLAS
PODEM SER REFORMADAS

Devem aplicar-se remdios para tentar curar as doenas inveteradas?

1.  penoso e difcil, e considerado quase impossvel, curar as doenas inveteradas. 
Todavia, se algum encontra um remdio eficaz, acaso o doente rejeita-o?
Ou no deseja antes aplic-lo, o mais depressa possvel, principalmente se sente que o 
mdico  guiado, no por uma opinio temerria, mas por uma razo
slida? Eis-nos, por isso, chegados ao momento de, relativamente ao nosso ousado 
propsito, mostrar: primeiro, quais so as nossas promessas; segundo,
em que se fundamentam.

Que prope e promete agora o autor?

2. Prometemos uma organizao das escolas, atravs da qual:
I. Toda a juventude (exceto a quem Deus negou a inteligncia) seja formada.
II. Em todas aquelas coisas que podem tornar o homem sbio, probo e santo.
III. Que essa formao, enquanto preparao para a vida, esteja terminada antes da idade 
adulta.
IV. Que essa mesma formao se faa sem pancadas, sem violncias e sem qualquer 
constrangimento, com a mxima delicadeza, com a mxima doura e como que
espontaneamente. (Da mesma maneira que um corpo vivo cresce em estatura, sem que 
tenha necessidade de mover os seus membros nem para um lado nem para o
outro, pois basta que prudentemente seja alimentado, ajudado e exercitado, para que, por 
si, pouco a pouco, cresa em estatura e em robustez, quase sem
se aperceber disso, do mesmo modo, se se alimenta, ajuda e exercita o esprito 
prudentemente, essa interveno converte-se, por si mesma, em sabedoria,
em virtude e em piedade).
V. Que todos se formem com uma instruo no aparente, mas verdadeira, no superficial 
mas slida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, se habitue
a deixar-se guiar, no pela razo dos outros, mas pela sua, e no apenas a ler nos livros e a 
entender, ou ainda a reter e a recitar de cor as opinies
dos outros, mas a penetrar por si mesmo at ao mago das prprias coisas e a tirar delas 
conhecimentos genunos e utilidade. Quanto  solidez da moral
e da piedade, deve dizer-se o mesmo.
VI. Que essa formao no seja penosa, mas faclima, isto , no consagrando seno 
quatro horas por dia aos exerccios pblicos e de tal maneira que um
s professor seja suficiente para instruir, ao mesmo tempo, centenas de alunos, com um 
esforo dez vezes menor que aquele que atualmente costuma dispender-se
para ensinar cada um dos alunos.

Ilustra-se a atitude dos homens a respeito das novas invenes com o exemplo da mquina 
de Arquimedes,

3. Mas quem careditar nestas coisas antes de as ver?  bem sabido que, antes de qualquer 
inveno, todos os homens tm tendncia para se admirar, pensando
como essa inveno possa ser possvel; e, depois que foi inventada, admiram-se pensando 
como  que j o no fora h mais tempo. Quando Arquimedes prometeu
ao rei Hiero lanar ao mar, com uma s mo, um navio to grande que cem homens no 
podiam remover, foi recebido com um sorriso; mas, depois, viram com
admirao
[1].

e do novo mundo.

4. Nenhum rei, exceto o de Castela
[2],
quis dar ouvidos ou a menor ajuda a Colombo, que esperava descobrir novas ilhas a 
ocidente, para que tentasse a prova. A histria recorda que os prprios
companheiros de navegao, tomados de indignao e de desespero, estiveram prestes a 
lanar Colombo ao mar e a regressar sem haver realizado a empresa.
No entanto, foi descoberto aquele to vasto novo mundo, e agora todos se admiram como 
foi possvel que tivesse permanecido desconhecido durante tanto tempo.
Mas vem tambm a propsito a seguinte brincadeira feita pelo prprio Colombo: os 
espanhis, invejosos da glria adquirida por um italiano com a sua grande
descoberta, bombardearam-no, durante um banquete, com sarcasmos, e, entre outras 
coisas, disseram, em voz alta, para que ele ouvisse, que a descoberta
daquele hemisfrio tinha sido o resultado de um acaso, e no de um ato de bravura, e 
podia ter sido feita por qualquer outro. Ento, Colombo props este
interessante problema: Como  que um ovo de galinha pode manter-se sobre uma das 
extremidades sem qualquer apoio? Depois de todos os outros o terem tentado
em vo, ele, batendo levemente com o ovo no prato e quebrando um pouco a extremidade, 
conseguiu que o ovo se mantivesse direito. Todos se puseram ento
a rir e a gritar, dizendo que, assim, tambm eles eram capazes. Colombo respondeu: Com 
certeza, porque o viste fazer; mas porque  que nenhum o fez antes
de mim?

e da arte tipogrfica,

5. Creio que teria acontecido o mesmo se Joo Fausto, inventor da arte tipogrfica
[3],
tivesse comeado a divulgar que tinha descoberto a maneira de um s homem, em oito 
dias, escrever mais livros do que habitualmente escreveriam dez copistas
bem treinados, durante um ano inteiro; e que esses livros seriam escritos de uma maneira 
elegante e que todos os exemplares teriam exatamente a mesma forma
at  ltima vrgula, e que todos seriam corretssimos, desde que um s deles fosse 
correto, etc. Quem acreditaria nele? A quem no teriam parecido enigmas
estas afirmaes? Ou, ao menos, uma gabarolice v e intil? E eis, todavia, que agora at 
as crianas sabem que isso era verdade.

e da arte de bombardear,

6. Se Berthold Schwarz, inventor dos canhes de bronze
[4],
se voltasse para os frecheiros e lhes dissesse: Os vossos arcos, as vossas balistas, as 
vossas fundas valem pouco. Eu vos darei um engenho que, sem recorrer
 fora dos braos, apenas pela ao do fogo, no s atirar pedras e pedaos de ferro, mas 
lan-los- mais longe e atingir o alvo com maior certeza
e o destruir e abater mais depressa. Quem o no teria acolhido com uma grande risada? 
De tal modo  costume tomar as coisas novas e inusitadas por coisas
miraculosas e incrveis!

e da arte de escrever.

7.  certo que os ndios da Amrica no poderiam imaginar que era possvel um homem 
poder comunicar a outro homem os sentimentos da sua alma, sem falar,
sem enviar um mensageiro, mas apenas com a expedio de um pedacinho de papel; 
enquanto que, entre ns, at os mais estpidos o entendem. Por isso, por
toda a parte e em todos os casos, se pode dizer: as empresas outrora consideradas 
impossveis faro rir os sculos futuros.

Tambm a inveno de um mtodo perfeito est sujeita a crticas.

8. Que no vai acontecer de maneira diferente com este nosso novo invento, diz-no-lo 
uma voz interior. Mais ainda, sofremos j, em parte, o assalto da crtica.
Todos se admiraro e se indignaro de que haja pessoas que ousem lanar em rosto s 
escolas, aos livros e aos mtodos, aceites pelo uso, a sua imperfeio,
e propor um no sei qu de inslito e superior a toda a crena.

Como se deve obviar a estas crticas.

9. Ser-me-ia, na verdade, fcil afirmar que os resultados futuros provaro que a minha 
afirmao  absolutamente verdadeira (assim confio em Deus); mas,
como no escrevo estas coisas para o vulgo ignorante mas para pessoas instrudas, devo 
demonstrar que  possvel que toda a juventude seja introduzida
nas letras, na moral e na piedade, sem todo aquele enfado e dificuldade que, com o 
mtodo correntemente em uso, experimentam, por toda a parte, tanto os
professores como os alunos.

Fundamentos da demonstrao cientfica.

10. O fundamento nico, mas mais que suficiente, desta demonstrao, est no seguinte 
princpio: qualquer coisa, para onde se inclina por natureza, no
somente se deixa facilmente conduzir, mas at para l se dirige espontaneamente com 
verdadeira satisfao, de tal modo que sente mesmo dor, se disso 
impedida.

Explicao

11.  certo, com efeito, que, para que uma ave se habitue a voar, um peixe a nadar, uma 
fera a caminhar no  necessrio constrang-los; fazem-no logo que
sentem que os membros destinados a esses movimentos esto suficientemente 
desenvolvidos. Tambm no  necessrio constranger a gua para que corra pelas
encostas, ou o fogo para que queime, desde que haja combustvel e ar, ou uma pedra 
redonda para que role para baixo, ou uma pedra quadrada para que se
mantenha no seu lugar, ou os olhos ou o espelho, para que, havendo luz, recebam os 
objetos, ou a semente para que, ajudada pela humidade e pelo calor,
germine. Todo o ser tem possibilidade de fazer espontaneamente aquelas coisas para que 
foi destinado; ajudado, ainda que pouqussimo, f-las.

e aplicao.

12. Ora, uma vez que (como vimos no captulo V), em todos os homens (excetuamos os 
monstros de homens), existem, por natureza, as sementes da cincia, da
moral e da piedade, da se segue necessariamente que eles no precisam seno de um 
ligeirssimo estmulo e de uma direo inteligente.

Primeira objeo.

13. Mas objeta-se: no se faz um Mercrio com qualquer madeira
[5].
Respondo: mas de qualquer homem faz-se um homem, se a corrupo se mantm 
afastada.

Segunda objeo

14. , todavia, verdadeiro (replica outro) que as nossas capacidades interiores foram 
enfraquecidas com a primeira queda. Respondo: mas no foram extintas.
Tambm, na verdade, as foras do corpo esto muito enfraquecidas; todavia, sabemos 
reconduzi-las ao seu vigor natural com passeios, corridas e com os exerccio
das profisses manuais. Efetivamente, embora as duas primeiras criaturas, imediatamente 
aps terem sido criadas, pudessem andar, falar e raciocinar, e
ns, se primeiro no aprendemos pela prtica, no possamos nem andar, nem raciocinar, 
dai no se segue, todavia, que essas coisas no possam aprender-se
seno de modo confuso e penoso, e por caminhos incertos. Com efeito, se aprendemos 
sem grandes dificuldades a fazer aquilo que  prprio do corpo, a comer,
a beber, a caminhar, a saltar e a exercer profisses manuais, porque no havemos de 
aprender tambm as coisas que so prprias da mente, desde que no
falte a necessria instruo? Que hei-de acrescentar mais? Em alguns meses, o domador 
de cavalos ensina um cavalo a trotar, a saltar, a voltear e a regular
o movimento em conformidade com os sinais do chicote. Um vulgar charlato ensina um 
urso a fazer pantominas, uma lebre a tocar tambor, um co a conduzir
o arado, a lutar, a adivinhar, etc. Uma bruxa frvola ensina um papagaio, uma pega, um 
corvo, a imitar a voz humana ou certas melodias, etc.; e tudo isto,
embora no seja conforme  natureza, em pouco tempo. E no poder o homem ser 
facilmente educado naquelas coisas para as quais a natureza, no apenas o
chama e conduz, mas at o atrai e arrasta? Tenhamos vergonha de o afirmar, para que at 
mesmo os domesticadores de animais se no riam sarcasticamente
na nossa cara.

Terceira objeo.

15. Mas, replica-se ainda, a dificuldade intrnseca das coisas  tal que nem todos as 
entendem. Respondo: Que dificuldade  essa? Porventura haver na natureza
um objeto de cor to sombria que no possa refletir-se num espelho, desde que seja 
devidamente colocado diante dele quando h luz? Porventura haver alguma
coisa que no possa ser pintada numa tela, desde que a pinte quem conhea a arte da 
pintura? Porventura haver alguma semente ou raiz que a terra no receba
no seu seio e, com o seu calor, no faa germinar, desde que haja quem saiba onde, 
quando e como cada coisa deve ser plantada e semeada? Acrescentarei
ainda isto: no h no mundo um penhasco ou uma torre to alta que no possa ser 
escalada por quem quer que tenha ps, desde que a ela se encostem as escadas
necessrias, ou ento, talhando as rochas no lugar e com a ordem apropriada, nela se 
faam degraus, e, do lado dos precipcios perigosos, se ponham defesas.
Portanto, se to poucos chegam  sumidade do saber, embora muitos para l se 
encaminhem com nimo ardente e valoroso, e, se aqueles que chegam at certo
ponto, o no conseguem seno  custa de fadiga, de angstia, de cansao e de vertigens, 
tropeando e caindo muitas vezes, isso no quer dizer que para
a inteligncia humana haja qualquer cume inacessvel, mas que os degraus no esto bem 
dispostos e que so curtos, gastos e arruinados, ou seja, que o
mtodo  confuso. Subindo por degraus devidamente dispostos, nivelados, slidos e 
seguros, quemquer pode ser conduzido a qualquer altura.

Quarta objeo.

16. Objetar-se- ainda: h inteligncias to embotadas que  impossvel fazer penetrar 
nelas seja o que for. Respondo: dificilmente se encontra um espelho
to sujo que, de qualquer modo, no reflita as imagens; dificilmente se encontra uma 
tbua to grosseira na qual, de qualquer modo, se no possa escrever,
qualquer coisa. Mas, se o espelho est enodoado ou coberto de poeira, antes de tudo,  
necessrio limp-lo; se a tbua  grosseira,  necessrio poli-la.
Ento no recusaro o seu servio. Da mesma maneira, se os jovens forem aguados e 
polidos, estimular-se-o e limar-se-o uns aos outros, de modo que todos
acabem por entender tudo.
     Insisto firmemente na minha assero, porque  bem firme o seu fundamento. Notar-
se- apenas esta diferena: os de inteligncia mais lenta, quaisquer
que sejam os conhecimentos que tenham adquirido, tero a impresso de haver atingido o 
seu pleno grau de desenvolvimento, ao passo que os mais bem dotados,
estendendo o seu apetite de um objeto a outro, penetraro cada vez mais fundo nas coisas 
e faro tesouro de novas e utilissimas observaes acerca das
coisas. Finalmente, embora haja alguns espritos completamente inaptos para a cultura, 
como um pedao de madeira absolutamente imprprio para esculpir,
todavia, a nossa assero ser sempre verdadeira acerca das inteligncias mdias, de que, 
por graa de Deus, h sempre uma produo riqussima.  fcil
de ver, com efeito, que os dbeis mentais so to raros como aqueles que, por natureza, 
so defeituosos do corpo. Efetivamente,  certo que a cegueira,
a surdez, o ser coxo e a debilidade de sade raramente so congnitas ao homem, mas 
contraem-se por culpa nossa; o mesmo acontece com a fraqueza intelectual.

Quinta objeo.

17. Faz-se ainda esta objeo: a alguns no falta a aptido para os estudos, mas a vontade; 
e obrig-los a estudar contra a vontade , ao mesmo tempo, enfadonho
e intil. Respondo: precisamente por isso, se conta que um filsofo, tendo dois alunos, um 
estpido e outro insolente, os mandou ambos embora, porque um,
embora quisesse, no podia aproveitar, e o outro, embora pudesse, no queria
[6].
E se se demonstrar que a causa do desgosto pelo estudo so os prprios professores? 
Aristteles afirmou que o desejo de saber  inato no homem
[7]
e, que assim , vimo-lo no captulo quinto e, ainda h pouco, no captulo dcimo primeiro
[8].
Mas porque, por vezes, a excessiva indulgncia dos pais deprava nos filhos o apetite 
natural, porque, por vezes, a petulncia dos companheiros os atrai
para a parte frvola das coisas, porque, outras vezes, as prprias crianas, por causa das 
ocupaes cvicas ou ulicas, ou ainda pela viso de quaisquer
coisas externas, so afastadas das atraes inatas do esprito; daqui resulta que nenhum 
desejo tm de conhecer o desconhecido
[9],
nem possam recolher-se facilmente. (Com efeito, da mesma maneira que a lngua, 
embebida por um sabor, no aprecia bem outro, assim tambm a mente, ocupada
de um lado, no atende suficientemente ao que lhe  oferecido do outro lado). Portanto, 
em primeiro lugar,  necessrio expulsar desses jovens aquele torpor
adventcio, e reconduzir a natureza ao seu vigor prprio; regressar, ento, com certeza, o 
apetite de saber. Mas quantos daqueles que assumem o encargo
de formar a juventude pensam em torn-la primeiro apta para receber essa formao? 
Efetivamente, assim como o torneiro, antes de tornear um pedao de madeira,
o desbasta com o machado; e o ferreiro, antes de bater o ferro, o aquece; e o fabricante de 
tecidos, antes de fiar, urdir e tecer a l, purga-a, lava-a
e carda-a; e o sapateiro, antes de coser os sapatos, trabalha o couro, estica-o e pole-o 
muito bem; assim tambm o professor, antes de se pr a instruir
o aluno  fora de regras, deve primeiro torn-lo vido de cultura, mais ainda, apto para a 
cultura e, conseqentemente, pronto a entregar-se a ela com
entusiasmo. Mas quem alguma vez pensou nisso? Quase sempre, o professor toma o aluno 
tal qual o encontra, e comea logo a torne-lo, a bat-lo, a card-lo,
a tec-lo, a model-lo a seu modo, pretendendo que ele se torne imediatamente uma 
beleza, uma jia; e, se o no consegue logo (e como seria possvel consegui-lo?),
enche-se de ira, indigna-se, enfurece-se. E havemos de admirar-nos que haja quem 
critique e fuja de semelhante mtodo de educao? Devemos antes admirar-nos
que haja ainda quem se entregue a tais educadores.

Seis espcies de inteligncias.

18. Eis que se nos oferece a ocasio para fazer algumas advertncias acerca das diferenas 
das inteligncias: umas so penetrantes e outras obtusas, umas
so maleveis e dceis, e outras duras e obstinadas; umas so, de si mesmas, inclinadas 
para as letras, e outras deleitam-se em ocupaes mecnicas. Destes
trs grupos de dois, resulta que h seis espcies de inteligncias.

I

19. Ocupam o primeiro lugar as inteligncias penetrantes, vidas de saber e fceis de 
dirigir, que so as mais aptas de todas para os estudos; no sendo
seno necessrio ministrar-lhes o alimento da sabedoria, desenvolvem-se por si, como 
plantas de boa qualidade.  necessrio apenas usar de prudncia, no
se lhes permitindo que andem exageradamente depressa, para que no acontea que 
definhem e se tornem prematuramente estreis.

II

20. Outras so penetrantes mas lentas, sendo, todavia, dceis. Estas precisam apenas de 
ser estimuladas.

III

21. Ocupam o terceiro lugar as inteligncias penetrantes e vidas de saber, mas 
indomveis e obstinadas. Estas so geralmente detestadas nas escolas e consideradas
como se nada houvesse a esperar delas. Todavia, costumam tornar-se homens de valor, se 
so bem orientadas. A histria oferece-nos um exemplo em Temstocles,
grande chefe dos Atenienses: em adolescente, era de carter to altivo que o seu mestre 
lhe disse: Meu rapaz, no virs a ser nada de medocre: ou sers
um grande bem para a ptria, ou um grande mal
[10].
E quando, mais tarde, algum mostrava estranheza pela transformao operada na sua 
maneira de ser, ele costumava dizer: Os poldros selvagens tornam-se
os melhores cavalos, se so devidamente disciplinados
[11].
O que, efetivamente, se verificou no Bucfalo de Alexandre Magno. Vendo Alexandre 
que seu pai, Filipe, queria desfazer-se, como de coisa intil, de um cavalo
que, porque demasiado selvagem, no suportava que ningum o montasse, exclamou: 
Que cavalo perdem estes que, por impercia, se no sabem servir dele!
E tratando o cavalo com arte admirvel, sem lhe dar aoites, conseguiu, no s nessa 
altura, mas durante a vida, fazer-se transportar por ele, no sendo
possvel encontrar em todo o mundo um cavalo mais generoso que aquele e mais digno de 
to grande heri. Plutarco, depois de contar esta histria, arcescenta:
Aquele cavalo adverte-nos de que muitas inteligncias, nascidas bem, definham por 
culpa dos educadores, que transformam cavalos em asnos, porque no sabem
educar jovens ardorosos e livres
[12].

IV

22. Ocupam o quarto lugar as inteligncias dceis e, ao mesmo tempo, vidas de saber, 
mas lentas e obtusas. Estas podem seguir as pegadas das que vo 
frente, mas, para que o consigam, deve condescender-se com a sua fraqueza, nada lhes 
impondo violentamente, nada lhes exigindo severamente, mas antes,
e em tudo, tolerando-as, ajudando-as, animando-as, estimulando-as, com benignidade, 
para que no desanimem. Embora estas cheguem  meta mais tarde, o resultado
, todavia, de mais longa durao, como costuma acontecer com os frutos serdios. Assim 
como  mais difcil imprimir um selo no chumbo mas, uma vez impresso,
dura mais tempo, assim tambm, muitas vezes, estas inteligncias conservam os 
conhecimentos durante mais tempo que as outras, e as coisas por elas observadas,
ainda que uma s vez, no se lhes escapam to facilmente. No devem, por isso, ser 
afastadas das escolas.

V

23. O quinto lugar  ocupado por alguns de inteligncia obtusa e, alm disso, lentos e 
preguiosos. Estes, a no ser que uma invencvel obstinao a isso
se oponha, podem ainda corrigir-se, mas  necessrio muita prudncia e muita pacincia.

VI

24. Ocupam o ltimo lugar os de inteligncia dbil e, ao mesmo tempo, da natureza 
torcida e malgna; na sua maioria  gente perdida. Mas porque  certo
que, para toda a espcie de males, se pode encontrar na natureza um antdoto
[13],
e que as rvores estreis por natureza se podem tornar frutferas por uma plantao 
conveniente, no deve desesperar-se de todo, mas ver se, ao menos a
obstinao pode ser vencida e removida. Se isso no for possvel, dever ento pr-se de 
lado esse pedao de madeira torcida e nodosa, com a qual em vo
se esperar construir um Mercrio. No convm cultivar nem regar a terra arenosa, 
disse Cato
[14].
No entanto, destas inteligncias to degeneradas, apenas se encontrar uma em mil, o que 
 uma prova insgne da benignidade de Deus.

25. O resumo do que foi dito encontra-se na seguinte sentena de Plutarco: No est nas 
mos de ningum que os seus filhos nasam com estas ou aquelas
qualidades; mas, que se tornem bons por meio de uma boa educao, est em nosso 
poder
[15].
Eis o que ele diz: est em nosso poder. Efetivamente,  certo que, de qualquer 
mergulho, o agricultor consegue fazer uma rvore, utilizando a mesma arte
em toda a plantao.

Que, todavia, todas as inteligncias se podem tratar com a mesma arte e com o mesmo 
mtodo, demonstra-se de quatro maneiras:

26. Que seja possvel instruir, educar e formar todos os jovens, de ndole to diversa, com 
um s e o mesmo mtodo, demonstram-no estas quatro razes:

I.

27. Primeira: todos os homens devem ser dirigidos para os mesmos fins  a sabedoria, a 
moral e a perfeio.

II.

28. Segunda: embora dotados de inteligncias diversas, todos os homens tm a mesma 
natureza humana, dotada dos mesmos rgos.

III.

29. Terceira: a diversidade das inteligncias no  seno um excesso ou uma deficincia 
da harmonia natural, do mesmo modo que as doenas do corpo so devidas
a um excesso de humidade ou de secura, de calor ou de frio. Por exemplo: que  a 
acuidade da inteligncia seno a sutileza e a agilidade dos espritos
animais no crebro, correndo rapidamente atravs dos nervos sensitivos e penetrando nas 
coisas? Se esta agilidade no for de qualquer modo coibida, pode
acontecer que o esprito se disperse, ficando o crebro enfraquecido ou embrutecido; por 
isso, vemos que muitas inteligncias precoces, ou so surpreendidas
por uma morte prematura ou se embotam. Ao contrrio, que  a obtusidade da inteligncia 
seno a viscosa gordura e obscuridade dos espritos no crebro,
a qual  necessrio dispersar e aclarar por uma agitao mais freqente? Que  a 
petulncia e a altivez seno uma excessiva firmeza do corao, jamais
disposto a ceder? Esta deve ser tornada flexvel por meio da disciplina. Finalmente, que  
a preguia seno uma excessiva moleza do corao que necessita
de energia? Por isso, da mesma maneira que, para o corpo, o remdio mais eficaz no  
aquele que junta contrrios a contrrios (pois assim provoca-se uma
luta mais violenta), mas aquele que procura a harmonia dos contrrios, de modo a 
suprimir toda a deficincia e todo o excesso; assim tambm, contra os
defeitos da mente humana, o remdio mais adaptado  o mtodo que, pondo em equilbrio 
os excessos e as insuficincias das inteligncias, reduz tudo a uma
espcie de harmonia e de suave concerto. Segundo este critrio, o nosso mtodo encontra-
se adaptado s inteligncias mdias (das quais h sempre muitssimas),
de tal maneira que nem faltem os freios para moderar as inteligncias mais suts (para que 
no enfraqueam prematuramente), nem o acicate e o estimulo
para incitar os mais lentos.

IV.

30. Por fim, digo que o melhor momento para remediar as deficincias e os excessos das 
inteligncias,  quando elas so novas. Com efeito, assim como, no
exrcito, os recrutas se misturam com os veteranos, os dbeis com os robustos, os 
indolentes com os valorosos, e so levados a combater sob as mesmas bandeiras,
e dirigidos pelos mesmos comandos durante todo o tempo que dura a batalha, mas, obtida 
finalmente a vitria, cada um persegue o inimigo enquanto quer e
enquanto pode, pilhando  sua vontade; assim tambm, no exrcito escolar, convm 
proceder de modo que os mais lentos se misturem com os mais velozes, os
mais estpidos com os mais sagazes, os mais duros com os mais dceis, e sejam guiados 
com as mesmas regras e com os mesmos exemplos, durante todo o tempo
em que tm necessidade de ser guiados. Depois de terem deixado as escolas, cada um 
prosseguir os estudos, com o ardor de que for capaz.

Qual a prudncia de que deve usar-se ao misturar inteligncias de capacidades diversas.

31. Entendo aquela mistura, no apenas em relao ao lugar, mas, muito mais, em 
relao ao auxlio, de tal maneira que, quando o professor encontra um
aluno mais inteligente, deve confiar-lhe dois ou trs dos mais lentos para que os instrua, e 
quando descobre um outro de boa ndole deve confiar-lhe outros
de temperamento mais fraco, para que os vigie e dirija. Assim, aproveitaro uns e outros, 
sobretudo se o professor estiver atento a que tudo proceda segundo
as normas da razo. Mas j  tempo de, finalmente, comearmos a explicar o nosso tema.

Captulo XIII

O FUNDAMENTO
DA REFORMA DAS ESCOLAS
 A ORDEM EXATA
EM TUDO

A ordem  a alma das coisas.

1. Se procurarmos que  que conserva no seu ser o universo, juntamente com todas as 
coisas particulares, verificamos que no  seno a ordem, a qual  a
disposio das coisas anteriores e posteriores, maiores e menores, semelhantes e 
dissemelhantes, consoante o lugar, o tempo, o nmero, as dimenses e o
peso devido e conveniente a cada uma delas. Por isso, algum disse, com elegncia e 
verdade, que a ordem  a alma das coisas. Com efeito, tudo aquilo que
 ordenado, durante todo o tempo em que conserva a ordem, conserva o seu estado e a sua 
integridade; se se afasta da ordem, debilita-se, vacila, cambaleia
e cai. O que  evidente por toda a espcie de exemplos tirados de toda a natureza e da arte.

Ilustra-se esta verdade com exemplos tirados:
1. do mundo.

2. Efetivamente, que  que faz com que o mundo seja o mundo e se mantenha na sua 
plenitude? Sem dvida, o fato de que cada criatura, segundo a prescrio
da natureza, permanece escrupulosamente dentro dos seus prprios limites; esta 
manuteno da ordem particular conserva a ordem do universo.

2. do firmamento.

3. Que  que faz correr, de modo to ordenado e sem qualquer confuso, de sculo em 
sculo, o tempo dividido, com tanta preciso, em anos, meses e dias?
Unicamente a ordem imutvel do firmamento.

3. de animaizinhos que trabalham com exatido e preciso singular.

4. Que  que faz com que as abelhas, as formigas e as aranhas executem trabalhos to 
exatos e precisos, que a inteligncia do homem neles encontra matria
mais para admirar que para imitar? Nada mais que a sua habilidade inata para observar, 
em todos os seus atos, a ordem, o nmero e a medida.

4. do corpo humano.

5. Que  que faz com que o corpo humano seja um organismo to maravilhoso, que pode 
realizar um nmero de aes quase infinito, embora no seja dotado de
instrumentos infinitos? Ou seja, porque  que, com o nmero reduzido de membros que o 
compem, pode realizar trabalhos de to maravilhosa variedade, no
tendo motivos para desejar outros nem para ser diferente do que ? Isso resulta, sem 
dvida, da sbia proporo de todos os membros, tanto em si mesmos,
como na relao de uns para com os outros.

5. da nossa mente.

6. Que  que faz com que um s esprito, infundido no corpo, baste para governar todo o 
corpo e, ao mesmo tempo, para realizar tantas aes? Nada mais que
a ordem, em virtude da qual todos os membros esto unidos por vnculos perptuos e se 
deixam mover em todas as direes a um sinal do primeiro movimento,
que provm da mente.

6. de um reino sabiamente administrado.

7. Que  que faz com que um s homem, rei ou imperador, possa governar povos inteiros? 
De tal maneira que, embora as opinies sejam tantas quantas as cabeas,
todavia, todos seguem a vontade desse nico homem, e, se esse homem faz andar bem a 
administrao, necessariamente tudo anda bem? Nada mais que a ordem,
em virtude da qual todos, ligados pelos vnculos da lei e da obedincia, esto sujeitos a 
esse sumo moderador do Estado, dependendo alguns dele imediatamente,
e outros de cada um destes, e assim sucessivamente uns dos outros, at ao ltimo. 
Exatamente como os anis de uma cadeia que, estando ligados uns aos outros,
se se move o primeiro, movem-se todos e, se o primeiro est parado, esto todos parados.

7. da mquina de Arquimedes.

8. Que  que permitiu que Hiero, sozinho, pudesse lanar ao mar uma mole to grande 
que tantas centenas de homens haviam tentado em vo mover?
[1]/
Apenas uma pequena mquina, construda segundo as regras da arte e munida de 
numerosos cilindros, roldanas e cordas, combinadas de tal maneira que, uma
pea ajudando a outra, as foras fossem multiplicadas.

8. dos canhes.

9. Os terrveis efeitos dos canhes, com os quais se destroiem muros, se abatem torres e se 
desbaratam exrcitos, no provm seno de uma ordem determinada
dos maquinismos e da aplicao de substncias ativas a substncias passivas, ou seja, de 
uma dose exata de nitrato misturado com enxofre (uma substncia
muito fria com uma substncia muito quente), da devida proporo da bomba, da 
suficiente quantidade de plvora, da boa estrutura das balas e, finalmente,
da boa direo dos tiros. Se falta uma s destas coisas, todo o aparelho se torna intil.

9. da arte tipogrfica.

10. Que  que torna to perfeita a arte tipogrfica, pela qual os livros so multiplicados 
rapidamente, elegantemente, corretamente? Sem dvida, a ordem
observada na boa fabricao, fundio e acabamento dos tipos metlicos das letras, na sua 
distribuio nos caixotins, na sua disposio em pginas, na
sua colocao sob o prelo, etc., na preparao, corte e dobragem do papel, etc.

10. do carro.

11. E, para que aborde tambm o domnio das artes mecnicas, pergunto: que  que faz 
com que um carro, ou seja, a madeira e o ferro (efetivamente, ele 
composto destas duas matrias) v to veloz atrs dos cavalos que correm  frente e sirva 
to bem para transportar homens e coisas pesadas? Nada mais que
a coordenao da madeira e do ferro, transformados, segundo as regras da arte, em rodas, 
eixos, times, atrelagens, etc. Com efeito, se uma s destas peas
se despedaa ou se quebra, a mquina j no serve para nada.

11. do navio.

12. Que  que faz com que os homens subam para um pedao de madeira e, confiando-se 
ao mar furioso, se aventurem at aos antpodas, e regressem sos e salvos?
Nada mais que a coordenao da quilha, dos mastros, das antenas, das velas, dos remos, 
do leme, da ncora, da bssola e dos restantes instrumentos do navio.
Se algum deles vier a perder-se, h perigo de balanos, de naufrgio e de morte.

12. do relgio.

13. Qual, enfim, a razo por que no relgio, instrumento que mede o tempo, o metal, 
trabalhado e ligado de vrias maneiras, produz movimentos espontneos
e assim marca harmonicamente os minutos, as horas, os dias, os meses, e at talvez os 
anos, e no s nos permite ver, mas at nos permite ouvir, mesmo
de longe e s escuras, que horas so? Qual a razo por que este instrumento desperta o 
homem  hora que ele quer e at acende a luz de tal maneira que,
ao acordarmos, vemos imediatamente o quarto iluminado? Qual a razo por que o relgio 
nos permite ver sucessivamenta tambm o calendrio poltico, religioso
e domstico, as fases da lua, o curso dos planetas e os eclipses? Que coisa haver digna de 
admirao, se dela no  digno este relgio? Acaso o metal,
substncia, de sua natureza, inanimada, produz movimentos to vivos, to constantes, to 
regulares? Antes de ser inventado, no teria sido considerado
uma coisa to impossvel, como se algum tivesse afirmado que as plantas e as pedras 
podiam caminhar? No entanto, os olhos atestam que ele  uma coisa
real.

Todo o mistrio do relgio consiste na ordem.

14. Mas que fora oculta anima o relgio? Nenhuma outra seno a fora da ordem que 
manifestamente reina em todas as suas partes, ou seja, a fora proveniente
da disposio de todas as suas peas, que concorrem com o seu nmero, as suas 
dimenses e a sua ordem para tornar aquela disposio tal que cada pea tem
um papel determinado e meios para o desempenhar, ou seja, a proporo exata de cada 
pea com as outras, a harmonia de cada uma com as que lhe esto em
relao e leis mtuas para comunicar reciprocamente a fora umas s outras. Assim, tudo 
se passa exatamente como num corpo vivo, posto em movimento pelo
prprio esprito. Se, todavia, qualquer pea se estilhaa, ou se parte, ou anda mal, ou 
comea a estar bamba, ou se torce, ainda que seja a rodinha mais
pequena, o eixo mais pequeno, o parafuso mais pequeno, imediatamente todo o relgio 
pra ou anda mal. Deste modo se torna evidente que tudo depende apenas
da ordem.

Espera encontrar-se uma forma de escolas semelhantes ao relgio.

15. A arte de ensinar nada mais exige, portanto, que uma habilidosa repartio do tempo, 
das matrias e do mtodo. Se a conseguirmos estabelecer com exatido,
no ser mais difcil ensinar tudo  juventude escolar, por mais numerosa que ela seja, que 
imprimir, com letra elegantssima, em mquinas tipogrficas,
mil folhas por dia, ou remover, com a mquina de Arquimedes
[2],
casas, torres ou qualquer outra espcie de pesos, ou atravessar num navio o oceano e 
atingir o novo mundo. E tudo andar com no menor prontido que um
relgio posto em movimento regular pelos seus pesos. E to suave e agradavelmente 
como  suave e agradvel o andamento de um tal autmato. E, finalmente,
com tanta certeza quanta pode obter-se de qualquer instrumento semelhante, construdo 
segundo as regras da arte.

Concluso.

16. Procuremos, portanto, em nome do Altssimo, dar s escolas uma organizao tal que 
corresponda, em todos os pontos,  de um relgio, construdo segundo
as regras da arte e elegantemente ornado de cinzeladuras variadas.

Captulo XIV

A ORDEM
APRIMORADA DAS ESCOLAS
DEVE IR BUSCAR-SE
 NATUREZA
E SER TAL
QUE NENHUNS OBSTCULOS
A POSSAM ENTRAVAR

Os fundamentos da Arte devem ser procurados na natureza.

1. Comecemos, em nome de Deus, por sondar os fundamentos sobre os quais, como sobre 
uma rocha imvel, possa edificar-se o mtodo de ensinar e de aprender.
Os remdios contra os defeitos da natureza no devem procurar-se seno na natureza; mas 
se este princpio  verdadeiro, como efetivamente , a arte nada
pode fazer, a no ser imitando a natureza
[1].

A natureza fornece-nos modelos do que deve fazer-se:
1. do nadar

2. Torne-se claro este assunto por meio de exemplos. V-se um peixe nadar na gua? Para 
o peixe,  uma coisa natural. Se o homem o quiser imitar, ter necessariamente
que recorrer a instrumentos e a movimentos semelhantes, ou seja, em vez das barbatanas 
deve estender os braos, e em vez da cauda, os ps, e mov-los do
mesmo modo que o peixe move as suas barbatanas. At mesmo os navios no podem 
construir-se seno sobre este modelo: em vez das barbatanas, esto os remos
ou as velas, e em vez da cauda, est o leme. V-se uma ave voar? Para ela,  uma coisa 
natural. Mas, quando Ddalo quis imit-la, teve de munir-se de duas
asas, capazes de sustentar um corpo to pesado como o seu.

4. do produzir sons

3. O rgo com o qual os animais produzem o som  a traquia, que  composta de anis 
cartilaginosos, e tem no seu vrtice a laringe, encarregada de fechar
a boca, e, na base,  munida de um fole, o pulmo, que pe a respirao em movimento.  
sua imitao, constroiem-se as trombetas, as gaitas de foles e
todos os outros instrumentos de sopro.

5. do relampejar

4. Compreendeu-se que a substncia que desencadeia das nuvens um fragor e arremessa 
fogo e pedras  nitrato inflamado e enxofre; por isso,  sua imitao,
com enxofre e nitrato, fabrica-se a plvora prica que, inflamando-se e saindo para fora 
dos canhes, produz algo de semelhante aos troves, aos relmpagos
e aos raios.

6. do conduzir a gua para qualquer lugar.

5. Observou-se que a gua tende a nivelar-se, mesmo em dois vasos comunicantes to 
afastados um do outro lugar quanto se queira. Experimentou-se ento fazer
aquedutos com canos, e viu-se que a gua, seja de que profundidade for, sobe a qualquer 
altura, desde que desa de um lado tanto como sobe do outro. Este
fato  artificial, mas  tambm natural, pois, que acontea desta ou daquela maneira, deve-
se  arte, mas que acontea deve-se  natureza.

7. do medir o tempo

6. Observou-se o firmamento e verificou-se que havia um movimento perptuo e que as 
vrias revolues dos astros produziam a variedade das estaes que
convm ao nosso universo. Em conseqncia disso,  sua imitao, inventou-se um 
instrumento capaz de reproduzir exatamente o movimento rotatrio dirio
do firmamento e de medir as horas. E esse instrumento  composto de pequenas rodas, 
no somente para que uma seja arrastada pela outra, mas tambm para
que o movimento possa continuar indefinidamente. Mas foi necessrio compor este 
instrumento de peas mveis e de peas imveis, precisamente como o mundo.

Anlise do relgio para compreender bem toda a estrutura.

Na verdade, no nosso instrumento, no lugar da terra, primeiro corpo fixo do mundo, so 
postas bases imveis, colunas, guarnies, e no lugar das esferas
mveis, do cu, as vrias rodinhas. Mas como no se podia dar a uma roda a tarefa de 
girar sobre si mesma e de fazer girar, juntamente consigo, as outras
(como o Criador deu aos astros a fora de se moverem a si mesmos e de fazerem mover 
outros, juntamente consigo), foi necessrio tomar emprestada da natureza
a fora geradora do movimento, ou seja, o movimento gerado ou pela gravidade ou pela 
liberdade. Com efeito, ou se prende um peso ao eixo cilndrico da
roda mestra e, enquanto o peso puxa para baixo, o eixo cilndrico gira e faz girar a sua 
roda, e esta faz girar, juntamente consigo, outras, e assim sucessivamente;
ou se faz uma longa mola de ao que, constrangida a volver em redor de um eixo 
cilndrico, enquanto se esfora por regressar  liberdade e por se estender,
faz girar o eixo cilndrico e a sua roda. E para que o movimento do relgio no seja 
excessivamente rpido, mas lento como o do cu, encaixam-se outras
rodinhas de modo que a ltima, aquela que, movida apenas por dois dentinhos, vai para a 
frente e para trs e faz tic-tac, tic-tac, representa o revezar-se
da luz, que vai e vem, ou seja, o revezar-se dos dias e das noites. quela parte, porm, que 
deve dar o sinal da hora, ou do quarto de hora, ligam-se aparelhos,
feitos segundo as regras da arte, que servem para aumentar ou diminuir o movimento, 
consoante a necessidade, precisamente do mesmo modo que a natureza,
mediante o movimento das esferas celestes, faz surgir ou desaparecer o inverno, a 
primavera, o vero e o outono, cada um deles dividido em meses.

Concluso acerca da imitao dos fatos naturais na arte didtica.

7. De tudo isto,  evidente que a ordem, que desejamos seja a regra universal perfeita na 
arte de tudo ensinar e de tudo aprender, no deve ser procurada
e no pode ser encontrada seno na escola da natureza. Com base slida neste princpio, 
as coisas artificiais procedero to facilmente e to espontaneamente
como facilmente e espontaneamente fluem as coisas naturais. Com efeito, Cicero 
escreveu: Se seguirmos a natureza por guia, nunca erraremos. E acrescenta:
Sob a direo da natureza, de modo algum pode errar-se
[2].
Temos precisamente essa esperana, e, por isso, pondo em ao os mesmos processos que 
a natureza pe em ao, ao realizar esta ou aquela tarefa, prosseguiremos
de modo igual a ela.

Objeta-se com cinco obstculos.

8. Poderia, no entanto, opor-se a esta nossa grande esperana o aforismo de Hipcrates:

isto , A vida  breve e a arte  longa; os momentos oportunos passam depressa, as 
experincias no so muito seguras e o juzo acerca dos fatos  difcil
[3].
Neste aforismo, so indicados cinco obstculos por causa dos quais poucos conseguem 
chegar  sumidade do saber: I. A brevidade da vida que faz com que,
a maioria das vezes, sejamos tirados deste mundo precisamente quando nos preparamos 
para viver; II. A imensa multido das coisas que devem ser objeto do
nosso conhecimento, que faz com que, a querermos introduzir tudo dentro dos limites do 
nosso entendimento, no terminemos mais; III. A falta de tempo oportuno
para aprender as artes e as cincias, e, se alguma vez surge, logo desaparece. 
(Efetivamente, os anos da juventude, que so os mais preciosos para a cultura
do esprito, passam-se, a maioria das vezes, em divertimentos, e a idade que vem a seguir, 
dado como a vida est hoje organizada, freqentemente fornece
mais ocasio para coisas frvolas que para coisas srias; e se, por vezes, se apresenta 
alguma ocasio favorvel, passa antes que dela se aproveite)
[4].
IV. A fraqueza do nosso engenho e a obscuridade do nosso juzo que fazem com que, 
muitas vezes, fiquemos na casca e no penetremos at ao mago das coisas.
V. Finalmente, se algum, por meio de longas observaes e de repetidas experincias, 
quer penetrar nas verdadeiras essncias das coisas, v-se perante
um trabalho muito penoso e, ao mesmo tempo, de xito mal seguro e incerto. (Com efeito, 
na multiplicidade to intrincada das coisas, facilmente muitssimos
fatos podem escapar at  investigao de observador mais sutl; se se comete ainda que 
seja um s erro, toda a observao fica envolta na incerteza).

Responde-se:
Que Deus, com sbio conselho, assim ordenou.

9. Se todas estas coisas so verdadeiras, como  que ns ousamos prometer um mtodo de 
estudos to universal, to certo, to fcil e to seguro? Respondo:
que estas coisas so absolutamente verdadeiras, mostra-o a experincia; mas que, para 
estas coisas, h remdios eficacssimos, mostra-o tambm a experincia.
Efetivamente, aqueles obstculos foram criados pelo sapientssimo rbitro das coisas, por 
Deus, mas para nosso bem; podem, portanto, prudentemente, converter-se
em bem. Deus deu-nos, efetivamente, uma vida de breve durao, porque, na presente 
corrupo, j no sabemos fazer bom uso da vida. Com efeito, se, mesmo
agora que morremos quase no instante em que nascemos, e o fim se anuncia desde o 
momento em que temos origem
[5],
nos perdemos atrs de frivolidades, que aconteceria se tivssemos a certeza de viver 
centenas ou milhares de anos?

I

Deus quis, por isso, conceder-nos apenas o tempo que considerou suficiente para nos 
prepararmos para uma vida melhor. Para este efeito, portanto, a vida
 suficientemente longa, se a soubermos utilizar.

II.

10. Deus quis que as coisas fossem muitas, tambm para utilidade nossa, isto , para nos 
servirem de ocupao, de exerccio e de instruo.

III.

11. Quis que as ocasies fossem fugazes para que, apercebendo-nos disso, nos 
esforssemos por agarr-las, onde as pudssemos agarrar.

IV.

12. Quis que as experincias fossem falazes, para que aprendssemos a estar atentos e 
vssemos a necessidade de entrar bem a fundo nas coisas.

V.

13. Quis, enfim, que emitir juzo acerca das coisas fosse difcil, para que se trabalhasse 
com maior empenho e com mais forte esprito de iniciativa. E
quis que assim fosse, para que a sabedoria de Deus, espalhada de maneira oculta por toda 
a parte, se tornasse mais manifesta com maior prazer nosso. Efetivamente,
diz Santo Agostinho, se se entendesse tudo facilmente, nem a verdade seria procurada 
com paixo, nem encontrada com doura.

Estes obstculos podem prudentemente ser afastados.

14. Importa, portanto, ver de que modo, com a ajuda de Deus, se podem afastar os 
obstculos que a divina Providncia nos ops extrinsecamente, para aumentar
a nossa aplicao. Nao podero afastar-se seno:
I. Prolongado a vida, de modo que chegue para a carreira que nos foi destinada;
II. Abreviando os estudos, de modo que correspondam  durao da vida;
III. Aproveitando as ocasies, de modo que no surjam inutilmente;
IV. Despertando os engenhos, de modo que facilmente penetrem no mago das coisas;
V. Colocando no lugar das observaes vagas um fundamento estvel e seguro.

Ordem dos captulos seguintes.

15. Comecemos, portanto, a tratar estas questes, para que, com a ajuda das indicaes 
fornecidas pela natureza, descobramos os fundamentos:

 para prolongar a vida, a fim de que se aprenda tudo o que  necessrio;
 para abreviar os estudos, a fim de que se aprenda mais rapidamente;
 para aproveitar as ocasies, a fim de que se aprenda realmente;
 para despertar os engenhos, a fim de que se aprenda facilmente;
 para aguar o juzo, a fim de que se aprenda solidamente.

     Trataremos estas cinco questes em cinco captulos, colocando, todavia, em ltimo 
lugar, o modo de abreviar os estudos.

Captulo XV

FUNDAMENTOS
PARA
PROLONGAR A VIDA

Ao homem  concedida uma vida suficientemente longa.

1. Aristteles
[1]
e Hipcrates
[2]
lamentam-se da brevidade da vida e censuram a natureza por haver destinado uma 
durao to curta  existncia do homem, que  chamado a to altos destinos,
enquanto que concedeu maior longevidade aos veados, aos corvos e a outros animais. Mas 
Sneca responde sabiamente: No recebemos uma vida breve, mas tornamo-la
breve; nem temos menos que o necessrio de vida, mas desperdiamo-la. Se se souber 
fazer bom uso da vida ela  longa. E acrescenta: Foi-nos concedida
numa vida suficientemente longa e suficientemente ampla para conduzir a bom termo as 
coisas mais importantes, desde que seja toda ela bem empregue (Da
brevidade da vida, cap. I e II).

Mas  por ns abreviada.

2. Se isto  verdade, como efetivamente , ento  por culpa nossa que a vida no chega 
nem sequer para esclarecer os assuntos da mais alta importncia.
E no devemos admirar-nos com isto, pois ns prprios a gastamos perdulariamente, em 
parte porque nos entregamos  violncia, de modo que necessariamente
a vida se extingue antes do seu termo natural; e em parte, porque gastamos os retalhos de 
tempo em coisas inteis.

quer debilitando-lhe as foras,

3. Um escritor notvel (Hiplito Guarino) escreve e demonstra com argumentos que, 
mesmo o homem de mais delicada constituio, se vem  luz sem defeitos,
tem em si tanta fora vital que lhe basta naturalmente at aos sessenta anos, e aquele que  
de constituio fortssima, at aos cento e vinte anos. Se
alguns morrem antes destes limites (e quem ignora que muitos morrem na infncia, na 
juventude e na idade viril?),  por culpa dos homens que, cometendo
excessos vrios ou no tendo em considerao as reservas da vida, arruinam tanto a sua 
prpria sade como a dos filhos, que acaso venham a gerar, e apressam
a morte
[3].

quer no a gastando toda em empreendimentos de valor, como fizeram: Alexandre 
Magno,

4. Alm disso, que, num exguo espao de vida (por exemplo, 50, 40, 30 anos),  possvel 
realizar coisas muito importantes, desde que se saiba fazer bom
uso do tempo, prova-o o exemplo daqueles que, antes de terem atingido os anos da 
virilidade, chegaram onde outros nem sequer tentaram chegar, embora tivessem
tido uma vida longussima. Alexandre Magno morreu aos trinta e trs anos, e no s 
possua uma cultura prodigiosa, mas tinha vencido todo o mundo, sujeitando-o,
no tanto com a fora das armas, como com a sabedoria dos seus planos e com a sua 
espantosa rapidez em executar as empresas

Pico de Mirandola,

Joo Pico de Mirandola no chegou sequer  idade de Alexandre
[4],
mas elevou-se de tal modo, no estudo da sabedoria, acima de tudo o que a inteligncia 
humana pode atingir que foi considerado uma maravilha do seu sculo.

e at o prprio Cristo.

5. E, para no citar outros exemplos, o prprio Senhor Nosso Jesus Cristo, embora no 
tivesse vivido sobre a terra mais que 34 anos, realizou a grande obra
da Redeno, querendo, sem dvida, mostrar com o seu exemplo (uma vez que toda a sua 
vida  alegrica) que, qualquer que seja o nmero de anos que caiba
viver ao homem, lhe bastam para se preparar para a eternidade.

No devemos, portanto, queixar-nos da brevidade da vida.

6. Neste lugar, no posso deixar de referir as ureas palavras pronunciadas por Sneca 
(Carta 94) a este propsito: Tenho encontrado muitos a recalcitrar
com razo contra os homens; contra Deus, ningum. Exprobamos, todos os dias, o 
destino... Que mal h em sair cedo de um lugar de onde, mais cedo ou mais
tarde, tens de sair? A vida  longa, se  plena. E atinge a sua plenitude, quando o esprito 
conseguiu o seu prprio bem e se tornou senhor de si mesmo.
E acrescenta: Suplico-te, meu caro Luclio, faamos de modo que a vida, como uma 
pedra preciosa, no tenha uma grande dimenso, mas um grande valor. Meamo-la
pelas aes, e no pelo tempo. E logo a seguir: Louvemos, portanto, e coloquemos no 
nmero dos felizes aquele que empregou bem o pouco de tempo que lhe
foi concedido, porque viu a verdadeira luz e no foi um de tantos como h por a, e viveu 
verdadeiramente e em pleno vigor. E de novo: Assim como um
homem pode ser perfeito, mesmo que seja de pequena estatura, assim tambm a vida pode 
ser perfeita, mesmo que seja de breve durao. A durao da vida
 uma coisa externa. Queres saber durante quanto tempo, ao mximo, se deveria viver? 
At ao momento em que se tenha adquirido a sabedoria. Aquele que a
chega, atinge, no a meta mais longnqua, mas a mais elevada
[5].

Dois remdios.

7. Contra os lamentos sobre a brevidade da vida, eis, para ns e para os nossos filhos (e 
tambm para as escolas), estes dois remdios:  esforar-se tanto
quanto possvel por:
I. Defender o corpo das doenas e da morte;
II. Dispor a mente a fazer tudo com sensatez.

I. Porque devemos preservar o corpo das doenas? Porque ele :
1. a habitao da alma,

8. Temos o dever de manter o corpo ao abrigo das doenas e das recadas: primeiro, 
porque ele  a habitao, e a nica habitao da alma; por isso, se o
corpo se arruina, a alma  obrigada a emigrar imediatamente deste mundo; e mesmo que 
se arruine, pouco a pouco, por meio de rupturas que se abrem; ora
de um lado, ora do outro, o seu hspede, a alma, sente a habitao incmoda. Se, portanto, 
se quer estar o mais tempo possvel e o melhor possvel, no
palcio do mundo, onde fomos colocados pela benignidade de Deus,  necessrio ter 
atentos cuidados com este tabernculo que  o corpo.

2. o rgo da alma.

Segundo: porque o corpo foi feito, no s para habitao da alma racional, mas tambm 
para seu rgo, e, sem ele, ela nada pode ouvir, nem ver, nem agir,
nem sequer pensar. Efetivamente, porque nada pode ser objeto da inteligncia que 
primeiro no tenha sido objeto dos sentidos, a mente recebe dos sentidos
a matria de todos os seus pensamentos e no pode desempenhar a funo de pensar seno 
por meio da sensao interna, ou seja, contemplando as imagens abstradas
das coisas. Daqui resulta que, danificando o crebro, danifica-se a faculdade imaginativa, 
e se os membros do corpo esto doentes,  afetada tambm a mente.
Por isso, o poeta teve razo em dizer: Deve pedir-se uma mente s num corpo so
[6].

De que modo? Por meio de dieta. E a regra da dieta ensina-se com o exemplo de uma 
rvore que tem necessidade:
1. de um alimento moderado,

9. O nosso corpo mantm-se vigoroso por meio de uma dieta moderada. Mas, acerca deste 
assunto, s os mdicos podem falar com autoridade. Por isso, faremos
apenas algumas observaes, servindo-nos do exemplo de uma rvore. Por natureza, a 
rvore tem necessidade de trs coisas; 1. de humidade continua; 2. de
transpirao freqente; 3. de repouso alternado. Tem necessidade de humidade, porque 
sem ela definha e seca; mas importa que a humidade seja moderada,
porque, se  excessiva, faz apodrecer as razes. Do mesmo modo, o corpo tem necessidade 
de alimento, pois, sem ele, torna-se seco, e morre de fome e de
sede; mas o alimento no deve ser excessivo, a fim de que as funes digestivas no 
fiquem sobrecarregadas e oprimidas. Com quanto mais moderao se ministrar
os alimentos, tanto mais fcil e perfeita ser a digestao. Como, em geral, no se toma 
isto em considerao, numerosos so aqueles que arruinam as foras
e a vida por excesso de alimento. Efetivamente, a morte vem das doenas; as doenas, dos 
maus humores; os maus humores, da m digesto; a m digesto,
do excesso de alimentao, porque o estmago fica to cheio que no  capaz de digerir, 
e, por conseqncia, v-se obrigado a espalhar pelos rgos humores
pouco ou nada digeridos, dos quais  impossvel que no provenham doenas: muitos 
morreram por voracidade, mas o homem sbrio prolongar a vida (Eclesistico,
37, 34).

e simples,

10. Mas, para manter o vigor da sade, no  necessrio apenas tomar alimentos 
comedidos, mas tambm alimentos simples. O jardineiro no rega uma planta,
por mais delicada que ela seja, com vinho ou com leite, mas com o lquido que convm a 
todos os vegetais, ou seja, com gua. Importa, portanto, que os
pais evitem habituar as crianas s substncias excitantes, particularmente as que so 
destinadas a seguir os estudos, porque no foi escrito por mero
acaso que Daniel e os seus companheiros, jovens de sangue real, consagrados aos estudos, 
embora se alimentassem com legumes e gua, foram considerados
mais geis e mais gordos e, o que  mais, mais inteligentes que os outros, que comiam as 
delcias da mesa do rei (Daniel, 1, 22 e ss.). Mas, acerca destas
coisas, falarei mais pormenorizadamente noutro lugar
[7].

2. da transpirao freqente,

11. Uma rvore tem necessidade tambm de transpirar e de se robustecer freqentemente 
mediante os ventos, as chuvas e o frio. Doutro modo, languesce e morre.
Do mesmo modo, o corpo humano tem absoluta necessidade de movimento, de ginstica, 
de exerccios srios ou de jogos.

3. de repouso alternado.

12. Finalmente, de tempos a tempos, a rvore tem necessidade de repouso. Naturalmente 
no  necessrio que esteja sempre a produzir rebentos, flores e frutos,
mas, de quando em quando, deve trabalhar tambm no seu interior, digerir os sucos, e, por 
este meio, renovar as suas foras. E Deus quer que ao vero suceda
o inverno, precisamente para dar repouso a todos os seres que crescem sobre a terra, e 
tambm  prpria terra: e para este efeito ordenou por meio de leis
que, todos os sete anos, se desse repouso  terra (Levtico, 25, 3 e 4). De modo 
semelhante, criou a noite para os homens (e para os outros animais), para
que, quer com o sono, quer ainda com a conservao dos membros em repouso, se 
recuperassem as foras perdidas com as ocupaes do dia. Mas  necessrio,
por meio de intervalos, dar certo alvio, tanto ao corpo como  mente, com qualquer 
recreao menor, de uma hora, para evitar o perigo de que trabalhem
constrangidos pela violncia, a qual  inimiga da natureza. , portanto, prudente 
interromper tambm os trabalhos diurnos para respirar um pouco e entregar-se
a conversas, brincadeiras, jogos, msica e outras coisas semelhantes, onde os sentidos 
externos e internos encontram repouso e prazer.

Destas trs coisas (escupulosamente observadas) depende a conservao da vida.

13. Se algum observa estas trs coisas (alimentar-se sobriamente, exercitar o corpo e 
ajudar a natureza),  impossvel que no conserve durante muitssimo
tempo a sade e a vida, salvo caso de fora maior. Uma grande parte, portanto, de uma 
boa organizao escolar dever ser procurada numa conveniente repartio
do trabalho e do repouso, das frias e dos recreios.

II. Importa utilizar bem o tempo de trabalho.

14. Importa falar agora do modo de utilizar prudentemente o tempo que resta e que deve 
ser consagrado ao trabalho. Trinta anos? Parece coisa insignificante
e fcil de dizer; mas trinta anos compreendem um bom nmero de meses, de dias e de 
horas.  certo que em to grande espao de tempo, pode fazer-se muitas
coisas, desde que se ande, ainda que se ande muito devagarinho.  uma prova evidente 
disso o modo como crescem as rvores, as quais, nem mesmo com a vista
mais perspicaz, podemos aperceber-nos que crescem, porque isso se faz, pouco a pouco e 
insensivelmente; mas v-se que, todos os meses, crescem um pouco,
e, aps trinta anos, observa-se que cresceram tanto que so j rvores muito grandes. O 
nosso corpo, ao crescer em estatura, segue a mesma regra: no o
vemos crescer, mas vemos que cresceu. E, que no  diversa a regra seguida pela mente 
que procura adquirir conhecimento das coisas, provam-no estes versos
conhecidos:
     Acrescenta a uma pequena quantidade mais um pouco e ainda um pouquito,
     e, em pouco tempo, tens construda uma montanha.

A fora do progresso  maravilhosa.

15. Quem no ignora a fora do progresso, adverte-o facilmente. Com efeito, enquanto, 
em cada ano, de cada rebento desponta apenas um raminho, aps trinta
anos, uma rvore ter mil ramos, uns mais grossos e outros mais delgados, e folhas e 
flores e frutos inumerveis. E h-de parecer impossvel que, em vinte
ou trinta anos, o esforo do homem chegue a qualquer altura e a qualquer distncia? 
Examinemos um pouco este problema.

Repartio exata do tempo.

16. O dia natural tem 24 horas, as quais, divididas em trs partes, segundo as necessidades 
da vida, do: oito horas para o sono, oito horas para as ocupaes
externas (por exemplo, para tratar da sade, para comer, para vestir, para recreaes 
honestas, para conversar com os amigos, etc...) e oito horas para
enfrentar as ocupaes srias, com ardor e com alegria. Todas as semanas, por isso (sendo 
o stimo dia completamente dedicado ao repouso), temos 48 horas
destinadas ao trabalho; em cada ano, 2495; e em dez, vinte, trinta anos?

A vida chega para juntar grandes tesouros de instruo.

17. Se, em cada hora, se aprender um s teorema de qualquer cincia, ou uma regra de 
uma arte prtica, ou uma histria interessante, ou uma mxima sbia
(e  evidente que isto se pode fazer sem nenhuma fadiga), que tesouro de instruo se 
conseguir adquirir?!

Concluso.

18. Por isso, Sneca disse com razo: Se soubermos fazer bom uso da vida, ela  
suficientemente longa, e chega para levar a bom termo as empresas mais
importantes, se se emprega toda bem
[9].
Tudo est em saber empreg-la toda bem.  disso que vamos agora falar.

Captulo XVI

REQUISITOS GERAIS
PARA ENSINAR E PARA APRENDER,
ISTO ,
COMO SE DEVE ENSINAR
E APRENDER COM SEGURANA,
DE MODO QUE SEJA IMPOSSVEL
NO OBTER BONS RESULTADOS

As coisas naturais crescem espontaneamente.

1.  bela aquela parbola de Nosso Senhor Jesus Cristo, referida pelo evangehsta: O 
reino de Deus  como um homem que lana a semente  terra, e que dorme
e se levante noite e dia, e a semente brota e cresce sem ele saber como. Porque a terra por 
si mesma produz primeiramente a erva, depois a espiga, e por
ltimo o trigo grado na espiga. E, quando o fruto est maduro, mete logo a foice, porque 
est chegado o tempo da ceifa (Marcos, 4, 26 e ss.).

Como devem crescer tambm as coisas artificiais.

2. Nesta parbola, o Salvador mostra que Deus  que faz tudo em todas as coisas, e que ao 
homem deixa tambm apenas o cuidado de receber fielmente no corao
as sementes daquilo que lhe ensina. Deus as far germinar e crescer todas at ao seu pleno 
desenvolvimento, sem que o homem disso se aperceba. Por isso,
aqueles que instruem e educam a juventude no tm outra obrigao alm de semear 
habilmente na alma dos jovens as sementes daquilo que tm de ensinar,
e de regar cuidadosamente as plantazinhas de Deus; o crescimento e o incremento viro 
por acrscimo.

A percia de plantar est na arte.

3. Quem ignora que, para semear e plantar, se exige uma certa arte e uma certa 
habilidade? Na verdade, ao jardineiro, que ignora a arte de semear um jardim,
morre a maior parte das plantazinhas, e, se algumas crescem bem, isso depende mais do 
acaso que da arte. Se, ao contrrio, ele  prudente, trabalha com
empenho, e sabe o que deve fazer e o que deve deixar de fazer, e onde e quando e como, 
com certeza que no h o perigo de ele fazer qualquer coisa inutilmente.
O resultado pode, porm, uma ou outra vez, ser nulo mesmo para os peritos (porque  
quase impossvel ao homem fazer tudo com tanta lucidez que no seja,
por vezes, de uma ou de outra maneira, induzido em erro). Neste momento, todavia, no 
falamos nem da prudncia nem do acaso, mas da arte de prevenir os
acasos com prudncia.

O mtodo de educar deve basear-se na arte.

4. Uma vez que, at hoje, o mtodo de educar tem sido to vago que dificilmente algum 
ousaria dizer: eu, em tantos anos, conduzirei este jovem at este
ponto, e deix-lo-ei instrudo desta ou daquela maneira, etc., importa ver se esta arte de 
plantar nos espritos pode basear-se num fundamento to slido
que conduza, com certeza e sem erro possvel, ao progresso intelectual.

V-lo-emos fazendo um paralelo entre as coisas materiais e as coisas artificiais.

5. Mas, como este fundamento no pode consistir seno em conformar, com o mximo 
cuidado possvel, as operaes desta arte com as normas que regulam as
operaes da natureza (como vimos j, no captulo XIV), perscrutemos os caminhos da 
natureza, servindo-nos do exemplo de uma ave que faz sair dos ovos
os seus filhos; e, observando como os jardineiros, os pintores e os arquitetos seguem 
felizmente os vestgios da natureza, facilmente veremos como  que
eles devem tambm ser imitados pelos formadores da juventude.

E porqu assim?

6. Se a algum estas coisas parecerem demasiado vulgares, demasiado conhecidas e 
demasiado mastigadas, lembre-se que pretendemos precisamente deduzir de
coisas correntes e comummente conhecidas, que se fazem com xito no campo da 
natureza e da arte (fora das escolas), coisas menos conhecidas, que so o
objetivo do nosso estudo. E se, de fato, as coisas que tomamos como exemplo, para delas 
deduzir as nossas regras, so conhecidas, esperamos que, precisamente
por isso, tambm as nossas concluses sero mais evidentes.

FUNDAMENTO I

Fundamento I da natureza:
Nada se faz fora do tempo.

7. A natureza espera o momento favorvel.
     Por exemplo: uma ave, para multiplicar a sua raa, no comea a trabalhar no inverno, 
quando tudo est frio e inteiriado; nem no vero, quando tudo
est quente e se estiola; nem no outono, quando a vitalidade de todas as coisas, 
juntamente com o sol, est em decrescimento, e o inverno, inimigo das
coisas novinhas, est para surgir; mas na primavera, quando o sol volta a dar vida e vigor 
a todos os seres. Efetivamente, quando a temperatura est ainda
muito fria, a ave concebe os ovos e conserva-os no corpo, onde esto resguardados do 
frio; quando o ar comea a aquecer, pe-nos no ninho, e, finalmente,
na parte mais quente do ano, abre-os, a fim de que, a pouco e pouco, a sua criatura se 
habitue  luz e ao calor.

Nos jardins e em arquitetura  bem imitada a arte.

8. Tambm o jardineiro tem a preocupao de nada fazer fora de tempo. No planta 
durante o inverno (porque, nessa altura, a seiva est de tal modo aderente
s razes que no pode subir para alimentar os ramos), nem no vero (porque a seiva est 
j dispersa pelos ramos), nem durante o outono (porque a seiva
se retira para as razes), mas durante a primavera, quando a seiva, a partir das razes, 
comea a circular, e as partes superiores da planta comeam a
apresentar vegetao. Depois,  necessrio fazer qualquer coisa  volta das plantas, pelo 
que deve conhecer-se o tempo oportuno de todos os trabalhos,
ou seja, o tempo de estrumar, de podar, de mondar, etc., e ainda que a planta tem o seu 
tempo de abrolhar, de florir, de amadurecer os frutos, etc. O arquiteto
faz o mesmo, pois, necessariamente, deve cortar a madeira, cozer os tijolos, abrir os 
alicerces, levantar os muros, reboc-los, etc., quando o tempo lho
permite.

Nas escolas verifica-se um duplo desvio relativamente a este modelo.

9. Nas escolas, peca-se, de dois modos, contra este fundamento:
I. No aproveitando o momento favorvel para exercitar as inteligncias.
II. No organizando cuidadosamente os exerccios de modo a que eles se desenrolem 
todos, pouco a pouco, segundo uma regra fixa.
     Efetivamente, a criana, enquanto set na primeira infncia, no pode ser instruda, 
porque a raiz da inteligncia est ainda profundamente apegada
ao cho. Durante a velhice,  demasiado tarde para instruir o homem, porque a 
inteligncia e a memria esto j em regresso. No meio da vida,  difcil,
porque as foras da inteligncia, dispersas pela variedade das coisas, s a muito custo 
podem concentrar-se. Importa, portanto, instruir na idade juvenil,
quando o vigor da razo e da vida est em pleno crescimento; ento, todas as faculdades 
crescem e lanam profundas razes.

Trplice correo.

10. Conclumos, portanto:
I. Que a formao do homem deve comear na primavera da vida, isto , na puercia. (Na 
verdade,a puercia assemelha-se  primavera; a juventude, ao vero;
a idade viril, ao outono; a velhice, ao inverno).
II. Que as horas da manh so as mais favorveis aos estudos (porque, tambm aqui, a 
manh corresponde  primavera; o meio dia, ao vero; a tarde, ao outono;
a noite, ao inverno).
III. Que tudo o que deve aprender-se deve dispor-se segundo a idade, de modo a no dar a 
aprender seno as coisas que os alunos sejam capazes de entender.

FUNDAMENTO II

Fundamento II: A matria antes da forma.

11. A natureza prepara a matria, antes de comear a introduzir-lhe uma forma.
     Por exemplo: a ave que quer produzir uma criatura semelhante a si, primeiro concebe-a 
em estado de embrio a partir de uma gota do seu sangue; depois,
faz o ninho, onde pe os ovos; finalmente, choca-os, e assim forma a sua criao e a faz 
sair da casca.

Imitao.

12. Da mesma maneira, o arquiteto prudente, antes de comear a construo de um 
edifcio, leva para o local montes de madeira, de pedra, de cal, de ferro
e de outras coisas necessrias, para que depois os trabalhos no sejam atrasados por falta 
de materiais ou para que a solidez da construo no fique prejudicada.
De igual modo, o pintor, que quer pintar qualquer coisa, prepara a tela, estende-a na 
moldura, prepara o fundo do quadro, mistura as cores, pe os pincis
ao alcance da mo e, finalmente, pinta. Tambm o jardineiro, antes de comear a 
plantao, procura ter  mo os mergulhes, os rebentes e todos os utenslios,
para no ter de procurar as coisas necessrias durante o trabalho, com perda de tempo.

Aberrao.

13. Contra este fundamento, pecam as escolas: Primeiro, porque no se preocupam em ter 
sempre preparados todos os utenslios  livros, quadros, mapas, amostras,
modelos, etc.  para deles se servirem quando for preciso, mas s quando esta ou aquela 
coisa  precisa, s ento a procuram, a fazem, ou a ditam, ou a
copiam, etc.; e todas as vezes que o professor inexperiente ou negligente (e a raa destes  
sempre a mais numerosa) se encontra nestes casos, procede
de um modo que  digno de d, precisamente como um mdico que, todas as vezes que 
tivesse de ministrar um remdio, corresse de c para l, atravs dos
jardins e das florestas,  procura de ervas e de razes, as cozesse, as distilasse, etc., quando 
era indispensvel que tivesse  mo os remdios apropriados
para cada caso.

14. Segundo, porque, mesmo nos livros que as escolas possuem, no  observada a ordem 
natural, de modo que venha primeiro a matria e depois a forma. Quase
por toda a parte,  o contrrio que se faz: apresenta-se a ordem das coisas antes das 
prprias coisas, embora seja impossvel ordenar, quando se no tem
ainda o material para ordenar.  o que demonstrarei com a ajuda de quatro exemplos:

15. (1) As escolas ensinam a fazer um discurso antes de ensinar a conhecer as coisas sobre 
que deve versar o discurso, pois obrigam, durante anos, os alunos
a aprender as regras da retrica, e, somente depois, no sei quando, os admitem ao estudo 
das cincias positivas (studia realia), da matemtica, da fsica,
etc. Mas, uma vez que as coisas so a substncia e as palavras os acidentes; coisa o corpo, 
palavra o adorno; coisa a polpa, palavra a pele e a casca,
deve ser ao mesmo tempo que estas coisas ho-de ser apresentadas  inteligncia humana, 
mas tendo a preocupao de comear a partir das coisas, pois estas
so objeto tanto da inteligncia como do discurso.

16. (2) Tambm no estudo das lnguas se procede erradamente, porque no se principia 
por qualquer autor ou por qualquer dicionrio convenientemente ilustrado,
mas pela gramtica, embora os autores (e os dicionrios tambm, a seu modo) forneam a 
matria do discurso, isto , os vocbulos, e a gramtica apenas
acrescente a forma, ou seja, as leis para formar, ordenar e associar os vocbulos.

17. (3) No mundo das disciplinas, ou seja, nas enciclopdias, por toda a parte, as artes 
colocam-se em primeiro lugar e, s depois, a respeitosa distncia,
vm as cincias e as aplicaes, no obstante estas conduzirem a aprender as coisas, e 
aquelas o mtodo das coisas.

18. (4) Enfim, ensinam-se primeiro regras em abstrato, e s depois se ilustram com 
exemplos, enquanto que a luz deve preceder a pessoa a quem se quer iluminar
o caminho.

19. Resulta de tudo isto que, para corrigir radicalmente o mtodo,  necessrio:

I. Ter  mo os livros e todo o restante material escolar;
II. Formar a inteligncia antes da lngua;
III. No aprender nenhuma lngua a partir da gramtica, mas a partir de autores 
apropriados.
IV. Colocar as disciplinas positivas (reales disciplinas) antes das disciplinas lingusticas e 
lgicas (organicis)
[1].

V. Dar exemplos antes de ensinar as regras.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: A matria deve ser tornada apta para receber a forma.

20. A natureza toma um sujeito apto para as operaes que ela quer realizar ou, ao menos, 
prepara-o para o tornar apto para isso.
     Por exemplo: uma ave no pe no ninho uma coisa qualquer para chocar, mas um 
objeto tal que seja possvel fazer sair dele uma avezinha, ou seja, pe
l um ovo. Se no ninho cai qualquer pequena pedra ou outro objeto qualquer, lana-o fora, 
como coisa intil. Chocando a matria contida no ovo, mantm-na
quente, revira-a e forma-a at que esteja apta para sair do ovo.

Imitao

21. Do mesmo modo, o arquiteto, depois de cortada a melhor madeira que pode adquirir, 
f-la secar, desbasta-a, serra-a; a seguir, aplaina o terreno, limpa-o,
lana os fundamentos, ou ento restaura e refora aqueles que existiam j, de modo a 
poder utiliz-los.

22. Tambm o pintor, se no tem uma tela suficientemente boa ou se o fundo do quadro 
no  prprio para as cores, em primeiro lugar esfora-se por tornar
melhor a tela e o fundo, raspando-os, alisando-os e preparando-os de qualquer modo para 
o uso desejado.

23. De igual modo, o jardineiro: 1. escolhe o mergulho mais vigoroso que pode, e 
proveniente de uma planta frutfera; 2. transporta-o para o jardim e planta-o
com todo o cuidado; 3. no o submete  delicada operao da enxertia, se primeiro no v 
que lanou razes; 4. e, antes de o enxertar, arranca-lhe os seus
primeiros rebentos e corta-lhe parte do tronco, a fim de que nenhuma parte da seiva possa 
circular a no ser para tornar forte o garfo.

Aberrao.

24. As escolas tm pecado contra este fundamento, no tanto porque recebem alunos 
imbecis e estpidos (uma vez que, segundo a nossa inteno, devem receber
toda a espcie de jovens), mas na medida em que:

I. No transportam essas plantazinhas para as plantaes, isto , no as recebem todas nas 
escolas, de tal maneira que todos aqueles que devem ser formados
para o ofcio de homem no sejam despedidos da oficina antes da sua completa formao.
II. A maioria das vezes, tm tentado enxertar os garfos do saber, da moral e da piedade, 
antes que a planta a enxertar tivesse lanado as razes, isto ,
antes de haverem despertado o desejo de aprender naqueles que, por natureza, no 
estavam dele inflamados.
III. No podaram as plantazinhas ou os mergulhes, antes de os plantar, isto , no 
libertaram os espritos das ocupaes suprfluas, constrangendo-os a
ocupar o seu lugar por meio da disciplina e obrigando-os a manter-se em ordem.

Correo.

25. Conseqentemente, daqui para o futuro:

I. Todo aquele que for enviado  escola dever ser assduo.
II. Dever dispor-se a inteligncia dos alunos para o estudo de qualquer matria que 
comecem a estudar. (Deste assunto trataremos mais amplamente no captulo
seguinte, Fundamento II).
III. Libertem-se os alunos de toda a espcie de impedimentos, porque, como diz Sneca, 
de nada serve fornecer regras, se primeiro se no suprime o que
constitui obstculo s regras
[2].
 uma verdade. Dela falaremos no captulo seguinte.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Todas as coisas se formam distintamente e nenhuma confusamente.

26. A natureza no realiza as suas obras na confuso, mas procede distintamente.
     Por exemplo: a natureza, enquanto forma uma avezinha, num dado momento pe em 
ordem os ossos, as veias e os nervos; noutro momento, robustece a carne;
noutro momento, distende a pele; noutro momento, recobre-a de penas; e noutro ainda, 
ensina-a a voar, etc.

Imitao.

27. O arquiteto, quando faz os fundamentos, no constri ao mesmo tempo as paredes; e, 
muito menos, pe o teto. Mas faz cada coisa no tempo e lugar devidos.

28. Tambm o pintor no pinta, ao mesmo tempo, vinte ou trinta retratos, mas trabalha 
com ateno em um s. Efetivamente, embora nos intervalos prepare
o fundo de outros quadros, ou faa qualquer outra espcie de trabalho, todavia, o seu 
principal trabalho  sempre um s.

29. De modo semelhante, o jardineiro no faz vrios enxertos ao mesmo tempo, mas f-
los um a seguir ao outro, para se no enganar ou para no estragar a
operao da natureza.

Aberrao.

30. Ora nas escolas reina a confuso, pelo fato de se querer meter na cabea dos alunos 
muitas coisas ao mesmo tempo.
     Por exemplo: gramtica latina e gramtica grega, retrica e talvez ainda potica, e sei 
l mais o qu. Efetivamente, quem no sabe que, nas escolas
clssicas, quase em cada hora do dia, varia a matria das lies e dos exerccios? Mas, que 
 a confuso, se no  isto a confuso?  como se se metesse,
na cabea de um sapateiro, fazer, ao mesmo tempo, seis ou sete pares de sapatos, e ora 
pegasse neles todos, um aps o outro, ora os pusesse de parte. Ou
como se um padeiro, ora metesse no forno alguns pes, ora os tirasse de l, de tal modo 
que fosse necessrio que cada po fosse metido e tirado do forno
muitssimas vezes. Mas quem, de entres eles,  to louco como isso? O sapateiro, antes de 
ter terminado um par de sapatos, no comea outro. O padeiro,
antes que os pes estejam cozidos, no mete no forno outra fornada.

Correo.

31. Imitemos, suplico-vos, estes exemplos e abstinhamo-nos de querer ensinar a dialtica 
a quem estuda gramtica; e, enquanto a dialtica afina a mente,
que esta no seja perturbada pela retrica; e, enquanto nos ocupamos da lngua latina, no 
sejamos importunados pela lngua grega, etc., para no cairmos,
de uma maneira ou de outra, em embaraos, pois, quem pensa em muitas coisas ao mesmo 
tempo arrisca-se a no compreender seriamente nenhuma delas. Sabia-o
bem o grande Jos Escalgero, o qual (talvez por recomendao de seu pai) nunca se 
ocupava seno de uma s matria de cada vez e nela fazia incidir todas
as foras da sua mente
[3].
Daqui resultou que, uma aps outra, se tornou perito em catorze lnguas, e adquiriu tantos 
conhecimentos artsticos e cientficos, quantos os que caem sob
o domnio do engenho humano; e de tal maneira que era mais versado em todos esses 
conhecimentos que aqueles que se dedicam a um s. Quem, depois, tentou
seguir, com firme propsito, as suas pegadas, no o fez em vo.

32. Que, portanto, tambm nas escolas, os alunos se ocupem apenas de uma matria de 
cada vez.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Primeiro as coisas interiores.

33. A natureza comea cada uma das suas operaes pelas partes mais internas.
     Por exemplo: a natureza no forma primeiro as unhas, ou as penas, ou a pele da ave, 
mas as vsceras; depois, no seu tempo prprio, as partes exteriores.

34. Tambm o jardineiro no aplica os garfos  casca pela parte de fora, nem os enxerta  
superfcie do cavalo, mas faz uma fenda que vai at ao corao
da planta e a encaixa, o mais profundamente que pode, os garfos bem adaptados, e tapa 
de tal maneira bem as junturas que a seiva no possa sair por nenhuma
parte, mas v imediatamente para o interior dos garfos e neles infunda toda a sua fora, 
para os fazer crescer vigorosos.

35. Igualmente, a rvore alimentada com o alimento da chuva ou nutrida pela seiva do 
terreno, no extrai essas substncias atravs da casca, mas alimenta-se
atravs dos poros das suas partes internas.  por isso que o jardineiro no costuma regar 
os ramos, mas as razes. E os animais no ministram os alimentos
aos membros exteriores, mas ao estmago, que os prepara e os envia para todo o corpo. 
Deste modo, se o educador da juventude cultiva sobretudo a raiz do
saber, isto , a inteligncia, facilmente o vigor passar para o seio do homem, ou seja, 
para a memria, e finalmente aparecero flores e frutos, isto
, o uso corrente da lngua e a prtica das coisas.

Aberrao.

36. Erram, portanto, aqueles professores que querem realizar a formao da juventude que 
lhes foi confiada, ditando muitas coisas e mandando-as aprender
de cor, antes de as terem explicado devidamente. Erram tambm aqueles que as querem 
explicar, mas no sabem como, ou seja, no sabem como descobrir, pouco
a pouco, a raz, e nela enxertar os garfos das coisas ensinadas. E precisamente por isso 
estragam os alunos, como se algum, para fazer uma fenda numa
planta, em vez de uma faca, utilizasse uma bengala ou um bate-estacas.

Correo.

37. Por isso, daqui para o futuro:

I. Em primeiro lugar, formar-se- a inteligncia para a compreenso das coisas; em 
segundo lugar, a memria; em terceiro lugar, a lngua e as mos.
II. O professor dever procurar todos os caminhos de abrir a inteligncia e faz-los 
percorrer de modo conveniente. (O que investigaremos no captulo seguinte).

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Primeiro as coisas gerais.

38. A natureza comea todas as suas obras pelas coisas mais gerais e acaba pelas mais 
particulares.
     Por exemplo: querendo, de um ovo, produzir uma ave, a natureza no comea por 
formar a cabea, ou os olhos, ou as penas, ou as unhas; mas aquece toda
a massa do ovo, e o movimento produzido pelo calor d nascimento a uma rede de veias 
que oferece o esboo de toda a avezinha (a cabea, as asas, os ps,
etc., em embrio), e, finalmente, pouco a pouco, cada parte se desenvolve at atingir a sua 
forma perfeita.

Imitao.

39. Imitando este fato natural, o arquiteto comea por conceber, na sua mente, o plano 
geral de todo o edifcio, ou desenha-o em perspectiva no papel, ou
ento faz um modelo de madeira; e, em conformidade com esse plano, lana os 
fundamentos e levanta os muros, e, finalmente, cobre a construo com o telhado.
Depois disso, ocupa-se das partes mais pequenas, as quais devem tornar a casa perfeita: as 
portas, as janelas, as bancadas, etc. Por ltimo, acrescenta-lhe
os ornamentos: pinturas, esculturas, tapearias, etc.

40. Tambm o pintor que quer pintar o rosto humano, no imagina nem pinta primeiro 
uma orelha, ou um olho, ou o nariz ou a boca, mas esboa com o carvo
o rosto (ou o homem inteiro). Depois, se v que as propores esto exatas, com um 
pequeno pincel, forma o fundo do quadro, mas mantendo-se sempre nas
linhas gerais. A seguir, desenha os intervalos entre as sombras e a luz, e finalmente forma 
os membros com todos os pormenores e adorna-os com cores perfeitamente
distintas.

41. De modo idntico, o escultor, que quer fazer uma esttua, toma um tronco rude, 
bosqueja-o em redor, e d-lhe primeiro uma forma grosseira; depois, uma
forma mais perfeita, para lhe dar de qualquer modo o aspecto de esttua, e, por fim, rasga-
lhe de modo perfeitssimo cada um dos membros e reveste-os de
cores.

42. Igualmente, o jardineiro no toma seno o esboo geral das plantas, isto , o garfo, o 
qual pode, quase logo, lanar tantos ramos principais quantos
so os seus rebentos.

Aberrao.

43. De onde se segue que o ensino das cincias  mal feito quando  fragmentrio e 
quando no comea por um prvio esboo geral de todo o programa, e que
ningum pode ser perfeitamente instrudo numa cincia particular, se no tem uma viso 
geral das outras cincias.

44. Da se segue tambm que se ensinam mal as artes, as cincias e as lnguas, se se no 
comea pelos seus primeiros rudimentos; mas habitualmente ningum
faz esse estudo prvio, pois, apenas admitidos aos estudos da dialtica, da retrica e da 
metafsica, os infelizes dos alunos vem-se arrasados sob uma
montanha de regras prolixas, de comentrios, de explicaes aos comentrios, de 
confrontos de autores e de controvrsias. De igual modo, so empanturrados
de gramtica latina com todas as suas excees e irregularidades, de gramtica grega com 
os seus dialetos, enquanto para l esto atnitos e sem saberem
para que tudo aquilo possa servir.

Correo

45. Para evitar esta desordem, eis o remdio:

I. Que na mente das crianas, que se destinam aos estudos, se faam entrar, logo desde o 
comeo da sua formao, os fundamentos de uma instruo universal,
isto , uma tal coordenao das matrias que os estudos que, pouco a pouco, se seguem, 
paream nada trazer de absolutamente novo, mas sejam apenas um desenvolvimento
pormenorizado das coisas anteriores. Efetimente, tambm numa rvore, ainda que o seu 
crescimento se prolongue por mais de cem anos, no nasce nenhum ramo
novo, mas aqueles que nasceram ao princpio alongam-se constantemente e formam novas 
pequenas ramagens.
II. Que qualquer lngua, cincia e arte se ensine: primeiro, por meio de rudimentos muito 
simples, para que se apreenda o seu plano geral; depois, mais
completamente, por meio de regras e exemplos; em terceiro lugar, por meio de sistemas 
completos, a que se acrescentam as irregularidades; finalmente, se
isso for necessrio, por meio de comentrios. Efetivamente, quem aprende uma coisa a 
partir dos seus fundamentos, j no tem necessidade de comentrios,
pois poder, pouco depois, coment-la por si mesmo.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Tudo gradualmente; nada por saltos.

46. A natureza no d saltos, mas procede gradualmente.
     Assim, a formao de uma avezinha passa pelas suas etapas, as quais no podem ser 
ultrapassadas nem transpostas, at que a avezinha, quebrada a sua
priso, saia para fora. Transposta esta etapa, a me da avezinha no lhe ordena 
imediatamente que se ponha a voar e a procurar alimentos (porque ainda
no pode), mas alimenta-a ela, e, continuando a aquec-la com o seu prprio calor, ajuda-
a a cobrir-se de penas. Quando as penas esto j crescidas, no
a impele imediatamente a voar fora do ninho, mas exercita-a pouco a pouco, primeiro a 
estender as asas dentro do ninho, depois a mov-las esguendo-se acima
do ninho, e, portanto, a tentar voar fora do ninho, mas perto; depois, a voar de ramo em 
ramo, e, depois, de uma rvore para outra rvore, e depois de
um monte para outro monte; e assim, finalmente, entrega-a com confiana ao cu livre. 
Mas v-se que cada uma destas coisas quer ser feita, no s no momento
preciso, mas tambm gradualmente, e no s gradualmente, mas tambm segundo uma 
srie imutvel de graus.

Imitao

47. Assim procede quem edifica uma casa: no comea pela armao do telhado, nem 
pelas paredes, mas pelos alicerces; e, feitos os fundamentos, no lhe coloca
logo em cima o teto, mas constri as paredes. Numa palavra, assim como todas as coisas 
se ajudam mutuamente, assim tambm todas devem estar conexas entre
si segundo uma ordem determinada.

48.  tambm necessrio que o jardineiro faa os seus trabalhos gradualmente:  
necessrio, com efeito, que escolha os rebentes e abra as covas, que os
transplante, os pode, os fenda, lhes enxerte os garfos e lhes recubra as comissuras. E, de 
todas estas coisas, no pode deixar de fazer-se nem sequer uma
s, nem fazer uma quando deve fazer-se outra. E, se as faz gradualmente e cada uma no 
seu devido tempo,  quase impossvel que o seu trabalho no resulte
bem.

Aberrao.

49. Torna-se, portanto, evidente que no pode chegar-se a qualquer resultado vlido, se os 
professores, no decurso do seu ensino e no decurso dos estudos
dos seus alunos, no distribuem as matrias, no somente de maneira que a uma se suceda 
sempre outra, mas tambm de maneira que cada uma seja necessariamente
estudada dentro dos limites fixados, pois, se se no estabelecem as metas e os meios para 
atingir as metas e a ordem para aplicar os meios, facilmente
alguma coisa fica para trs, facilmente alguma coisa se inverte, facilmente nasce a 
confuso e a desordem.

Correo.

50. Daqui paia o futuro, portanto:

I. Distribua-se cuidadosamente a totalidade dos estudos em classes, de modo que os 
primeiros abram e iluminem o caminho aos segundos, e assim sucessivamente.
II. Distribua-se meticulosamente o tempo, de modo que a cada ano, ms, dia e hora seja 
atribuda a sua tarefa especial.
III. Observe-se estritamente esse horrio e essa distribuio das matrias escolares, de 
modo que nada seja deixado para trs e nada seja invertido na sua
ordem.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: No se deve parar, a no ser depois de terminada a obra.

51. A natureza, quando empreende um trabalho, no o abandona seno depois de o haver 
terminado.
     A ave, com efeito, quando por instinto comea a chocar os ovos, no deixa de os 
chocar at a sua ecloso, pois, se deixasse de o fazer, ainda que fosse
apenas por derminada algumas horas, o feto arrefeceria e morreria. Mesmo quando as 
avezinhas sairam j da casca, no cessa de as manter quentes, at que,
cheias de vida e cobertas de penas, estejam aptas a suportar a impresso do ar.

Imitao.

52. De igual modo, o pintor, uma vez comeado o retrato, tem todo o interesse em 
prosseguir a sua obra at ao fim, se quer que as tintas se harmonizem melhor
e adiram mais solidamente.

53. Da mesma maneira,  timo mtodo levar a construo de um edifcio do princpio at 
ao fim, sem interrupo, pois, de outro modo, o sol, a chuva e os
ventos estragam as paredes, e aquelas coisas que depois se lhes juntam j se no agarram 
to solidamente: tudo, em suma, se fende, se greta e se estraga.

54. Tambm o jardineiro prudente, depois de haver comeado a plantao, no a 
abandona, a no ser uma vez terminado o trabalho, pois, se interrompe o seu
trabalho e se demora a termin-lo, a seiva dos rebentes e dos garfos evapora-se e a planta 
seca.

Aberrao.

55. Daqui se infere que constitui um grande dano enviar as crianas  escola por 
intervalos de meses ou de anos e, depois, por outros intervalos, empreg-las
noutras ocupaes. De igual modo, constitui um grande dano que o professor ora inicie o 
aluno nesta matria ora naquela, sem nunca levar nenhuma seriamente
at ao fim. Finalmente, constitui tambm um grande dano se, em cada hora, no prope e 
no termina um programa determinado, para que, de cada vez que ensina,
se verifique um real progresso. Onde falta este fervor, tudo se esfria. Efetivamente, no  
por mero acaso que se diz que se deve bater o ferro enquanto
ele est quente, pois, se se deixa arrefecer, em vo ser batido com o martelo, devendo 
necessariarnente voltar a recorrer-se ao fogo; e, entretanto, gasta-se
mais um pouco de tempo e mais um pouco de ferro. Com efeito, todas as vezes que o 
ferro  metido no fogo, perde sempre algo da sua substncia.

Correo.

6.Portanto,

I. Quem freqenta as escolas, que nelas permanea at se tornar um homem instrudo, 
honesto e religioso.
II. A escola deve estar num local tranqilo, afastado dos rudos e das distraes.
III. Deve fazer-se tudo segundo o programa estabelecido, sem admitir qualquer hiato.
IV. No deve conceder-se a ningum (seja sob que pretexto for) autorizao para sair da 
escola e entregar-se a futilidades.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX:  necessrio evitar as coisas contrrias.

57. A natureza evita deligentemente as coisas contrrias e prejudiciais.
     Com efeito, a ave, enquanto, chocando-os, aquece os ovos, protege-os do vento forte, 
bem como da chuva e do granizo. Alm disso, afasta do ninho as
serpentes, os abutres e outros animais nocivos.

58. Tambm o arquiteto, tanto quanto lhe  possvel, conserva seca a madeira, os tijolos e 
a cal, e no deixa cair nem arruinar-se aquilo que j construiu.

59. De igual modo, o pintor protege do vento, do calor intenso, da poeira e das mos de 
estranhos um retrato ainda fresco.

60. O jardineiro, com a ajuda de uma paliada ou de uma sebe, proteje das cabras e das 
lebres as plantas jovens.

Aberrao.

61. Comete-se, portanto, uma imprudncia todas as vezes que, logo no incio do estudo de 
uma nova disciplina, se prope aos alunos uma matria controversa,
isto , sempre que se levanta uma dvida acerca da matria que devem ainda estudar. 
Efetivamente, a que equivale isso seno a dar fortes sacudidelas numa
plantazinha desejosa de lanar as razes? Hugo escreveu com razo: Nunca chegar a 
atingir a verdade, aquele que comear a instruir-se com controvrsias
[4].
Comete-se tambm uma imprudncia quando se no afasta a juventude dos livros torpes, 
cheios de erros e de confuses, assim como tambm das ms companhias.

Correo.

62. Pense-se, portanto, que  essencial:

I. No dar aos alunos nenhuns outros livros, alm dos da sua classe.
II. Que esses livros sejam to cuidadosamente ilustrados que, justa e merecidamente, 
possam ser considerados verdadeiros inspiradores de sabedoria, de moralidade
e de piedade.
III. No devem ser toleradas nas escolas, ou nas vizinhanas das escolas, companhias 
dissolutas.

Concluso.

63. Se todas estas regras forem observadas escrupulosamente, ser quase impossvel que 
as escolas falhem na sua misso.

Captulo XVII

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR E APRENDER
COM FACILIDADE

No basta fazer qualquer coisa com segurana;  preciso procurar a facilidade.

1. Examinmos os meios, graas aos quais o educador da juventude pode atingir com 
segurana o seu objetivo; vejamos agora de que modo aqueles mesmos meios
devem ser aplicados s inteligncias, para que o seu emprego se faa com facilidade e 
com prazer.

Dez fundamentos dessa facilidade.

2. Se observarmos as pegadas da natureza, torna-se-nos evidente que a educao da 
juventude se processar facilmente, se:

I. Comear cedo, antes da corrupo das inteligncias.
II. Se fizer com a devida preparao dos espritos.
III. Proceder das coisas gerais para as coisas particulares.
IV. E das coisas mais fceis para as mais difceis.
V. Se ningum for demasiado sobrecarregado com trabalhos escolares.
VI. Se em tudo se proceder lentamente.
VII. E se os espritos no forem constrangidos a fazer nada mais que aquilo que desejam 
fazer espontaneamente, segundo a idade e por efeito do mtodo.
VIII. Se todas as coisas forem ensinadas, colocando-as imediatamente sob os sentidos.
IX. E fazendo ver a sua utilidade imediata.
X. E se tudo se ensina sempre com um s e o mesmo mtodo.

     Assim, repito-o, tudo se processar segundo um andamento suave e agradvel. Mas 
regressemos de novo s pegadas da natureza.

FUNDAMENTO I

Fundamento I: Toma-se a matria pura.

3. A natureza no comea seno partindo do estado de virgindade (a privatione).
     Uma ave, com efeito, toma para o choco ovos frescos que contenham uma matria 
purssima; se j antes tivesse comeado a formar-se uma outra avezinha,
em vo se esperaria um bom resu1tado.

Imitao.

4. Igualmente, o arquiteto, que quer construir uma casa, tem necessidade de um pedao de 
terreno desimpedido; ou ento, se a quer construir no lugar de
uma outra, deve necessariamente, em primeiro lugar, demolir a velha.

5. Tambm o pintor pinta muito bem numa tela que nunca serviu. Mas se ela est j 
pintada, ou manchada, ou apresenta rugas,  necessrio primeiro que a
raspe e a limpe.

6. De igual modo, quem quer guardar unguentos preciosos, tem necessidade de frascos 
novos ou, ao menos, bem limpos do lquido que anteriormente continham.

7. Tambm o jardineiro planta muito bem as plantazinhas jovens, e, se acaso planta 
algumas que so j adultas,  necessrio que primeiro lhes corte os ramos
e lhes tire todas as ocasies de desperdiar a seiva. Foi por esta razo que Aristteles 
colocou o estado de virgindade (privatio) entre os princpios
das coisas
[1],
pois via que era impossvel infundir uma nova forma na matria, antes de suprimir a 
primeira.

Aberrao.

8. Daqui, se segue: primeiro, que as mentes jovens, ainda no habituadas a distrairem-se 
com outras ocupaes, se embebem bem dos estudos da sabedoria.
E que, quanto mais tarde comea a formao, tanto mais embaraada procede, pois a 
mente est j ocupada com outras coisas.
     Segundo, que uma criana no pode ser instruda, com fruto, por vrios mestres ao 
mesmo tempo, pois  quase impossvel que todos empreguem o mesmo
mtodo; da se segue a distrao dos espritos juvenis e os embaraos da sua formao. 
Terceiro, que agem como inexperientes aqueles que, encarregando-se
da formao de crianas j crescidas e de adolescentes, no comeam pela educao 
moral, para que, domando-lhes as paixes, os tornem aptos para as restantes
coisas.  bem sabido que os domadores, primeiro domam o cavalo com o freio e tornam-
no obediente, e s depois lhe ensinam a tomar esta ou aquela posio.
Sneca disse com razo: Primeiro aprende a moral e depois a cincia, pois esta aprende-
se mal sem aquela
[2].
E Ccero escreveu: A filosofia moral prepara os espritos para receber a boa semente
[3].

Correo.

9. Portanto:

I. Que a formao da juventude comece cedo.
II. Que, para um mesmo aluno e na mesma matria, no haja seno um s professor.
III. Que, antes de tudo, se eduquem os costumes das crianas, de modo que obedeam 
com prontido ao menor sinal do professor.

FUNDAMENTO II

Fundamento II: A matria torna-se vida de receber uma forma.

10. A naturerza predispe a matria de modo a tornar-se vida de uma forma.
     Assim, a avezinha j formada no ovo, sendo vida de uma perfeio maior, agita-se 
naturalmente e rompe a casca com as patas ou com o bico. Liberta
daquela priso, sente prazer em ser aquecida pela me; sente prazer em que ela lhe d de 
comer e, por isso, abre o bico e engole a bicada; sente prazer
em olhar o cu; sente prazer em ser treinada no voo, e, pouco depois, em voar; numa 
palavra,, apressa-se avidamente a pr em ao todas as suas funes
naturais, mas gradualmente.

Imitao.

11. Tambm o jardineiro deve necessariamente ter a preocupao de que a planta, provida 
da humidade e do calor vital necessrio, cresa fresca e vigorosa.

Aberrao.

12. Portanto, cuidam mal dos interesses das crianas aqueles que as obrigam aos estudos 
pela fora. Efetivamente, que podem eles esperar? Se o teu estmago
no recebe os alimentos com apetite e tu o queres atulhar, no podem vir-te seno nuseas 
e vmitos, ou, pelo menos, uma m digesto e dano para a sade.
Ao contrrio, qualquer que seja o alimento que metas num estmago famlico, ele digere-
o bem e transforma-o cuidadosamente em quilo e em sangue. Por isso,
dizia Iscrates:
: Se gostas de aprender, aprenders muito
[4].
E Quintiliano escreveu: A paixo de aprender depende da vontade, que no pode ser 
forada
[5].

Correo

13. Portanto:

I. Deve inflamar-se, de qualquer modo, nas crianas, o desejo ardente de saber e de 
aprender.
II. O mtodo de ensinar deve diminuir o trabalho de aprender, de modo que nada magoe 
os alunos e os afaste de prosseguir os estudos.

De que modo deve o desejo ardente de aprender ser excitado e favorecido nas crianas.

14. O desejo ardente acende-se e favorece-se nas crianas, pelos pais, pelos professores, 
pela escola, pelas proprias coisas, pelo mtodo e pelas autoridades
civis.

1) Pelos pais.

15. Os pais, se exaltam freqentemente, diante de seus filhos, os benefcios da instruo e 
o valor das pessoas instrudas; se os exortam ao amor pelo estudo,
prometendo-lhes belos livros, belos vestidos ou qualquer outra coisa que lhes d prazer; se 
fazem o elogio dos professores (e especialmente daquele a quem
confiam os filhos), pondo em relevo tanto a superioridade da sua instruo como a sua 
bondade para com os alunos (com efeito, o amor e a admirao so
os sentimentos mais fortes para desenvolver o gosto da imitao); se, finalmente, 
encarregam, por vezes, os filhos de desempenhar qualquer misso junto
do professor, ou de lhe levar qualquer pequeno presente, os pais, repito, conseguiro 
facilmente que eles considerem o professor como um amigo, e as disciplinas
que ele ensina como dignas da sua dedicao.

2) Pelos professores.

16. Os professores, por sua vez, se forem afveis e carinhosos, e no afastarem de si os 
espritos com qualquer ato de aspereza, mas os atrarem a si afetuosamente,
com atitudes e palavras paternais; se exaltarem os estudos empreendidos pelas crianas, 
mostrando a sua importncia, o seu encanto e a sua facilidade;
se louvarem os alunos mais diligentes (distribuindo mesmo, pelas crianas, peras, mas, 
nozes, doces, etc.); se, chamando-os para junto de si, mesmo em
pblico, lhes mostrarem aquilo que depois devero aprender, figuras, instrumentos de 
tica, de geometria, esferas armilares e outros objetos semelhantes
que despertam a admirao das crianas e as atraem; se os encarregarem de levar qualquer 
recado aos pais; se, numa palavra, tratarem os alunos com afabilidade,
facilmente conseguiro tornar-se senhores dos seus coraes, de modo que eles sintam at 
mais prazer em estar na escola que em casa.

Pela prpria escola, se  cheia de beleza por dentro e por fora.

17. A prpria escola deve ser num local agradvel, apresentando, no exterior como no 
interior, um aspecto atraente. No interior, deve ser um edifcio fechado,
bem iluminado, limpo, todo ornado de pinturas, quer sejam retratos de homens ilustres, 
quer sejam cartas geogrficas, ou recordaes histricas, ou quaisquer
baixos-relevos. No exterior, adjacentes  escola, deve haver, no s um pedao de terreno 
destinado a passeios e a jogos (que, de quando em quando, no
devem negar-se s crianas, como, veremos dentro em breve
[6]),
mas tambm um jardim aonde, em certos momentos, os alunos devero ser conduzidos 
para recrearem os olhos com a vista das rvores, das flores e das plantas.
Se se tiver isto em considerao na construo das escolas,  provvel que as crianas vo 
 escola no menos gostosamente que quando vo a qualquer feira
ou espetculo, onde esperam ver e ouvir sempre qualquer coisa de novo.

4) Pelas coisas.

18. As prprias matrias de ensino atraem a juventude, se so ministradas de modo 
adaptado  sua capacidade e com a maior clareza, e se so intermeadas
com qualquer gracejo ou, ao menos, com qualquer coisa menos sria que as lies, mas 
sempre agradvel. Com efeito,  a isto que se chama juntar o til
ao agradvel
[7].

5) Pelo mtodo (desde que seja natural e misture prudentemente o til com o agradvel)

19. Para que o prprio mtodo excite o apetite dos estudos,  necessrio: primeiro, que 
seja natural. Com efeito, tudo o que  natural desenvolve-se espontaneamente.
Para que a gua corra ao longo de um declive, no  necessrio constrang-la; basta que 
se levante o dique ou qualquer obstculo que a retm, e ela correr
imediatamente. Tambm no  necessrio pedir a uma ave que voe; basta abrir-lhe a 
gaiola. Tambm no  necessrio pedir aos olhos que contemplem uma bela
pintura ou aos ouvidos que ouam uma bela melodia, se se lhes d ensejo disso; nestes 
casos,  at, s vezes, necessrio refre-los. Quais devam ser os
requisitos do mtodo natural, mostra-no-lo o captulo precedente, e ainda as regras que se 
seguem.

e misture prudentemente o til com o agradvel)

Em segundo lugar, para que as inteligncias sejam aliciadas pelo prprio mtodo,  
necessario, com uma certa habilidade, ado-lo, de tal maneira que todas
as coisas, mesmo as mais srias, sejam apresentadas num tom familiar e agradvel, isto , 
sob a forma de conversas ou de charadas, que os alunos, em competio,
procurem adivinhar; e, enfim, sob a forma de parbolas e de aplogos. Acerca disto, 
falaremos mais amplamente no seu devido lugar
[8].

6) Pelas autoridades civis.

20. As autoridades civis e aqueles a quem incumbe o cuidado das escolas podem inflamar 
o zelo da juventude estudiosa, se assistem pessoalmente s provas
pblicas (quer sejam exerccios, declamaes e disputas, quer sejam exames e promoes) 
e distribuem (sem parcialidade), aos mais estudiosos, louvores
e pequenos prmios.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: Todas as coisas nascem de princpios prprios.

21. A natureza produz todas as coisas, fazendo-as nascer de elementos pequenos quanto  
massa, mas fortes quanto  potncia.
     Por exemplo: a substncia de que h-de ser formada a ave encerra-se numa gota e est 
circundada de uma casca, para facilmente poder ser transportada
no ventre e ser mantida quente no ninho. Todavia, essa substncia contm em si, 
potencialmente, toda a ave, porque depois, a partir dela, o corpo da avezinha
 formada pelo esprito a encerrado.

Imitao.

22. Do mesmo modo, uma rvore, por maior que seja, est toda concentrada, ou no caroo 
dos seus frutos, ou nos rebentos dos ramos mais altos, pois, se os
lanas  terra, a partir deles desenvolve-se uma outra rvore inteira, pela potncia que 
opera no interior do caroo ou do rebento.

Aberrao que faz estarrecer.

23. Contra este fundamento, comete-se vulgarmente nas escolas um pecado enorme. Com 
efeito, a maior parte dos professores esfalfa-se a semear ervas em vez
de sementes, e a plantar rvores em vez de mergulhes, pois, em vez dos princpios 
fundamentais, atulham a cabea dos alunos com um caos de concluses
vrias, e at de textos inteiros. Ora, assim como  certo que o mundo  composto de 
quatro elementos (apenas variam as formas), assim tambm  certo que
a instruo se concentra toda em pouqussimos princpios, dos quais (desde que se 
conheam as diferenas modais), deriva uma infinita multido de corolrios,
do mesmo modo que, de uma rvore de razes bem slidas, podem resultar centenas de 
ramos, e milhares de folhas, de flores e de frutos. Que Deus tenha piedade
do nosso sculo e abra os olhos da mente a algum que consiga penetrar profundamente o 
nexo das coisas e o mostre aos outros! Pela nossa parte, se Deus
quiser, apresentaremos um esboo da nossa tentativa no Compndio de Pansofia Crist, 
com a esperana humilde de que, em tempo oportuno, Deus revele, por
meio de outros, coisas mais importantes.

Correo.

24. Entretanto, notem-se trs coisas:

I. Toda a arte deve encerrar-se em muito poucas regras, mas exatssimas.
II. Toda a regra deve estar contida em pouqussimas palavras, mas clarssimas.
III. Cada regra deve ser seguida de numerosos exemplos que faam ver como  grande a 
variedade dos casos a que se estende a sua aplicao.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Primeiro, as coisas mais fceis.

25. A natureza caminha das coisas mais fceis para as mais difceis.
     Por exemplo: a formao do ovo no comea pela parte mais dura, isto , pela casca, 
mas pela gema e pela clara, as quais, primeiro, so circundadas
por uma pequena membrana e depois por um invlucro mais duro. Tambm a ave, que 
quer sair do ninho para voar, primeiro finca os ps, depois abre as asas,
a seguir agita-as e, finalmente, batendo-as com mais fora, eleva-se, e deste modo se 
habitua a entregar-se ao cu imenso.

Imitao.

26. Igualmente, o carpinteiro, primeiro aprende a cortar a madeira, depois a apar-la, a 
seguir a encaix-la e, finalmente, a construir edifcios, etc.

Aberrao de vria espcie

27. Age-se desasadamente todas as vezes que, nas escolas, se ensina o desconhecido por 
meio do igualmente desconhecido, como acontece: 1. quando se do,
aos principiantes de lngua latina, regras escritas em latim, o que  o mesmo que explicar 
o hebraico com regras escritas em hebraico, e o rabe, com regras
escritas em rabe; 2. quando, aos mesmos principiantes, se d como auxiliar um 
dicionrio latino-vernculo, quando deve fazer-se o contrrio. Com efeito,
no devem aprender a lngua verncula atravs do latim, mas devem aprender o latim 
mediante a lngua verncula, que conhecem j. (Acerca desta aberrao,
falaremos mais demoradamente no captulo XXII.) 3. quando se d  criana um 
preceptor estrangeiro que no conhece a lngua materna da criana. Efetivamente,
uma vez que no tm um instrumento comum a ambos para se entenderem, e no 
comunicam seno por meio de gestos, que podem eles edificar seno uma torre
de Babel? 4. comete-se tambm um grave erro contra a reta razo quando, com as mesmas 
regras gramaticais (por exemplo, as de Melanchton ou de Ramo)
[9],
etc., se ensina a juventude de todas as naes (francesa, alem, boema ou polaca, 
hungrica, etc.), uma vez que cada lngua tem, com a lngua latina, uma
relao particular e de certo modo prpria, a qual  necessrio descobrir, se realmente se 
quer ensinar os jovens a penetrar rapidamente na ndole da lngua
latina.

Correo.

28. Corrigir-se-o estes defeitos, se:

I. O professor e o aluno falam, desde o bero, a mesma lngua.
II. Todas as explicaes so dadas numa lngua conhecida.
III. Se as gramticas e os dicionrios se adaptarem  lngua mediante a qual se deve 
aprender a lngua nova (por exemplo, os de latim  lngua materna;
os de grego  latina, etc.).
IV. Se o estudo da nova lngua proceder gradualmente, de maneira que o aluno se habitue 
primeiro a compreend-la (o que  muito fcil), depois a escrev-la
(dando-lhe tempo para refletir) e, finalmente, a fal-la (o que  muito mais difcil, pois 
trata-se de uma improvisao).
V. Quando o ensino do latim  paralelo ao da lngua materna, o desta, uma vez que ela  
mais conhecida, deve ser ministrado primeiro, seguindo-se o da lngua
latina.
VI.  necessrio coordenar as matrias a ensinar, de modo que primeiro se ensinem as que 
esto mais prximas, depois as que esto mais afastadas e, finalmente,
as que esto ainda mais afastadas. Por isso, nas primeiras vezes que se apresentam regras 
s crianas (por exemplo, de lgica, de retrica, etc.), devem
ser ilustradas com exemplos no afastados da sua capacidade de compreenso (teolgicos, 
polticos, poticos, etc.), mas tirados da vida prtica de todos
os dias. De outro modo, no entendero nem a regra, nem o emprego da regra.
VII. Exercitem-se primeiro os sentidos das crianas (o que  muito fcil), depois a 
memria, a seguir a inteligncia, e por fim o juzo. Todos esses exerccios
devem ser feitos um aps o outro, gradualmente, pois o saber comea a partir dos 
sentidos, e, atravs da imaginao, passa para a memria, e depois, pela
induo a partir das coisas singulares, chega  inteligncia das coisas universais, e 
finalmente, acerca das coisas bem entendidas, emite o juzo, o que
permite chegar  certeza da cincia.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Nada de modo sobrecarregado.
Imitao.

29. A natureza no se sobrecarrega e contentase com pouco.
     Por exemplo: a natureza no exige que, de um ovo, nasam duas avezinhas, mas 
contenta-se com que nasa bem uma s. O jardineiro no enxerta muitos
garfos num s p; se v que ele  bastante robusto, enxerta-lhe, ao mximo, dois.

Aberrao.

30.  criar a distrao nos espritos, o apresentar aos alunos vrias matrias ao mesmo 
tempo, como a gramtica e a dialtica, e talvez tambm mesmo a retrica
e a potica e a lngua grega, etc., no mesmo ano. (Ver o captulo precedente, Fundamento 
IV).

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Nada de modo precipitado.

31. A natureza no se preclpita, mas procede lentamente.
     Efetivamente, uma ave no lana os ovos no fogo, para que os seus filhos nasam mais 
depressa, mas aquece-os docemente com o seu calor natural; nem
depois, para que cresam mais depressa, os empanturra com alimentos (sufoc-los-ia, com 
efeito, mais facilmente!), mas d-lhes, pouco a pouco e cautelosamente,
apenas aquilo que  capaz de digerir a sua faculdade nutritiva, ainda tenrinha.

Imitao

32. Tambm o arquiteto no constri  pressa as paredes em cima dos fundamentos, e o 
teto em cima das paredes; porque os fundamentos, ainda no bem enxutos
e consolidados, cedem sob o peso, e, conseqentemente, arruinam o edifcio. Por isso, no 
pode terminar-se uma construo grandiosa em um ano, mas tem
de demorar-se o tempo necessrio.

33. Tambm o jardineiro no pretende que a planta cresa logo no primeiro ms, ou que 
d fruto logo no primeiro ano. Por isso, no anda  volta dela todos
os dias, nem a rega todos os dias, nem, para a aquecer, a aproxima do fogo ou espalha 
constantemente, junto dela, cal viva, mas contenta-se com o modo
como a rega o cu e a aquece o sol.

Aberrao

34. Foi, portanto, uma autntica carnificina para os jovens: 1. ret-los todos os dias, 
durante seis, sete e at oito horas, em lies pblicas e exerccios,
e ainda, durante algum tempo, em lies particulares; 2. obrig-los a ouvir exposies 
didticas, a compor exerccios e a atulhar a memria com uma multido
de coisas, at  nusea, ou mesmo at ao delrio, como muitas vezes ns prprios vimos. 
Na verdade, se algum pretende encher um pequeno frasco de gargalo
estreito (a inteligncia das crianas pode ser-lhe comparada)
[10]
 fora, em vez de o encher gota a gota, que adianta? Sem dvida que a maior parte da 
gua salta fora, e no frasco entra menos do que entraria se ela fosse
introduzida pouco a pouco. Age, portanto, idiotamente aquele que pretende ensinar aos 
alunos, no quanto eles podem entender, mas quanto ele prprio deseja,
pois as foras querem ser ajudadas e no oprimidas, e o formador da juventude, da mesma 
maneira que o mdico,  apenas o ministro da natureza, e no o
seu senhor.

Correo.

35. Tornar, portanto, os estudos mais fceis e mais atraentes aos estudantes aquele que:

I. os envia s lies pblicas durante o menor nmero possvel de horas, ou seja, durante 
quatro horas, reservando outro tanto de tempo para o estudo privado.
II. lhes sobrecarrega o menos possvel a memria, ou seja, apenas obriga a aprender de 
cor as coisas fundamentais, deixando correr livremente as outras
coisas.
III. e, todavia, lhes ensina todas as coisas de modo proporcionado  sua capacidade, a 
qual, com o progredir da idade e dos estudos, crescer por si mesma.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Nada contra a vontade.

36. A natureza no empurra nada, mas apenas d o seu impulso aos seres que atingiram o 
seu pleno desenvolvimento e aspiram a fazer a sua irrupo.
     A natureza, com efeito, no constrange a avezinha a abandonar o ovo, a no ser 
quando tem j os membros bem conformados e robustecidos; nem a obriga
a voar, a no ser quando est j coberta de penas; nem a expulsa do ninho, a no ser 
quando v que j sabe voar, etc.
     Tambm a rvore no lana os seus rebentos, seno quando a seiva, subindo pelas 
razes, os impele para fora; nem faz desabrochar os botes, a no ser
depois que as folhas, formadas juntamente com as flores, a partir da seiva interna, aspiram 
a abrir-se; nem deixa cair a flor, a no ser quando o fruto
est j coberto com a pele; nem deixa cair o fruto, a no ser depois de o haver feito 
amadurecer.

Aberrao.

37. Faz-se, portanto, violncia s inteligncias: 1. todas as vezes que se constrangem a 
fazer coisas superiores  sua idade e  sua capacidade; 2. todas
as vezes que se obrigam a aprender de cor ou a fazer coisas que primeiro no foram 
explicadas, esclarecidas e ensinadas muito bem.

Correo.

38. Daqui para o futuro, portanto:

I. A nada se obrigue a juventude, a no ser quilo que a idade e a inteligncia, no s 
admitem, mas at desejam.
II. Nada se obrigue a aprender de cor, a no ser aquilo que a inteligncia compreendeu 
perfeitamente. E no se obrigue uma criana a recitar de cor uma
lio, sem se ter a certeza de que ela a compreendeu.
III. Nada se mande fazer, a no ser depois de haver mostrado a sua forma e indicado a 
regra que deve seguir-se para a executar.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: Tudo de modo evidente, diante dos sentidos.

39. A natureza ajuda-se a si mesma de todas as maneiras que pode.
     Por exemplo: ao ovo no falta o seu calor vital, mas, apesar disso, o pai da natureza, 
Deus, providencia que ele seja ajudado tanto pelo calor do Sol,
como pelas penas da ave que o choca. Mesmo depois de a avezinha sair do ovo, e at que 
disso tenha necessidade, a me conserva-a aquecida, forma-a e fortalece-a,
de vrios modos, para as funes da vida. E, a este propsito, podemos ver de que modo 
as cegonhas vo em ajuda das suas cegonhinhas, deixando que elas
lhes subam para cima e transportando-as de regresso ao ninho, ainda que tenham de agitar 
as asas. Tambm as amas ajudam, de vrias maneiras, a fraqueza
dos bebs: ensinam-lhes primeiro a levantar a cabea, depois a estar sentados, depois a 
estar de p, e, a seguir, a mover os ps e a dar passos, e depois
a manter-se firmes nos ps e a andar devagarinho, e finalmente a caminhar expeditamente: 
de onde se segue, depois, a agilidade na corrida. Quando, depois,
os ensinam a falar, no s pronunciam as palavras, mas, com as mos, mostram-lhes o que 
significam essas palavras, etc.

Aberrao.

40. , por isso, cruel o professor que, tendo marcado aos alunos um trabalho, os no 
esclarece bem no que ele consiste, nem mostra como ele deve ser feito,
e, muito menos, os ajuda enquanto tentam faz-lo, mas os obriga a estar ali a suar e a 
sofrer sozinhos, e se fazem qualquer coisa menos bem, torna-se furioso.
Mas que  isto seno a verdadeira tortura da juventude? Seria o mesmo que se uma ama 
obrigasse um beb, que ainda vacila, a manter-se de p, a caminhar
expeditamente, e se o no fizesse, o obrigasse a andar  fora de bastonadas. A natureza 
ensina-nos outra coisa, a saber, que se deve tolerar a fraqueza,
enquanto no vem a fora.

Correo.

41. Daqui para o futuro, portanto:

I. Por causa da instruo, no se inflija nenhum aoite. (Efetivamente, se no se aprende, 
de quem  a culpa seno do professor, que no sabe ou no se
preocupa em tornar o aluno dcil?)
II. Tudo aquilo que deve ser aprendido pelos alunos, deve ser-lhes apresentado e 
explicado to claramente, que o tenham presente como os cinco dedos das
prprias mos.
III. A fim de que todas essas coisas se imprimam mais facilmente, utilize-se, o mais que 
se puder, os sentidos.

42. Por exemplo: associe-se sempre o ouvido  vista, a lngua  mo; ou seja, no apenas 
se narre aquilo que se quer fazer aprender, para que chegue aos
ouvidos, mas represente-se tambm graficamente, para que se imprima na imaginao por 
intermdio dos olhos. Os estudantes, por sua vez, devem aprender,
ao mesmo tempo, a expor as idias com a lngua e a exprimi-las por meio de gestos, de 
modo que se no d por terminado o estudo de nenhuma matria, seno
depois de ela estar suficientemente impressa nos ouvidos, nos olhos, na inteligncia e na 
memria. Com este objetivo, ser bom que todas as coisas, que
costumam ser estudadas em determinada classe, sejam representadas graficamente nas 
paredes da sala de aula
[11]:
quer se trate de teoremas e de regras, quer se trate de imagens e de baixo-relevos da 
disciplina que se est a estudar. Com efeito, se isto se fizer, 
enorme a ajuda que pode dar, para produzir as mencionadas impresses. Tem relao com 
isto o fato de habituar os alunos a transcrever, nos seus cadernos
dirios, tudo o que ouvem e tambm o que lem nos livros, porque assim, no s se ajuda 
a imaginao, mas tambm mais facilmente se exercita a memria.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX: Tudo conforme a sua utilidade.

43. A natureZa no produz seno aquilo que se revela imediatamente til.
     Por exemplo: quando forma uma avezinha, v-se imediatamente que lhe d as asas 
para voar, as patas para correr, etc. Tambm tudo o que nasce numa rvore
tem utilidade, mesmo a casca e a pelugem dos frutos, etc. Portanto:

Imitao.

44. Aumentar-se- ao estudante a facilidade da aprendizagem, se se lhe mostrar a 
utilidade que, na vida quotidiana, ter tudo o que se lhe ensina. E isso
deve verificar-se em todas as matrias: na gramtica, na dialtica, na aritmtica, na 
geometria, na fsica, etc. Sem este cuidado prvio, acontecer que
tudo o que lhe contarem lhe parecer um monstro de um mundo desconhecido; e a 
criana, ainda no muito interessada em saber que essas coisas existem na
natureza e como existem, poder acreditar nelas, mas a sua crena no constituir cincia. 
Mas, se se lhe mostrar qual  o objetivo de cada coisa,  como
meter-lha na mo, para que saiba que sabe e se habitue a utiliz-la.

Portanto:

45. No se ensine seno aquilo que se apresenta como imediatamente til.

FUNDAMENTO X

Fundamento X: Todas as coisas uniformemente.

46. A natureza faz todas as coisas uniformemente.
     Por exemplo: do mesmo modo que se processa a gerao de uma ave, assim se 
processa a gerao de todas as aves, e at a de todos os animais, mudadas
apenas algumas circunstncias. Assim se verifica tambm nas plantas: do mesmo modo 
que uma erva nasce da sua semente e cresce; do mesmo modo que uma rvore
se planta, germina e floresce, assim acontece com todas, por toda a parte e sempre. E 
assim como , numa rvore, uma folha, assim so todas as outras;
e assim como so este ano, assim sero no ano seguinte e sempre.

Aberrao.

47. Confunde, portanto, a juventude e torna os estudos excessivamente intrincados, a 
variedade do mtodo, ou seja, o fato de, no s diversos autores ensinarem
as artes de modo diverso, mas at de um e o mesmo ensinar de modo diverso. Por 
exemplo: um mtodo para a gramtica, outro para a dialtica, etc., quando
poderiam ensinar-se uniformemente, e em conformidade com a relao e o nexo comum 
que as coisas e as palavras tm entre si.

Correo.

48. Por esta razo, procurar-se-, daqui paxa o futuro, que:

I. Se ensinem, com um s e mesmo mtodo, todas as cincias; com um s e o mesmo 
mtodo, todas as artes; com um s e mesmo mtodo, todas as lnguas.
II. Na mesma escola, seja a mesma a ordem e os processos de todos os exerccios.
III. As edies dos livros da mesma disciplina sejam, tanto quanto possvel, as mesmas.
     Assim tudo progredir facilmente, sem embaraos.

Captulo XVIII

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR E APRENDER
SOLIDAMENTE

Geralmente a instruo  superficial.

1. As lamentaes de muitos e os prprios fatos atestam que so poucos os que trazem da 
escola uma instruo slida, e numerosos os que de l saiem apenas
com um verniz ou uma sombra de instruo.

Dupla causa.

2. Se procurarmos as causas disso, encontramos duas: ou porque as escolas, descurando as 
coisas mais importantes, se ocupam de banalidades e de frivolidades;
ou ento porque os alunos, tendo passado a correr por cima de muitas matrias, mas no 
se tendo detido demoradamente em nenhuma delas, voltaram a desaprender
aquilo que haviam aprendido. E este segundo defeito  to comum, que poucos so 
aqueles que dele se no lamentam. Efetivamente, se a memria estivesse
sempre pronta a pr  nossa disposio tudo o que, alguma vez, lemos, ouvimos e 
compreendemos, como seramos considerados pessoas instrudas! Em todas
as ocasies em que fssemos postos  prova, nada nos escaparia! Mas, porque  o 
contrrio que se verifica, sem dvida que andamos a transportar gua com
um crivo...

O remdio para estes dois males deve pedir-se ao mtodo natural.

3. Mas haver remdio para este mal? Sem dvida, se, introduzidos de novo na escola da 
natureza, investigarmos por que vias ela produz criaturas de longa
durao. Ser possvel encontrar o modo pelo qual algum pode saber, no s aquelas 
coisas que aprende, mas ainda mais do que as que aprende, isto , no
somente aquelas coisas que aprende dos professores e dos vrios autores, correspondendo 
bem ao seu ensino, mas tambm as que ele prprio aprende, refletindo
sobre os fundamentos das coisas.

Das condies.

4. Conseguir-se- isso,

I. Se no se estudar seno assuntos que viro a ser de slida utilidade.
II. E se todos esses assuntos forem estudados sem os separar.
III. E se todos eles repousarem em fundamentos slidos.
IV. E se esses fundamentos mergulharem bem fundo.
V. E se, depois, todas as coisas no se apoiarem seno sobre esses fundamentos.
VI. Se todas as coisas que devem ser distinguidas forem minuciosamente distinguidas.
VII. Se todas as coisas que vm a seguir se baseiam nas que esto antes.
VIII. Se todas as coisas que tm entre si uma relao estreita, se mantm constantemente 
relacionadas.
IX. Se todas as coisas forem ordenadas em proporo da inteligncia, da memria e da 
lngua.
X. Se todas as coisas forem consolidadas com exerccios contnuos.
     Examinemos cuidadosamente cada uma destas dez condies.

FUNDAMENTO I

Fundamento I: No deve abordar-se nada do que nos no diz respeito.

5. A natureza no comea nada que seja intil.
     Por exemplo: quando comea a formar a avezinha, no lhe faz escamas, nem 
barbatanas, nem guelras, nem cornos, nem quatro patas, nem qualquer outra
coisa que ela no utilizar, mas faz-lhe a cabea, o corao, as asas, etc. Do mesmo modo, 
 rvore, a natureza no faz orelhas, olhos, penas, pelos, etc.,
mas faz-lhe a casca, o livrilho, o cerne, as razes, etc.

Imitao em coisas mecnicas.

6. De igual modo, quem deseja um campo, uma vinha ou um pomar frutferos, no cultiva 
l ziznia, urtigas, espinheiros e silvas, mas sementes e plantas
da melhor espcie.

7. Tambm o arquiteto, que tem inteno de levantar construes slidas, no adquire 
colmo ou palha, ou lama, ou madeira de salgueiro, mas pedras, tijolos,
madeira de carvalho e de plantas semelhantes, de fibra forte e compacta.

Tambm nas escolas.

8. Nas escolas, portanto,

I. No se trate seno daquelas coisas que so solidamente teis para a vida presente e para 
a vida futura; mais ainda para a vida futura. (Nesta terra,
com efeito, devem aprender-se, segundo o aviso de S. Jernimo, precisamente aquelas 
coisas cujo conhecimento continuar no cu
[1]).

II. Se, na realidade,  preciso (como, efetivamente, ) infundir na mente dos jovens 
algumas coisas tambm por causa da vida presente, essas coisas devem
ser de natureza a no impedirem a consecusso dos bens eternos e a produzirem um fruto 
slido para a vida presente.

Deve tratar-se apenas de coisas slidas.

9. Com efeito, para que servem as ninharias? Que interessa aprender coisas que nem 
trazem vantagem slidas, a quem as sabe, nem desvantagem a quem as ignora
e que, com o andar da idade, acabaro por desaparecer ou por se esquecer no meio das 
ocupaes de todos os dias? A nossa breve vida comporta necessidades
suficientes para a encher completamente, mesmo que no gastemos um momento sequer 
com essas futilidades. As escolas tm, portanto, a obrigao de no ocupar
a juventude seno em coisas srias. (De que modo se devam tornar srias as coisas 
jocosas, v-lo-emos mais adiante)
[2].

FUNDAMENTO II

Fundamento II: No deve deixar de fazer-se nada que tenha interesse.

10. A natureza no omite nada de quanto se apercebe que pode ser til para o corpo que 
forma.
     Por exemplo: enquanto forma a avezinha, no se esquece de fazer-lhe nem a cabea, 
nem as asas, nem as patas, nem as unhas e a pele, nem, em suma, nenhuma
daquelas coisas que dizem respeito  essncia da ave (no seu gnero).

Imitao nas escolas.

11. Da mesma maneira, portanto, as escolas, enquanto formam o homem, devem form-lo 
todo, de modo a tornarem-no igualmente apto para os negcios desta vida
e para a eternidade, para a qual tendem todas as coisas que se fazem neste mundo.

12. Ensine-se, portanto, nas escolas, no apenas as cincias e as artes, mas tambm a 
moral e a piedade. A cincia e a arte, com efeito, adestram a inteligncia,
a lngua e as mos do homem a contemplar, a falar e a fazer racionalmente todas as coisas 
teis. Se se deixa de aprender alguma dessas coisas, haver um
hiato, que no s tornar a instruo defeituosa, mas abalar at a sua solidez, pois 
nenhuma coisa pode ser slida se no tem todas as partes bem ligadas.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: As coisas slidas devem basear-se solidamente.

13. A natureza no faz nada sem fundamento, ou seja, sem razes.
      sabido que a planta, antes de lanar pela terra abaixo as razes, no lana rebentos 
para cima, ou, se o tenta, necessariamente seca e morre. Por
isso, o jardineiro prudente no a planta antes de ter verificado que as razes so de boa 
qualidade. Na ave e em todos os outros animais, as vsceras (membros
vitais) fazem as vezes das razes, e, por isso, so sempre as primeiras a formar-se, como 
fundamento de todo o corpo.

Imitao.

14. Tambm o arquiteto no constri a parte visvel do edifcio, seno aps haver lanado 
slidos fundamentos, pois, de outro modo, tudo cairia em runas.
De igual modo, o pintor assenta as suas tintas sobre um fundo, pois, sem ele, facilmente as 
cores se despegam, se deterioram e desbotam.

Aberrao

15. No fazem repousar a instruo sobre semelhante fundamento os professores que: 1. 
se no esforam, antes de tudo, por tornar os alunos dceis e atentos;
2. no do, logo no incio, aos alunos, a idia geral de toda a matria que eles vo estudar, 
a fim de que eles entendam, de modo bem distinto, o que tm
a fazer. De resto, se a criana comea a aprender sem gosto, sem ateno e sem 
compreender, que resultado slido pode esperar-se?

Correo.

16. Daqui para o futuro, portanto:

I. Ao comear-se seja que estudo for, desperte-se um amor srio por ele nos alunos, por 
meio de argumentos tirados da excelncia, da utilidade, do encanto
e de qualquer outro aspecto da matria a estudar.
II. Imprima-se sempre no esprito do estudante a idia geral de uma lngua ou de uma arte 
(a qual no  seno o seu resumo, delineado de modo generalssimo,
mas contendo todas as suas partes), antes de se passar a tratar dela de uma maneira 
particular, para que, do campo que deve percorrer, o aluno veja, logo
desde os primeiros passos, toda a extenso e todos os limites e at a disposio das partes 
internas. Efetivamente, do mesmo modo que o esqueleto  a base
de todo o corpo humano, assim tambm o plano de uma arte  a base e o fundamento de 
toda essa arte.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Que os fundamentos sejam profundos.

17. A natureza lana as razes bem para o fundo.
     Assim, nos animais, esconde os membros vitais na parte mais interna do corpo. E a 
rvore quanto mais para o fundo lana as suas razes, tanto mais
segura est; aquela que as lana apenas  flor da terra, arranca-se facilmente.

Correo da aberrao.

18. Daqui resulta evidente que no s se deve excitar seriamente a docilidade no aluno, 
mas tambm se deve imprimir profundamente nas inteligncias a idia
geral da matria a estudar. E que ningum seja admitido ao estudo aprofundado de uma 
arte ou de uma lngua, antes de essa idia geral estar plenamente
compreendida e bem enraizada.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Tudo a partir das prprias razes.

19. A natureza produz tudo a partir da raiz, e nada a partir de outro elemento.
     Efetivamente, na rvore, tudo o que vir a ser a madeira, a casca, as folhas, as flores e 
os frutos, no provm seno da raiz. De fato embora as chuvas
caiam sobre a planta e o jardineiro a regue, todavia,  necessrio que todas as coisas sejam 
destiladas atravs das razes, e depois circulem pelo tronco,
pelos ramos, pelas folhas e pelos frutos. Por isso, embora o jardineiro v buscar o garfo a 
outro lugar, deve, todavia, enxert-lo no tronco, para que
ele, incorporando-se na sua substncia, possa sugar a seiva das suas razes. Deste modo,  
rvore tudo vem a partir das razes, no sendo necessrio ir
a qualquer outra parte buscar os ramos e as folhas e aplicar-lhos. Da mesma maneira, 
quando uma ave deve revestir-se de penas, estas no vo buscar-se
quelas de que uma outra ave se despojou, mas despontam das partes ntimas do seu 
prprio corpo.

Imitao em coisas mecnicas.

20. Tambm o arquiteto sensato constri todas as partes do edifcio de modo que, assentes 
sobre os seus prprios alicerces, se sustentem por si mesmas,
sem necessidade de apoios externos. Efetivamente, se um edifcio precisa desses apoios,  
porque  defeituoso e ameaa runa.

21. De igual modo, quem prepara uma piscina ou um poo de gua, no transporta as 
guas de qualquer outro local, nem espera as guas das chuvas, mas abre
as veias de uma nascente viva, e, por meio de canais e de tubos subterrneos, encaminha-a 
para o seu reservatrio.

Tambm na escola.

22. Desta regra fundamental, segue-se que instruir bem a juventude no consiste em 
rechear os espritos com um amontoado de palavras, de frases, de sentenas
e de opinies tiradas de vrios autores, mas em abrir-lhes a inteligncia  compreenso 
das coisas, de modo que dela brotem arroios como de uma fonte de
gua viva, e como, dos olhos das rvores, brotam os rebentos, as folhas, as flores e os 
frutos, e, no ano seguinte, de cada olho, nasce de novo um
outro ramo com as suas folhas, as suas flores e os seus frutos.

Enorme aberrao das escolas.

23. At aqui, as escolas no se tm proposto realmente como objetivo habituar os espritos 
a irem buscar o vigor s prprias razes, como fazem as rvores,
mas tm-lhes ensinado apenas a munirem-se de pequenos ramos arrancados de outro 
lugar, e, assim, a enfeitarem-se com as penas dos outros, como o corvo
de Esopo
[3];
e tm-se esforado, no tanto por cavar a fonte da inteligncia neles escondida, como por 
irrig-la com guas alheias. Isto , no lhes tm mostrado as
prprias coisas, como  que elas so por si e em si, mas que  que, acerca disto ou 
daquilo, pensou ou escreveu este ou aquele, um terceiro ou at um dcimo
autor; a tal ponto que chegou a pensar-se que a mxima erudio consistia em saber de cor 
opinies discrepantes de muitos autores acerca de muitas coisas.
Da que muitos no se ocuparam seno em respigar, de vrios autores, frases, sentenas, e 
opinies, construindo uma cincia que no passava de uma manta
de retalhos. A estes, repreende-os asperamente Horcio: Imitadores, rebanho de 
escravos!
[4].
De fato, rebanho de escravos, habituados apenas a transportar a carga dos outros.

Verniz da instruo superficial.

24. Mas, por amor de Deus, que interessa distrair-se com as opinies emitidas por vrios 
autores acerca das coisas, quando o que se procura saber  como
so verdadeiramente as coisas em si mesmas? Ser que tudo o que fazemos na vida no 
consiste seno em andar atrs dos outros, que correm de c para l,
e em observar onde algum se desvia, tropea ou perde o norte?  vs todos, deixai os 
caminhos tortuosos, e vante para a meta! Se temos uma meta fixa
e bem determinada, porque no havemos de esforar-nos por atingi-la pelo caminho 
direto? Porque  que havemos de servir-nos mais dos olhos dos outros que
dos nossos?

A causa disto  o mtodo defeituoso.

25. Que as escolas cometem o erro de ensinar a olhar com os olhos dos outros e a saborear 
com o corao dos outros, mostra-o o mtodo de todas as artes,
o qual no ensina a abrir as fontes e a derivar delas vrios arroios, mas apenas mostra os 
arroios derivados dos autores, querendo que, atravs deles,
atinjamos as fontes. Com efeito, nenhum dicionrio (a mim parece assim, se se excetuar o 
polaco de Knapski
[5],
mas, quanto a dicionrios, mostrarei o que penso, no captulo XXII) ensina a falar, mas a 
compreender; quase nenhuma gramtica ensina a compor um discurso,
mas a analis-lo, e nenhuma estilstica mostra a maneira de compor elegantemente frases 
ou de as variar, apenas apresentando um monto confuso de frases.
     Quase ningum ensina a fsica por meio de demonstrase grficas e de experincias, 
mas todos a ensinam lendo o texto de Aristteles ou de outro autor.
Ningum procura formar os costumes por meio de uma reforma interna das inclinaes, 
mas todos esboam superficialmente uma reforma moral, por meio de definies
e de divises externas das virtudes. Isto aparecer mais claro quando, com a ajuda de 
Deus, falarmos do mtodo especial de ensinar as artes e as lnguas
[6],
e mais claro ainda, se Deus o permitir, no Plano da Pansofia
[7].

Os artesos e os operrios tratam melhor as suas coisas.

26.  realmente de admirar que, neste assunto, os antigos no tenham visto melhor que 
ns, ou, ao menos, que este erro no tenha j sido corrigido pelos
modernos; , sem dvida, a que reside a verdadeira causa da extrema lentido dos nossos 
progressos. Que digo? Porventura o carpinteiro mostra ao seu aprendiz
a arte de fabricar casas, destruindo-as? Pelo contrrio,  construindo que lhe mostra quais 
os materiais que se devem escolher e como cada um deles, por
sua vez, deve ser medido, desbastado, polido, levantado, colocado, encaixado, etc.
     Efetivamente, quem  mestre na arte de construir, de modo algum considera como uma 
arte a demolio, de mesmo modo que, quem sabe coser bem um vestido,
no considera uma arte o descos-lo. Demolindo casas, nunca ningum aprendeu a ser 
construtor, e desfazendo vestidos, nunca ningum chegou a alfaiate.

A incria dos homens de estudo acerca das suas prprias coisas  duplamente nociva.

27. Sem dvida, os inconvenientes, e at os danos, de no reformar este mtodo, so 
manifestos: 1. porque a instruo de muitos, se no mesmo da maioria,
se reduz a uma mera nomenclatura; isto , sabem, de fato, recitar os termos e as regras das 
artes, mas no sabem fazer bom uso delas; 2. porque a lnstruo,
a bem dizer de todos, no  uma cincia universal que se mantenha, se reforce e se 
difunda por si mesma, mas  uma espcie de manta de ratalhados, com
um pedao tirado daqui e outro de alm, sem qualquer conexo e incapaz de produzir 
qualquer espcie de fruto slido. Efetivamente, essa cincia, constituda
por uma coleco de vrias sentenas e opinies de diversos autores, assemelha-se muito 
 rvore que  costume levantar em certas festas de aldeia, a qual,
embora se apresente adornada com ramos, flores e frutos, e at com grinaldas e coroas, a 
ela ligadas de vrios modos, todavia, uma vez que estas coisas
no crescem de uma raiz prpria, mas so amarradas externamente, no podem nem 
multiplicar-se nem durar muito tempo. Com efeito, semelhante rvore no
produz nenhuns frutos, e os ramos, que dela pendem, murcham e caem. Mas a pessoa 
instruda a partir dos fundamentos  como uma rvore que tem razes prprias
e se alimenta de seiva prpria, e, por isso, est sempre vigorosa (mais ainda, torna-se, de 
dia para dia, cada vez mais robusta) e verdejante e apta para
produzir flores e frutos.

Correo.

28. A concluso de tudo isto  esta: tanto quanto possvel, os homens devem ser 
ensinados, no a ir buscar a cincia aos livros, mas ao cu,  terra, aos
carvalhos e s faias; isto , a conhecer e a perscrutar as prprias coisas, e no apenas as 
observaes e os testemunhos alheios acerca das coisas. E isto
equivale a dizer que  preciso caminhar de novo pelas pegadas dos mais antigos sbios, se 
se quer alcanar o conhecimento, no de outras fontes, mas do
prprio arqutipo das coisas. Seja, portanto, lei:

I. Derivar tudo dos princpios imutveis das coisas.
II. Nada ensinar apenas com argumentos de autoridade, mas ensinar tudo por meio de 
demonstrao, sensvel e racional.
III. Nada ensinar com o mtodo analtico somente, mas de preferncia tudo com o mtodo 
sinttico.

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Todas as coisas distintamente.

29. Quanto mais numerosos so os usos para que a natureza prepara determinada coisa, 
tanto mais minuciosamente a distingue.
     Por exemplo: quanto mais distintamente um animal tem os membros divididos em 
articulaes, tanto mais  capaz de um movimento mais distinto: como o
cavalo mais que o boi, o lagarto mais que o caracol, etc. Tambm uma rvore, que tenha 
estendido bem os braos dos ramos e das razes,  mais resistente
e mais bela.

Deve imitar-se.

30. Portanto, na instruo da juventude, importa fazer tudo o mais distintamente possvel, 
de modo que, no s quem ensina, mas tambm quem aprende, entenda,
sem nenhuma confuso, onde est e o que faz. Importa, por isso, que todos os livros 
utilizados nas escolas sejam elaborados segundo este luminoso exemplo
da natureza.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Tudo em contnuo progresso.

31. A natureza est em contnuo progresso; nunca pra, nunca abandona as coisas velhas 
para fazer coisas novas, mas apenas continua, aumenta e aperfeioa
as coisas que antes comeara.
     Por exemplo: na formao do feto, a substncia que comeou a tornar-se cabea, ps, 
corao, etc., permanece isso mesmo e apenas se aperfeioa. Uma
rvore nascida de semente no deita fora os primeiros ramos com que nasceu, mas 
continua solicitamente a fornecer-lhe seiva vital, para que possam, todos
os anos, lanar novos ramos.

Deve imitar-se.

32. Portanto, nas escolas:

I. Disponham-se todos os estudos de tal maneira que os seguintes se baseiem sempre nos 
precedentes, e os que se fazem primeiro sejam consolidados pelos
que vm a seguir.
II. Todas as coisas explicadas, depois de bem apreendidas pela inteligncia, fixem-se 
tambm na memria.

A memria deve ser aumentada e reforada na primeira idade.

33. Porque, neste mtodo natural, tudo o que precede deve servir de fundamento a tudo o 
que se segue, no pode proceder-se de outro modo seno assentando
todas as coisas em bases slidas. Ora no se introduzem solidamente no esprito seno as 
coisas que forem bem entendidas e cuidadosamente confiadas  memria.
Quintitiano escreveu acertadamente: Todo o progresso escolar depende da memria e  
intil ir  lio, se cada uma das coisas que ouvimos (ou lemos) desaparece
[8].
E Luis de Vives: Durante a primeira idade, exercite-se a memria, pois ela desenvolve-
se, cultivando-a; confie-se-lhe muitas coisas, com cuidado e freqentemente.
Com efeito, aquela idade no sente a fadiga, porque nem sequer pensa nela. Assim, sem 
fadiga e sem tdio, a memria alarga-se e torna-se capacssima.
(Das Disciplinas, Livro III)
[9].
E, na Introduo  Sabedoria, escreve: Nunca deixes a memria sem fazer nada. Nada 
lhe  mais agradvel e nada a desenvolve mais que o trabalho. Confia-lhe,
todos os dias, qualquer coisa: quanto mais coisas lhe confiares, tanto mais fielmente as 
guardar; quanto menos coisas lhe confiares, tanto menos fielmente
as guardar
[10].
Que estes escritores dizem uma grande verdade, provam-no os exemplos da natureza. 
Com efeito, uma rvore, quanto mais humidade absorve, tanto mais robustamente
cresce; e quanto mais robustamente cresce, tanto mais absorve. Tambm um animal, 
quanto mais digere, tanto mais cresce; e quanto mais cresce, tanto mais
alimento deseja e digere.
     E da mesma maneira todas as coisas tomam naturalmente incremento em razo das 
suas prprias aquisies. No deve, portanto, sob este aspecto, poupar-se
a primeira idade (desde que se proceda racionalmente); isso constituir o fundamento de 
um solidssimo progresso.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: Todas as coisas com nexos contnuos.

34. A natureza liga todas as coisas com nexos contnuos.
     Por exemplo: quando forma uma avezinha, liga de todos os modos membro com 
membro, osso com osso, nervo com nervo, etc. Tambm numa rvore, da raiz
brota o tronco, do tronco os ramos, dos ramos as ramagens, das ramagens os rebentes, 
dos rebentes os rebentos, dos rebentos as folhas, as flores e os
frutos, e depois novos rebentes, etc., de tal maneira que, embora sejam milhes os ramos, 
as ramagens, as folhas e os frutos, no constituem seno uma
s e a mesma rvore. Tambm num edifcio, se se quer que ele dure, todas as suas partes, 
as maiores como as mnimas, as paredes com os alicerces, o forro
e o teto com as paredes, devem no s combinar-se entre si, mas tambm encaixar-se de 
tal maneira que se unam firmemente e constituam uma casa.

Deve imitar-se.

35. Daqui resulta que:

I. Os estudos da vida inteira devem ser dispostos de tal modo que constituam uma 
enciclopdia, na qual nada se encontre que no tenha nascido da raiz comum
e que no esteja assente no seu devido lugar.
II. Todas as coisas que se ensinam devem de tal modo basear-se em razes slidas que 
no deixem facilmente lugar nem  dvida nem ao esquecimento.
     Efetivamente, as razes so os pregos, as fivelas e os ganchos que fazem estar uma 
coisa seguramente ligada e no a deixam cambalear nem cair.

Que significa ensinar pelas causas?

36. Consolidar todas as coisas com razes, significa ensinar todas as coisas pelas suas 
causas, isto , mostrar no s como  que alguma coisa , mas tambm
porque no pode ser de outra maneira. Com efeito, saber significa conhecer as coisas por 
meio das suas causas. Por exemplo: se se puser a questo de saber
se  mais correto dizer Totus populus ou Cunctus populus, se o professor responder 
Cunctus populus, mas no der a razo, o aluno bem depressa se esquecer.
Mas se disser que cunctus  uma contrao de conjunctus e que, portanto, totus se diz 
mais apropriadamente de uma coisa slida, e cunctus, de algum coletivo,
como no caso presente, no vejo como uma criana o possa esquecer, a no ser que seja 
muito estpida.
     De igual modo, disputam os gramticos porque  que se diz Mea refert, Tua refert, 
Ejus refert, isto , porque  que na primeira e na segunda pessoa
se usa o ablativo (com efeito, assim pensam) e na terceira o genitivo? Se eu disser que 
acontece assim porque Refert , neste lugar, uma contrao de Res
fert (pela eliso do s), e que, por isso, se deveria dizer Mea res fert, Tua res fert, Ejus res 
fert (ou, de modo contracto, Mea refert, Tua refert, Ejus
refert) e que, assim, Mea e Tua no so ablativos mas nominativos, no trarei luz  mente 
do aluno?
     Em concluso, queremos que os alunos sejam ensinados a conhecer, de modo distinto e 
expedito, a origem de todas as palavras e a razo de todas as frases
(ou construes) e os fundamentos de todas as regras nas artes e nas cincias 
(efetivamente, os teoremas das cincias devem apoiar-se, no em raciocnios
e hipteses, mas na demonstrao primeira que  inerente s prprias coisas). Alm de um 
dulcssirno prazer, este exerccio tem tambm uma notvel utilidade,
pois prepara o caminho para uma solidssima instruo, uma vez que assim se abrem os 
olhos aos alunos, tornando-os desejosos de, por si, passarem do conhecimento
de umas coisas para o de outras, e assim sucessivamente.

Concluso.

37. Portanto, nas escolas, todas as coisas sejam ensinadas pelas suas causas.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX: Todas as coisas segundo uma proporo contnua, das coisas interiores 
para as exteriores.

38. A natureza conserva uma justa proporo entre as razes e os ramos, relativamente  
quantidade e  qualidade.
     Com efeito, assim como, debaixo da terra, as razes se desenvolvem mais robustamente 
ou mais debilmente, assim tambm, em pleno ar, os ramos se desenvolvem
mais robustamente ou mais debilmente. E  necessrio que seja assim, pois, se a rvore 
crescesse apenas para cima, no poderia manter-se de p, uma vez
que  mantida de p pelas razes. Se crescesse apenas para debaixo da terra, seria intil, 
pois o fruto  produzido pelos ramos, e no pelas razes. Tambm
no animal, os membros exteriores crescem paralelamente com os interiores. Se os 
interiores esto bem, tambm os exteriores se sentem bem.

Deve imitar-se.

39. Assim tambm a instruo, embora, antes de tudo, deva ser concebida, incrementada e 
robustecida na raiz interior da inteligncia, todavia, deve procurar-se
que, ao mesmo tempo, lance para fora, de modo visvel, os seus ramos e as suas folhas, 
isto ,  necessrio que, ao mesmo tempo que se ensina a entender
as coisas, se ensine tambm a diz-las e a faz-las, ou seja, a p-las em prtica; e vice-
versa.

40. Portanto:

I. Logo que uma coisa seja entendida, pense-se imediatamente na utilidade que ela pode 
vir a ter, para que nada se aprenda em vo.
II. Logo que uma coisa seja entendida, difunda-se de novo, comunicando-a a outros, para 
que nada se saiba em vo.

     Efetivamente, neste sentido,  verdadeira a seguinte mxima: O teu saber nada vale, se 
outro no sabe que tu sabes
[11].
Por isso, no se abra nenhuma fontezinha de cincia, sem dela fazer derivar 
imediatamente pequenos riachos. Mas, acerca deste assunto, falaremos mais amplamente,
no fundamento seguinte.

FUNDAMENTO X

Fundamento X: Todas as coisas com exerccios contnuos.

41. A natureza vivifica-se e robustece-se a si mesma com movimento constante.
     Assim, uma ave, no s mantm quentes os ovos com o choco, mas tambm os vira, 
todos os dias, de um lado para o outro, para que se mantenham igualmente
quentes de todas as partes. ( fcil observar este fato nas patas, nas galinhas e nas pombas 
que fazem nascer os seus filhos nas nossas casas). Depois,
exercita e robustece a avezinha acabada de nascer, fazendo-a mover freqentemente o 
bico e as patas, abrir, bater e levantar as asas, e fazer vrias tentativas
de caminhar e de voar. Tambm uma rvore, quanto mais freqentemente  batida pelos 
ventos, tanto mais viosa se eleva no ar e tanto mais fundo lana as
razes; pelo que, para todas as plantas,  um bem serem provadas pelos aguaceiros, pelo 
granizo, pelos troves e pelos raios, dizendo-se at que as regies
batidas pelos ventos e pelos raios produzem madeira mais forte.

Imitao em coisas mecnicas.

42. Deste modo, tambm o arquiteto aprendeu a enxugar e a endurecer os seus trabalhos 
ao sol e ao vento. E o ferreiro, para que o ferro endurea e aguente
depois o corte, mete-o muitas vezes no fogo e na gua, e desta maneira o faz provar, ora o 
calor ora o frio, a fim de que, amolecendo muitas vezes, endurea
ainda mais.

O modelo dos exerccios escolares deve ir buscar-se  natureza.

43. Dai resulta que a instruo no pode chegar a ser slida, seno a fora de repeties e 
de exerccios, feitos quanto mais vezes e quanto melhor possvel.
De resto, qual seja o melhor modo de fazer exerccios, ensinam-no-lo os movimentos 
naturais que, no corpo vivo, servem a faculdade nutritiva, ou seja,
os movimentos de absoro, de digesto e de assimilao. Efetivamente, da mesma 
maneira que, no animal (e tambm na planta), qualquer membro deseja o alimento
para o digerir, e o digere, tanto para se alimentar a si mesmo (deixando para si e 
assimilando uma parte do alimento digerido), como para o comunicar aos
membros vizinhos, para a conservao do todo (com efeito, cada membro serve os outros, 
para que os outros o sirvam tambm), de igual modo multiplicar
a doutrina quem sempre:

I. Procurar e tomar para si o alimento do esprito;
II. Tendo-o encontrado e absorvido, o ruminar e digerir;
III. Tendo-o digerido, o assimilar e o comunicar a outros.

44. Estas trs coisas so expressas nos seguintes versos: Trs coisas oferecem ao aluno a 
oportunidade de superar o professor: perguntar muitas coisas,
reter o que perguntou e ensinar o que reteve.

     Pergunta-se, consultando o professor, ou um condiscpulo, ou um livro acerca das 
coisas que se ignoram; retm-se, confiando  memria as coisas conhecidas
e entendidas, e, para que a certeza seja maior, tomando apontamentos (pois so poucos 
aqueles de engenho to feliz, que possam confiar tudo  memria);
ensina-se, contando, por sua vez, aos condiscpulos, e a quaisquer pessoas que se 
encontrem, todas as coisas aprendidas.
     Os dois primeiros exerccios so bem conhecidos nas escolas; o terceiro ainda o no  
suficientemente, mas seria muito bom introduzi-lo. Com efeito,
 absolutamente verdadeira esta mxima: quem ensina os outros, instrui-se a si mesmo, 
no s porque, repetindo os prprios conhecimentos, os refora
em si mesmo, mas ainda porque encontra uma boa ocasio para penetrar mais a fundo nas 
coisas. Por isso, Joaquim Fortius, homem eminente pelo saber, falando
de si mesmo, afirma que as coisas que, alguma vez, apenas ouviu ou leu, lhe fugiam da 
memria dentro de um ms ou at mais cedo; mas aquelas que ensinou
aos outros, conheci-as to bem como aos prprios dedos da mo e julgava que s a morte 
lhas poderia arrebatar. Por isso, d o seguinte conselho: o estudioso
que deseja fazer grandes progressos, arranje alunos, aos quais ensine, todos os dias, aquilo 
que aprende, ainda que tenha de pagar-lhe a peso de ouro.
E acrescenta: Vale bem a pena que algum renuncie a quaisquer vantagens materiais, 
desde que haja quem o queira ouvir como mestre, isto , quem o queira
fazer progredir
[12].
Assim falava este grande homem.

Como deve instroduzir-se nas escolas.

45. Mas isto far-se- mais comodamente e, sem dvida, com utilidade para um maior 
nmero de pessoas, se o professor de cada classe instituir, entre os seus
alunos, este maravilhoso gnero de exerccio, do modo seguinte: em qualquer aula, depois 
de brevemente apresentada a matria a aprender, e de explicado
claramente o sentido das palavras, e de mostrada abertamente a aplicao da matria, 
mande-se levantar qualquer dos alunos, o qual (como se fosse j professor
dos outros) repita, pela mesma ordem, tudo o que foi dito pelo professor: explique as 
regras com as mesmas palavras; mostre a sua aplicao por meio dos
mesmos exemplos. Se acaso errar, o professor dever corrigi-lo. Depois, mande-se 
levantar outro para fazer o mesmo, enquanto todos os outros esto a ouvir;
e depois, um terceiro e um quarto, e quantos for necessrio, at que se veja claramente 
que todos compreenderam bem a lio e j so capazes de a repetir
e de a ensinar. No aconselho a que se observe, nesta caso, uma ordem rgida, mas 
aconselho que se chame primeiro os mais inteligentes, a fim de que os
de inteligncia mais lenta, animados pelo exemplo dos primeiros, possam mais facilmente 
segui-los.

Utilidade destes exerccios.

46. Esta espcie de exerccios ter notvel utilidade:

I. O professor tornar os alunos sempre atentos s suas palavras. Com efeito, uma vez 
que, logo a seguir, qualquer deles dever levantar-se e repetir toda
a lio, e, por isso, cada um temer tanto por si como pelos outros, de boa ou de m 
vontade ter os ouvidos atentos, para no deixar que nada lhe escape.
Este treino da ateno, reforado por um exerccio de alguns anos, tornar o jovem 
desperto para todas as ocupaes da vida.

II. O professor poder verificar melhor se todas as regras expostas foram bem entendidas 
por todos; se assim no aconteceu, far as devidas correes, com
grande vantagem para si e para os alunos.

III. Dado que as mesmas coisas se repetem muitas vezes, mesmo os alunos de inteligncia 
muito lenta acabaro por compreend-las, de modo a poderem avanar
para a frente ao lado dos outros, enquanto que os mais inteligentes, certos de haverem 
aprendido as coisas mais que claramente, experimentaro um doce
prazer.

IV. Com esta repetio assim tantas vezes renovada, a lio tornar-se- mais familiar a 
todos do que estudando afincadamente durante longas horas em casa;
de tal maneira que, relendo-a depois  noite e de manh, apenas por divertimento e por 
prazer, estaro seguros de haver fixado na memria todas as coisas.

V. Uma vez que, deste modo, o aluno  admitido a exercer como que o ofcio do 
professor, despertar na sua mente um grande desejo e um grande ardor de aprender
e adquirir o dom de saber tratar, com palavra franca e coragem, de qualquer assunto 
perante o pblico, o que ser de grande utilidade na vida.

Exercicio de ensinar os outros fora da escola.

47. Alm disso, os alunos podem, mesmo fora da escola, sentados ou a passear, discutir 
entre si, quer acerca de coisas aprendidas h pouco ou h muito tempo,
quer acerca de qualquer matria nova que acaso se lhes apresente. Para semelhante 
exerccio, se se juntam em nmero bastante elevado, devem escolher um
( sorte ou por votao) que faa as vezes de professor, dirigindo e moderando as 
discusses. Se algum, nomeado pelos condiscpulos, recusa, seja severamente
castigado, pois queremos que seja inflexvel a lei segundo a qual ningum, no s no fuja 
s ocasies de ensinar e aprender, mas at que todos as procurem.
     Quanto aos exerccios escritos (que so tambm uma ajuda vlida para progredir 
solidamente), daremos conselhos especiais, ao falarmos da escola de
lngua nacional e da escola clssica. nos captulos XXIX e XXX.

Captulo XIX

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR
COM VANTAJOSA RAPIDEZ

Previne-se uma objeo acerca da dificuldade.
Resposta: Importa procurar economizar tempo e fadiga

1. Mas, dir algum, estas coisas so trabalhosas e demasiado demoradas. Quantos 
professores, quantas bibliotecas e quantas fadigas seriam necessrias para
uma instruo universal deste gnero? Resposta: sem dvida, se se no procura 
economizar tempo e fadiga, a empresa tem uma extenso muito ampla e exige
fadigas sem fim. Com efeito, a arte  to longa, to ampla e profunda. como o prprio 
mundo que se quer conquistar com o esprito. Mas quem no sabe que
mesmo os trabalhos longos se podem encurtar, e que as coisas trabalhosas se podem 
transformar em vantajosas? Quem ignora que os teceles tecem rapidamente
milhares e milhares de fios, desenhando figuras de admirvel variedade? Quem no sabe 
que os moleiros moem rapidamente milhares e milhares de gros e que
separam perfeitamente o farelo da farinha, sem nenhuma dificuldade? Quem no sabe que 
os mecnicos, com pequenas mquinas, e quase sem nenhuma fadiga,
levantam e transportam grandes pesos? E que os pesadores, fazendo correr pelo fiel da 
balana ainda que seja uma s ona, pesam coisas com muitas libras
de peso?  bem verdade que, muitas vezes, vale mais o jeito que a fora. E ento h-de 
ser precisamente apenas s pessoas que se dedicam ao estudo, que
ho-de faltar os meios para executar engenhosamente os prprios trabalhos? Que o 
prprio sentimento de honra nos obrigue a uma ardorosa emulao, na procura
dos remdios susceptveis de suprimir as dificuldades que, at ao presente, tm 
atormentado as instituies escolares.

 necessrio conhecer a doena antes do remdio.

2. Mas no poderemos encontrar os remdios, sem primeiro termos descoberto as doenas 
e as causas das doenas. Ou seja, sem primeiro termos descoberto qual
foi a causa que, a tal ponto retardou os trabalhos escolares e o seu progresso que a maior 
parte dos estudantes, mesmo que tenham passado toda a vida nas
escolas, no conseguiram ainda penetrar em todas as cincias e em todas as artes, e 
algumas nem sequer as saudaram do limiar da porta.

Oito causas dos atrasos escolares.

3.  sabido que so absolutamente verdadeiras as seguintes causas:

I

Primeira: no havia nenhumas metas fixas, at s quais deviam ser conduzidos os alunos 
em cada ano, em cada ms e em cada dia, mas tudo era incerto e duvidoso.

II

4. Segunda: no estavam traadas nenhumas vias que conduzisssem infalivelmente s 
metas.

III

5. Terceira: as disciplinas, que por natureza so conexas, eram ensinadas sem atender s 
suas relaes mtuas, mas mantendo-as separadas. Por exemplo: queles
que principiavam a estudar os primeiros elementos das lnguas, ensinava-se apenas a ler, 
deixando-se para alguns meses depois o ensino da escrita. Na escola
de latim, obrigavam-se os adolescentes, durante alguns anos, a combater com palavras, 
sem haver a preocupao de lhes ensinar coisas, de tal modo que os
anos da adolescncia se gastavam todos nos estudos da gramtica, deixando-se os estudos 
filosficos para uma idade mais avanada. De igual maneira, obrigavam-se
apenas a aprender, e nunca a ensinar. Embora todas essas coisas (ler e escrever, palavras e 
coisas, aprender e ensinar) devam ser feitas to simultaneamente
como, quando se anda, se levantam e se abaixam os ps, quando se conversa, se ouve e se 
responde, quando se joga a bola, se atira e se recebe, como vimos
j atrs, nos seus devidos lugares.

IV

6. Quarta: Raras vezes, em qualquer lugar, as artes e as cincias eram apresentadas de 
modo suficientemente enciclopdico, mas por fragmentos. Da resultava
que, aos olhos dos alunos, eram como que um monto de paus ou de sarmentos, ningum 
pensando sequer na razo por que estavam juntas. As conseqncias disso
eram que um adquiria este conhecimento e outro aquele, mas ningum conseguia uma 
instruo verdadeiramente universal e, por isso, fundamental.

V

7. Quinta: Utilizavam-se mtodos mltiplos e vrios: cada escola tinha o seu, cada 
professor tinha o seu, e at o mesmo professor usava um para ensinar
uma arte ou lngua e outro para ensinar outra arte ou lngua; e, o que  pior, para ensinar 
uma e a mesma coisa, nem sempre usava o mesmo mtodo, de modo
que os alunos poucas vezes sabiam bem de que se tratava. Daqui as hesitaes e os 
atrasos, e tambm que certas disciplinas fizessem nascer a nusea ou
o desespero, antes mesmo de a elas se chegar, de modo que muitos nem sequer as queriam 
comear a estudar.

VI

8. Sexta: Faltava o processo de instruir ao mesmo tempo todos os alunos da mesma classe, 
fazendo-se um esforo inaudito para os instruir um por um. E, se
acaso os alunos eram muitos, acontecia que os professores tinham um trabalho de burro 
de carga, e os alunos, ou tinham muitas ocasies de cio intil,
ou, se lhes davam algum trabalho a fazer, faziam-no com tdio e aborrecimento.

VII

9. Stima: E, se eram vrios os professores, que podia da resultar seno uma nova 
confuso? Com efeito, quase em cada hora, eram propostas e realizadas
tarefas diferentes. Para j no falar de que a multido dos professores, assim como a 
multido dos livros, distraem os espritos.

VIII

10. Oitava: Finalmente, permitia-se aos alunos, sem que os mestres o levassem a mal, 
possuir, alm dos livros de texto, outros livros, na escola e fora
da escola; e julgava-se que, quanto mais autores folheassem, tantas mais ocasies se lhes 
ofereciam de fazer progressos, quando no eram seno mais motivos
de distrao. Por isso, no  tanto para admirar que poucos conseguissem percorrer todas 
as disciplinas, quanto  para admirar que algum conseguisse desembaraar-se
daqueles labirintos, o que no acontecia seno s inteligncias mais bem dotadas.

A regra para afastar estes atrasos deve ir buscar-se  natureza.

11. Para o futuro, portanto, deveremos afastar estes obstculos e estes atrasos, e seguir 
apenas, sem rodeios, os caminhos que conduzem diretamente ao objetivo,
ou ento (segundo a regra comum) no empregar muitos meios, onde, com poucos,  
possvel conseguir o resultado.

Ou seja, o sol.

12. Aqui na terra, devemos procurar imitar o sol, que  o melhor modelo que nos oferece a 
natureza. Efetivamente, embora ele desempenhe uma funo difcil
e quase infinita (a misso de espalhar por toda a terra os seus raios e de ministrar luz, 
calor, vida e vigor a todos os corpos, simples e compostos, aos
minerais, s plantas e aos animais, cujas espcies e indivduos so infinitos), todavia, 
chega para todos e, todos os anos, realiza com exatido o giro
que tem por misso realizar.

Resumo das operaes solares.

13. Vejamos, portanto, os modos como o sol realiza a sua funo, tendo em mente os 
modos, ja passados em revista, com que as escolas desempenham a sua misso.

I. O sol no se ocupa de cada um dos objetos, por exemplo, de uma rvore ou de um 
animal, mas ilumina e aquece toda a terra.
II. Com os mesmos raios, ilumina todas as coisas; com a mesma condensao e dissoluo 
das nuvens, rega todas as coisas; com o mesmo vento, ventila todas
as coisas; com o mesmo calor e com o mesmo frio, incrementa todas as coisas, etc.
III. No mesmo tempo, produzindo para todas as regies a primavera, o vero, o outono e o 
inverno, faz germinar, florir e frutificar as plantas, no obstante
uma amadurecer os frutos mais cedo e outra mais tarde, ou seja, cada uma segundo a sua 
natureza prpria.
IV. E mantm sempre a mesma ordem: a de hoje ser a mesma de amanh, a deste ano, a 
mesma do ano seguinte e, no mesmo gnero de coisas, conserva imutavelmente
a mesma forma.
V. E faz nascer todas as coisas das suas sementes e no de outra origem.
VI. E produz juntamente todas as coisas que devem existir juntamente: o tronco 
juntamente com a casca e com o cerne, a flor juntamente com as folhas; o
fruto juntamente com a casca, o pecolo e o caroo.
VII. E faz crescer todas as coisas gradualmente, como convm a cada uma, para que umas 
preparem o caminho s outras e se acolham reciprocamente.
VIII. Enfim, no produz coisas inteis, e se porventura alguma nasce, destroi-a e aniquila-
a.

14. Agiremos  imitao do sol, se

I. Cada escola, ou ao menos cada classe, tiver um s professor.
II. Para cada matria, houver um s autor.
III. Para todos aqueles que esto a assistir s lies, se dispender, em comum, o mesmo 
trabalho.
IV. Todas as disciplinas e todas as lnguas forem ensinadas com o mesmo mtodo.
V. Todas as coisas forem ensinadas, a partir dos seus fundamentos, de modo breve e 
eficaz, de tal maneira que a inteligncia se possa abrir como que com
uma chave, e as coisas se lhe possam manifestar espontaneamente.
VI. Todas as coisas que por natureza so conexas forem ensinadas em conexo umas com 
as outras.
VII. E se todas as coisas se ensinarem gradualmente, sem interrupes, de modo que todas 
as coisas aprendidas hoje sejam um reforo das aprendidas ontem
e uma preparao para as que se aprendero amanh.
VIII. Enfim, se, em tudo, se puser de parte as coisas inteis.

15. Se pudermos introduzir nas escolas estes princpios pedaggicos,  to certo que o 
curso dos estudos se processar com mais facilidade e com mais rapidez,
como  certo que vemos o sol realizar, todos os anos, o seu giro  volta do mundo inteiro. 
Entremos, portanto, no assunto, para que vejamos como  fcil
pr em prtica estes nossos conselhos.

PROBLEMA 1

     Como pode um s professor ser suficiente para qualquer nmero de alunos?

Porque  que em cada escola deve haver um s professor.
1.

16. No s afirmo que  possvel que um s professor ensine algumas centenas de alunos, 
mas sustento que deve ser assim, pois isso  muito vantajoso para
o professor e para os alunos. Aquele desempenhar, sem dvida, as suas funes com 
tanto maior prazer quanto mais numerosos forem os alunos que vir diante
de si (com efeito, at os mineiros exultam, quando vem que o minrio  abundante), e 
quanto mais ardoroso ele for, tanto mais atentos tornar os alunos.
     De modo igual, quanto mais numerosos forem os alunos, tanto maior prazer e utilidade 
sentiro (para todos os que trabalham constitui um grande conforto
ter muitos companheiros de trabalho), uma vez que se estimularo e se ajudaro 
mutuamente, pois tambm esta idade sente os estmulos da emulao.
     Alm disso, quando o professor  ouvido por poucos, facilmente esta ou aquela coisa 
passa inadvertida aos ouvidos de todos; quando  ouvido por muitos,
cada um fixa quanto pode e depois, com as repeties, volta-se ao princpio em cada 
coisa, contribuindo todas as coisas para a utilidade de todos, uma
vez que a inteligncia de um afia a inteligncia de outro, a memria de um, a memria de 
outro. Numa palavra, assim como o padeiro, com uma s fornada
de massa e aquecendo uma s vez o forno, coze muitos pes, e o forneiro, muitos tijolos, e 
o tipgrafo, com uma s composio, tira centenas e milhares
de cpias de um livro, assim tambm o professor, com os mesmos exerccios, pode, ao 
mesmo tempo e de uma s vez, ministrar o ensino a uma multido de alunos,
sem qualquer incmodo. Do mesmo modo que vemos tambm que um s tronco  
suficiente para sustentar e embeber de seiva uma rvore, por mais ramos que ela
tenha, e o sol  suficiente para fecundar toda a terra.

Como  possvel? Prova-se com exemplos da natureza.

17. Mas como pode fazer-se isso? Vejamos, pelos exemplos da natureza, h pouco 
referidos, qual o modo de proceder. O tronco no se estende at s extremidades
de todas as ramagens, mas, conservando-se no seu lugar, comunica a seiva aos ramos 
principais, que lhe esto imediatamente ligados, e estes comunicam-na
a outros e assim sucessivamente at s ltimas e mais pequeninas partes da rvore. 
Tambm o sol no incide, em particular, sobre cada uma das rvores,
das ervas e dos animais, mas, espalhando os seus raios, do cimo dos cus, ilumina ao 
mesmo tempo todo um hemisfrio, apropriando-se cada uma das coisas
criadas da sua luz e do seu calor, para utilidade prpria. Deve, todavia, observar-se 
tambm que a ao do sol  ajudada pela situao do lugar, pois os
raios concentrados nos vales aquecem mais a regio vizinha.

Nas escolas deve imitar-se a natureza.

18. Portanto, se a organizao escolar se conformar com estes exemplos naturais, com a 
mesma facilidade um s professor bastar para a educao de um grande
nmero de alunos. Ou seja:

I. Dividindo os alunos em classes.

I. Se os alunos forem divididos em vrias turmas, por exemplo de dez alunos cada uma; e 
se se colocar  frente de cada uma um aluno que vigie os outros,
e  frente desses chefes de turma, outros alunos e assim sucessivamente at ao chefe 
supremo.

II. No dando lies a nenhum em separado, mas a todos em conjunto.

II. Se nunca se instruir um aluno sozinho, nem privadamente fora da escola, nem 
publicamente na escola, mas todos ao mesmo tempo e de uma s vez. Por isso,
o professor no dever aproximar-se de nenhum aluno em particular, nem permitir que 
qualquer aluno, separando-se dos outros, se aproxime dele, mas, mantendo-se
na ctedra (de onde pode ser visto e ouvido por todos), como o sol, espalhar os seus raios 
sobre todos; e todos, com os olhos, os ouvidos e os espritos
voltados para ele, recebero tudo o que ele exposer com palavras, ou mostrar com gestos 
ou grficos. Deste modo, com um s vaso de cal podero caiar-se,
no duas paredes, mas muitssimas
[1].

III. Tornando todos atentos.

19. Ser preciso apenas habilidade para tornar atentos todos e cada um dos alunos, de tal 
modo que, acreditando que a boca do professor  (como efetivamente
) a fonte de onde para eles correm os arroios do saber, todas as vezes que notam que esta 
fonte se abre, se habituem a colocar logo debaixo dela o vaso
da ateno, para que nada passe sem entrar no vaso. Por isso, o professor ter o mximo 
cuidado em nada dizer, se os alunos no esto a ouvir, e em nada
ensinar, se no esto atentos. Se em algum lugar tem cabimento,  precisamente aqui que 
o tem esta advertncia de Sneca: No deve ensinar-se nada a no
ser a quem tem vontade de escutar
[2].
E talvez tambm aquela sentena de Salomo: O homem inteligente faz-se desejar 
(Provrbios, 17, 27), isto , no lana as suas palavras ao vento, mas
no esprito dos homens.

Como  isso possvel? Com a ajuda dos monitores e com a ao do professor, seguindo 
oito vias.

20. Poder despertar-se e manter-se viva a ateno, no s com a ajuda dos chefes de 
turma e de outros encarregados de qualquer vigilncia (ou seja, de
estar bem atentos aos outros), mas tambm e sobretudo pela ao do prprio professor, 
seguindo estas oito vias:

1. Se se esforar por oferecer sempre aos alunos qualquer coisa de atraente e de 
interessante, pois assim os seus espritos sero atraidos a ir  escola
de boa vontade e dispostos a estar atentos.

2. Se, no princpio de cada lio, os espritos dos alunos forem espevitados com a 
demonstrao da importncia da matria a explicar, ou solicitados por
meio de perguntas acerca de coisas j explicadas e que estejam em conexo com a matria 
da lio desse dia, ou acerca de coisas ainda a explicar, a fim
de que, apercebendo-se da sua ignorncia acerca desse assunto, se lancem mais 
avidamente a adquirir conhecimento claro do tema.

3. Se o professor, mantendo-se num lugar elevado, lanar os olhos em redor e no permitir 
a nenhum aluno que faa outra coisa seno ter os olhos fixos nele.

4. Se ajudar a ateno dos alunos, apresentando todas as coisas, sempre que possvel, aos 
sentidos, como mostrmos no captulo XVII, fundamento VIII, regra
III. Com efeito, isso facilita, no s a compreenso, mas tambm a ateno.

5. Se, a determinada altura da lio, interrompendo a exposio, disser: Fulano ou 
Sicrano, que  que acabei de dizer? Repete o ltimo perodo; Fulano,
diz a que propsito estamos a falar disto, e coisas semelhantes, para proveito de toda a 
classe. E se verificar que algum no estava atento, repreenda-o
ou castigue-o. Assim, todos faro todo o esforo possvel por estar atentos.

6. De igual modo, se o professor interrogar um aluno, e este no responder, passe ao 
segundo, ao terceiro, ao dcimo, ao trigsimo, e convide-o a responder,
sem lhe repetir a pergunta. Faa-se isto sempre com o objetivo de que, quando se diz uma 
coisa a um, todos se esforcem por estar atentos, e por tirar da
qualquer utilidade.

7. Pode tambm proceder-se do seguinte modo: se um ou dois no sabem determinada 
coisa, pergunte-se a toda a classe; e ento aquele que responder em primeiro
lugar ou que responder melhor, seja louvado diante de todos, para que sirva de exemplo  
emulao. Se algum se enganar, seja corrigido, fazendo-lhe ver
tambm o motivo do engano (que a um professor sagaz no ser difcil descobrir) e 
fazendo-o desaparecer. O progresso rapidssimo que se faz desta maneira
 algo de incrvel.

8. Finalmente, terminada a lio, d-se aos alunos a oportunidade de perguntarem ao 
professor tudo o que quiserem, quer acerca de alguma dificuldade surgida
nessa lio, quer em lies anteriores. No deve, todavia, permitir-se pedidos de 
explicao em particular.  necessrio que cada um consulte o professor
em pblico, quer por si, quer por meio do seu chefe de turma (se este no foi capaz de 
dar-lhe uma resposta satisfatria), de modo que tudo se torne til
a todos, tanto as perguntas, como as respostas. Se algum faz um maior nmero de 
perguntas teis, deve ser louvado mais freqentemente, para que aos outros
no faltem exemplos e incitamentos para serem diligentes.

Quo grande  a utilidade da ateno assim exercitada.

21. Semelhante exerccio quotidiano da ateno ser til aos adolescentes, no somente no 
presente, mas assim durante toda a vida. Habituados, com efeito,
pela prtica contnua de alguns anos, a fazer sempre aquilo que devem fazer, faro sempre 
tudo atentamente, sem esperar que os outros os advirtam ou estimulem.
E se as escolas procederem assim, porque no h-de esperar-se que forneam uma 
abundantssima produo de homens de valor?

Objeo: ser possvel que assim se atenda a todos e a cada um dos alunos? Respondo que 
sim:
1. Com a ajuda dos chefes de turma.

22. Pode, porm, objetar-se que  necessrio uma vigilncia particular, por exemplo, para 
ver como cada um conserva os livros asseados, como escreve corretamente
as lies, como aprende bem de cor, etc. Ora, se os alunos so muitos, este trabalho exige 
muito tempo. Resposta: No  necessrio que o professor oua
sempre todos os alunos, nem que examine sempre os livros e os cadernos de todos, pois, 
tendo como ajudantes os chefes de turma, estes estaro atentos a
que os alunos, colocados sob a sua responsabilidade, procedam como devem.

2. Com a habilidosa vigilncia do prprio professor.

23. Pessoalmente, o professor, como inspetor supremo, dever apenas estar atento ora a 
este, ora quele aluno, para verificar a sua fidelidade, de modo
especial daquele de quem desconfia. Por exemplo: mandar dizer a lio, aprendida de 
cor, a um, dois ou trs ou mais alunos, um aps o outro, tanto dos
ltimos como dos primeiros, enquanto toda a classe est a ouvir. Assim, todos sentiro 
necessidade de estar sempre preparados para responder, pois cada
um ter receio de ser interrogado. Ou ento, quando o professor v que determinado aluno 
comea a responder desembaraadamente, se est persuadido de que
ele responder bem no resto, ordena a outro que continui. Se tambm este mostra 
segurana, mande que o terceiro perodo ou o terceiro pargrafo seja dito
por outro.
     Assim, examinando acerca de poucas coisas, certificar-se- se todos estudaram a lio.

Modo de examinar as lies ditadas e escritas.

24. Procede do mesmo modo relativamente s lies escritas, aps haverem sido ditadas, 
se acaso as houver. Manda ler o escrito a um ou a dois ou, se necessrio,
a vrios, com voz clara e distinta, e notando tambm expressamente os sinais de 
pontuao; os outros, olhando cada um o seu caderno, corrigem. Poder,
todavia, o professor, de vez enquando, examinar ele prprio os cadernos de um ou dois 
alunos, ao acaso; e, se for encontrado algum negligente, seja castigado.

Modo de corrigir os exerccios de composio.

25. Para corrigir os exerccios de composio, parece que ser necessrio um pouco mais 
de trabalho, mas, ainda aqui, no faltaremos com o nosso conselho
queles que seguirem o caminho que indicmos. Por exemplo, nos exerccios de traduo, 
proceda-se do seguinte modo: depois de todos, turma por turma, terem
terminado a traduo, manda-se levantar um e desafiar o adversrio que quiser. Logo que 
o adversrio esteja de p, o outro leia a sua traduo, um pedao
de cada vez, enquanto todos os outros escutam atentamente, e o professor (ou ento o 
chefe de turma) est a vigiar, pelo menos para examinar a ortografia.
Depois de ler um perodo, pra, mostrando o adversrio os erros que acaso notou.
     A seguir, permite-se a todos os alunos daquela turma e, finalmente, a todos os alunos 
da classe, que faam a crtica daquele perodo; depois, se necessrio,
o professor faa as suas observaes. Entretanto, todos observam os seus prprios 
cadernos, e, se cometeram erros iguais, corrigem-nos, exceto o adversrio
que deve conservar intacta a sua traduo para a crtica que se seguir. Depois de bem 
examinado e de bem corrigido este perodo, passe-se a outro, e assim
sucessivamente at ao fim.
     Ento, o adversrio ler a sua traduo, seguindo o mesmo processo, mas estando 
atento aquele que o provocou, para que no leia uma traduo corrigida
em vez da no corrigida. Far-se- a critica de cada palavra, de cada frase e de cada 
conceito, seguindo o processo anteriormente usado. Depois, aplica-se
o mesmo sistema com outro par de alunos, e com tantos outros pares quantos o tempo o 
permitir.

Misso dos chefes de turma nesta matria.

26. Mas os chefes de turma devero vigiar: 1. que, antes que comece a correo, todos 
tenham terminado a traduo; 2. que, enquanto se faz a correo; todos
estejam atentos, para corrigirem os prprios erros  medida que vo ouvindo os erros dos 
outros.

Utilidade deste mtodo.

27. Assim se conseguir que:

I. Ao professor seja diminudo o trabalho.
II. Nenhum dos alunos seja esquecido e todos sejam instrudos.
III. A ateno de todos seja mais viva.
IV. Tudo o que, por qualquer razo, se disser a um, sirva igualmente a todos.
V. A variedade das frases  pois, sendo diversos os alunos, ser impossvel que no 
usem frases diversas  sirva para formar e confirmar tanto o juzo acerca
das coisas, como o uso da lngua.
V. Finalmente, feita a correo das tradues de dois ou trs pares de alunos, aparecer 
claro aos outros que pouco ou nada falta para corrigir. Por isso,
o resto do tempo seja consagrado a todos em comum, para que aqueles que, ou tm 
qualquer dvida acerca da sua prpria traduo, ou crem hav-la feito
melhor que os outros, apresentam o seu ponto de vista e sobre ele se pronuncie um juzo.

28. Disse estas coisas acerca dos exerccios de traduo como que  maneira de exemplo, 
mas elas podem aplicar-se facilmente, em todas as classes, aos exerccios
de estilo, de oratria, de lgica, de teologia, de filosofia, etc.

29. Assim se v que um s professor pode bastar para centenas de alunos, sem que seja 
maior a sua fadiga do que se devesse trabalhar apenas para um ou dois
alunos.

PROBLEMA II

     como  possvel ensinar a todos com os mesmos livros.

A este propsito  necessrio observar cinco coisas:
I. Durante esse tempo no deve permitir-se outros livros.

30. Todos sabem que a pluralidade dos objetos distrai os sentidos. Conseguir-se-, por 
isso, uma grande economia de fadiga e de tempo: Primeiro, se aos
alunos se no permitirem seno os livros de texto da sua classe, a fim de que seja sempre 
posto em prtica o mote que, nos tempos antigos, era repetido
a todos os que ofereciam sacrifcios: Ateno! ests a oferecer um sacrifcio!
[3].
Efetivamente, quanto menos os outros livros ocuparem os olhos, tanto mais os livros de 
texto ocuparo a mente.

II. Dos livros de textos deve haver abundncia.

31. Segundo, se todo o material escolar, isto , quadros, cartazes, livros elementares, 
dicionrios, tratados acerca das artes e das cincias, etc. estiver
preparado. Efetivamente, enquanto os professores fazem (como, de fato, fazem), para os 
alunos, os quadros alfabticos, escrevem modelos de caligrafia e
ditam regras, textos ou tradues de textos, etc., quanto tempo se perde!
     Ser, por isso, vantajoso ter prontos, em quantidade suficiente, todos os livros que se 
usam em todas as classes; e aqueles que ho-de verter-se para
a lngua materna, tenham a traduo ao lado, pois assim todo o tempo que deveria 
consagrar-se a ditar, a escrever e a traduzir, poder dedicar-se, de modo
muito mais til, a explicaes, a repeties e a tentativas de imitao.

Previne-se uma objeo.

32. E no deve ter-se receio de, assim, fomentar a preguia dos professores. Com efeito, 
assim como se o pregador l o texto sagrado da Bblia, e explica
e mostra a sua utilidade aos ouvintes (para os ensinar, exortar, consolar, etc.), se aceita 
que cumpriu o seu dever, embora no tenha sido ele a traduzir
o texto original, mas se tenha servido de uma traduo j feita, (uma vez que isso, para os 
ouvintes, pouco interessa), assim tambm aos alunos pouco importa
que o prprio professor ou qualquer outro antes dele tenha preparado a sua lio, desde 
que aquilo que  necessrio esteja pronto e o professor ensine
o seu uso exato.
      bom, pois, que tudo esteja preparado, para que haja, quer maior segurana quanto 
aos erros, quer maior espao de tempo para os exerccios prticos.

III. Sejam feitos com primor e escritos em linguagem acessvel.

33. Estes livros, portanto, devero ser conformes s nossas leis da facilidade, da solidez e 
da brevidade, e contar, para todas as escolas, tudo o que 
necessrio, de modo completo, slido e aprimorado, para que sejam uma imagem 
verdadeira de todo o universo (o qual deve ser mpresso nas mentes juvenis).
E (o que vivamente desejo e inculco) que esses livros exponham todas as coisas de modo 
familiar e popular, para que tornem tudo acessvel aos alunos, de
modo que o entendam por si, mesmo sem qualquer professor.

Porque convm comp-los em forma de dilogo?

34. Gostaria que esses livros fossem compostos em forma de dilogo, pelas seguintes 
razes: 1. porque, dessa maneira, mais facilmente se pode adaptar a
matria e o estilo aos espritos juvenis, para que no imaginem que as coisas so, para 
eles, ou impossveis ou rduas ou demasiado difceis, pois nada
h de mais familiar nem de mais natural que a conversao, pela qual, pouco a pouco, o 
homem pode ser conduzido onde se quer e sem que ele se aperceba
disso. Assim, em forma de dilogo, escreveram os comedigrafos todas as suas 
observaes acerca da decadncia dos costumes, para advertncia do povo; assim
escreveu Plato toda a sua filosofia; assim escreveu Ccero vrias das suas obras e Santo 
Agostinho toda a sua teologia, a fim de se adaptarem  capacidade
dos leitores. 2. Os dilogos excitam, animam e reavivam a ateno, precisamente pela 
variedade das perguntas e das respostas, e pelos diferentes motivos
e formas destas, sobretudo se nelas se misturam coisas agradveis; mais ainda, pela 
variedade e troca dos interlocutores, no s o esprito se liberta
do tdio, como, estendendo mais o campo da sua atividade, se torna sempre mais desejoso 
de estar a ouvir. 3. O dilogo torna a instruo mais slida. Com
efeito, da mesma maneira que recordamos melhor um fato que ns prprios vimos, que 
um fato que apenas ouvimos referir, assim tambm na mente dos alunos
permanecem mais tenazmente fixas as coisas que aprendem por meio de uma comdia ou 
de uma conversao (pois, nestes casos, lhes parece no s ouvir, mas
tambm ver o fato) que as que apenas ouvem contar de uma forma nua pelo professor, 
como o demonstra a experincia. 4. Uma vez que a maior parte da nossa
vida  constituda por conversas, a juventude  para isso facilmente conduzida, se se 
habitua, no s a compreender as coisas teis, mas ainda a discorrer
acerca delas com variedade, elegncia, gravidade e prontido. 5. Finalmente, os dilogos 
servem para facilitar as repeties, mesmo quando estas so feitas
privadamente entre os alunos.

IV. De uma s edio.

35. Ser bom tambm que os livros utilizados sejam da mesma edio, de tal modo que as 
pginas, as linhas e todas as outras coisas concordem, por causa
das citaes e da memria local, e para que, em parte alguma, se d motivo a atrasos.

V. O contedo dos livros deve pintar-se nas paredes.

36. Ser da maior utilidade, para o nosso objetivo, que se pinte nas paredes das aulas o 
resumo de todos os livros de cada classe, tanto o texto (com vigorosa
brevidade), como ilustraes, retratos e relevos, pelos quais os sentidos, a memria e a 
inteligncia dos estudantes sejam, todos os dias, estimulados.
Com efeito, no foi sem razo que os antigos nos transmitiram este processo; nas paredes 
do templo de Esculpio estavam inscritas as regras de toda a medicina,
as quais Hipcrates, entrando l s escondidas, copiou
[4].
Tambm Deus encheu, por toda a parte, este grande teatro do mundo de pinturas, esttuas 
e imagens, como vivos representantes da sua sabedoria, e quer instruir-nos
por meio deles. (Acerca destas pinturas, falaremos mais amplamente na descrio 
particular das classes)
[5].

PROBLEMA III

     Como  possvel que, na escola, todos faam as mesmas coisas durante o mesmo 
tempo.

Porque convm que todos se ocupem de uma s coisa ao mesmo tempo.

37.  evidente que seria til que, na mesma classe, apenas uma matria fosse estudada, ao 
mesmo tempo, por todos, pois assim o professor teria menos trabalho
e os alunos aproveitariam mais. Efetivamente, um agua o engenho do outro, quando 
todos esto a pensar e a trabalhar esforadamente  volta da mesma coisa,
e, alm disso, depois corrigem-se uns aos outros com mtuas ajudas. Assim como um 
oficial no ensina os exerccios aos recrutas, instruindo-os um a um,
mas, conduzindo-os em conjunto para a parada, mostra a todos o uso das armas e o modo 
de as manejar, e, embora se dirija particularmente a um s, quer,
todavia, que os outros faam as mesmas coisas que este faz, que estejam atentos a este e 
procurem fazer os mesmos exerccios que este faz, assim tambm
deve proceder, em tudo, o professor.

Como  possvel?

38. Para que isso seja possvel, ser necessrio:

1. No abrir as escolas seno uma vez por ano, do mesmo modo que o sol no comea o 
seu trabalho  volta de todos os vegetais seno uma vez por ano (na
primavera).
2. Dispor tudo o que deve fazer-se, de maneira que, em cada ano, ms, semana, dia e at 
em cada hora, haja uma tarefa a realizar, de modo que todos, sem
tropear, a possam realizar e assim atinjam a meta juntamente.
     Mas, acerca disto, falaremos mais particularmente, dentro em breve, nos seus devidos 
lugares.

PROBLEMA IV

     Como  possvel que se ensine todas as coisas com um s mtodo.

O mtodo natural no  seno um e deve ser utilizado em todos os domnios.

39. Nos captulos XX, XXI e XXII, demonstraremos que o mtodo para ensinar todas as 
cincias no  seno um, o mtodo natural, como no  seno um o mtodo
para ensinar todas as artes e as lnguas. Com efeito, a variao ou diversidade, se acaso 
alguma se verifica num ou noutro domnio,  to ligeira que no
pode constituir uma nova espcie de mtodo, e no resulta da essncia da matria 
estudada, mas do critrio do professor, baseando-se esse critrio na peculiar
relao das lnguas ou das artes entre si, e na capacidade e no progresso dos alunos. 
Observar, portanto, em todos os domnios, o mtodo natural, constituir
para os alunos uma grande economia de tempo e de fadiga, do mesmo modo que para os 
viajantes seguir por um caminho nico e plano, sem desvios. As diferenas
particulares notar-se-o mais facilmente, se se fizerem ver particularmente, permanecendo 
intactas as qualidades gerais e comuns do mtodo.

PROBLEMA V

     Como, com poucas palavras, se pode ter compreenso clara de muitas coisas.

Os livros bons devem preferir-se aos livros medocres.

40. De modo algum  til atormentar os espritos com volumes ou discursos 
interminveis. Com efeito,  certo que ao estmago humano d mais alimento um
pedao de po e um trago de vinho que um saco de palha ou de qualquer mixrdia.  
melhor ter no bolso uma s moeda de ouro que cem moedas de chumbo. E
Sneca, falando das regras, disse expressamente: as sementes devem espalhar-se com 
justa medida, pois no importa que sejam muitas, mas que sejam boas
[6].
Com efeito, permanece assente aquilo que demonstrmos no captulo V
[7],
isto , que, no homem, enquanto microcosmos
, existem todas as coisas, no sendo necessrio seno introduzir-lhe uma luz para que ele 
veja imediatamente. E quem no sabe que, mesmo de uma pequena
chama de candeia, pode sair uma luz suficiente para um homem que estude de noite? 
Portanto, para ensinar as artes e as lnguas, como livros fundamentais
devem escolher-se ou fazer-se de novo volumes de pequeno tamanho e de notvel 
utilidade, que exponham as coisas sumariamente, ou seja, muitas coisas em
poucas palavras (como adverte o Eclesidstico, 32, 8), isto , que ponham sob os olhos dos 
alunos as coisas fundamentais, tais quais so, com poucas palavras,
mas bem escolhidas e por meio de teoremas e de regras faclimas de entender, de modo 
que todas as outras coisas sejam naturalmente apreendidas pela inteligncia.

PROBLEMA VI

     Como regular as coisas de modo que, com um s trabalho, se faam duas ou trs 
coisas.

A natureza mostra que, com um s trabaho, se podem fazer vrias coisas.

41. Os exemplos da natureza mostram-nos que, ao mesmo tempo e com o mesmo 
trabalho, se podem fazer diversas coisas. Uma rvore, no mesmo tempo, desenvolve-se
para cima, para baixo e para os lados, e, ao mesmo tempo, faz crescer o tronco, a casca, as 
flores e os frutos. A mesma coisa pode observar-se num animal,
pois os seus membros crescem todos ao mesmo tempo. Alm disso, cada membro tem 
vrias funes. Com efeito, os ps permitem ao homem estar de p, andar
para a frente e para trs; de vrios modos; a boca  no s a porta do corpo, mas tambm a 
m e a tuba que ressoa, todas as vezes que se lhe ordena; o
pulmo, com a mesma respirao, refresca o corao, ventila o crebro, produz o som, etc.

E a arte imita.

42. O mesmo acontece nas coisas artificiais. Efetivamente, no relgio solar, o mesmo 
ponteiro, com a mesma sombra, pode marcar as horas do dia (e isso at
segundo diversos relgios), o sinal do Zodaco, onde se encontra ento o sol, a durao 
das noites e dos dias, o dia do ms e muitas outras coisas. Nos
carros, o mesmo timo serve para dirigir, para voltar e para parar o carro. Tambm um 
bom orador e poeta, com a mesma obra, ensina, comove e deleita, embora
estas trs coisas sejam distintas entre si.

Tambm as escolas a devem imitar. Norma geral acerca deste tema.

43. Regule-se, portanto, segundo este modelo, a formao da juventude, para que cada 
trabalho produza mais que um fruto. A norma geral para obter esse efeito
 a seguinte: sempre e em toda a parte, tome-se o relativo com o seu correlativo. Por 
exemplo: juntar as palavras e as coisas, ler e escrever, exercitar
o estilo e o engenho, aprender e ensinar, coisas jocosas e coisas srias, e, alm disso, todas 
as coisas semelhantes que possam excogitar-se.

Especialmente cinco coisas: I. As palavras com as coisas; e vice-versa.

44. Portanto, no se ensinem nem se aprendam as palavras seno juntamente com as 
coisas, da mesma maneira que se vendem, se compram e se transportam o vinho
juntamente com a garrafa, a espada com a bainha, o tronco com a casca e os frutos com a 
pele. Efetivamente, que so as palavras seno os invlucros e as
bainhas das coisas? Portanto, seja qual for a lngua que os alunos aprendam, mesmo a 
materna, mostrem-se-lhes as coisas que devem ser significadas com
as palavras; e, inversamente, ensine-se-lhes a exprimir, por meio de palavras, tudo o que 
vem, ouvem, apalpam e saboreiam, para que a lngua e a inteligncia
caminhem e se desenvolvam sempre a par. Tenhamos, portanto, como regra: Quanto mais 
algum entende uma coisa, tanto mais se habitue a diz-la; e, vice-versa,
aprenda a entender aquilo que diz. No se permita a ningum recitar aquilo que no 
entende, ou entender aquilo que no pode dizer. Na verdade, quem no
exprime os sentimentos da prpria alma  uma esttua; quem tarameleia aquilo que no 
entendeu  um papagaio. Ns, ao contrrio, formamos homens, e desejamos
form-los com economia de tempo e de fadiga, o que acontecer se, em toda a 
aprendizagem, andarem juntamente as palavras com as coisas, e as coisas com
as palavras.

Corolrio: os livros palavrosos devem ser considerados bexigas cheias de vento.

45. Por fora desta regra, devero banir-se das escolas todos os autores que apenas 
ensinam palavras, e no fazem adquirir nenhum conhecimento de coisas
teis. Com efeito, deve ter-se maior cuidado com aquilo que vale mais. Importa proceder 
de modo que no sejamos escravos das palavras, mas do sentido,
escreveu Sneca na Carta 9
[8].
Se quereis que sejam lidos certos livros, fazei-os ler fora da escola, de passagem e a 
correr, sem explicaes prolixas e fatigantes e sem um esforo aturado
de imitao, pois esse esforo poder dispender-se mais uti1mente em coisas mais 
positivas.

II. Juntar a leitura e a escrita.

46. Tambm os exerccios de leitura e de escrita se faro sempre juntos, com grande 
economia de tempo e de fadiga. Na verdade,  quase impossvel excogitar
para os alunos do a b c um estmulo ou um atrativo mais forte do que mandar-lhes 
aprender as letras, escrevendo-as. Com efeito, porque  quase natural
s crianas quererem pintar, deleitar-se-o com este exerccio; entretanto, a sua fora 
imaginativa desenvolver-se- duplamente. Assim, mais tarde, quando
souberem ler correntemente, exercitem-se naquelas matrias que posteriormente tero de 
aprender, por exemplo, naquelas matrias que inculcam o conhecimento
das coisas, a moral e a piedade. Assim, quando principiam a aprender a ler o latim, o 
grego e o hebraico, constituir uma economia de tempo e de fadiga
repetir as declinaes e as conjunes, fazendo-as reler e copiar muitas e muitas vezes, at 
que os alunos as saibam ler e escrever, conheam o significado
das palavras com segurana e, finalmente, saibam formar bem as desinncias. Eis, 
portanto, neste caso, um qudruplo fruto de um s e mesmo trabalho! Poder,
a seguir, em qualquer gnero de estudos, aplicar-se este utilssimo mtodo de economia de 
tempo e de fadiga, de tal maneira que todos os frutos que se
recolhem da leitura, a pena os transforme num corpo, como diz Sneca
[9];
ou, como escreve Santo Agostinho
[10[
de si mesmo, para que progredindo escrevamos, e escrevendo progridamos.

III. Os exerccios escritos sejam, ao mesmo tempo, exerccios da mente e da boca.

47. Os exerccios escritos costumam geralmente fazer-se sem escolher a matria e sem 
procurar a conexo dos temas, de onde resulta que so meros exerccios
de escrita e pouco ou nada exercitam a mente; mais ainda, acontece que, embora sejam 
elaborados com esforo, se tornam depois farrapos de papel, sem nenhuma
utilidade para a vida. Deve, portanto, exercitar-se a pena naquela matria cientfica ou 
literria, na qual se exercita a inteligncia na aula, fazendo
compor aos alunos, ou relatos histricos (acerca dos inventores da arte de que se trata, 
acerca dos lugares e das pocas, em que, de modo especial, floresceram,
e coisas semelhantes), ou comentrios, ou ensaios de imitao, para que, com o mesmo 
trabalho, a pena e a inteligncia se exercitem, enquanto que estas
coisas so tambm recitadas pela lngua.

IV. Conjuguem-se o aprender e o ensinar.

48. Como se possa ensinar imediatamente tudo aquilo que se aprende, mostramo-lo no 
fim do captulo XVIII
[11];
mas como isto ajuda, no s a solidez, mas tambm a rapidez do progresso, diz respeito 
tambm ao argumento de que tratamos agora.

V. As coisas jocosas devem juntar-se s srias.

V. 49. Finalmente, conseguir-se- uma notvel economia de tempo e de fadiga, se as 
coisas jocosas, que se concedem aos jovens para lhes recrear o esprito,
forem tais que lhes representem ao vivo as coisas srias da vida e criem neles o hbito das 
coisas srias. Efetivamente, as artes manuais, os assuntos
econmicos, os negcios polticos, o exrcito, a arquitetura e outras coisas podem 
representar-se atravs dos instrumentos que lhes so prprios.  ainda
possvel preparar os espritos para o estudo da medicina, se, na primavera, se conduzem a 
um campo ou a um jardim e se lhes mostra as espcies das ervas,
permitindo-se uma sabatina, para ver quem conhece maior nmero. Assim, no s se 
tornar evidente quais os que, por natureza, so inclinados para a botnica,
mas tambm se acendero imediatamente chamas no corao dos alunos. E poderia, para 
maior estmulo, a quem maiores progressos fizer neste campo, dar-se
o ttulo de doutor, licenciado ou bacharel em medicina. Do mesmo modo, nos outros 
exerccios: por exemplo, no exrcito, podem atribuir-se os ttulos de
general, coronis, capites e porta-bandeiras; na poltica, o de rei, conselheiros da coroa, 
primeiro ministro, marechal, secretrios, embaixadores, etc.;
e ainda o de cnsul, senadores, presidentes das cdmaras, assessores, etc. Estas 
brincadeiras conduzem a coisas srias. Ento, realizaremos plenamente o
seguinte voto de Martinho Lutero: ocupar a juventude, nas escolas, com estudos srios, 
mas de modo que deles tirem prazer no menor do que se passassem
os dias inteiros a jogar s pedrinhas
[12].
Assim, as escolas sero uma agradvel preparao para a vida.

PROBLEMA VII

     Como convm em tudo proceder gradualmente.

O mistrio da graduao diz respeito tambm a este assunto.

50. Estudmos a maneira de usar o mtodo gradual, no captulo XVI, fundamentos V, VI, 
VII e VIII, e no captulo XVIII, fundamentos V, VI e VII.  segundo
essas normas que devero redigir-se os livros de texto para as escolas de humanidades, 
mas acrescentando-lhes algumas indicaes metodolgicas para os
professores, acerca do modo de usar bem e prontamente esses livros, a fim de que a 
instruo, a moral e a piedade possam atingir gradualmente a sua perfeio.

PROBLEMA VIII

     Do modo de suprimir e de evitar os atrasos

No tratar de certas coisas.

51. Uma vez que, no sem razo, se tem dito que no h coisa mais v que saber e 
aprender muitas coisas, ou seja, coisas que no viro a servir para nada,
e ainda que sabe, no quem sabe muitas coisas, mas quem sabe coisas teis, podero 
tornar-se mais fceis os trabalhos escolares, fazendo alguma economia
no ensino das coisas, isto , se no se ensinar:

I. Coisas no necessrias;
II. Coisas antipticas (aliena);
III. Pormenores insignificantes.

I. No tratar de coisas no necessrias (como so muitas das que se encontram nos livros 
dos pagos).

52. So coisas no necessrias aquelas que no favorecem nem a moral, nem a piedade, e 
sem as quais, todavia, a instruo no sofre qualquer dano. So assim
os nomes e a histria dos dolos e dos ritos pagos, e ainda as esquisitices e coisas 
semelhantes dos poetas e dos comedigrafos de engenho luxurioso e
at tendente para a lascvia. Se, uma ou outra vez, interessar a algum ler tais coisas nos 
autores por ele usados, que as leia; mas, nas escolas, onde
devem lanar-se os fundamentos da sabedoria, colocar diante dos alunos tais coisas no 
traz utilidade nenhuma. Que estultcia, exclama Sneca, aprender
coisas suprfluas, quando temos tanta falta de tempo! Nada se aprende, portanto, apenas 
para a escola, mas para a vida, para que, quando se sair da escola,
nada seja levado pelo vento
[13]

II. No tratar de coisas antipticas (como so certos objetos para certos engenhos).

53. So antipticas as coisas que no so conformes ao engenho deste ou daquele. Com 
efeito, assim como  vria a ndole das ervas, das rvores e dos animais,
e assim como um ser h-de tratar-se de um modo e outro de outro modo, e nem todas as 
coisas se podem utilizar igualmente para os mesmos fins, assim tambm
acontece com os engenhos dos homens.  certo que no faltam engenhos felizes, os quais 
penetram onde querem, mas tambm no faltam aqueles que, perante
certos objetos, se perturbam e se obscurecem de modo estranho. Determinado indivduo, 
nas cincias especulativas,  uma guia, enquanto que, nos estudos
prticos,  como um burro diante de uma lira. Um outro, hbil em todas as outras 
disciplinas, no d nada na msica; e o mesmo acontece com outros, relativamente
 matemtica, ou  potica, ou  lgica, etc. Nestes casos, que deve fazer-se? Querer tirar 
da natureza aquilo que ela no tem  lutar contra a natureza,
num esforo intil. Com efeito, ou no se aproveita nada, ou ento o proveito no 
compensa o esforo. E como o professor  ministro, e no senhor, nem
formador, ou reformador da natureza, se v que algum dos seus alunos est a fazer 
qualquer coisa contra a vontade
[14],
no o force, e tenha a esperana de que, como costuma acontecer, aquele aluno 
compensar em outra disciplina a deficincia naquela matria. Efetivamente,
quebrado ou cortado um ramo a uma rvore, os outros desenvolvem-se com mais vigor, 
pois toda a fora passa para eles. E quando nenhum aluno for constrangido
a fazer qualquer coisa contra a vontade, nada haver que gere a nusea e entorpea a 
mente, seja a quem for, mas cada um progredir facilmente naqueles
estudos para os quais (por disposio da divina providncia) o arrasta um oculto instinto, 
e, mais tarde, no lugar que convm s suas capacidades, servir
uitilmente a Deus e  sociedade humana.

III. No tratar de pormenores insignificantes.

54. Do mesmo modo, se algum quisesse enumerar as mnimas particularidades (como 
todas as diferenas das ervas e dos animais, e ainda todas as atividades
dos artistas, os nomes dos seus instrumentos, e coisas semelhantes), tornar-se-ia prolixo e 
confuso e, por conseqncia, enfadonho. Basta, portanto, nas
escolas, passar em resenha os gneros das coisas com as suas principais diferenas (mas 
verdadeiras), desde que tal resenha seja completa e slida; as
outras coisas, na ocasio propcia, apresentar-se-o por si  inteligncia. Efetivamente, 
assim como quem quer sair rapidamente vitorioso do inimigo, no
se demora a dar o assalto a todas as pequenas posies, mas atende aos aspectos mais 
importantes da guerra, com a certeza de que, se vencer o grosso do
exrcito, e expugnar as principais fortificaes, tudo o resto se lhe entregar 
espontaneamente e passar para o seu poder, assim tambm acontecer no
caso que nos interessa, de modo que, se se conseguir submeter  inteligncia as coisas 
principais, as mincias acabaro por esclarecer-se por si mesmas.
A este gnero de obstculos pertencem os vocabulrios e os dicionrios chamados 
completos, ou seja, aqueles que abrangem todos os vocbulos de uma lngua;
e uma vez que uma boa parte deles nunca viro a ser usados, para qu obrigar os jovens a 
aprend-los e a sobrecarregar com eles a memria?
     Eis o que queria dizer acerca da economia de tempo e de fadiga que pode fazer-se 
quando se ensina e quando se aprende.

Captulo XX

MTODO PARA ENSINAR
AS CINCIAS EM GERAL

Os riachos devem confluir para um rio.

1. Reunamos, finalmente, em um s lugar, as observaes dispersas, aqui e alm, acerca 
do modo de ensinar metodicamente as cincias, as artes, as lnguas,
a moral e a piedade. Disse metodicamente, isto , de modo fcil, slido e rpido.

A cincia  a viso da mente, exigindo os mesmos requisitos que a viso dos olhos.

2. A cincia ou conhecimento das coisas, uma vez que no  seno uma viso interna das 
coisas, exige os mesmos requisitos que a observao ou viso externa,
ou seja, os olhos, o objeto e a luz. Dados estes meios, segue-se a viso. Ora os olhos da 
viso interna  a mente ou engenho; o objeto so todas as coisas
colocadas fora e dentro da inteligncia; a luz  a devida ateno. Mas, assim como, na 
viso externa,  preciso usar uma tcnica prpria, se se quer ver
as coisas tais como so, assim tambm, na cincia,  preciso usar um mtodo prprio, a 
fim de que as coisas se apresentem  inteligncia de modo que esta
as apreenda e conhea com prontido e certeza.

3. Em resumo, devem proporcionar-se ao adolescente, que deseja penetrar a fundo as 
partes mais intrincadas das cincias, as quatro condies seguintes:

I. Que tenha puros os olhos da inteligncia;
II. Que os objetos lhe estejam prximos;
III. Que preste ateno; e ento
IV. Que se lhe ofeream as coisas que esto relacionadas com outras coisas, com o devido 
mtodo. Assim, compreender tudo, bem e depressa.

I. Como conservar puros os olhos da mente.

4. No est nas mos de ningum receber uma inteligncia dotada destas ou daquelas 
qualidades. Deus, a seu beneplcito, distribui estes espelhos da mente,
estes olhos interiores. Est, todavia, em nosso poder no permitir que estes nossos 
espelhos se embaciem de p e percam o seu brilho. So p as ocupaes
ociosas, vs e inteis da mente. Com efeito, o nosso esprito est em continuo movimento 
como uma m que gira, a que os sentidos externos, seus habituais
ministros, fornecem constantemente matria, tomada de qualquer parte, mas, a maioria 
das vezes (a no ser que a razo, suprema inspetora, esteja bem atenta),
fornecem-lhe coisas vs, ou seja, em vez de trigo e cevada, fornecem-lhe folhelhos, palha, 
areia, desperdcios e coisas semelhantes. E ento acontece como
na m: todos os buracos se enchem de p. Preservar, portanto, a nossa m interior, a 
mente (que  tambm um espelho), da poeira, significa habituar sensatamente
a juventude s coisas honestas e teis, mantendo-a afastada das ocupaes frvolas.

II. Como aproximar os objetos.

5. Ora, para que o espelho reflita bem os objetos, em primeiro lugar,  necessrio que os 
objetos sejam slidos e evidentes, e, em segundo lugar, que esses
mesmos objetos sejam apresentados aos sentidos. Com efeito, a neblina e outras coisas 
semelhantes, pouco consistentes, no brilham, e refletem-se demasiado
debilmente no espelho; e as coisas afastadas no se refletem de modo algum. Portanto, os 
objetos que se quer fazer conhecer  juventude devem ser coisas,
no sombras de coisas; e coisas slidas, verdadeiras e teis, que produzam boa impresso 
nos sentidos e na imaginao; e produzi-la-o se se aproximam
tanto que os impressionem.

Tudo por meio da ao direta da vista.

6. Por isso, seja para os professores regra de ouro: que cada coisa seja apresentada quele 
dos sentidos a que convm, ou seja, as coisas visveis  vista,
as audveis ao ouvido, as odorosas ao olfato, as saborosas ao gosto, as tangveis ao tato; e 
se algumas podem, ao mesmo tempo, ser percepcionadas por vrios
sentidos, sejam colocadas, ao mesmo tempo, diante de vrios sentidos, como se disse no 
captulo XVII, fundamento VIII.

Tripla razo desta regra

7. Isto baseia-se em trs razes vlidas:

1. porque os sentidos do comeo ao conhecimento.

1. O conhecimento deve necessariamente principiar pelos sentidos (uma vez que nada se 
encontra na inteligncia, que primeiro no tenha passado pelos sentidos).
Porque  que ento o ensino h-de principiar por uma exposio verbal das coisas, e no 
por uma observao real dessas mesmas coisas? Somente depois de
esta observao das coisas ter sido feita, vir a palavra, para a explicar melhor.

2.porque o tornam certo.

2.8. Segunda: a verdade e a certeza da cincia tambm no dependem seno do 
testemunho dos sentidos. Com efeito, as coisas imprimem-se primeiramente e imediatamente
nos sentidos, e depois, graas aos sentidos, na inteligncia.  prova disso o fato de que, ao 
conhecimento sensitivo, se presta assentimento por si mesmo,
ao passo que, no raciocnio ou na afirmao de outrem, para se ter a certeza, recorre-se ao 
testemunho dos sentidos. De fato, no nos fiamos na razo seno
quanto ao que pode demonstrar-se com a induo especfica de exemplos (e  pelos 
sentidos que se verifica se eles merecem f). Se julgamos que nos encontramos
em presena de coisas contrrias  nossa prpria experincia sensve1, no nos deixamos 
convencer pelos testemunhos de outrem. Por isso, quanto mais o
saber deriva dos sentidos, tanto mais  certo. Em conseqncia disso, se queremos que os 
alunos saibam as coisas com verdade e com certeza,  necessrio
fazer tudo para lhas ensinar todas por meio da ao direta da vista e da percepo 
sensvel.

3. porque o confiam  memria.

9. E porque os sentidos so o mais fiel dispenseiro da memria, essa demonstrao 
sensvel de todas as coisas tem por efeito que, tudo o que se sabe atravs
dela, se sabe para sempre. Com efeito, se, ainda que uma s vez, saboreei o acar, se 
alguma vez vi um camelo, se alguma vez ouvi cantar um rouxinol,
se alguma vez estive em Roma e a visitei (com a necessria ateno, bem entendido), 
estas coisas aderem fixadamente  memria e no podem desprender-se.
Daqui se v que, com imagens, facilmente se pode imprimir na mente das crianas a 
histria sagrada e outras histrias. E  evidente que cada um de ns
imagina mais facilmente e mais tenazmente o que  um rinoceronte, se, ao menos uma 
vez, o viu (mesmo que fosse em imagem); e quem tomou parte pessoalmente
numa empresa, conhece a sua histria com mais certeza do que se, tendo estado ausente, a 
ouvisse contar centenas de vezes. Daqui o dito de Plauto: Uma
s testemunha ocular vale mais que dez testemunhas auriculares
[1].
E o de Horcio: aquelas coisas que vm pelos ouvidos despertam muito mais lentamente 
a ateno que as que se apresentam  fidelidade dos olhos do observador
e que ele v por si mesmo
[2].
Deste modo, quem, uma vez, observou atentamente a anatomia do corpo humano, entende 
e recordar-se- de todas as coisas com mais certeza do que quem leu
extensos tratados de anatomia, sem observao ocular. Daqui a mxima: A observao 
ocular faz as vezes da demonstrao.

Grande utilidade das imagens no ensino.

10. Se porventura no  possvel ter as coisas  mo, podem utilizar-se os representantes 
delas, isto , modelos ou desenhos feitos especialmente para o
ensino, como foi j ultimamente posto em prtica pelos professores de botnica, de 
zoologia, de geometria, de geodsia e de geografia, que juntam imagens
s suas descries.

N.B. Esqueleto artificial do corpo humano.

Assim conviria fazer tambm no ensino da fsica e de outras disciplinas. Por exemplo, em 
nosso entender, o funcionamento do corpo humano ensinar-se- muito
do corpo bem por meio de demonstraes oculares, se,  volta de cada osso de um 
esqueleto humano (como aqueles que habitualmente se encontram nas Academias,
ou ento feitos de madeira), se colocam os msculos, os tendes, os nervos, as veias e as 
artrias, juntamente com as vsceras, os pulmes, o corao,
o diafragma, o fgado, o estmago e os intestinos, feitos de peles cheias de l. Todas estas 
partes do corpo humano devem, porm, ser colocadas no seu
devido lugar e ser proporcionadas, escrevendo-se sobre cada uma delas o seu nome e 
aquilo para que serve. Efetivamente, se um estudante de histria natural
 conduzido a ver este manequim, que, diante dele,  desmontado, para que observe todas 
as suas partes, uma por uma, ele entender todas as coisas como
que divertindo-se e, a partir de ento, compreender a estrutura do seu corpo. Seria 
necessrio, portanto, construir instrumentos deste gnero (isto ,
modelos das coisas, pois nem sempre  possvel ter  mo coisas verdadeiras), em todos 
os campos do saber, de modo a poder t-los  mo nas escolas. Embora,
para fazer estas coisas, seja necessria alguma despesa e um pouco de percia, todavia, o 
resultado compensar todos os esforos.

Se todas as coisas podem ser apresentadas aos sentidos.

11. Se algum duvidasse que todas as coisas, mesmo as espirituais e ausentes (as quais se 
encontram ou acontecem no cu ou nos abismos, ou nas regies ultramarinas),
podem, deste modo, ser submetidas aos sentidos, lembre-se que, por obra da divina 
providncia, todas as coisas foram feitas com perfeita harmonia, de modo
que as coisas superiores podem ser representadas por meio das inferiores, as ausentes por 
meio das presentes, e as invisveis por meio das visveis, como
o demonstra com suficiente clareza o Macromicrocosmos de Roberto Fluttus, o qual 
mostra artificialmente como se geram os ventos, as chuvas e os troves
[3].
E no h dvida que tais coisas podem ainda reduzir-se a maior evidncia e a maior 
facilidade.

III. Em que consiste a luz da ateno.

12. O que dissemos refere-se  apresentao dos objetos aos sentidos. Falemos agora da 
luz, pois, se ela falta,  em vo que se colocam os objetos diante
dos olhos. A luz do saber  a ateno, graas  qual o aluno, com a inteligncia presente e, 
por assim dizer, aberta, recebe todas as coisas. Com efeito,
assim como, s escuras e com os olhos fechados, ningum v seja o que for, mesmo que o 
objeto se encontre muito perto dos olhos, assim tambm, se se diz
ou se se mostra qualquer coisa a quem no est atento, ela passar-lhe- desapercebida aos 
sentidos, como se v acontecer queles que, distrados por outros
pensamentos, no se apercebem de muitas coisas que sucedem na sua presena. Portanto, 
do mesmo modo que quem quer mostrar a outro, durante a noite, uma
coisa, deve necessariamente acender a lmpada e espevit-la muitas vezes, para que d 
uma luz clara, assim tambm o professor, se quer iluminar com o conhecimento
das coisas um aluno circundado pelas trevas da ignorncia, a primeira coisa que tem a 
fazer  despertar nele a ateno, a fim de que a mente, sedenta das
coisas, beba aquilo que se lhe ensina. O modo como isto deve ser feito, mostrmo-lo no 
captulo XVII e no captulo XIX.

IV. Que exige o mtodo de apresentar as coisas por meio de uma luz clara?

13. Ainda relativamente  luz, deve falar-se agora do modo ou do mtodo de apresentar os 
objetos de tal maneira aos sentidos que eles produzam uma impresso
duradoura. Faremos bem, decalcando o processo deste mtodo sobre a tcnica da viso 
externa. Ora, quando se quer ver uma coisa bem vista,  necessrio:
1. coloc-la diante dos olhos; 2. no demasiado longe, mas  distncia conveniente; 3. no 
de lado, mas em frente dos olhos; 4. e no invertendo ou pondo
de travs a face da coisa, mas mantendo-a direita; 5. de modo que os olhos possam, de um 
s golpe, abrang-la toda; 6. e, depois, examinar cada uma das
partes separadamente; 7. seguindo uma ordem metdica, desde o princpio at ao fim; 8. 
insistindo, depois, no exame de cada parte; 9. at que todas as
particularidades sejam bem distinguidas, graas  percepo das diferenas. Observando 
devidamente estas regras, a viso realiza-se adequadamente; mas
basta esquecer uma para que ela deixe de se realizar ou se realize mal.

Esclarece-se o assunto com um exemplo.

14. Por exemplo: se algum quer ler uma carta que lhe foi enviada por um amigo,  
necessario: 1. que a apresente aos olhos (pois, se a no v, como pode
l-la?); 2. que a aproxime dos olhos a uma distncia adequada (a demasiada distncia, a 
vista no distingue); 3. que a ponha de frente (o que se v de
travs, v-se confusamente); 4. que a coloque direita diante de si (efetivamente, se se 
apresenta aos olhos uma carta ou um livro do invs, ou de travs,
quem os poder ler?); 5.  preciso que, antes de tudo, se observem as coisas mais gerais da 
carta, isto , quem a escreve, a quem, de onde e quando (sem
o conhecimento prvio destas coisas, os pormenores do texto sero muito menos claros); 
6. que, a seguir, se leia tudo o resto, de modo que no escape nada
(de outra maneira, no se tomar conhecimento de todas as coisas, e poder mesmo 
acontecer que se no chegue ao objetivo principal); 7.  preciso que se
leia ordenadamente cada perodo, como esto no texto, um a seguir ao outro (se se toma 
um pedao aqui e outro alm, um perodo daqui e outro de alm, desliga-se
e confunde-se o sentido); 8. deve demorar-se em cada uma das coisas, at que se 
entendam todas e cada uma em particular (efetivamente, se se d  carta
apenas uma rpida olhadela, facilmente qualquer coisa de til passar desapercebila  
mente); 9. finalmente, tomado conhecimento de todas as coisas, preste-se
ateno  diferena entre umas coisas e outras, mais ou menos necessrias.

Aplicao  arte de ensinar as cincias por meio de nove regras.

15.Destas observaes, resultam, para os que ensinam as cincias, nove regras muito 
teis:

I. Regra

I. Ensine-se tudo o que se deve saber.
     Efetivamente, se se no oferecem ao aluno aquelas coisas que ele deve saber, de onde 
as vir a saber? Abstenham-se, portanto, os professores de manter
qualquer coisa escondida dos alunos, quer intencionalmente, como fazem habitualmente 
os invejosos e os desleais, quer por negligncia, como costumam fazer
aqueles que querem terminar o seu trabalho o mais cedo possvel. Nestas coisas,  
necessrio a boa f e o zelo.

II. Regra.

16. Tudo o que se ensina, ensine-se como coisa do mundo de hoje, e de utilidade certa.
     Isto para que o aluno veja que aquilo que aprende no so coisas vindas do pas da 
utopia
[4]
ou das idias de Plato, mas coisas que verdadeiramente esto  nossa volta e cujo 
conhecimento perfeito  realmente til para a vida. Assim, a mente lanar-se-
a elas com maior ardor e discerni-las- com maior exatido.

III. Regra.

17. Tudo o que se ensina, ensine-se de uma maneira direta, e no com rodeios.
     Efetivamente, vemos as coisas diretamente, e no de travs, quando, no somente as 
vemos, confusa e obscuramente, mas as apreendemos com a vista. Seja
qual for a coisa, coloque-se diante dos olhos do aluno, fazendo-lhe ver a sua essncia 
nuamente, e no por meio de subterfgios, de palavras, de metforas,
de aluses e de hiprboles, figuras de retrica que se usam para engrandecer ou diminuir 
as coisas j conhecidas, para as louvar ou rebaixar, mas no para
as fazer conhecer; trata-se aqui de enfrentar as coisas diretamente.

IV. Regra.

18. Tudo o que se ensina, ensine-se tal qual  e acontece, isto , pelas suas causas.
     Com efeito, o conhecimento  perfeito quando as coisas se conhecem tais quais so, 
pois se so conhecidas de modo diverso do que so, o conhecimento
no  verdadeiro conhecimento, mas erro. Toda a coisa  tal como foi feita, pois se  
diferente de como foi feita, deve entender-se que foi alterada. Ora,
toda a coisa  feita pelas suas causas. Logo, explicar as causas da coisa,  ensinar a 
verdadeira cincia da coisa, segundo a mxima que diz : saber 
conhecer uma coisa pelas suas causas
[5].
Alm disso, a causa  o guia da mente. As coisas sero, portanto, conhecidas melhor, mais 
facilmente e com maior certeza, se forem conhecidas como esto
feitas. Do mesmo modo que, a quem quer ler uma carta, esta deve ser oferecida segundo a 
posio em que est escrita, pois ler uma carta ao invs ou de
travs  difcil, igualmente, se se explica uma coisa como ela acontece, ser entendida 
facilmente e com segurana; se, ao contrrio, ela  explicada,
colocando em primeiro lugar o que aconteceu em segundo lugar, (per
) e mudando, de vrios outros modos, a ordem natural, com toda a certeza que se 
mergulhar o aluno na confuso. Portanto, o mtodo didtico deve seguir
a ordem das coisas: primeiro, as que aconteceram primeiro; depois, as que aconteceram 
depois.

V. Regra.

19. Tudo o que se oferece ao conhecimento, oferea-se primeiro de modo geral, e depois 
por partes.
     A razo desta regra foi explicada no captulo XVI, fundamento VI. Oferecer uma coisa 
para ser conhecida de modo geral, consiste em explicar a essncia
e os acidentes de toda essa coisa. A essncia explica-se por meio destas perguntas: Que ? 
Qual ? Porqu?  pergunta que , responde o nome, o gnero,
a misso e a finalidade da coisa;  pergunta qual , responde a forma da coisa, ou seja, o 
modo em virtude do qual a coisa  apta para o seu fim;  pergunta
porqu, responde a eficincia, ou seja, aquela fora pela qual a coisa se torna apta para o 
seu fim. Por exemplo: se se deseja dar ao aluno um verdadeiro
conhecimento geral do homem dir-se-: O homem : 1. a criatura de Deus mais perfeita, 
destinada a governar as outras; 2. enriquecida com o dom de escolher
e de fazer livremente qualquer coisa; 3. e, por isso. dotada da luz da razo, para que possa 
regular sabiamente as suas escolhas e as suas aes. Este
 um conhecimento geral do homem, mas fundamental, pois enuncia todas as coisas 
necessrias acerca do homem. Se se quiser, a estas coisas, poder acrescentar-se
certos acidentes, tambm de carter geral, como, por quem foi feito, onde teve origem, 
quando, etc. Feito isto,  preciso estudar as partes do homem, o
corpo e a alma, decompondo o corpo por meio da anatomia dos membros, e explicando a 
alma por meio das faculdades que a constituem, etc. Tudo isto deve
ser feito com a devida ordem.

VI. Regra.

20. Conheam-se todas as partes da coisa, mesmo as mais pequeninas, sem omitir 
nenhuma, respeitando a ordem, a posio e as relaes que umas tm com as
outras.
     Com efeito, nada  intil, e, por vezes,  precisamente na parte mais pequenina que 
reside a fora das partes maiores. E sabido que, no relgio, uma
s rodinha partida, torcida ou deslocada pode fazer parar toda a mquina; e, se a um corpo 
vivo se tirar um s membro, pode tirar-se-lhe a vida; e, muitas
vezes, no contexto de um discurso, a mais pequena palavra (como uma preposio ou uma 
conjuno) modifica e at inverte todo o sentido. E assim acontece
em todas as coisas. O conhecimento perfeito de uma coisa obtm-se, portanto, 
conhecendo todas as suas partes, e sabendo o que  e para que serve cada uma
delas.

VII. Regra.

21. Ensinem-se todas as coisas sucessivamente, e, durante o mesmo tempo, no se ensine 
seno uma coisa s.
     Com efeito, assim como a vista no pode, ao mesmo tempo, voltar-se para dois ou trs 
objetos, seno dispersamente e confusamente ( evidente que quem
l um livro no pode olhar para duas pginas ao mesmo tempo, nem mesmo para duas 
linhas, embora estejam prximas uma da outra, nem sequer para duas palavras,
e nem at para duas letras, mas olha para elas sucessivamente, uma aps a outra), assim 
tambm a mente no pode especular seno acerca de uma s coisa
durante o mesmo espao de tempo. Proceda-se, portanto, distinamente de uma coisa para 
outra, para que as inteligncias no sejam obstrudas.

VIII. Regra.

22. Insista-se sobre cada matria, at que ela seja perfeitamente compreendida.
     Nada acontece num instante, pois, tudo o que acontece, acontece graas ao movimento 
e o movimento implica sucesso. Deve, portanto, demorar-se com
o aluno em qualquer parte do saber, at que a tenha apreendido bem e saiba que a sabe. 
Conseguir-se- isso, inculcando, examinando e repetindo, at que
as coisas estejam bem fixas na mente, como mostrmos no captulo XVIII, fundamento X.

IX. Regra.

23. Ensinem-se bem as diferenas das coisas, para que o conhecimento de todas as coisas 
seja distinto.
     Est contida uma grande verdade nesta mxima famosa (
): Quem distingue bem, ensina bem. Efetivamente, a multido das coisas perturba o aluno 
e a variedade confunde-o, a no ser que se utilizem remdios: no
primeiro caso, o remdio ser a ordem, de modo que se ensine uma coisa aps outra; no 
segundo caso, ser a considerao atenta das diferenas, de modo
que se torne sempre manifesto qual a diferena que vai de uma coisa a outra. Apenas este 
processo fornece um conhecimento distinto, claro e certo, porque,
no s a variedade, mas tambm a verdade das coisas depende das diferenas, como o 
enuncimos acima, no captulo XVIII, fundamento VI.

As cincias que se ensinam nas escolas devem ser adornadas com este mtodo.

24. Mas, porque no  dado a todos poder exercer o ofcio de professor com tudo o que 
ele exige de destreza,  necessrio submeter todas as cincias que
se ensinam nas escolas a estas regras do mtodo, a fim de que o ensino no descarilhe e 
no falhe no seu objetivo. Efetivamente, se estas regras se fixam
e se observam estritamente, ser impossvel que um jovem, introduzido no teatro do 
universo, no seja capaz de penetrar com a sua agudeza toda a magnificncia
das coisas ali expostas; e assim, em plena luz, caminhar entre as obras de Deus e dos 
homens, com a mesma facilidade com que algum, introduzido num palcio
real pode, num determinado espao de tempo e sem tdio, ver muito bem tudo o que nele 
se encontra: pinturas, trabalhos de cinzel, tapearias e qualquer
outro ornamento.

Captulo XXI

MTODO
PARA ENSINAR AS ARTES

 preciso estudar mais as artes prticas que as cincias especulativas.

1. A teoria das coisas  fcil e breve, e no produz seno prazer; ao contrrio, a sua 
aplicao  rdua e demorada, proporcionando maravilhosas vantagens,
diz Vives
[1].
Sendo as coisas assim, importa investigar com diligncia o mtodo de guiar facilmentc a 
juventude a pr em prtica as coisas que dizem respeito s artes
tcnicas.

Trs requisitos da arte.

2. A arte requer trs coisas: 1. O modelo ou imagem, que  uma espcie de forma externa, 
que o artista observa e tenta reproduzir. 2. A matria, que  aquilo
a que deve imprimir-se a nova forma. 3. Os instrumentos, com a ajuda dos quais se 
executa o trabalho.

Outras tantas coias so requeridas para a ao prtica.

3. Depois (quando se possuem j os instrumentos, a matria e o modelo), o ensino da arte 
requer: 1. a utilizao devida destas trs coisas; 2. a sua direo
prudente; 3. exerccios freqentes. Isto , que se ensine ao aluno onde e como cada uma 
destas trs coisas deve ser utilizada. E, enquanto as utiliza,
a dirigi-las bem, para que no cometa erros; e, se acaso os comete, para que os corrija. 
Finalmente, para que deixe de errar, ensine-se-lhe a afastar-se
dos erros, at que tenha aprendido a trabalhar com segurana, com rapidez e sem cometer 
erros.

Onze cnones acerca deste assunto:

4. Relativamente a este assunto, so de notar onze cnones: seis acerca da utilizao; trs 
acerca da direo; e dois acerca do exerccio.

I

5. Aprenda-se a fazer fazendo.
     Os mecnicos no detm os aprendizes das suas artes com especulaes tericas, mas 
pem-nos imediatamente a trabalhar, para que aprendam a fabricar
fabricando, a esculpir esculpindo, a pintar pintando, a danar danando, etc. Portanto, 
tambm nas escolas, deve aprender-se a escrever escrevendo, a falar
falando, a cantar cantando, a raciocinar raciocinando, etc., para que as escolas no sejam 
seno oficinas onde se trabalha fervidamente. Assim, finalmente,
pelos bons resultados da prtica, todos experimentaro a verdade do provrbio: fazendo 
aprendemos a fazer (Fabricando fabricamur).

II

6. Faam-se sempre os trabalhos segundo determinada forma e norma.
     Observando essa forma e essa norma, e como que caminhando pelas suas pegadas, o 
aluno deve imit-la. Com efeito, no pode ainda inventar nada de seu,
uma vez que ignora o que deve fazer e como o deve fazer; por isso,  necessrio mostrar-
lho. Alm disso, seria uma crueldade constranger algum a fazer
aquilo que tu queres, ignorando ele o que tu queres. Do mesmo modo, seria uma 
crueldade querer que trace linhas retas, ngulos retos ou crculos redondos,
sem primeiro lhe ter metido nas mos o esquadro, a rgua e o compasso, e sem lhe haver 
mostrado o uso desses instrumentos. Importa, por isso, procurar
seriamente que, de todos os trabalhos que devem fazer-se na escola, haja figuras ou 
desenhos e modelos, verdadeiros, claros e simples, fceis de entender
e de imitar, quer sejam esboos ou desenhos das coisas, quer sejam planos ou maquetes 
das obras. Ento, j no ser absurdo exigir daquele a quem foi
ministrada luz, que veja, daquele que j se mantm de p, que comece a andar, daquele 
que sabe j manejar os instrumentos, que trabalhe.

III

7. Mostre-se o uso dos instrumentos, mais com a prtica que com palavras, isto , mais 
com exemplos que com regras.
     J antigamente advertiu Quintiliano que  longo e difcil o caminho por meio de 
regras, mas breve e eficaz por meio de exemplos
[2].
Mas, normalmente, quo pouco se recordam desta advertncia as escolas!  sabido que 
entulham de tal maneira, mesmo os principiantes de gramtica, com preceitos
e regras, com excees s regras e excees s excees, que eles, a maioria das vezes, 
no sabem que fazer e comeam antes a ficar estpidos que a entender.
Mas, na verdade, no vemos que os mecnicos procedam de modo a ensinarem tantas 
regras aos seus aprendizes, mas, conduzidos estes  oficina, mandam-nos
observar os seus trabalhos, e imediatamente, para que os imitem (pois o homem  um 
animal imitador: (
), metem-lhes na mo os instrumentos e ensinam-lhes como os devem manejar; ento, se 
se enganam, advertem-nos e corrigem-nos, mais com o exemplo que com
palavras; e a prtica mostra que a imitao facilmente consegue bons resultados. Com 
efeito,  verdadeira esta bela mxima alem: Ein guter Vorgnger
findet einen guten Nachgnger (Um bom precursor encontra sempre um bom seguidor)
[3].
E tambm tem aqui cabimento o dito de Terncio: Vai  frente, que eu te seguirei
[4].
Deste modo, vemos as crianas aprender a andar, a correr, a falar, a entregar-se a jogos 
vrios, apenas graas  imitao, sem regras fatigantes e penosas.
Efetivamente, as regras so autnticos espinhos para os espritos e exigem ateno e 
agudeza, ao passo que com exemplos at as cabeas mais rudes so ajudadas.
Alm disso, s com regras, ningum ser capaz de adquirir o hbito de uma lngua ou de 
uma arte; mas, com a prtica, mesmo sem regras, pode adquiri-lo
perfeitamente.

IV

8. O exerccio deve comear com os primeiros rudimentos, e no com obras acabadas.
     Com efeito, o carpinteiro no ensina, logo nos primeiros dias, o seu aprendiz a 
construir torres e fortalezas de madeira, mas a pegar no machado, a
cortar a madeira, a pr em esquadria as traves e a perfurar barrotes, a pregar pregos e a 
fazer encaixes, etc. Tambm o pintor no manda o seu aprendiz
pintar rostos humanos, mas ensina-lhe a misturar as cores, a manejar os pincis, a traar 
pequenas linhas, e depois a tentar esboar desenhos, etc. E quem
ensina uma criana a ler, no lhe coloca  frente um livro compacto, mas as letras do 
alfabeto, primeiro uma de cada vez, depois unidas em slabas, a seguir
unidas em palavras e finalmente em frases, etc. Portanto, tambm a quem comea a 
estudar a gramtica, primeiro deve pr-se-lhe  frente palavras, uma de
cada vez, depois fazer-lhas juntar duas a duas, depois ensinar-lhe expresses de uma s 
proposio, depois de duas e de trs; depois, passe-se  estrutura
dos perodos e da a um discurso inteiro. Tambm na dialtica, primeiro aprendam a 
distinguir as coisas e os conceitos acerca das coisas por meio dos gneros
e das diferenas; depois, a coordenar as coisas segundo as suas relaes mtuas (com 
efeito, de qualquer maneira, cada coisa tem relaes com outra); a
seguir, a defini-las e a classific-las; finalmente, a examinar em conjunto as coisas e os 
conceitos das coisas, procurando resposta para estas perguntas:
Que ? Acerca de qu? Por causa de qu?  necessria ou contingente? Naquelas coisas 
em que j estiver suficientemente exercitado, passa-se ao ato do raciocnio,
no qual, dadas e concedidas certas coisas, se deduzem outras. Por fim, passe-se aos 
discursos, ou seja, s exposies completas de temas. De modo semelhante,
no estudo da retrica, os progressos sero rpidos, se o aluno se exercitar primeiro, 
durante um certo tempo, a recolher sinnimos, depois aprender a dar
a designao prpria aos nomes, aos verbos e aos advrbios, e, imediatamente a seguir, 
aprender a esclarec-los com outros de significado oposto, e depois
a falar, de vrios modos, por meio de perfrases, e a mudar os termos prprios em outros 
mediante metforas, a deslocar as palavras para obter boa harmonia,
a mudar, de todos os modos possveis, as frases simples em frases figuradas; finalmente, e 
no antes, quando souber fazer prontamente cada uma destas coisas,
passar-se- aos ornarnentos de oraes inteiras. Se, em qualquer arte, se caminha assim 
gradualmente,  impossivel no fazer progressos rpidos e slidos.
     O fundamento disto foi exposto no captulo XVII, fundamento IV.

V

9. Os primeiros exerccios dos principiantes sejam acerca de matria conhecida.
     Esta regra foi-nos sugerida pelo fundamento IX do captulo XVII e pelo corolrio VI 
do fundamento IV. Ela significa que o estudante no deve ser sobrecarregado
com coisas desproporcionadas  sua idade,  sua capacidade e  sua condio, para no 
ser obrigado a combater com sombras. Por exemplo: a uma criana polaca,
que aprende a ler ou a escrever o alfabeto, no se deve apresentar um texto em latim, em 
grego ou rabe, mas na sua lngua, para que ela entenda o que
faz. Assim, para que a criana compreenda o emprego das regras da dialtica, deve ser 
exercitada com exemplos, tomados, no de Virglio ou de Ccero ou
de assuntos teolgicos, polticos e mdicos, mas de coisas familiares  criana, como um 
livro, um vestido, uma rvore, uma casa, uma escola, etc. Isto
far com que os exemplos tomados para explicar a primeira regra, sendo j conhecidos, 
sirvam para todas as outras. Como se, no estudo da dialtica, se
tomar (por exemplo) uma rvore: mostre-se o seu gnero, a sua diferena, as suas causas, 
os seus efeitos, as suas partes subjetivas e acrescentadas, etc.,
a sua definio, a sua classificao, etc.; depois, de quantas maneiras alguma coisa se 
pode predicar de uma rvore; a seguir, como  que, por meio de
um raciocnio, daquelas coisas que at ento foram ditas acerca da rvore, se podem 
deduzir e demonstrar outras, etc. Explicado deste modo, com um, dois
ou trs exemplos familiares, o emprego das regras, o jovem poder facilmente, por via de 
imitao, fazer o mesmo em todos os outros casos.

VI

l0. A princpio, a imitao faa-se segundo a forma prescrita; depois, poder ser mais 
livre.
     Efetivamente, quanto mais a formao de uma coisa nova se apega  sua forma, tanto 
melhor e mais exatamente  expressa a forma. Como as moedas, que
so tiradas do mesmo cunho, so todas exatamente iguais, tanto ao seu cunho como umas 
com as outras; e igualmente os livros impressos e os trabalhos fundidos
em cera, gesso, metal, etc. Portanto, na medida do possvel, tambm nos outros trabalhos, 
a imitao (ao menos a primeira) apegue-se estreitamente ao seu
modelo, at que as mos, a mente e a lngua se habituem a mover-se mais livremente e 
com mais segurana, e a formar por si coisas semelhantes. Por exemplo:
aqueles que aprendem a escrever tomem um papel fino e de qualquer modo transparente, 
e coloquem-lhe debaixo um modelo (
), ou seja,, aquela escrita que desejam imitar, pois assim podero facilmente imitar os 
traos das letras que transparecem. Ou ento imprimam-se, em papel
branco, modelos, numa cor atraente, amarela ou escura, para que os alunos, fazendo 
passar a pena, cheia de tinta preta, atravs daqueles traos, se habituem
a imitar aquelas letras, com aquela mesma forma. Do mesmo modo, quanto ao estilo, 
toma-se de um autor uma frase, um pensamento ou um perodo, e manda-se
ao aluno formar outras semelhantes. Por exemplo, porque se diz dives opum
[5]
manda-se a criana imitar e dizer dives nummorum, dives pecuniae, dives pecoris, dives 
vinearum, etc. Uma vez que Cicero diz: Eudemo, segundo a opinio
de pessoas doutssimas,  de longe o primeiro em astronomia
[6],
imitando-o, poder dizer-se: Cicero, segundo a opinio de oradores doutssimos,  de 
longe o primeiro em eloqncia e Paulo, no apostolado, segundo a
opinio de toda a Igreja,  de longe o primeiro, etc. Do mesmo modo, aparecendo em 
lgica esta dilema: ou  dia ou  noite; ora  noite; logo no  dia,
aprenda a criana a imitar todos os contrrios imediatos assim expostos. Por exemplo: ou 
 ignorante ou  erudito; ora  ignorante; logo no  erudito.
Caim ou foi pio ou foi mpio; ora no foi pio...

VII

11. Os modelos a imitar sejam o mais perfeitos possvel, para que, se algum consegue 
imit-los bem, possa ser considerado perfeito na sua arte.
     Efetivamente, assim como, com uma rgua curva, ningum pode traar linhas retas, 
assim tambm de um modelo defeituoso no pode formar uma bela obra.
Ser necessrio, portanto, esforar-se por que haja modelos verdadeiros, perfeitos, simples 
e fceis de imitar de tudo o que deve fazer-se na escola e,
mais ainda, durante toda a vida, quer sejam imagens das coisas, pinturas, desenhos, quer 
sejam prescries e regras, brevssimas, clarssimas, inteligveis
por si mesmas e verdadeiras sem nenhuma exceo.

12. O primeiro esforo de imitao seja o mais aprimorado possvel, para que se no 
afaste do modelo nem sequer no mnimo pormenor.
     Isto, naturalmente, nos limites do possvel. Mas  necessrio. Com efeito, todas as 
primeiras coisas so como que os fundamentos das que viro a seguir;
sendo elas slidas, as outras podero construir-se solidamente; se forem vacilantes, tudo 
vacilar. E assim como os mdicos observam que as irregularidades
da primeira digesto se no corrigem na segunda e na terceira, assim tambm, em 
qualquer trabalho, os primeiros erros prejudicam tudo o que vem a seguir.
Por isso, Timteo, professor de msica, fazia pagar as lies pelo dobro aos alunos que 
haviam j estudado os rudimentos daquela arte com outros professores,
dizendo que isso implicava para ele uma duplicao de trabalho, pois primeiro tinha de 
fazer desaprender aquilo que haviam aprendido mal, e depois ensinar-lho
bem
[7].
 necessrio, portanto, fazer tudo para que os alunos procurem imitar o melhor possvel 
os modelos da arte que estudam, pois, superada esta dificuldade,
o resto seguir-se- normalmente, da mesma maneira que uma cidade, cujas portas foram 
expugnadas, est j na mo do vencedor. Importa, por isso, abster-se
de toda a precipitao, para que nunca se passe s coisas que vm a seguir, antes de se 
haver consolidado com o necessrio cuidado as coisas que esto
primeiro. Caminha suficientemente depressa quem nunca se afasta do caminho. E o tempo 
que se gasta para consolidar bem os rudimentos no  tempo perdido,
mas representa uma grande economia de tempo e de fadiga, porque permitir dominar 
facilmente, rapidamente e seguramente as coisas que vm a seguir.

IX.

13. O erro seja corrigido pelo professor que assiste  lio, mas acrescentando as 
observaes, a que chamamos regras e excees s regras.
     Ensinmos at aqui que as artes devem ensinar-se mais com exemplos que com regras. 
Acrescentamos agora que se devem ajuntar as normas e as regras que
dirijam o trabalho e o perservem de erros, mostrando claramente o que no modelo se 
encontra de modo obscuro, isto , mostrando por onde se deve comear
o trabalho, para que fim deve tender, como deve ir avanando e porque convm fazer cada 
coisa de determinada maneira. Tudo isto fornecer, finalmente,
um slido conhecimento da arte e a confiana e a segurana na imitao. Mas importa que 
essas regras sejam o mais breves e o mais claras possvel, para
que se no envelhea em cima delas; aquelas, porm, que uma vez foram aprendidas, 
sejam teis para sempre, mesmo quando postas de parte. Para que no acontea
como  criana a quem as talas foram de grande utilidade para aprender a dar os primeiros 
passos, e depois deixaram de ter qualquer utilidade.

X.
Os exerccios sintticos devem ser feitos antes dos analticos.

14. O ensino perfeito da arte consiste na sntese e na anlise. No captulo XVIII, 
fundamento V, mostrmos, com exemplos tirados da natureza e das artes
mecnicas, que, no nosso caso, o principal papel cabe  sntese. E que, na maior parte das 
disciplinas, os exerccios sintticos devem fazer-se antes,
mostram-no ainda as razes seguintes: 1. Deve comear-se sempre pelas coisas mais 
fceis; ora ns entendemos mais facilmente as nossas coisas que as alheias.
2. Os autores escondem com cuidado a arte das suas obras, de modo que os alunos, logo  
primeira vista, dificilmente nelas conseguem penetrar; consegui-lo-o,
todavia, quando j estiverem um pouco exercitados com as suas prprias rudes invenes. 
3. O que se pretende atingir em primeiro lugar deve fazer-se em
primeiro lugar; ora, o nosso primeiro intento  que os estudantes das artes se habituem a 
procurar novas invenes e no apenas a servir-se das que j
foram realizadas. (Ver o que foi dito tambm no captulo XVIII, fundamento V).

Importa, todavia, ajuntar exerccios analticos.

15. , todavia, absolutamente necessrio ajuntar a anlise atenta das invenes e das obras 
dos outros. Com efeito, conhece bem uma estrada quem a percorreu
freqentes vezes de uma ponta  outra, e observou, aqui e alm, todas as encruzilhadas, 
bifurcaes e entroncamentos. Alm disso, so vrios, e at certo
ponto infinitos, os modos das coisas, de tal maneira que no  possvel condensar todas as 
coisas em regras, nem que estas estejam todas na cabea de um
s. A vrios,  possvel ver mais coisas; as coisas, que se no tornam nossas a no ser que 
as adquiramos e conheamos, devem gerar em ns, pelo esprito
de emulao e de imitao, o hbito de produzir coisas semelhantes.

Resumo do que se disse.

16. Desejamos, portanto, que, em qualquer arte, se faam modelos ou exemplares 
completos e perfeitos, de tudo aquilo que, dessa arte, se deve, se costuma
e se pode colocar perante os alunos, acrescentando-se, ao lado, advertncias e regras que 
exprimam as razes do que se fez e do que h-de fazer-se, dirijam
no esforo de imitar, preservem dos erros e permitam corrigir os erros cometidos. Dem-
se, depois, ao aluno outros e outros exemplos, os quais ele adapte,
um por um, aos modelos, e por imitao faa outros semelhantes. Finalmente, examinem-
se as obras alheias (mas de artistas de valor) e julguem-se em conformidade
com os modelos e com as regras atrs referidas, quer para que se ponha mais em 
evidncia a aplicao das mesmas regras, quer para que aprendam a arte de
esconder os artifcios. Com a continuao deste exerccio poder, finalmente, julgar-se 
com sensatez acerca das invenes e acerca da elegncia das invenes,
prprias e alheias.

XI

17. Estes exerccios devem ser continuados, at que tenham criado o hbito da arte.
     Efetivamente, s a prtica faz os artistas
[8].

Captulo XXII

MTODO
PARA ENSINAR AS LNGUAS

Porque se devem aprender as lnguas e quais.

1. As lnguas aprendem-se, no como uma parte da instruo ou da sabedoria, mas como 
um instrumento para adquirir a instruo e para a comunicar aos outros.
Por isso, no devem aprender-se todas, o que  impossvel, nem muitas, o que  intil, 
alm de que roubaria o tempo devido ao estudo das coisas; mas apenas
as necessrias. Ora, so necessrias: a lngua materna, para tratar dos negcios 
domsticos; as dos pases vizinhos, para entrar em relaes com eles (assim,
para os polacos, de uma parte, a lngua alem, e, de outra parte, a lngua hngara, a 
romena e a turca); para ler livros sabiamente escritos, a latina,
que  a lngua comum da gente instruda; para os filsofos e para os mdicos, a grega e a 
arbica; para os telogos, a grega e a hebraica.

Cada lngua deve ser aprendida completamente?

2. Nem todas as lnguas devem aprender-se em todas as suas partes, at a perfeio, mas 
apenas tanto quanto  necessrio. Com efeito, no  necessrio pronunciar
to perfeitamente a lngua grega e a hebraica como a verncula, pois no h homens com 
quem as falemos. Basta aprender o suficiente para ler e entender
os livros.

No convm aprend-las sem as coisas.

3. O estudo das lnguas, especialmente na juventude, deve caminhar paralelamente com as 
coisas, de modo que se aprenda a entender e a exprimir tanto as
coisas como as palavras. Efetivamente, formamos homens, e no papagaios, como se 
disse no captulo XIX, fundamento VI.

Corolrios:
1. Com os mesmos livros podem aprender-se as coisas e a lngua.

4. Daqui se segue, em primeiro lugar, que as palavras no se devem aprender 
separadamente das coisas, uma vez que as coisas separadas das palavras nem existem,
nem se entendem; mas, enquanto esto unidas, existem aqui ou alm e desempenham esta 
ou aquela funo. Esta considerao levou-me a escrever a Porta das
lnguas (Janua Linguarum), onde as palavras que formam as frases exprimem ao mesmo 
tempo a estrutura das coisas, e (ao que parece) com bons resultados
[1].

2. elNo  necessrio para ningum conhecer uma lngua completamente.

5. Em segundo lugar, segue-se que no  necessrio para ningum conhecer 
completamente uma lngua, e se algum procurasse aprend-la completamente faria
uma coisa ridcula e estpida. Com efeito, nem sequer Ccero tinha um conhecimento 
total da lngua latina (da qual, alis,  considerado o maior mestre),
pois ele mesmo confessa que ignorava os termos tcnicos dos artesos
[2],
no tendo jamais conversado com os sapateiros e com os operrios de outras profisses, 
para observar todos os seus trabalhos e aprender a denominao de
todos os instrumentos que eles manejam. E para que lhe serviria aprender tudo isso?

Os ampliadores (Docemius, Kinerus, etc.) da Porta agiram inconsideradamente, e por 
isso o autor, que comeara a Segunda porta da latinidade no a terminou.

6. A isto no atenderam alguns ampliadores da nossa Porta, que a encheram de palavras 
inusitadas, significando coisas que ultrapassam em muito, a capacidade
das crianas. Uma porta no deve ser seno uma porta; as outras coisas devem reservar-se 
para outra altura, principalmente aquelas que ou nunca ocorrem
ou, se ocorrem, podem procurar-se em livros subsidirios (vocabulrios, dicionrios, 
pronturios, etc.). Por esta razo, interrompi a Segunda Porta da
Latinidade, coletnea de palavras arcaicas e pouco usadas, que havia comeado.

s crianas deve oferecer-se temas infantis, e no Cicero e outros autores, que so para 
homens feitos.

7. Em primeiro lugar, segue-se que as crianas devem formar tanto a sua inteligncia 
como a sua lngua, trabalhando de preferncia sobre matrias que convm
s crianas e deixando as coisas prprias de homens feitos para outra altura da vida; por 
isso, faz obra v quem coloca diante das crianas Ccero e outros
grandes autores que tratam de coisas que ultrapassam a capacidade infantil. Com efeito, se 
no entendem as coisas, como podem entender a arte com que essas
mesmas coisas so eficazmente expressas? Esse tempo dispende-se com maior utilidade 
em coisas mais humildes, de modo que, tanto a lngua como a inteligncia
se no aperfeioem seno gradualmente. A natureza no d saltos, e tambm os no d a 
arte, quando imita a natureza.  criana deve ensinar-se a dar passos,
antes de a exercitar na dana; a cavalgar um belo e longo pau, antes de montar cavalos 
ricamente arreados; a construir slabas, antes que a falar, e a
falar, antes que a discursar, pois Ccero afirma que se no pode ensinar a discursar a quem 
no sabe falar
[3].

Oito regras acerca da poliglotia.

8. Quanto  poliglotia (
), digo que tornar breve e suave o estudo, para aprender diversas lnguas, o mtodo que 
encerro nas oito regras seguintes:

I

9. Aprenda-se cada lngua em separado.
     Primeiro, a lngua materna; depois, aquela que h-de utilizar-se em vez da materna, 
como seria a lngua de um povo vizinho. (Sou de opinio, com efeito,
que as lnguas vulgares devem aprender-se antes das lnguas sbias). A seguir, a lngua 
latina e, depois desta, a grega, a hebraica, etc.; sempre uma depois
da outra, e no ao mesmo tempo; de outra modo, uma gera confuso na outra. Finalmente, 
todavia, quando, com a prtica, se dominarem essas lnguas, podero
utilmente confrontar-se, com a ajuda de dicionrios, de gramticas comparadas, etc.

II

10. Ao estudo de cada lngua, consagre-se um perodo determinado de tempo.
     Para que no faamos, daquilo que  secundrio, a atividade principal (
), e percamos com palavras o tempo que deve empregar-se no estudo das coisas. A lngua 
materna, porque se liga com as coisas que, pouco a pouco, se apresentam
 inteligncia, exige necessariamente vrios anos: por exemplo, oito ou dez anos, isto , 
toda a infncia e parte da puercia. Pode, depois, passar-se
a outra lngua vulgar, podendo o curso de cada uma delas realizar-se suficientemente bem 
no espao de um ano; o estudo da lngua latina pode fazer-se num
binio; o do grego em um ano e o do hebraico num semestre.

III

11. Todas as lnguas devem aprender-se mais com a prtica que por meio de regras.
     Isto , ouvindo, lendo, relendo, transcrevendo, tentando a imitao com a mo e com a 
lngua, o mais freqentemente possvel. Veja-se o que foi dito
no captulo anterior, cnon I e XI.

IV

Todavia, as regras devem ajudar e confirmar a prtica.
     Como foi dito no captulo anterior, cnon II, etc. Este princpio aplica-se 
principalmente s lnguas sbias, as quais necessariamente se devem aprender
por meio de livros, mas tambm s lnguas vulgares, pois tambm a lngua italiana, a 
francesa, a alem, a boema, a hngara, etc., podem ser submetidas
a regras e, de fato, tm j regras formuladas.

V

13. As regras das lnguas sejam gramaticais, e no filosficas.
     Isto , no inquiram sutilmente acerca das razes e das causas dos vocbulos, das 
frases, e dos nexos, porque  necessrio fazer desta ou daquela maneira,
mas expliquem, de modo acessvel, o que se faz e como se faz. Um exame mais sutil das 
causas e dos nexos, das semelhanas e das dissemelhanas, das analogias
e das anomalias, que as coisas e as palavras tm entre si, pertence ao filsofo, e faz perder 
tempo ao fillogo.

VI

14. A norma para escrever as regras de uma nova lngua seja uma lngua j conhecida, 
para que se mostre apenas a diferena daquela relativamente a esta.
     Efetivamente, repetir os aspectos comuns, no somente  intil, mas  at prejudicial, 
pois, ao ver uma extenso e uma discordncia maior que aquela
que realmente existe, a mente assusta-se. Por exemplo: ao ensinar a gramtica grega, no 
h necessidade de repetir as definies dos nomes, dos verbos,
dos casos, dos tempos, etc., ou as regras sintticas que nada tragam de novo, etc., pois 
supe-se que estas coisas j so sabidas. Exponham-se, portanto,
apenas aquelas coisas em que a lngua grega se afasta da latina, j conhecida. Ento, ser 
possvel reduzir a gramtica grega a algumas pginas; e tudo
ser mais distinto, mais fcil e mais slido.

VII

15. Os primeiros exerccios de uma nova lngua sejam acerca de matria j conhecida.
     Para que no seja necessrio constranger a mente a dirigir os seus esforos, ao mesmo 
tempo, sobre as coisas e sobre as palavras, e, desse modo, a
distrair-se e a enfraquecer-se, mas apenas sobre as palavras, para delas se assenhorar mais 
facilmente e mais rapidamente. Essa matria poder ser ou os
captulos do catecismo ou da histria sagrada, ou, em suma, coisas j suficientemente 
conhecidas. (Ou ento, se se quiser, o nosso Vestbulo e a nossa
Porta, embora estes dois livros, por causa da sua brevidade, sejam mais adaptados a ser 
aprendidos de cor, ao passo que os outros so mais adaptados para
serem lidos e relidos, pois freqentemente ocorrem as mesmas palavras, que assim melhor 
se insinuam na inteligncia e na memria).

VIII

16. Todas as lnguas podem, portanto, aprender-se por um s e mesmo mtodo.
     Isto , podem aprender-se pela prtica, com a adio de regras faclimas, que mostrem 
apenas a diferena que medeia entre a lngua conhecida primeiro
e aquela que se quer estudar; e com a adio de exerccios feitos sobre matrias 
conhecidas, etc.

DAS LNGUAS QUE SE DEVEM APRENDER
DE MODO PERFEITO

A prtica exige que apenas se aprendam de modo quase perfeito duas lnguas, e estas duas 
por quatro graus.

17. No princpio deste captulo, advertimos que nem todas as lnguas, que se aprendem, 
devem aprender-se com o mesmo esmero.  lngua materna e  lngua
latina devemos consagrar um tal cuidado que acabemos por domin-las perfeitamente. Em 
ordem a atingir este resultado, o estudo destas lnguas deve ser
distribudo por quatro idades:
 a primeira  a idade infantil, balbuciante, em que se aprende a falar de um modo 
qualquer;
 a segunda  a idade pueril, crescente, em que se aprende a falar com propriedade;
 a terceira  a idade juvenil, florida, em que se aprende a falar com elegncia;
 a quarta  a idade viril, vigorosa, em que se aprende a falar com rigor.

Porqu assim?

18. Efetivamente, no se pode andar para a frente com sucesso seno por graus; de outro 
modo, tudo ser confuso, desarticulado e cheio de lacunas, como
a maioria de ns experimentmos em ns prprios. Alm disso, os estudantes de lnguas 
podem ser conduzidos facilmente atravs destes quatro graus, se os
instrumentos para ensinar as lnguas forem excelentes, ou seja, se tanto os livros didticos, 
para serem postos nas mos dos alunos, como os livros informativos,
compilados para uso dos professores, so, uns e outros, breves e metdicos.

Os livros para ensinar uma lngua devem ser de quatro espcies.

19. Os livros didticos, conforme os graus da idade, devem ser quatro.

I. O Vestbulo
II. A Porta
III. O Palcio
IV. O Tesouro
|
Da lngua (por exemplo da lngua latina), com os seus livros auxiliares

I. O Vestbulo

20. O Vestbulo deve conter matria para balbuciantes, algumas centenas de vocbulos 
ligados em forma de pequenas frases, tendo anexas as tbuas das declinaes
e das conjugaes.

II. A Porta.

21. A Porta deve conter todas as palavras mais usadas da lngua, cerca de oito mil, 
reunidas sob a forma de pequenas frases, que exprimam ao vivo as coisas,
na sua situao natural. Deve, alm disso, ter anexas breves e clarssimas regras 
gramaticais, que ensinem, de modo fcil e simples, a maneira autntica
e genuna de escrever e de pronunciar as palavras, e de formar e construir as frases dessa 
lngua.

III. O Palcio.

22. O Palcio deve conter vrios trechos acerca de todas as coisas, cheios de todo o 
gnero de frases e de flores de elegncia, com notas marginais que
indiquem de que autor foi tirado cada um dos escritos. No fim, acrescentam-se as regras 
para variar e colorir de mil maneiras as frases e os pensamentos.

IV. O Tesouro de autores.

23. D-se o nome de Tesouro aos autores clssicos que escreveram, com gravidade e 
vigor, acerca de qualquer assunto. Deve ser precedido das regras sobre
a investigao e a escolha das partes mais vigorosas de um discurso, assim como sobre a 
traduo exata dos idiotismos (o que  uma das regras mais importantes
a observar). Escolham-se alguns destes autores para ler nas escolas; dos outros, faa-se 
um catlogo para que se, mais tarde, a algum aluno surgir a ocasio
ou o desejo de percorrer os autores que tratam exaustivamente desta ou daquela matria, 
saiba quais so esses autores.

Livros Auxiliares.

24. D-se o nome de livros auxiliares queles que ajudam a usar, de uma maneira mais 
rpida e com maior fruto, os livros didticos. Tais so:

I

O vocabulrio lngua materna-latim e latim-materna, para o Vestbulo
[4].

II

Para a Porta, o dicionrio etimolgico latim-lngua materna, com os radicais e os seus 
derivados e compostos, e apresentando a razo do seu significado
[5].

III

Para o Palcio, o dicionrio fraseolgico lngua materna-lngua materna, latim-latim (e, se 
necessrio, grego-grego), onde sero coordenadas as diferentes
expresses, denominaes e perfrases elegantes espalhadas no Palcio, com a indicao 
dos autores de que foram tiradas, onde isso ocorrer.

IV

Finalmente, o Tesouro ser auxiliado ou reforado por um prontudrio universal, que 
explique a riqueza de uma ou de outra lngua (com a lngua materna, a
riqueza do latim; depois, com o latim, a riqueza do grego), de tal maneira que tudo aquilo 
de que se tem necessidade a se possa encontrar, e que cada
coisa esteja em perfeita correspondncia, a fim de que seja possvel traduzir as expresses 
prprias por palavras prprias, os pensamentos figurados por
palavras figuradas, os termos humorsticos por termos humorsticos, os provrbios por 
provrbios, etc. No , com efeito, verosimil que exista uma lngua
materna to pobre que no possua uma quantidade suficiente de palavras, de expresses e 
de provrbios que se no possam judiciosamente pr em ordem e confrontar
com os do latim; ou, com certeza, no h nenhuma lngua materna que no possua essa 
quantidade de palavras, se se  suficientemente hbil na arte de imitar
e de formar termos, derivando-os dos semelhantes das lnguas semelhantes.

No existe nenhum pronturio lingustico, alm do do polaco G. Cnpio.

25. Um tal Promptuarium universal no existe, porm.  verdade que Rehor Knapaski, 
jesuta polaco, prestou, neste domnio, um grande servio ao seu povo,
escrevendo a obra intitulada Tesouro polaco-latino-grego
[6].
Mas, nesta obra de mrito, faltam estas trs coisas: Primeira, ele no compilou todas as 
palavras e frases da lngua ptria. Segunda, no as compilou segundo
a ordem que indicmos, de modo a fazer corresponder (na medida do possvel) um termo 
com outro termo, os termos prprios com os termos prprios, os figurados
com os figurados, os arcaicos com os arcaicos, de modo a tornar-se patente, com igual 
claridade, o carter, o esplendor e a riqueza de uma e outra lngua.
Com efeito, a cada palavra ou frase polaca, ele faz seguir um nmero maior de palavras e 
de frases latinas, ao passo que ns desejamos que a cada uma corresponda
uma s, a fim de que todas as elegncias dos latinos se transformem em elegncias nossas; 
ou seja, a fim de que este pronturio sirva perfeitamente tambm
para traduzir quaisquer livros do latim para a nossa lngua, e vice-versa. Em terceiro 
lugar, desejaramos ver no Tesouro de Cnpio maior cuidado na ordenao
das frases em sries, ou seja, que no fossem amontoadas de qualquer maneira, mas que 
primeiro fossem apresentadas as frmulas simples e histricas de
exprimir as coisas; depois, as expresses mais elevadas da oratria; a seguir, as mais 
sublimes, as mais difceis e mais inslitas da potica; e finalmente,
as expresses desusadas.

26. Mas deixemos para outra ocasio a exposio completa acerca da estrutura desse 
Pronturio Universal, assim como tambm a exposio acerca do modo especial
e do mtodo de utilizar o Vestbulo, a Porta, o Palcio e o Tesouro, para que se siga 
infalivelmente o resultado que pretendemos, isto , a perfeio da
lngua. Discorrer acerca destas coisas, de modo pormenorizado, diz respeito  organizao 
especial das classes.

Captulo XXIII

MTODO
PARA ENSINAR A MORAL

Tudo o que dissemos at aqui  acessrio. Chegamos finalmente ao essencial: a moral e a 
piedade.

1. At aqui, mostrmos como se deve ensinar e aprender mais rapidamente as cincias, as 
artes e as lnguas. A propsito destas coisas, vem-me  mente, e
com razo, aquele dito de Sneca (da Carta 89): no devemos aprender estas coisas 
agora, mas devamos t-las aprendido
[1].
Sem dvida, pois no so seno propeduticas para coisas mais importantes; e, como ele 
diz: os nossos trabalhos so rudimentos, e no obras acabadas.
Quais so ento as obras acabadas? O estudo da sabedoria que nos torne sublimes, fortes e 
magnnimos, ou seja, aquilo que, at aqui, indicmos com o nome
de moral e de piedade, pois, por meio delas, nos elevamos verdadeiramente acima das 
outras criaturas e nos aproximamos mais de Deus.

Impe-se necessariamenie reduzi-las a normas de arte.

2. Importa, portanto, esforar-se, quanto possvel, por estabelecer com exatido a arte de 
incutir no nosso esprito a moral e a piedade autnticas, e por
introduzi-las nas escolas, para que estas sejam verdadeiramente, como so chamadas, 
oficinas de homens.

Dezesseis cnones da moral.

3. A arte de formar os costumes tem dezesseis cnones principais.

I.

O primeiro  o seguinte: Deve implantar-se na juventude todas as virtudes, sem excetuar 
nenhuma.
     Efetivamente, em matria de retido e de honestidade, no pode fazer-se nenhuma 
exceo, sem romper e perturbar a harmonia.

II.

4. Em primeiro lugar, importa plantar as virtudes fundamentais, a que se d o nome de 
virtudes cardiais: prudncia, justia, fortaleza e temperana.
     Para que o edifcio no seja levantado sem alicerces, e para que as partes, no bem 
ligadas entre si, no assentem mal sobre as suas prprias bases.

III.

5. A prudncia adquire-se por uma boa instruo, aprendendo a conhecer as verdadeiras 
diferenas das coisas e o seu valor.
     Com efeito, o exato juzo acerca das coisas  o verdadeiro fundamento de toda a 
virtude. So belas estas palavras de Vives: A verdadeira sabedoria
consiste em julgar as coisas com equidade, de modo que avaliemos cada coisa tal como 
ela , para que no procuremos as coisas vis como se fossem preciosas,
ou rejeitemos as coisas preciosas, como se fossem vis; para que no vituperemos as coisas 
dignas de louvor, nem louvemos as que merecem vituprio. Daqui,
com efeito, nasce todo o erro na mente dos homens e todo o vcio; e nada h, na vida 
humana, mais pernicioso que essa depravao dos juzos, pois no se
d s coisas o seu valor prprio. Habitue-se, por isso, o homem (continua Vives), desde 
pequenino, a ter opinies exatas acerca das coisas, as quais opinies
cresam juntamente com a idade. E apegue-se s coisas retas e fuja das ms, para que este 
hbito de proceder bem se converta nele como que numa segunda
natureza
[2].

IV.

6. Ensinem-se e habituem-se a observar a temperana no comer e no beber, no sono e na 
viglia, no trabalho e nos divertimentos, na palavra e no silncio,
durante todo o tempo da sua instruo e educao.
     Para isso,  preciso recordar constantemente aos jovens esta regra de ouro: Nada em 
excesso! 3, a fim de que, em tudo, parem antes de atingirem a saciedade
e o tdio.

V.

7. Aprendam a fortaleza vencendo-se a si mesmos, ou seja, dominando a paixo de 
discorrer, ou de se divertir fora ou alm do tempo prprio, e refreando
a impacincia, a murmurao e a ira.
     O fundamento disto est em habituar os alunos a proceder sempre em conformidade 
com a razo e nunca em conformidade com as inclinaes e com as paixes.
Com efeito, o homem  um animal racional; portanto, habitue-se a guiar-se pela razo ao 
deliberar quais so as aes boas, porque as deve fazer e como
as deve fazer; para que o homem seja verdadeiramente senhor dos seus atos. Mas, porque 
as crianas (ao menos, nem todas) no so ainda capazes de proceder
assim deliberadamente e assim racionalmente, ser de grande proveito que se lhes ensine 
a maneira de exercitar a fortaleza e de se dominarem a si mesmas,
habituando-as a fazer de preferncia a vontade dos outros que a prpria, por exemplo, a 
obedecer, em tudo e sempre, aos superiores, com a mxima prontido.
Aqueles que domesticam bem os cavalos, diz Lactncio, antes de tudo ensinam-lhes a 
obedecer ao freio; portanto, quem quer instruir e educar crianas,
habitue-as primeiro a prestar ateno ao que se lhes diz
[4].
Que grande esperana no haveria de transformar para melhor as confuses humanas, de 
que est inundado o universo, se, desde a primeira idade, todos se
habituassem a fazer concesses mtuas e a proceder em tudo com base em razes vlidas!

VI.

8. Aprendam a justia, no fazendo mal a ningum, dando a cada um o que  seu, fugindo 
da mentira e dos enganos, e mostrando-se prestveis e amveis.
     Nesta virtude, como nas outras acima mencionadas, devem ser formados com os 
modos e mtodos prescritos pelos cnones seguintes.

VII.

9. H duas espcies de fortaleza: franqueza honesta e perseverana nas fadigas, as quais 
so muito especialmente necessrias  juventude.
     Efetivamente, porque a vida se deve passar a conversar e a trabalhar, importa ensinar 
s crianas a no ter medo nem das faces humanas nem de nenhum
trabalho honesto, a fim de que se no tornem ou morcegos ou misantropos (
), mandries
[5]
e pesos inteis sobre a terra
[6].
A virtude cultiva-se com atos, e no com palavras.

VIII.

10. A franqueza honesta adquire-se conversando freqentemente com pessoas honestas e 
executando perante elas qualquer misso recebida.
     Aristteles educou Alexandre de tal maneira que, aos doze anos, este sabia tratar com 
pessoas de todas as condies, com reis, com embaixadores de
reis e de povos, com sbios e com ignorantes, com citadinos, camponeses e artesos; e, 
sobre qualquer assunto, interrogava ou respondia com sensatez. Para
que, na nossa educao universal, se ensine a todos a imitar com xito Alexandre, ser 
necessrio escrever regras de conversao e faz-las pr em prtica,
habituando os alunos a conversar modestamente e a raciocinar todos os dias acerca de 
vrias coisas, com os professores, com os condiscpulos, com os pais,
com os criados e com outras pessoas. Finalmente, os professores devero estar atentos, e, 
se notarem em algum aluno um pouco de preguia ou de temeridade,
de grosseria ou de teimosia, etc., devero cham-lo ao bom caminho.

IX.

11. Os jovens adquiriro a perseverana no trabalho, se fizerem sempre qualquer coisa, ou 
a srio ou como divertimento.
     Efetivamente, desejando ns mant-los ocupados, nada importa que faam uma coisa 
ou outra, com este ou com aquele fim, desde que faam qualquer coisa.
Quando o momento e as circunstncias o exigem, mesmo dos gracejos se podem tirar 
ensinamentos srios e teis. Assim como se aprende a fazer fazendo (como
vimos j)
[7],
assim tambm se aprende a trabalhar trabalhando, de modo que as contnuas ocupaes do 
esprito, e do corpo (moderadas, bem entendido) se transformem em
energia e tornem intolervel ao homem laborioso a ociosidade estril. Ento, ser 
verdadeiro aquilo que Sneca diz: O trabalho alimenta os espritos fortes
[8].

X.

12. Entre as primeiras,  necessrio incutir no esprito das crianas uma virtude irm da 
justia: a solicitude e o desvelo em servir os outros.
     Efetivamente,  inerente  nossa natureza corrupta um grave vcio, o egosmo (
), que impele cada um a desejar apenas o seu prprio bem-estar, sem se preocupar com o 
que acontece aos outros. Ora este vcio  fonte de vrias confuses
nas coisas humanas, pois cada um se afana com os seus prprios negcios, sem olhar ao 
bem pblico. Importa, por isso, inculcar na juventude o objetivo
da nossa vida, ou seja, que no nascemos apenas para ns, mas tambm para Deus e para 
o prximo, isto , para a comunidade do gnero humano, a fim de que
as crianas, seriamente persuadidas desta verdade, se habituem, desde pequeninas, a 
imitar Deus, os anjos, o sol, etc. e todas as outras criaturas mais
generosas, isto , desejem e se esforcem por ajudar, com os seus servios, o maior nmero 
possvel de pessoas. Assim, finalmente, a situao das coisas
privadas e das coisas pblicas seria feliz, se todos soubessem e quisessem cooperar nos 
interesses comuns e em tudo e sempre ajudar-se mutuamente. Os homens
instrudos sabem e querem fazer assim.

XI.

13. A formao das virtudes deve comear desde a mais tenra idade, antes que os espritos 
tenham contrado vcios.
     Efetivamente, se num campo se no semeiam sementes boas, ele produzir com 
certeza ervas. Mas que ervas? Ciznia e joio. Ora, se  uma alma que se
deve cultivar, ela cultivar-se- mais facilmente e com mais fundadas esperanas numa 
messe abundante, se for lavrada, semeada e sachada, logo no princpio
da primavera.  muito importante habituar bem as crianas, desde a mais tenra idade
[9],
pois, se um odor consegue infiltrar-se num vaso novo. a permanece durante muito 
tempo
[10].

XII.

14. As virtudes aprendem-se, praticando constantemente aes honestas.
     Vimos, com efeito, nos captulos XX e XXI, que se aprende a conhecer conhecendo, e 
a fazer fazendo. Portanto, assim como as crianas aprendem facilmente
a caminhar caminhando, a falar falando, a escrever escrevendo, etc., assim tambm 
aprendero a obedincia obedecendo, a abstinncia abstendo-se, a veracidade
dizendo a verdade, a constncia sendo constantes, etc., desde que no falte quem lhes abra 
o caminho, com palavras e com exemplos.

XIII.

15. Os pais, as amas, os professores e os condiscpulos dem exemplos de vida 
disciplinada, que, como faris, brilhem sempre diante das crianas.
     Com efeito, as crianas so macaquinhos impacientes por imitar tudo o que vem, o 
bem como o mal, sem que seja preciso mandar-lho; por isso, aprendem
a imitar antes de aprender a conhecer.  evidente, porm, que devem ser postos diante das 
crianas tanto exemplos vivos, como exemplos histricos, mas
principalmente exemplos vivos, pois deixam impresses mais fortes e mais duradouras. 
Se, portanto, os pais forem probos e fiis guardies da disciplina
domstica, e os professores forem realmente homens de eleio, admirveis pelos seus 
costumes, teremos o meio maravilhoso de impelir fortemente os alunos
para uma vida honesta.

XIV.

16. Aos exemplos deve acrescentar-se, porm, preceitos e regras de vida.
     Isto  necessrio para corrigir, ajudar e reforar a imitao. (Veja-se de novo o que foi 
dito no captulo XXI, regra IX). Esses preceitos iro buscar-se
 Sagrada Escritura e s mximas dos sbios. Por exemplo: porqu e como devemos 
preservar-nos da inveja? Com que armas devemos premunir o corao contra
as dores e contra qualquer infelicidade que acaso possa cair sobre um homem? Como 
devemos moderar as alegrias? De que maneira se deve dominar a ira, afastar
um amor ilcito, e outras coisas semelhantes?  fcil de entender que deve ter-se em conta 
a idade e o grau de progresso.

XV.

17.  indispensvel defender, com a mxima diligncia, as crianas das ms companhias, 
para que no sejam contagiadas por elas.
     Efetivamente, por causa da corrupo da nossa natureza, o mal acomete-nos, no s 
mais facilmente, mas tambm mais tenazmente. Importa, portanto, com
todo o cuidado, manter longe da juventude todas as ocasies de corrupo, como so as 
ms companhias, as conversas grosseiras, as leituras frvolas e fteis
(pois os exemplos de vcios que se infiltram, quer pelos ouvidos, quer pelos olhos, so 
veneno para os espritos); e, finalmente, a ociosidade, para que
as crianas, estando sem fazer nada, no aprendam a fazer mal
[11]
ou se deixam invadir pelo torpor da alma. Ser bom, portanto, mant-los sempre 
ocupados, quer em coisas srias, quer em divertimentos. O essencial  que
nunca se deixem entregues  ociosidade.

XVI.

18. E porque  quase impossvel ter tal clarividncia que se impea que qualquer 
bocadinho de mal se insinue entre as crianas,  necessria a disciplina
para fazer barreira aos maus costumes.
     Efetivamente, o nosso inimigo, Satans, no s nos vigia enquanto dormimos, mas 
tambm quando estamos acordados e semeamos a boa semente nos campos
da inteligncia, para a espalhar a sua ciznia; e enfim, a nossa prpria natureza corrupta 
espreita furtivamente, aqui e alm, de modo que  necessrio
impedir a passagem do mal com a fora. Impede-se a passagem do mal com a disciplina, 
isto , com repreenses e castigos, com palavras e com vergastadas,
segundo os casos, mas sempre quando o fato ainda est fresco, a fim de que a planta do 
vcio seja sufocada imediatamente apenas desponta, ou melhor, se
possvel, seja arrancada. Portanto, nas escolas, a disciplina deve ser severa, no tanto por 
causa das letras (as quais, ensinadas com um bom mtodo, so
delcias e atrativos para a inteligncia humana), como por causa dos costumes.
     Mas, acerca da disciplina, falaremos ainda no captulo XXVI.

Captulo XXIV

MTODO
PARA INCUTIR A PIEDADE

Se o esprito de piedade se pode ensinar metodicamente, como uma arte.

1. Embora a piedade seja um dom de Deus, e seja dada pelo cu, por obra e graa do 
Esprito Santo, uma vez, porm, que Este ordinariamente opera atravs
dos meios ordinrios, e assim escolhe para seus ministros os pais, os professores e os 
sacerdotes que, com cuidado fiel, devem plantar e regar as arvorezinhas
do paraso (Corntios, I, 3, 6, 8),  justo que estes entendam a razo do seu ofcio.

Que se entende por piedade.

2. Que significa para ns a palavra piedade, j o mostrmos atrs
[1],
isto , que o nosso corao (depois de embebido de um sentimento reto em matria de f e 
de religio) saiba, por toda a parte, procurar Deus (a quem a Sagrada
Escritura chama rei escondido (Isaas, 45, 15) e rei invisvel (Hebreus, II, 27), isto , 
aquele que se cobre com o vu das suas obras, e, estando presente
invisivelmente em todas as coisas visveis, invisivelmente as rege); e, tendo-o encontrado, 
saiba segui-lo por toda a parte; e, tendo chegado at Ele,
saiba goz-lo para sempre.

Trs coisas.
1.2.3.

Ao primeiro intento, chega-se com a inteligncia; ao segundo, com a vontade; e ao 
terceiro, com a satisfao da conscincia.

Significado destas trs coisas.

3. Procuramos Deus, observando atravs de toda a criao os vestgios da divindade. 
Seguimos Deus, entregando-nos inteiramente e em todas as coisas,  sua
vontade, tanto para fazer como para sofrer tudo o que lhe agradar. Gozamos Deus, 
repousando no seu amor e no seu favor, de modo que, quer no cu quer na
terra, nada exista para ns de mais desejvel que o prprio Deus, nada de mais belo que 
pensar nEle, nada de mais doce que louv-lo; e com tal intensidade
que o nosso corao arda de amor por Ele.

Trs fontes e, conseqentemente, trs graus de beber.

4. H para ns trs fontes onde bebemos este amor, e trs modos ou graus de o beber.

A fonte  a trplice Palavra de Deus: feita, escrita e inspirada.

5. As fontes so a Sagrada Escritura, o mundo e ns mesmos: na primeira, encontram-se 
as palavras de Deus, no segundo as obras e em ns os instintos. 
para ns fora de dvida que, pela Sagrada Escritura, se chega ao conhecimento e ao amor 
de Deus. Que atravs do mundo e da inteligente contemplao das
suas maravilhas, que so obras de Deus, sejamos levados a sentir piedade para com Ele, 
do-nos disso testemunho at os pagos, os quais, apenas a partir
da contemplao do mundo, foram levados  venerao da divindade, como  evidente 
pelo exemplo de Scrates, de Plato, de Epiteto, de Sneca e de outros,
embora aquele seu sentimento de amor fosse imperfeito e se desviasse do seu objetivo, 
pois ento os homens no eram ajudados por uma especial revelao
divina. Mas que aqueles que se esforam por atingir o conhecimento de Deus, atravs da 
sua Palavra e das suas obras, se inflamam de um amor ardentssimo,
 evidente pelo exemplo de Job, de Eli
[2],
de David e de outras almas piedosas. E neste momento, convm observar a particular 
providncia de Deus para conosco (o modo maravilhoso como nos formou,
nos conservou at agora e nos governa), como o mostram, com o seu exemplo, David 
(Salmo 139)
[3]
e Job (cap. 10).

Trplice modo de beber nas trs fontes.

6. O modo de haurir a piedade destas trs fontes  trplice: a meditao, a orao e a 
tentao
[4].
O eminente Lutero disse que estas trs coisas fazem telogo; mas tambm o cristo em 
geral, s estas trs coisas o podem fazer.

I. Meditao.

7. A meditao  a considerao freqente, atenta e devota das obras, das palavras e dos 
benefcios de Deus, e de como tudo provm de Deus (que opera ou
permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desgnios da vontade divina so 
exatamente realizados.

II. Orao.

8. A orao  a freqente e, de certo modo, contnua aspirao para Deus, e a implorao 
da sua misericrdia, para que nos conserve e nos governe com o
seu esprito.

III. Tentao.

9. Finalmente, a tentao  a freqente explorao do nosso progresso na piedade, quer 
seja feita por ns prprios, quer seja feita por outros, e a que,
a seu modo, pertencem as tentaes humanas, diablicas e divinas. Com efeito, o homem 
deve tentar-se constantemente a si mesmo, para ver se tem f (Corintios,
II, 13, 5) e para ver com que solicitude faz a vontade de Deus; e tem necessidade de ser 
posto  prova pelos homens, amigos e inimigos. Isto acontece quando
aqueles que presidem devotamente aos outros se pem a explorar, com vigilante ateno e 
com investigaes abertas ou ocultas, os progressos realizados,
e quando Deus nos coloca ao lado um adversrio, que nos ensine a refugiarmo-nos em 
Deus e nos mostre qual a fora da f que em ns existe. Finalmente,
Deus costuma lanar tambm o prprio Satans, ou at Ele mesmo insurgir-se contra o 
homem, para que se manifeste o que se encontra no seu corao. Todas
estas coisas, portanto, devem ser incutidas na juventude crist para que ela se habitue a 
elevar-se para Deus atravs de tudo o que existe, de tudo o que
acontece e de tudo o que vir a acontecer, e a procurar a paz da alma somente nAquele 
que  a primeira e a mais perfeita de todas as coisas.

O mtodo da piedade encerra-se em 21 cnones.

11. O mtodo especial para ensinar as coisas que dizem em respeito  piedade est contido 
nos vinte e um cnones seguintes:

I.

I. O cuidado para incutir a piedade comece nos primeiros anos da infncia.
     Deve comear-se nos primeiros anos da infncia, tanto porque no adiar tal cuidado  
til, como porque adi-lo  perigoso. A prpria razo nos mostra
que as primeiras coisas devem ser feitas primeiro, e as melhores melhor. E que coisa pode 
estar primeiro ou  melhor que a piedade? Sem ela, qualquer outra
atividade serve para pouco, ao passo que ela tem as promessas da vida presente e da vida 
futura (Timteo, I, 4, 8). Uma s coisa  necessria (Lucas 10,42):
procurar o reino de Deus, pois, a quem se preocupa com isso, tudo o resto lhe ser dado 
por acrscimo (Mateus, 6, 33).  perigoso adi-lo, pois, se os
nimos se no embebem do amor de Deus, quando so ainda tenros, facilmente, na vida 
prtica, vivida durante algum tempo sem respeito pela divindade, se
insinua em tcito desprezo pela mesma divindade e um esprito profano, que, depois, s 
com muita dificuldade, se arrancam, e, em certos casos, nunca mais
 possvel arrancar. Por isso, um profeta, lamentando o horrendo dilvio de impiedade que 
havia invadido o seu povo, disse que j no havia ningum a quem
Deus ensinasse, a no ser aos meninos acabados de desquitar, aos que acabam de ser 
desmamados (Isaas, 28, 9). Acerca dos outros, um outro profeta disse
que no podem corrigir-se de modo a praticarem o bem, pois esto acostumados a fazer 
o mal (Jeremias, 13, 23).

II.

11. Portanto, logo que comeam a servir-se dos olhos, da lngua, das mos e dos ps, 
aprendam as criancinhas a olhar os cus, a erguer as mos, a pronunciar
o nome de Deus e de Cristo, e ajoelhar-se diante da sua invisvel majestade e a vener-la.
     As criancinhas no so to incapazes de aprender estas coisas, como o imaginam 
aqueles que, no atendendo a quanto  necessrio fugir de Satans, do
mundo e ns mesmos, ministram um ensino de tamanha importncia com grande 
negligncia. Embora, a princpio, as crianas, uma vez que tm o uso da razo
dbil, no entendam bem o que significam aqueles atos religiosos, todavia,  de primria 
importncia que saibam que devem fazer aquilo que, precisamente
pela prtica, aprendem que devem fazer. Efetivamente, depois de,  fora de fazerem, 
terem aprendido aquilo que devem fazer, o que vem imediatamente a
seguir poder mais facilmente incutir-se no seu corao, de modo que comecem a 
entender que atos so aqueles que praticam, porque os praticam, e de que
modo devem ser praticados. Deus ordenou, por meio de uma lei, que todas as primcias 
lhe fossem consagradas
[5];
porque  que ento se lhe no ho-de consagrar as primcias dos nossos pensamentos, das 
nossa palavras balbuciadas, dos nossos movimentos e aes?

III.

12. Logo que as crianas tm idade suficiente para serem ensinadas, deve, antes de tudo, 
infundir-se-lhes a convico de que no estamos no mundo por causa
desta vida, mas que caminhamos para a eternidade, e que aqui estamos apenas de 
passagem, para nos prepararmos convenientemente para entrarmos dignamente
nas moradas eternas.
     Isto pode ensinar-se facilmente, com os exemplos quotidianos daqueles que so 
arrebatados pela morte e passam para a outra vida: crianas, adolescentes,
jovens e velhos. Recordem-se-lhes freqentemente estas coisas, para que se lembrem que 
ningum pode permanecer para sempre aqui na terra.

IV.

13. Conseqentemente, advirtam-se de que, neste mundo, nada mais temos a fazer que 
prepararmo-nos para a vida que h-de vir.
     Alis, seria uma loucura ocuparmo-nos de coisas que bem depressa temos de 
abandonar, e descurarmos aquelas que nos acompanharo at  eternidade.

V.

14. Ensine-se ainda s crianas que h duas espcies de vida, para onde emigram os 
homens: uma feliz com Deus, e outra infeliz no inferno; e ambas so eternas.
     Ensine-se isto com o exemplo de Lzaro e do ricao, cujas almas foram levadas, a do 
primeiro pelos anjos para o cu, a do segundo pelos demnios para
o inferno
[6].

VI.

15. Ensine-se-lhes, pois, que so felizes, mil vezes felizes
[7],
aqueles que na terra regulam a sua vida de modo a serem considerados dignos de 
passarem para o seio de Deus.
     Efetivamente, fora de Deus, fonte de luz e de vida, no h seno trevas, horrores, 
tormentos e morte perptua, sem fim; de modo que teria sido melhor
no terem nascido aqueles que viro a afastar-se de Deus e a precipitar-se no precipcio da 
runa eterna.

VII.

16. Que passaro para o seio de Deus todos aqueles que, neste mundo, caminham com 
Deus. (Como Enoch e Elias, ambos ainda em vida; os outros, depois da morte
 Gnesis, 5, 24, etc.).

VIII.

17. Que caminham com Deus aqueles que o tm diante dos olhos, o temem e observam os 
seus mandamentos.
     E isto  o essencial do homem (Totum Hominis) (Eclesiastes, 12, 13), aquilo que 
Cristo disse ser a nica coisa necessria (Lucas, 10,42). Ensinem-se
todos os cristos a ter sempre na boca e no corao esta verdade, a fim de que, com Marta, 
no se preocupem demasiado com os cuidados desta vida.

IX.

18. Portanto, tudo aquilo que as crianas vem, ouvem, tocam, fazem e sofrem, habituem-
se a referi-lo a Deus, imediatamente ou mediatamente.
     Ilustremos isto com exemplos: aqueles que se dedicam aos estudos e  vida 
contemplativa, devem faz-lo precisamente para contemplarem o poder, a sabedoria
e a bondade de Deus, difundidas por toda a parte, e para assim se inflamarem de amor por 
Ele, e, por amor, se apegarem a Ele cada vez mais fortemente,
de modo a nunca mais se desligarem, eternamente. Aqueles que se entregam aos trabalhos 
materiais,  agricultura, aos trabalhos manuais, etc., procuram
o po e as outras coisas necessrias  vida, mas procuram-nas precisamente para viverem 
comodamente, e devem viver comodamente para servirem a Deus com
alma tranqila e alegre, e para lhe agradarem, servindo-O, e para estarem eternamente 
com Ele, agradando-Lhe. Aqueles que fazem estas coisas com outro
fim, erram e afastam-se da inteno do prprio Deus.

X.

19. Aprendam, pois, desde o princpio da vida, a ocuparem-se, o mais que possam, nas 
coisas que conduzem imediatamente a Deus: na leitura das Sagradas Escrituras,
nos exerccios do culto divino e nas boas obras corporais.
     Efetivamente, a leitura das Sagradas Escrituras excita e reaviva a recordao de Deus; 
o exerccio do culto divino coloca Deus diante do homem e une-o
a ele; as boas obras reforam esta unio, porque mostram-nos que verdadeiramente 
caminhamos pelos caminhos ensinados por Deus. Estas trs prticas religiosas
devem recomendar-se seriamente a todos os candidatos a uma vida piedosa (quais so 
todos os jovens cristos, consagrados a Deus pelo batismo).

XI.

20. Por isso, que a Sagrada Escritura seja, nas escolas crists, o Alfa e o Omega.
     Hyperius disse que o telogo nasce na Escritura
[8],
e ns vemos que o Apstolo S. Pedro estendeu muito mais a eficcia dos livros sagrados, 
dizendo que os filhos de Deus nascem de uma semente incorruptvel,
pela palavra do Deus vivo, que permanece eternamente (Pedro, I, 1, 23). Portanto, nas 
escolas crists, com este livro de Deus, mais que com todos os outros
livros, a exemplo de Timteo, todos os jovens cristos, instrudos desde pequeninos nas 
Sagradas Escrituras, adquiram a sabedoria que os conduzir  salvao
(Timteo, II, 3, 15), alimentados com as palavras da f (Timteo, I, 4, 6). J no seu tempo, 
Erasmo discorreu belamente sobre este assunto na sua Paraclesis,
ou seja, na Exortao ao estudo da filosofia crist. A Sagrada Escritura, diz, adapta-se 
igualmente bem a todos, abaixa-se at s criancinhas, acomoda-se
ao seu modo de viver, alimentando-as com leite, aquecendo-as, sustentando-as, tudo 
fazendo at que se tornem grandes em Cristo. E, entretanto, assiste
de tal maneira aos mais pequenos, que  admirvel mesmo para os maiores: com os 
pequenos  pequena, com os grandes  mais que grande. No rejeita nenhuma
idade, nenhum sexo, nenhuma fortuna, nenhuma condio. O sol, portanto, no  to 
comum e to fruvel por todos como a doutrina de Cristo. No repele absolutamente
ningum, a no ser que esse mesmo se repila a si, odiando-se a si prprio, etc.
[9].
E acrescenta: Prouvera a Deus que a Bblia fosse traduzida em todas as lnguas de todos 
os povos, para que pudesse ser lida e conhecida, no s pelos escoceses
e pelos irlandeses, mas tambm pelos turcos e pelos sarracenos. Poderia acontecer que 
muitos se rissem, mas alguns ficariam encantados. Oxal os camponeses,
 rabia do arado, cantem alguns versculos, oxal os teceles acompanhem qualquer 
trecho ao som da lanadeira; oxal o viajante suavize a dureza do caminho
com as narraes bblicas; e que todas as conversas dos cristos sejam sobre temas da 
Bblia! Com efeito, ns somos aquilo que forem as nossas conversas
quotidianas. Cada um chegue onde pode, cada um diga o que pode. Quem vem atrs no 
inveje aquele que vai  frente; aquele que est em primeiro lugar encoraje
o que o segue, e no o despreze. Porque restringimos a poucos uma profisso comum a 
todos?
[10].
E perto do fim: Todos quantos jurmos no batismo sobre as palavras de Cristo (se acaso 
jurmos com toda a alma), logo entre os abraos dos pais e entre
as carcias das amas, embebemo-nos dos princpios de Cristo. Com efeito, penetram 
profundssimamente e permancem tenacssimamente agarradas as primeiras
coisas de que se embebe o virgem vaso da alma. Que a primeira palavra que se aprenda a 
balbucinar seja Cristo; e que, com os seus Evangelhos, se forme
a primeira infncia: desejaria que estas coisas lhe fossem ensinadas entre as primeiras, 
para que fossem amadas pelas crianas. Dediquem-se, depois, as
crianas aos estudos bblicos, at que, com tcitos progressos, se transformem em homens 
robustos em Cristo. Feliz aquele que a morte encontra com a Bblia
na mo! Todos, portanto, amemo-la com todo o corao, abracemo-nos a ela, dediquemo-
nos continuamente a ela, beijemo-la e, finalmente, morramos por ela
e transformemo-nos nela, pois os costumes identificam-se com os estudos, etc.
[11].
O mesmo Erasmo, no Compndio de Teologia, diz: No fiz uma ao de insensato 
aprendendo  letra os livros sagrados, mesmo aqueles que no entendia, como
diz Santo Agostinho, etc.
[12].
Nas escolas crists, portanto, no ressoem os nomes nem de Plauto, nem de Terncio, nem 
de Ovdio, nem de Aristteles, mas os de Moiss, de David e de Cristo.
Pense-se no modo de tornar a Bblia to familiar como o alfabeto  juventude consagrada 
a Deus (efetivamente, todos os filhos dos cristos so santos 
Corntios, I, 7, 14). Com efeito, assim como todo o discurso  constitudo por sons e por 
letras, assim tambm, dos elementos da Sagrada Escritura, se
ergue toda a estrutura da religio e da piedade.

XII.

21. Que tudo o que se aprende atravs da Escritura se refira  f,  caridade e  esperana. 
Estas trs virtudes so, com efeito, os trs mximos fundamentos
a que se referem todas as coisas que a Deus aprouve manifestar-nos com as suas palavras. 
Efetivamente, certas coisas revela-as, para que as saibamos; outras
ordena-as, para que as faamos; outras ainda promete-as, para que as esperemos da sua 
benignidade, nesta vida e na vida futura. E em toda a Sagrada Escritura
nada se encontra que se no refira a qualquer destes assuntos. Ensinem-se, portanto, estas 
coisas a todos, para que saibam conscientemente mover-se dentro
dos desgnios divinos.

XIII.

22. Ensine-se a pr em prtica a f, a caridade e a esperana.
      necessrio, com efeito, formar cristos prticos, e no tericos, desde os primeiros 
anos da sua formao, se queremos ter verdadeiros cristos.
A religio  viva, e no pintada; por isso, mostre os efeitos da sua vitalidade, como uma 
semente viva que, lanada em bom terreno, logo germina.  por
isso que a Sagrada Escritura exige uma f eficaz (Glatas, 5, 6) e, se  privada de eficcia, 
chama-lhe morta (Tiago, 2, 20), e quer tambm uma esperana
viva (Pedro, I, 1, 3). Da que aparea, freqentes vezes, na Escritura, a advertncia de que 
as coisas reveladas pela divina providncia so reveladas
para que as faamos. Cristo diz: Se sabeis estas coisas, sereis felizes se as fizerdes 
(Joo, 13, 17).

XIV.

23. Ensinar-se- a pr adequadamente em prtica a f, a caridade e a esperana, se se 
ensinar s crianas (e a todos) a acreditar firmemente no que Deus
revela, a cumprir o que Ele ordena e a esperar o que Ele promete.
     Importa fazer notar e inculcar com diligncia na mente dos jovens que, se querem que 
a palavra de Deus infunda neles a virtude de se salvarem, devem
ter um corao humilde e devoto, sempre e por toda a parte preparado a submeter-se em 
tudo a Deus; mais ainda: um corao j efetivamente entregue a Deus.
Com efeito, assim como o sol, com a sua luz, nada revela a quem no quer abrir os olhos, 
e os alimentos, colocados sobre a mesa, no saciam aquele que
se recusa a comer, assim tambm a luz divina, ministrada  nossa mente, e as normas 
dadas s nossas aes e a beatitude prometida s pessoas tementes a
Deus sero vs, se as no abraarmos com f pronta, com caridade ardente e com 
esperana firme. Desta maneira, Abrao, pai dos crentes, tendo f nas palavras
de Deus, acreditava mesmo em coisas incrveis para a razo humana; e, cumprindo as 
ordens de Deus, fazia coisas durssimas para o seu corao (como foi
deixar a ptria, sacrificar o filho, etc.); e, forte com as promessas de Deus, esperava onde 
no havia motivo para esperar
[13].
Todavia, esta f, viva e eficaz, foi-lhe justamente tida em considerao. E assim, importa 
ensinar, a todos aqueles que se entregam a Deus, a fazer a experincia
desta regra em si mesmos e a observ-la constantemente.

XV.

24. Mesmo tudo aquilo que se ensina  juventude crist aps a Sagrada Escritura 
(Cincias, Artes, Lnguas, etc.), seja-lhe ensinado subordinadamente s
Sagradas Escrituras, precisamente para que ela possa, por toda a parte, notar e ver 
claramente que tudo  mera vaidade, se se no refere a Deus e  vida
futura.
     Scrates  louvado pelos antigos, porque conduziu a filosofia, das especulaes nuas e 
espinhosas, para os problemas morais; e os Apstolos propuseram-se
trazer os cristos, das espinhosas questinculas da Lei, para a doce caridade de Cristo 
(Timteo, I, 1, 5, 6, 7, etc.); e, da mesma maneira, alguns piedosos
telogos modernos procuraram arranc-los de complicadas controvrsias, que servem 
mais para destruir que para edificar a Igreja, para os levarem a preocuparem-se
com os problemas da conscincia e da vida prtica. Oh! que Deus, tendo misericrdia de 
ns, nos faa encontrar um modo e um mtodo geral, capaz de nos
ensinar a voltar para Deus todas as coisas que esto fora de Deus, e de que se ocupa a 
inteligncia humana, e a voltar para o estudo das coisas celestes
todas as ocupaes desta vida, nas quais se embaraa e se imerge o mundo! Assim 
teramos uma espcie de escada sagrada, pela qual, mediante todas as coisas
que existem e que se fazem, as nossas mentes subiriam, sem obstculo, at ao supremo e 
eterno senhor de todas as coisas, fonte da verdadeira felicidade
[14].

XVI.

25. Ensine-se a todos a assistir religiosamente ao culto divino, tanto interno como externo; 
para que o culto interno, sem o externo, no arrefea; e o
externo, sem o interno, no degenere em hipocrisia.
     O culto externo de Deus consiste em falar de Deus, em pregar e ouvir a sua palavra, 
em ador-lo de joelhos, em cantar hinos de louvor, em freqentar
os sacramentos e em observar os outros ritos sagrados, pblicos e privados. Por sua vez, o 
culto interno de Deus consiste em pensar continuamente que Deus
est presente, em temer e em amar a Deus, em renunciarmos a ns mesmos e em 
entregarmo-nos nas mos de Deus, ou seja, na vontade pronta de fazer e de sofrer
tudo o que agrada a Deus. Estes dois cultos devem juntar-se e no separar-se: no somente 
porque  justo que Deus seja glorificado pelo nosso corpo e pelo
nosso esprito, que lhe pertencem (Corntios, I, 6, 20), mas tambm porque os no 
podemos separar sem os perigo. Com efeito, Deus abomina os ritos externos,
sem verdade interna: quem pediu tais ofertas s vossas mos?, etc. (Isaas, I, 12 e 
noutros lugares). Porque Deus  esprito, quer ser adorado em esprito
e verdade (Joo, 4, 24). Mas, como ns no somos meramente espirituais, mas tambm 
corporais e dotados de sentidos,  necessrio, por conseqncia, excitar
os nossos sentidos a fazer externamente aquilo que se deve fazer internamente em esprito 
e verdade. Precisamente por isto, Deus, embora exija sobretudo
prticas internas, ordenou, todavia, ao mesmo tempo, prticas externas, e quer que sejam 
observadas. O prprio Cristo, embora libertasse das cerimnias
o culto prescrito no Novo Testamento, e ensinasse que se deve adotar a Deus em esprito e 
verdade, todavia, adorava o Pai com a face por terra e prolongava
essa adorao por noites inteiras, freqentava as reunies sagradas, ia ouvir os Doutores 
da Lei e interrogava-os, pregava a palavra de Deus, cantava hinos,
etc. Portanto, ao formarmos a juventude para a religio, formemo-la por inteiro, 
externamente e internamente, para no formarmos hipcritas, ou seja, cultores
de Deus superficiais, fingidos e simuladores, ou ento fanticos, que se deleitam nos seus 
sonhos e, desprezando o ministrio externo, dissolvem a ordem
e o decoro da Igreja; ou ainda gente fria, se as prticas externas no estimulam as internas, 
e as prticas internas no reavivam as externas.

XVII

26. As crianas devem ser diligentemente habituadas s obras externas, ordenadas por 
Deus, para que saibam que o verdadeiro cristianismo est em demonstrar
a sua f com obras.
     Essas obras consistem em exercitar, sem interrupo, a temperana, a justia, a 
misericrdia e a pacincia, pois, se a nossa f no produz estes frutos,
demonstra que est morta (Tiago, 2, 17). Ora ela deve ser viva, se quer ser salvadora.

XVIII

27. Ensine-se-lhes tambm a distinguir acuradamente os fins dos benefcios e das 
condenaes de Deus, para que saibam fazer bom uso de todas as coisas,
e no faam mau uso de nada.
     Fulgncio (Carta 2 a Galla) divide os benefcios de Deus em trs espcies
[15].
Diz que alguns duram eternamente, que outros servem para adquirir a eternidade, e que 
outros ainda se utilizam apenas na vida presente. Os da primeira espcie
so: conhecimento de Deus, alegria no Esprito Santo e caridade de Deus, a qual se 
difunde nos nossos coraes. Da segunda espcie so a f, a esperana
e a misericrdia para com o prximo. Da terceira espcie so a sade, as riquezas, os 
amigos e outros bens exteriores que, por si mesmos, no nos tornam
nem felizes nem infelizes.
     Do mesmo modo, ensine-se que as condenaes de Deus, isto , os seus castigos, so 
de trs espcies. Alguns (aos quais Deus estabeleceu poupar eternamente)
so castigados neste mundo e transportam a sua cruz para que se tornem puros e brancos 
(Daniel, 11, 35; Apocalipse, 7, 14), como Lzaro; outros so poupados
neste mundo, para serem castigados eternamente, como o rico comilo
[16];
os sofrimentos de outros comeam aqui na terra, para serem prolongados eternamente, 
como os de Sal, de Antoco, de Herodes, de Judas e de outros. Ensine-se,
portanto, aos homens a distinguir todas as coisas, para que no acontea que, enganados 
pelos bens sensveis, prefiram os bens que so apenas temporais,
e para que aprendam a recear, no tanto os males presentes, como o inferno, e a temer 
sobretudo, no aqueles que apenas podem atingir o corpo, mas aquele
que pode no s perder o corpo, mas tambm levar a nossa alma para o inferno (Lucas, 
12, 4 e 5)

XIX

28. E advirtam-se as crianas de que o caminho mais seguro da vida  o caminho da cruz, 
e que, precisamente por isso, foi por ela que o Mestre, Cristo,
saiu desta vida, o qual convidou os outros a seguirem por esse caminho, e por ele conduz 
aqueles a quem quer melhor.
     O mistrio da nossa salvao foi realizado na Cruz,  feito de Cruz, na qual  
crucificado o velho Ado, para que viva o novo, criado segundo Deus.
Por isso, Deus castiga aqueles que ama e, por assim dizer, crucifica-os com Cristo, para, 
depois da ressurreio, os colocar  sua direita, no cu, juntamente
com Cristo. E embora a palavra Cruz seja a potncia de Deus para salvar aqueles que 
acreditam, todavia, para a carne,  loucura e estorvo (Corntios, I,
1, 18); de tal maneira que  necessrio inculcar muito bem nos Cristos esta verdade, para 
que entendam que no podem ser discpulos de Cristo, se no
renunciam a si mesmos, se no transportam sobre os seus ombros a Cruz de Cristo (veja-
se Lucas, 14, versculo 27), e se no esto preparados a seguir Deus
durante toda a vida, por qualquer parte por onde Ele queira conduzi-los.

XX

29. Deve providenciar-se para que, enquanto se ensinam estas coisas s crianas, no lhes 
seja dado nenhum exemplo em contrrio.
     Isto , procure-se que as crianas no ouam nem vejam blasfmias, perjuros, 
profanaes do nome de Deus ou outras impiedades, mas que, para qualquer
parte que se voltem, encontrem reverncia pela divindade, observncia da religio e 
pureza de conscincia. E se alguma coisa acontece em contrrio disto,
em casa ou na escola, que notem que ela no fica impune, mas se castiga severamente; e 
de tal maneira que a pena, infligida pelo crime de lesa-divindade,
sendo sempre mais dura que a pena infligida por uma ofensa cometida contra Prisciano
[17],
mostre que  que, acima de tudo e antes de tudo, se deve temer.

XXI

30. Finalmente, porque, na presente corrupo do mundo e da natureza, nunca 
progredimos tanto como devamos; e, mesmo que progridamos alguma coisa, a nossa
carne depravada cai facilmente na contemplao de si mesma e na soberba espiritual, e 
assim (porque Deus resiste aos soberbos),
[18]
a nossa salvao corre um perigo gravssimo, importa ensinar, a tempo, a todos os 
cristos, que os nossos bons estudos e as nossas boas obras, pela sua
imperfeio, nada valem, se no vem em nossa ajuda, com a sua perfeio, Cristo, o 
Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo
[19],
e no qual apenas se compraz o Pai, etc.
[20].
 necessrio, portanto, invocar Cristo e s nele confiar.
     Assim, finalmente, colocamos em seguro a esperana da nossa salvao e dos nossos, 
se a colocarmos sobre Cristo, pedra angular
[21],
o qual, assim como  o vrtice de toda a perfeio, na terra e no cu, assim tambm  o 
nico iniciador e aperfeioador da nossa f, da nossa caridade,
da nossa esperana e da nossa salvao. Efetivamente, o Pai enviou Cristo do Cu  terra, 
precisamente para que, feito Emanuel (Deus-homem), reunisse os
homens e Deus; e, vivendo santssimamente na humanidade assumida, se apresentasse aos 
homens como modelo da vida divina; e, morrendo inocentemente, expiasse
com o sacrifcio de si mesmo as culpas do mundo, e, com o prprio sangue, lavasse os 
nossos pecados; e, enfim, ressuscitando, mostrasse que a morte fora
vencida com a morte, e, subndo ao cu, e de l enviando o Esprito Santo, penhor da nossa 
salvao, e, mediante o mesmo Esprito, habitasse em ns como
Templos seus, e nos regesse e nos guardasse para a salvao, enquanto lutamos aqui na 
terra, e depois nos ressuscitasse e levasse para si, para que, onde
Ele est, estejamos tambm ns e contemplemos a sua glria, etc.

31. A este nico salvador de todos os homens, com o Pai e o Esprito Santo, seja dado 
eterno louvor, honra, beno e glria, por todos os sculos dos sculos.
Amen.

32. Convm, todavia, determinar o modo particular de realizar aptamente todas estas 
coisas, em todas as classes das escolas.

Captulo XXV

SE REALMENTE
QUEREMOS ESCOLAS REFORMADAS
SEGUNDO AS VERDADEIRAS NORMAS
DO AUTNTICO CRISTIANISMO,
OS LIVROS DOS PAGOS,
OU DEVEM SER AFASTADOS DAS ESCOLAS,
OU AO MENOS DEVEM SER UTILIZADOS
COM MAIS CAUTELA QUE AT AQUI
[1]

De que coisa se comea a persuadir neste captulo.

1. Uma necessidade inevitvel obriga-nos a desenvolver um pouco mais o assunto a que, 
de passagem, fizemos j meno no captulo precedente, pois, se queremos
ter escolas verdadeiramente crists, importa afastar delas uma multido de doutores 
pagos. Exporemos, primeiro, as causas urgentes desta atitude, e, depois,
ensinaremos qual a cautela de que se deve usar relativamente a esses sbios, para fazer 
nossos todos os seus pensamentos, os seus ditos e os seus fatos,
quando so bons.

E com que zelo para com Deus.

2. O amor da glria de Deus e da salvao dos homens impele-nos a tratar com zelo este 
assunto, pois vemos que as principais escolas dos cristos professam
Cristo apenas de nome e, de resto, no pem as suas delcias seno nos Terncios, 
Plautos, Cceros, Ovdios, Catulos e Tbulos, Musas e Vnus. Daqui resulta
que sabemos mais do mundo que de Cristo, e que temos necessidade de procurar os 
cristos no meio da cristandade, precisamente porque, mesmo a muitos telogos,
entre os mais eruditos e notveis, Cristo apenas fornece uma mscara, e Aristteles, com a 
restante multido dos pagos, fornece o sangue e o esprito.
Ora isto  um horrendo abuso da liberdade crist, uma turpssima profanao e uma coisa 
cheia de perigos. Com efeito:

Causas por que os livros pagos devem ser excludos das escolas crists e os livros 
divinos devem ser introduzidos:
Primeira.

3. Em primeiro lugar, os nossos filhos, nascidos para o cu, renasceram por virtude do 
Esprito de Deus. Devem, por conseqncia, ser formados como cidados
para o cu e, principalmente, devem tomar conhecimento com os habitantes do cu: Deus, 
Cristo, os Anjos, Abrao, Isac, Jacob e outros. E, postas de parte,
entretanto, todas as outras coisas, deve procurar fazer-se isto antes de tudo, no s por 
causa da incerteza desta vida, para que ningum venha a ser arrebatado
pela morte sem estar preparado, mas tambm porque as primeiras impresses 
permanecem profundamente gravadas na mente e (se so santas) tornam mais seguras
todas as outras coisas que se devem tratar depois, durante a vida.

Segunda.

4. Em segundo lugar, Deus, embora provesse abundantemente ao seu povo eleito, todavia, 
no lhe mostrou outra escola alm da dos seus trios, onde estabeleceu
ser Ele mesmo o nosso professor, ns os alunos, e a doutrina, a voz dos seus profetas. 
Com efeito, fala assim pela boca de Moiss: Ouve,  Israel, o Senhor
nosso Deus  o nico Senhor. Amars ao Senhor teu Deus de todo o teu corao, e de toda 
a tua alma, e com toda a tua fora. E estas palavras, que eu hoje
te intimo, estaro gravadas no teu corao; e tu as ensinars a teus filhos, e as meditars 
sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e estando no leito,
e ao levantar-te, etc. (Deuteronmio, 6, 4 e ss.). E pela boca de Isaas: Eu sou o Senhor 
teu Deus, que te ensino o que  til, que te dirijo pelo caminho
que segues (Isaas, 48, 17). E noutro lugar: Porventura o povo no h-de consultar o seu 
Deus? (Isaas, 8, 19). E Cristo diz: Perscrutai as Escrituras
(Joo, 5, 39).

Terceira.

5. E que esta sua voz  luz fulgidssima da nossa inteligncia e regra perfeitssima das 
nossas aes e, num e noutro caso, um auxlio suficientssimo para
a nossa fraqueza, declara-o com estas palavras: Eis que vos ensinei os estatutos e os 
ordenamentos judicirios. Observai-os e ponde-os em prtica, pois
est aqui a vossa sabedoria e a vossa prudncia diante dos olhos dos povos, os quais, 
ouvindo estas coisas, diro: Apenas esta gente  um povo sbio e
prudente (Deuteronmio, 4, 5 e 6). E em Josu ordena: No se aparte da tua boca o 
livro desta lei; mas meditars nele dia e noite para observar e cumprir
tudo o que nele est escrito; ento levars o teu caminho direito e prosperars (Josu, 1, 
8). E pela boca de David: A doutrina de Jeov  ntegra e
restauradora da alma; o testemunho de Jeov  veraz e d sabedoria aos ignorantes, etc. 
(Salmo 19, 8). Finalmente, o Apstolo atesta: Toda a Escritura,
divinamente inspirada,  til para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na 
justia; a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para
toda a obra boa (Timteo, II, 3, 16 e 17). Igualmente os homens mais sbios (entenda-se 
cristos, verdadeiramente iluminados) reconheceram tambm esta
verdade e professaram-na. S. Joo Crisstomo diz: Tudo aquilo que  necessrio saber 
ou ignorar, aprendemo-lo nas Escrituras
[2].
E Cassiodoro: A Escritura  uma escola celeste, uma erudio vital, a aula da verdade, 
uma disciplina certssimamente singular, e ocupa os alunos com pensamentos
frutuosos, e no com vos artifcios de palavras, etc.
[3].

Quarta.

6. Alm disso, Deus proibiu expressamente ao seu povo as doutrinas e os costumes dos 
pagos: No aprendais os caminhos dos gentios (disse Jeremias, 10,2).
E igualmente: Porventura no h um Deus em Israel, para vs virdes consultar Belsebu, 
deus de Acaron? (IV Livro dos Reis, 1, 3) Porventura o povo no
h-de consultar o seu Deus? H-de ir falar com os mortos acerca dos vivos? Antes deve 
recorrer  lei e ao testemunho, pois, se no falarem segundo esta
linguagem, no raiar para eles a luz da manh (Isaas, 8, 19-20). Porqu assim? Porque 
toda a sabedoria vem de Deus e com ele permanece para sempre.
E logo a seguir: A raiz da sabedoria a quem foi jamais revelada? (Eclesistico, 1, 1 e 6). 
Estes jovens viram a luz, e habitaram sobre a terra; mas
ignoraram o caminho da sabedoria, e no entenderam as suas veredas, nem seus filhos a 
receberam; ela se retirou para longe deles. No foi ouvida na terra
de Cana, nem foi vista em Tem. Tambm os filhos de Agar, os quais procuram a 
prudncia que vem da terra, os fabulistas e os esquadrinhadores da inteligncia,
ignoraram o caminho da sabedoria. Mas aquele que sabe todas as coisas, conhece-a e 
descobriu todos os caminhos da sabedoria e ensinou-a a Jacob, seu servo,
e a Israel, seu amado (Baruc, 3, versculos 20, 21, 22, 23, 32, 36, 37). No fez assim a 
nenhuma outra nao, e por isso no conheceram os seus preceitos
(Salmo 147, 20).

Quinta.

7. Quando o seu povo se desviava da sua lei, indo  procura dos atrativos da fantasia 
humana, Deus censurava-lhe no s a loucura, pois abandonava a fonte
da sabedoria (Baruc, 3, 12), mas tambm a dupla malcia porque o meu povo fez dois 
males: abandonaram-me a mim, que sou a fonte de gua viva, e cavaram
para si cisternas, cisternas rotas, que no podem reter as guas (Jeremias, 2, 13). E, pela 
boca de Oseias, lamentando-se porque o seu povo tinha relaes
demasiado amistosas com os gentios, acrescenta: Os multplices ensinamentos da minha 
lei, que por mim foram escritos, consideram-nos como coisa feita
para os outros (Oseias, 8, 12). Porventura procedem de maneira diferente aqueles 
cristos que tm sempre entre as mos, de dia e de noite, os livros dos
pagos?
[4].
Do sagrado cdigo de Deus, como se se tratasse de uma coisa dos outros que a eles no 
diz respeito, nenhum se interessa, embora ele no seja coisa v,
que possa impunemente descurar-se, mas a nossa prpria vida, segundo o testemunho do 
prprio Deus (Deuteronmio, 32, 47).

Sexta.

8. Por isso, a verdadeira Igreja e os verdadeiros cultores de Deus no procuraram 
nenhuma outra escola, alm da palavra de Deus, nela haurindo abundantemente
a sabedoria verdadeira e celeste, que  superior a toda a sabedoria mundana. 
Efetivamente, David diz de si mesmo: Mais sbio que os meus inimigos me tornou
o teu mandamento, porque ele est sempre comigo. Sou mais prudente que todos os meus 
mestres, porque os teus mandamentos so a minha meditao, etc. (Salmo
118, 98, etc.). De modo semelhante, Salomo, o mais sbio dos mortais, declara: O 
Senhor  quem d a sabedoria, e da sua boca sai a prudncia e a cincia
(Provrbios, 2, 6). Tambm Jesus, filho de Sirac (no prlogo do seu livro), afirma que a 
sua sabedoria foi haurida na leitura da lei e dos profetas (Eclesistico).
Daqui, a alegria dos santos, quando viam a luz na Luz de Deus (Salmo 35, 10). Somos 
ditosos,  Israel, porque as coisas que agradam a Deus nos so manifestas
(Baruc, 4, 4). Senhor, para quem havemos ns de ir? S tu tens palavras de vida eterna 
(Joo, 6, 69).

Stima.

9. Exemplos de todos os sculos mostram que, sempre que a Igreja se desviou das fontes 
de Israel, sempre esse desvio foi ocasio de cismas e de erros. Relativamente
 Igreja israeltica; o fato  suficientemente conhecido, atravs das lamentaes dos 
profetas; relativamente  Igreja crist, infere-se da histria que,
sempre que foi governada pelos Apstolos e por pessoas apostlicas, apenas com a 
doutrina do Evangelho, sempre permaneceu vigorosa a sinceridade da f.
Mas, logo que os pagos comearam a entrar em multido na Igreja, e arrefeceu o 
primitivo ardor e solicitude em separar as doutrinas puras das impuras,
e, por isso, se comeou a ler, primeiro privadamente e depois em pblico, os livros dos 
pagos,  evidente que espcie de mistura e de confuso de doutrinas
resultou. Precisamente por culpa daqueles mesmos que se jactavam de ser os nicos 
depositrios da chave da sabedoria, perdeu-se essa chave; em conseqncia
disso, em lugar dos artigos da F, surgiu uma infinidade de opinies estranhas; da os 
dissdios e os litgios, que no do ainda mostras de quererem desaparecer.
Deste modo, a caridade arrefeceu e a piedade extinguiu-se, e, sob o nome de cristianismo, 
surgiu e reina o paganismo. Efetivamente, foi necessrio que
se realizasse em plenitude a ameaa de Jeov: se eles no falarem segundo esta 
linguagem no raiar para eles a luz da manh (Isaas, 8, 20). Por isso,
Deus infundiu neles o esprito de sonolncia e fechou-lhes os olhos, para que para eles 
toda a viso fosse como as palavras de um livro fechado, etc.
(Isaas, 29, 10 e ss.), pois temiam Deus segundo os mandamentos e as doutrinas dos 
homens. Oh! quo verdadeiramente se verifica, a respeito destes, aquilo
que o Esprito Santo afirmou dos filsofos pagos, dizendo que se desvaneceram nos 
seus pensamentos e obscureceu-se o seu corao insensato (Romanos,
1, 21). Por isso, se a Igreja se quer purgar com bom resultado dos inquinamentos, no h 
nenhum outro caminho mais seguro que o de abandonar as dissertaes
sedutoras dos homens e regressar s nicas fontes puras de Israel, e retomar, ns e os 
nossos filhos, por mestre e guia, Deus e a palavra de Deus. Assim,
finalmente, se realizar a profecia de Isaas: todos os filhos da Igreja sero ensinados 
pelo Senhor (Isaas, 54, 13).

Oitava.

10. Nem certamente a nossa dignidade de cristos (que, por Cristo, fomos feitos filhos de 
Deus, um sacerdcio real
[5]
e herdeiros do cu) permite que ns e os nossos filhos nos abaixemos e nos prostituamos 
de modo a tratar os moralistas pagos como amigos ntimos e faamos
deles as nossas delcias.  evidente, com efeito, que aos filhos dos reis e dos prncipes no 
 costume dar como pedagogos os parasitas, os bobos, os bufes,
mas pessoas graves, sbias e devotas. E ns no nos envergonhamos de dar como 
pedagogos aos filhos do rei dos reis, aos irmos de Cristo, aos herdeiros
da eternidade, aquele brincalho do Plauto, aquele lascivo do Catulo, aquele impuro do 
Ovdio, aquele Luciano, mpio escarnecedor de Deus, aquele obsceno
do Marcial e outros do mesmo jaez, que no conhecem nem temem o verdadeiro Deus? 
Os quais, uma vez que viveram sem esperana alguma de uma vida melhor
e apenas pensaram em mergulhar-se no charco da vida presente, no podem deixar de 
remexer consigo nas mesmas imundcies aqueles que os freqentam. Basta,
basta,  cristos, de semelhante loucura!  tempo de terminar com ela, pois Deus chama-
nos a coisas melhores, e  justo seguir quem nos chama.

A escola de Deus.

     Cristo, eterna sabedoria de Deus, abriu uma escola em sua casa para os filhos de Deus, 
onde faz de reitor e de mestre supremo o prprio Esprito Santo,
de professores e de mestres os profetas e os apstolos, todos dotados de verdadeira 
sabedoria, todos ensinando, luminosamente, com a palavra e com o exemplo,
o caminho da verdade e da salvao, todos homens santos; onde so alunos apenas os 
eleitos de Deus, as primcias dos homens resgatados por Deus e pelo
Cordeiro; e onde fazem de inspetores e de prefeitos os anjos e os arcanjos, os principados 
e as potestades que esto no cu (Efsios, 3, l0). Tudo o que
se ensina nesta escola ministra a todos uma cincia que  mais verdadeira, mais certa e 
mais perfeita que os raciocnios do crebro humano, e que se estende
a todos os usos desta vida e da vida futura. Com efeito, s a boca de Deus  a fonte de 
onde promanam todos os rios da verdadeira sabedoria; s a face
de Deus  o luzeiro de onde se difundem os raios da verdadeira luz; s a palavra de Deus 
 a raiz de onde despontam os verdadeiros grmens da inteligncia.
Felizes, portanto, aqueles que olham a face de Deus, esto atentos  sua boca e recebem 
no corao as suas palavras, pois  este o nico caminho de uma
inefvel, verdadeira e eterna sabedoria, e fora dele no h outro.

Nona.

11. Nem deve passar-se em silncio quo seriamente Deus proibiu ao seu povo as 
relquias dos gentios, nem aquilo que aconteceu queles que no prestaram
ateno  seguinte ameaa: O Senhor exterminar diante de ti aquelas naes, etc. Tu, 
porm, queimars no fogo as suas esculturas; no cobiars a prata
nem o ouro de que so feitas, nem delas tomars nada para ti, para que no tropeces, visto 
serem a abominao do Senhor teu Deus. E no levars para tua
casa coisa alguma de dolo, para que te no tornes antema, como ele o  
(Deuteronmio, 7, 22, 25, 26). E no captulo 12: Quando o Senhor teu Deus tiver
exterminado diante de ti as naes em que entrares para as possuir, e as possures, e 
habitares na sua terra, abstm-te de as imitar, depois que elas tiverem
sido destrudas  tua entrada, e de te informar das suas cerimnias, dizendo: Assim como 
estas naes adorarem os seus deuses, do mesmo modo tambm eu
os adorarei. No fars assim com o Senhor teu Deus. Porque elas fizeram pelos seus 
deuses todas as abominaes, que o Senhor aborrece, oferecendo-lhes
seus filhos e filhas e queimando-os no fogo. Faze somente em honra do Senhor aquilo que 
eu te ordeno; no acrescentes nem tires nada (Deuteronmio, 12,
29, e ss.). E embora Josu (Josu, 24, 23), depois da vitria, tivesse recordado aos 
israelitas este mandamento de Deus e os aconselhasse a abandonar os
dolos no que no foi obedecido, estas relquias pags tornaram-se para eles uma cilada, e 
assim recaram sempre na idolomania at  runa dos dois reinos
hebraicos. E ns, tornados mais cautelosos pelo exemplo alheio, no haveremos de tomar 
juzo?

Os livros dos pagos so dolos.

12. Mas os livros no so dolos, objetar algum. Respondo: Mas so relquias daquelas 
gentes que o Senhor nosso Deus dispersou da face do seu povo cristo,
como outrora, mas so mais perigosas que outrora. Com efeito, ento ficavam presos no 
lao apenas aqueles cujos coraes se embruteciam (Jeremias, 10,
14); agora, porm, mesmo os mais sbios podem ser enganados (Colossences, 2, 8). 
Ento, eram obras das mos humanas ( assim que Deus costuma falar ao
exprobar a estultcia do idlatra); agora, so obras da inteligncia humana. Ento, o 
resplendor da prata e do ouro encandeava os olhos; agora, a plausibilidade
da sabedoria carnal cega a mente. O qu? Negas que os livros pagos so dolos? Quem  
que ento afastou de Cristo o imperador Juliano?
[6]
Quem fez perder a cabea ao papa Leo X, que considerava uma fbula a histria de 
Cristo?
[7]
Por que esprito foi Bembo inspirado a dissuadir o Cardeal Sadoleto da leitura dos Livros 
Santos (sob o pretexto de que aquelas inpcias no eram dignas
de um varo eminente?)
[8].
Que  que, ainda hoje, faz precipitar no atesmo tantos sbios italianos e outros?
[9].
Oxal na Igreja de Cristo reformada no existam tambm aqueles que Ccero, Plauto, 
Ovdio, etc. arrastam atrs de si com um odor verdadeiramente mortal!

Evaso.

13. Se algum disser: o abuso no deve imputar-se s coisas, mas s pessoas; ora, h 
cristos piedosos aos quais a leitura dos pagos no faz mal algum
 o Apstolo responde: sabemos que o dolo no  nada no mundo, mas nem em 
todos h este conhecimento (capaz de discernir). Tende cautela, pois, para
que a vossa liberdade se no torne ocasio de queda para os fracos (Corntios, 1, 8, 4, 7, 
9). Portanto, embora o Deus misericordioso preserve muitos
da runa, todavia, ns no podemos ser escusados se, conscientemente e voluntariamente, 
toleramos tais atrativos (quero dizer as vrias invenes do crebro
humano ou ainda da fraude satnica), alindados de sutilezas e de elegncias, enquanto que 
 certo que esses atrativos fazem perder a cabea a alguns, e
at a muitos, e fazem-nos cair nas ciladas de Satans. Obedeamos, antes, a Deus e no 
introduzamos dolos nas nossas casas nem coloquemos Drages ao lado
da arca da aliana
[10],
para que no misturemos a sabedoria que vem do cu com a sabedoria terrena, material e 
diablica, nem demos a Deus ocasies para desabafar a sua justa ira
contra os nossos filhos.

Alegoria.

14. Na verdade, tambm aquele caso, recordado por Moiss alegoricamente, talvez tenha 
aqui cabimento. Nabad e Abi, filhos de Aro, sacerdotes principiantes,
tendo colocado (porque no conheciam ainda bem o cerimonial), nos seus turbulos, fogo 
estranho  religio (isto , fogo comum), em vez de fogo sagrado,
para incensar o Senhor, foram feridos pelo fogo de Deus e morreram diante do Senhor 
(Levtico, 10, 1 e ss.). Mas que so os filhos dos cristos seno um
sacerdcio santo para oferecer sacrifcios espirituais, agradveis a Deus? (Pedro, I, 2, 5). 
Porm, se enchemos os seus turbulos, ou seja, as suas mentes,
com um fogo que lhes  estranho, no fazemos mais que exp-los ao furor da ira divina. 
E, efetivamente, no  e no deve ser estranha ao corao dos cristos
qualquer coisa que provenha de outro lugar e no do esprito de Deus? E no provm de 
Deus a maior parte dos delrios filosficos e poticos dos pagos,
segundo o testemunho do Apstolo (Romanos, 1, 21, 22 e Colossences, 2, 8, 9). E, no 
sem razo, S. Jernimo chamou  poesia vinho dos demnios
[11],
com o qual Satans embebeda as mentes incautas, nelas infunde sonolncia e nelas suscita 
sonhos que so causa de opinies monstruosas, de perigosas tentaes
e de maus desejos. Convm, por isso, ter cuidado com estes filtros satnicos.

Os efsios devem ser imitados.

15. Se no obedecemos a Deus, que nos aconselha coisas mais seguras, no dia de juzo 
1evantar-se-o contra ns os Efsios, os quais, logo que a luz da divina
sabedoria refulgiu a seus olhos, queimaram todos os livros de argumento licencioso, 
tornados inteis para eles cristos (Atos dos Apstolos, 19, 19). E
a moderna Igreja grega, embora tenha livros de filosofia e de poesia, escritos na sua 
lngua elegante por autores antigos, considerados os homens mais
sbios do mundo, todavia, proibiu a sua leitura, sob pena de excomunho, aos 
eclesisticos e queles que professam a sua religio. Daqui resultou que o
mundo grego, porque inundado pela barbrie, tenha cado em grande ignorncia e em 
muitas supersties, mas foi at agora preservado por Deus do dilvio
anti-cristo dos erros. Importa, portanto, imitar os gregos neste ponto (tendo, porm, em 
maior considerao o estudo das Sagradas Escrituras), para mais
facilmente afastar as trevas que nos foram deixadas pelo paganismo, pois, s na Luz de 
Deus se v a luz (Salmo 35, 10). Vs, pois, da casa de Jacob, vinde
e caminhemos na luz do nosso Deus (Isaas, 2, 5)

Dissolvem-se agora as objees.

16. Vejamos, porm, com que razes se insurge contra estas coisas a razo humana, 
contorcendo-se como uma serpente, para que se no veja obrigada a aceitar
o obsquio da f e a entregar-se a Deus. Assim instam os racionalistas.

1. da grande sabedoria contida nos livros dos pagos.

17. Nos livros dos filsofos, dos oradores e dos poetas, est contida uma grande 
sabedoria. Respondo: so dignos das trevas aqueles que desviam os olhos
da luz.  certo que  coruja o crepsculo parece o meio dia, mas os animais nascidos para 
a luz, conhecem-na bem diversamente.  homem ftil, que procuras
a luz clara nas trevas do raciocnio humano, levanta os olhos para o cu! De l desce a luz 
verdadeira, do Pai das luzes.
     Nas obras humanas, se porventura se encontra qualquer jorro ou qualquer chispa de 
luz, so pequenas centelhas, as quais, embora a quem est nas trevas
paream um esplendor, todavia, para ns que temos  mo chamas ardentes ofertadas em 
dom (a fulgidssima palavra de Deus), que utilidade podem trazer aquelas
centelhas? Com efeito, os filsofos, se disputam acerca da natureza, no fazem mais que 
lamber o vidro, sem nunca atingir as papas. Ora, na Sagrada Escritura,
o prprio Senhor da natureza narra os grandes mistrios das suas obras, explicando as 
primeiras e as ltimas razes de todas as criaturas visveis e invisveis.
Se os filsofos falam de moral, fazem como as avezinhas presas pelo visco que, por mais 
que esvoacem com toda a fora, no conseguem efetivamente voar.
Ora a Escritura contm verdadeiras e claras descries das virtudes e profundas 
exortaes, que penetram at  medula dos ossos, e exemplos vivos de toda
a espcie. Quando os pagos querem ensinar a piedade, ensinam a superstio, porque no 
esto embebidos nem do verdadeiro conhecimento de Deus, nem do
verdadeiro conhecimento da sua vontade. Eis que as trevas cobrem a terra e a escurido 
os povos; em Sion, porm, nasce o Senhor e a se v a sua glria
(Isaas, 60, 2).
     Embora, portanto, aos filhos da luz seja dada a liberdade de se abeirarem, por vezes, 
dos filhos das trevas, para que, notada a diferena, possam exultar
ainda mais no caminho da luz, devem,  certo, compadecer-se das trevas daqueles 
infelizes, mas, se preferem as suas centelhas  nossa luz, cometem uma
loucura intolervel e injuriosa contra Deus e contra a nossa alma. Que interessa progredir 
nas doutrinas mundanas e languescer nas doutrinas divinas?
Seguir as fices caducas e ter fastio pelos mistrios celestes?  necessrio abster-se de 
tais livros e, por amor das Sagradas Escrituras, fugir dos autores
que deslumbram pelo seu estilo, mas so destitudos de virtude e de sabedoria, diz Santo 
Isidoro
[12].
Eis o louvor de tais livros! So cascas sem miolo. A este propsito, Filipe Melanchton 
pensa o seguinte: Que ensinam em geral os filsofos, se acaso algum
deles ensina acertadamente, seno a confiana e o amor de ns prprios? Cicero, no seu 
livro De finibus bonorum et malorum
[13],
acha que toda a razo de praticar a virtude nasce do amor de ns prprios e do egosmo. 
Quanto de enfatuado e de soberba no h em Plato? E no me parece
que uma inteligncia sagaz e penetrante possa conseguir facilmente no contrair qualquer 
defeito da ambio platnica, se acaso ler os seus escritos. A
doutrina de Aristteles , no seu conjunto, uma autntica paixo de polemizar, de tal 
maneira que no o julgamos sequer digno do ltimo lugar, entre os
escritores de filosofia moral, etc. (Compndio de Teologia, no lugar onde trata do 
pecado)
[14].

2. da sua necessidade para a filosofia.

18. Dizem tambm: Se os escritores pagos no ensinam retamente a Teologia, ensinam, 
porm, a filosofia, a qual no pode haurir-se da Sagrada Escritura,
que nos foi dada para nossa salvao. Respondo: A fonte da sabedoria  a palavra de Deus 
que est nos cus (Eclesistico, 1, 5). A verdadeira filosofia
no consiste seno no verdadeiro conhecimento de Deus e das suas obras, e estas coisas 
no podem aprender-se em parte alguma com mais verdade que da boca
de Deus. Por isso, Santo Agostinho, tecendo louvores  Sagrada Escritura, afirma: Aqui 
est a filosofia: porque todas as causas de todas as naturezas
esto em Deus, seu criador. Aqui est a tica: porque a vida equilibrada e honesta no 
pode formar-se de outro modo seno amando, juntamente com a vida,
as coisas que se devem amar, e amando-as como se deve, isto , Deus e o prximo. Aqui 
est a lgica: porque a verdade e a luz da razo humana no  seno
Deus. Aqui est tambm a mais louvvel salvao do Estado: porque no se tutela da 
melhor maneira o bem-estar dos cidados, a no ser quando, com o fundamento
e com o vnculo da f e de uma firme concrdia, se ama o bem comum, que  Deus, sumo 
e verdadeiro bem
[15].
E alguns autores do nosso sculo
[16]
demonstraram j que, na Sagrada Escritura, esto contidos, com mais verdade que em 
outras obras, os princpios fundamentais de todas as cincias e de todas
as artes filosficas; de tal maneira que se deve admirar o magistrio do Esprito Santo, que 
procura informar-nos principalmente das coisas invisveis
e eternas, mas, ao mesmo tempo, aqui e alm, nos descobre as razes das coisas naturais e 
artificiais, e nos d normas suficientes para pensar e operar
sabiamente, enquanto que, acerca de tudo isto, nos filsofos pagos, apenas consegue 
encontrar-se uma sombra. Se, portanto, um grande telogo escreveu:
a bela sabedoria de Salomo est no fato de que introduziu a Lei de Deus nas casas, nas 
escolas e nas cortes, se ns inculcarmos  juventude, em vez
dos escritores pagos, a lei de Deus, prescrevendo assim regras para todo o gnero de 
vida, que  que nos impede de esperar que volte at ns a sabedoria
salomnica, ou seja, a sabedoria verdadeira e celeste? Esforcemo-nos, portanto, para 
termos em nossas casas tudo aquilo que pode tornar-nos sbios, mesmo
naquela cincia externa, e por assim dizer profana, a que chamamos filosofia.  certo que 
houve uma poca desgraada, em que os filhos dos israelitas se
viram obrigados a ir aos filisteus arranjar a relha do arado, a enxada, o machado e o sacho, 
pois no havia ferreiro na terra dos israelitas (Samuel, I,
13, 19 e 20). Mas ser necessrio angustiar e pr assim sempre em dificuldades os 
israelitas? No, principalmente quando  certo que isso traz o dano de
que, como ento, os filisteus forneciam,  certo, as enxadas, mas de modo algum 
forneciam as espadas aos israelitas, que as usariam contra eles; assim
tambm pode ir buscar-se  filosofia pag silogismos comuns, feitos  fora de raciocnios 
e de flores oratrias, mas de modo algum as espadas e as lanas
para debelar a impiedade e a superstio. Desejemos, portanto, antes a poca de David e 
de Salomo, em que os filisteus foram vencidos e em que Israel
reinava e gozava dos seus bens.

E, de igual modo, por causa da elegncia do estilo.

19. Ao menos, portanto, por causa do estilo, leiam Terncio, Plauto e outros escritores 
semelhantes, os estudiosos da Latinidade. Primeira Resposta: Porventura,
para que aprendam a falar, havemos de levar os nossos filhos pelas tascas, baicas, 
tabernas, lupanares, e outras cloacas semelhantes? Como efeito, para
onde conduzem a juventude Terncio, Plauto, Catulo, Ovdio e outros semelhantes, seno 
para lugares srdidos como aqueles? Que espetculo lhe oferecem
seno faccias, galhofas, comesainas, bebedeiras, amores baixos, devassides, enganos e 
outras coisas parecidas, das quais  necessrio afastar os olhos
e os ouvidos dos cristos, mesmo quando se lhes apresentam diante por mero acaso? 
Porventura julgamos que o homem est pouco depravado em si, de tal modo
que seja necessrio ministrar-lhe do exterior formas de toda a espcie de torpezas, 
estmulos e incentivos, e como que empurr-lo para a runa? Mas dir-se-:
Nestes escritores, nem tudo  mau. Respondo: o mal, porm, apega-se-nos sempre mais 
facilmente, e, por isso, enviar a juventude onde o mal est misturado
com o bem,  coisa muito perigosa. Com efeito, mesmo para matar algum, no se 
costuma, nem mesmo se pode, dar-lhe o veneno puro, mas misturado com os
melhores manjares ou bebidas; mas, apesar disso, o veneno faz sentir a sua fora e 
provoca a morte a quem o toma. Exatamente assim, o antigo homicida,
se quer insinuar-se no meio de ns, necessariamente tem de adoar os seus txicos 
infernais com o acar das carcias das suas fices e discursos. Conscientes
disto, no havemos ns de mandar para o diabo o seu nefando artifcio? Poder dizer-se: 
Nem todos so porcos. Ccero, Virglio, Horcio e outros so honestos
e graves. Respondo: Todavia, tambm estes so pagos cegos que desviam as mentes dos 
leitores, do verdadeiro Deus para os deuses e deusas (Jpiter, Marte,
Netuno, Vnus, Fortuna e outras divindades, sem dvida fingidas). Ora Deus disse ao seu 
povo: No deveis recordar o nome dos deuses estrangeiros, e a
vossa boca no deve pronunci-lo (xodo, 23, 13). E, alm disso, nesses escritores, que 
caos de supersties, de opinies falsas, de cupidezas mundanas,
em guerra umas contra as outras! Evidentemente que enchem os seus discpulos de um 
esprito diferente daquele que Cristo neles quer infundir. Cristo chama-nos
para fora do mundo, eles imergem-nos no mundo; Cristo ensina-nos a renncia a ns 
mesmos, eles ensinam o amor a ns mesmos; Cristo chama para a humildade,
eles para o orgulho; Cristo recomenda a simplicidade das pombas, eles instilam, de mil 
maneiras, a arte das sutilezas; Cristo aconselha a modstia, eles
espalham a frivolidade; Cristo ama os crdulos, eles preferem os suspeitosos, os 
disputadores, os obstinados. E, para concluir com poucas palavras, pergunto
com as palavras do Apstolo: Que sociedade pode haver entre a luz e as trevas? E que 
concrdia entre Cristo e Belial? Ou que de comum entre o fiel e o
infiel? (Corntios, II, 6, 14 e 15). Tambm Erasmo diz, com razo, nas suas Parbolas: 
As abelhas abstm-se das flores podres; do mesmo modo, no deve
tocar-se num livro que contenha pensamentos ptridos
[17].
E igualmente: Assim como nos podemos deitar com segurana absoluta no trevo, pois 
nesta erva as serpentes no se escondem; assim tambm devemos freqentar
aqueles livros onde no h nenhum veneno a temer
[18].

II. Resposta.

20. Mas, afinal, que tm de belo e gracioso os escritores pagos, de modo a serem 
preferidos aos nossos escritores sagrados? Acaso s eles nos mostram as
elegncias literrias? O mais perfeito artfice da lngua  aquele que a criou, o esprito de 
Deus; e os santos de Deus experimentam e pregam que as suas
palavras so mais doces que o mel, mais penetrantes que uma espada de dois gumes, mais 
eficazes que o fogo que funde os metais e mais pesadas que o martelo
que despedaa as pedras. Acaso s os escritores pagos contam histrias memorveis? A 
nossa Bblia est cheia de fatos verdadeiros e muito mais maravilhosos.
Acaso s eles formam tropos, figuras, metforas, alegorias, parbolas e mximas? Nestas 
coisas, os mais altos cimos foram por ns atingidos.  uma imaginao
leprosa preferir ao Jordo e s outras guas de Israel, o Albana e o Farfar, rios de 
Damasco (Livro dos Reis, IV, 5, 12).  ramelosa a vista a que o Olimpo,
o Elcona e o Parnaso oferecem panoramas mais amenos que o Sinai, o Sion, o Ermon, o 
Tabor e o Monte das Oliveiras.  surdo o ouvido a que soa mais docemente
a lira de Orfeu, a trompa de Homero e de Virglio, que a harpa de David.  estragado a 
paladar, ao qual sabem melhor o fingido nctar e a ambrsia, e as
fontes de Castlio, que o verdadeiro man celeste e as fontes de Israel.  perverso o 
corao a que proporcionam maiores delcias os nomes dos deuses e
das deusas, das musas e das graas, que o nome adorvel de Jeov, de Cristo Salvador e 
dos vrios dons do Esprito santo.  cega aquela esperana que passeia
pelos campos Elseos, de preferncia a passear pelos jardins do paraso, pois, naqueles, 
tudo  fabuloso, ao passo que, nestes, tudo  real e absolutamente
verdadeiro.

III. Resposta.

21. Aceitemos, no entanto, que os escritores pagos tm tambm elegncias, frases, 
adgios e mximas morais, dignas de serem transferidas para ns. Mas
devemos enviar para junto deles os nossos filhos, para colherem essas florzitas? Acaso 
no  lcito despojar os egpcios e priv-los dos seus ornamentos?
Sim,  lcito;  at conveniente, segundo as ordens de Deus (xodo, 3, 22). Com efeito, de 
direito, pertencem  Igreja todas as propriedades dos gentios.
 necessrio, portanto, insiste-se, ir para a frente e tomar posse dessas coisas. Resposta: 
Manasss e Efraim, tendo inteno de ocupar um pas de gentios
para os Israelitas, avanaram armados e s com homens; as crianas e os fracos ficaram 
em casa, em lugar seguro (Josu, 1, 14). Faamos ns tambm assim:
ns, homens j firmes e robustos pela instruo, pelo discernimento e pela piedade crist, 
tomemos essas partes dos escritores pagos, mas no exponhamos
a juventude a esses perigos. Efetivamente, que faramos ns, se esses pagos trucidassem 
ou ferissem ou levassem como escravos os nossos filhos? Infelizmente,
tristes exemplos nos mostram quantos deles a filosofia dessa turba pag separou de Cristo 
e precipitou no atesmo. Seria, portanto, uma atitude cheia de
segurana enviar gente armada a roubar queles que, por disposio divina, esto feridos 
pela excomunho, todo o ouro e prata e qualquer outra coisa preciosa,
e fazer a sua distribuio pelos herdeiros do Senhor. Que Deus suscite espritos hericos 
que recolham todas as florzinhas de elegncia que se encontram
nesses vastos desertos e se comprazam em transport-las para os jardins da filosofia crist, 
para que no possa desejar-se algo de mais na nossa casa!

IV. Resposta.

22. Finalmente, se deve admitir-se algum dos pagos nas nossas escolas, seja Sneca, 
Epiteto, Plato e outros semelhantes, mestres de virtude e de honestidade,
nos quais h a notar um menor nmero de erros e de supersties. Era este o conselho do 
grande Erasmo, que aconselhava se alimentasse a juventude crist
com as prprias Sagradas Escrituras, e finalmente acrescentava: Se acaso ela deve 
demorar-se na literatura profana, quanto a mm, gostaria que se demorasse
naquela parte que est mais prxima da literatura revelada (Erasmo, no Compndio de 
Teologia)
[19].
Mas, mesmo estes escritores, no  bom coloc-los diante da juventude, se primeiro no 
foram expurgados de modo a tirar-lhes os nomes dos deuses e qualquer
outra coisa que saiba a superstio, e se os espritos dos jovens no esto j bem firmes no 
cristianismo. Efetivamente, Deus permitiu casar com virgens
pags, com a condio de se lhes rapar os cabelos e cortar as unhas (Deuteronmio, 21, 
12). Entendamo-nos, portanto, bem: no proibimos, de todo, aos cristos
os escritores dos pagos, para que conheam bem o privilgio celeste com que Cristo 
cumulou os crentes (note-se bem: os crentes): manusearo serpentes
e, se beberem alguma coisa mortfera, no lhes far mal (Marcos, 16, 18); mas queremos 
que se use de precauo, e pedimos e suplicamos que se no exponham
s serpentes os filhos de Deus, que no tenham ainda uma f bem firme, e que, com 
temerria segurana, se lhes no d ocasies de beber venenos. Disse
o esprito de Cristo que os filhos de Deus deviam ser alimentados com o leite sincero da 
palavra de Deus (Pedro, I, 2, 2; Timteo, II, 3, 15).

4a. objeo: da dificuldade da Sagrada Escritura para os primeiros anos.

23. Mas, aqueles que incautamente patrocinam a causa de Satans contra Cristo, dizem 
ainda: Os livros da Sagrada Escritura so demasiado difceis para a
juventude, e, por isso, deve meter-se-lhe nas mos, entretanto, outros livros, enquanto se 
lhe desenvolve a capacidade de discernimento.

I. Resposta.

     Primeira Resposta: Esta  uma afirmao de quem est em erro, ignora as Escrituras e 
no conhece a fora de Deus. O que demonstro de trs maneiras.
Primeiro:  conhecida a histria de Timteo, clebre msico de tempos passados, o qual, 
todas as vezes que recebia um novo aluno, costumava perguntar-lhe
se j tinha comeado a estudar com outro professor. Se respondia que no, recebia-o por 
um preo aceitvel; se respondia que sim, dobrava o preo, apresentando
a razo de que, para o ensinar, eram necessrios trabalhos dobrados: um para lhe fazer 
desaprender as coisas que havia aprendido mal; e outro para lhe
ensinar a arte verdadeira
[20].
Ns, porm, embora tenhamos declarado a todo o gnero humano que o nosso mestre e 
doutor  Jesus Cristo, alm do qual estamos proibidos de procurar outro
(Mateus, 17, 5; 23, 8), o qual disse: Deixai vir a mim as criancinhas e no as 
embaraceis (Marcos, 10, 14), haveremos de continuar, contra a vontade
dele, a conduzi-las a outro? A no ser que tenhamos receio que Cristo seja um ocioso que, 
com demasiada condescendncia, lhes ensine a sua moral; e, conseqentemente,
conduzimo-las daqui para alm, primeiro pelas oficinas dos outros e, como disse, pelas 
tabernas, pelas tascas e por todas as estrumeiras e, finalmente,
quando esto j estragadas e contaminadas, levamo-las a Cristo, para que as reforme  sua 
maneira. Mas em que se pensa menos que nestes jovens infelizes
e, quanto a este ponto, de todo inocentes? Ou devem necessariamente lutar durante toda a 
vida, tambm para desaprender as coisas de que foram embebidos
nos primeiros anos, ou so absolutamente repelidos para longe de Cristo e so 
abandonados a Satans, para que os forme ele? Com efeito, aquilo que  consagrado
a Moloc, no  a abominao de Deus? Estas coisas so horrendas, mas infelizmente so 
verdadeiras. Suplico, pela misericrdia de Deus, aos magistrados
cristos e aos chefes das Igrejas que no permitam que sejam oferecidos a Moloc os 
jovens cristos, nascidos para Cristo, e a Ele consagrados pelo batismo.

II. Resposta.

24.  falso aquilo que apregoam:
     A Escritura  demasiado sublime e est acima da capacidade da idade infantil. Ou ser 
que Deus no entendeu at que ponto a sua palavra  adaptada
ao nosso esprito? (Deuteronmio, 31, 11, 12, e 13). E David no afirma que a lei do 
Senhor ministra a sabedoria s crianas (Salmo 18, 8)? Note-se bem:
s crianas. E no diz S. Pedro que a palavra de Deus  o leite das crianas regeneradas, 
o qual lhes  dado para que, alimentadas com ele, cresam e
se desenvolvam (Pedro, I, 2, 2)? Eis o leite de Deus, fresqussimo, dulcssimo, 
salubrrimo, de modo que o alimento das criancinhas geradas para Deus
seja a palavra de Deus. Porque  que ento se h-de contradizer a Deus, tanto mais que a 
doutrina pag  uma comida dura de roer com os dentes, e at capaz
de quebrar os prprios dentes? Por isso, o Esprito Santo, pela boca de David, convida as 
criancinhas para a sua escola, dizendo: Vinde, filhos, ouvi-me
e eu vos ensinarei o temor de Deus (Salmo 33, 12).

III. Resposta.

25. Finalmente, confessamos que h, de fato, nas Sagradas Escrituras, lugares de grande 
profundidade, mas tais que neles os elefantes se afogam e os cordeiros
nadam, como escreveu elegantemente Santo Agostinho
[21],
ao querer notar a diferena entre os sbios do mundo, que presunosamente lem as 
Escrituras, e os filhos de Cristo, que delas se aproximam com nimo humilde
e dcil. E que necessidade h de ser conduzido imediatamente ao mar alto? Pode ir-se 
pouco a pouco. Primeiro importa costear os litorais da doutrina do
catecismo; depois, fazer breves travessias, aprendendo a histria sagrada, pensamentos 
morais e coisas semelhantes, que no ultrapassem a capacidade da
mente, mas a conduzam, pouco a pouco, a coisas mais elevadas, que se seguem. 
Finalmente, tornam-se aptos para nadar nos mistrios da f. Deste modo, instrudos
desde a infncia nas Sagradas Escrituras, preservar-se-o mais facilmente das corrupes 
mundanas e adquiriro aquela sabedoria que conduz  salvao,
por meio da f que est em Cristo Jesus (Timteo, II, 3, 15). Efetivamente, em quem se d 
a Deus e, sentando-se aos ps de Cristo, abre os ouvidos  sabedoria,
que vem do alto,  impossvel que no entre o esprito de graa, para lhe acender a luz da 
verdadeira inteligncia e para lhe mostrar claramente iluminados
os caminhos da salvao.

Redarguio.

26. Para terminar: aqueles autores (Terncio, Ccero, Virglio, etc.) que se pretende 
oferecer  juventude crist, em vez da Bblia, so tais como eles
afirmam que  a Sagrada Escritura: difceis e menos inteligveis que ela para a juventude. 
Efetivamente, no foram escritos para adolescentes, mas para
homens de juzo maduro, que se movem j no palco ou no foro. Aos outros, de nada 
aproveitam, como o provam os fatos.  certo, com efeito, que um homem
feito e que procede virilmente, numa s lio sobre Ccero aproveita mais que um 
adolescente que o aprenda todo, linha por linha. Porque  que ento se
no remete para um tempo oportuno o estudo destes clssicos importantes, se de fato so 
importantes? Mas  digno da maior considerao aquilo que disse
j, isto , que, nas escolas crists, se deve formar cidados para o cu, e no para o 
mundo, e que, por conseqncia, se lhes deve dar professores tais
que lhes incutam doutrinas celestes, de preferncia a doutrinas terrenas, doutrinas santas, 
de preferncia a doutrinas profanas.

Concluso.

27. Concluamos, portanto, com estas palavras anglicas: No pode a construo de um 
edifcio humano erguer-se naquele lugar, onde se comea a ver a cidade
do Altssimo (Livro IV de Esdras, 10, 54). E uma vez que Deus quer que sejamos 
rvores de justia e plantao de Jeov, onde ele seja glorificado (Isaas,
61, 3), no convm, portanto, que os nossos filhos sejam arbustos da plantao de 
Aristteles, ou de Plato, ou de Plauto, ou de Tlio, etc. De outro modo,
a sentena j foi proferida: Toda a planta que meu Pai celestial no plantou, ser 
arrancada pela raiz (Mateus, 15, 13). Toma precauo, e, se algum
quiser conduzir-te contra a cincia de Deus, no cedas, (Corntios, II, 10, 5).

Captulo XXVI

DA DISCIPLINA ESCOLAR

Nas escolas  necessria a disciplina.

1.  verdadeiro o seguinte provrbio usado na lngua popular boema: uma escola sem 
disciplina  um moinho sem gua. Efetivamente, assim como se se tira
a gua a um moinho, ele pra necessariamente, assim tambm, se na escola falta a 
disciplina, tudo afrouxa. Do mesmo modo, se um campo no  sachado, logo
nele nascem ciznia e outras ervas daninhas; se as rvores no so podadas, tornam-se 
selvagens e lanam rebentos inteis. Daqui no se segue que a escola
deva estar cheia de gritos, de pancadas e de varas, mas cheia de vigilncia e de ateno, da 
parte dos professores e da parte dos alunos. Com efeito, que
 a disciplina seno um processo adequado de tornar os discpulos verdadeiramente 
discpulos?

Quanto  disciplina devem observar-se trs coisas.

2. Ser, portanto, bom que o formador da juventude conhea, no s o fim, mas tambm a 
matria e a forma da disciplina, para que no ignore porqu, como
e quando deve usar uma sensata severidade.

1. Fim da disciplina.

3. Antes de tudo, creio que  doutrina aceite por todos que a disciplina se deve exercer 
contra quem exorbita, mas no porque exorbitou (efetivamente, o
fato no pode desfazer-se), mas para que no exorbite mais. Deve, por isso, aplicar-se a 
disciplina sem paixo, sem ira e sem dio, com tal candura e tal
sinceridade, que aquele mesmo a quem a aplicamos se aperceba de que a pena disciplinar 
se lhe aplica para seu bem e que  ditada pelo afeto paterno que
lhe dedicam aqueles que o dirigem, e por isso a deve receber com o mesmo nimo com 
que costuma tomar os remdios receitados pelo mdico.

2. Matria por causa da qual se deve aplicar a disciplina aos alunos. No por causa dos 
estudos.

4. No deve empregar-se uma disciplina severa no que se refere aos estudos e s letras, 
mas apenas nos aspectos ligados aos costumes. Com efeito, se os
estudos so adequadamente regulados (como ensinmos j), so, por si mesmos, atrativos 
para os espritos, e, pela sua doura, atraiem e encantam a todos
(se se excetuar os monstros de homens). Se acontece diversamente, a culpa no  dos 
alunos, mas dos professores. Mas, se se ignoram os mtodos de atrair
com arte os espritos, , sem dvida, em vo que se emprega a fora. Os aoites e as 
pancadas no tm nenhuma fora para inspirar, nos espritos, o amor
das letras, mas, ao contrrio, tm muita fora para gerar, na alma, o tdio e a averso 
contra elas. Por isso, quando se adverte que  alma se apega a
doena do tdio, esta deve ser afastada com dieta e, depois, com remdios doces, em vez 
de a tornar mais violenta com o emprego de remdios violentos.
Desta prudncia d-nos mostras o prprio sol que, no princpio da primavera, no incide 
logo sobre as plantas novinhas e tenras, nem, logo desde o princpio,
as estreita e queima com o seu calor, mas aquecendo-as pouco a pouco, insensivelmente, 
f-las crescer e ganhar vigor; e, finalmente, quando j so adultas
e amadurecem os seus frutos e as suas sementes, lana-se sobre elas com toda a sua fora. 
O jardineiro usa dos mesmos cuidados, tratando com mais delicadeza
as plantas novinhas, com mais ternura as que so ainda tenrinhas, e no faz sentir a 
tesoura, nem a navalha, nem a foice, nem as feridas s plantas que
ainda as no podem suportar. E o msico, se a guitarra, ou a harpa, ou o violino est 
desafinado, no bate nas cordas com o punho ou com um pau, nem o
atira contra uma parede, mas procede com arte at que as tenha bem afinadas.  desta 
maneira que deve chegar-se a criar, nos alunos, um amor harmonioso
dos estudos, se se quer evitar que a sua indiferena se transforme em hostilidade, e a sua 
apatia em estupidez.

Como se devem estimular para os estudos.

5. Se, porm, por vezes,  necessrio espevitar e estimular, o efeito pode ser obtido por 
outros meios e melhores que as pancadas: s vezes, com uma palavra
mais spera e com uma repreenso dada em pblico; outras vezes, elogiando os outros: 
olha como esto atentos este teu colega e aquele, e como entendem
bem todas as coisas! Porque  que tu s assim preguioso?; outras vezes, suscitando o 
riso: Ento tu no entendes uma coisa to fcil? Andas com o esprito
a passear? Podem ainda estabelecer-se desafios ou sabatinas semanais, ou ao menos 
mensais, para ver a quem cabe o primeiro lugar ou a honra de um
elogio, como ensinmos j noutro lugar, desde que se veja que isto no vai resultar num 
mero divertimento ou numa brincadeira, e por isso intil, mas para
que o desejo do elogio e o medo do vituprio e da humilhao estimulem verdadeiramente 
 aplicao. Por esta razo,  absolutamente necessrio que o professor
assista ao desafio e o dirija com seriedade e sem artifcios, censure e repreenda os mais 
negligentes e elogie publicamente os mais aplicados.

Disciplina por causa dos costumes.
1 2 3

6. No entanto, deve aplicar-se uma disciplina mais severa e mais rgida queles que 
exorbitam no domnio dos costumes. Ou seja: 1. Em caso de qualquer ato
de impiedade, como a blasfmia, a obscenidade, e todas as faltas que se cometem 
abertamente contra a lei de Deus. 2. Em caso de contumcia e de malcia
obstinada, como quando algum aluno despreza as ordens do professor ou de qualquer 
outro superior, e quando sabe o que deve fazer, mas, conscientemente,
o no faz. 3. Em caso de soberba e de vaidade, ou ainda de inveja e de preguia, como 
quando um aluno, solicitado por um colega para lhe ensinar qualquer
coisa, se recusa a ajud-lo.

Porque razo se deve proceder assim.

7. Com efeito, aqueles delitos do primeiro gnero ofendem a majestade de Deus; os do 
segundo gnero arruinam a base de todas as virtudes (humildade e docilidade);
os do terceiro gnero inibem e retardam os progressos rpidos nos estudos. O delito contra 
Deus  um desregramento que deve ser expiado com um durssimo
castigo; aquele que algum comete contra os homens e contra si mesmo  uma iniquidade 
a que se deve remediar com uma correo dura; aquele que se comete
contra Prisciano
[1]
 uma ndoa que se deve tirar com a esponja da repreenso. Numa palavra, a disciplina 
deve tender no sentido de que, em tudo e sempre, se estimule e se
fortalea, atravs de um exerccio e de uma prtica constante, a reverncia para com Deus, 
o respeito para com o prximo e o desejo de cumprir os deveres
e as obrigaes da vida.

3. A forma da disciplina  tomada do sol.

8. Um timo mtodo de regular a disciplina -nos ensinado pelo Sol, o qual ministra s 
coisas que crescem: 1. sempre, luz e calor; 2. freqentemente, chuva
e vento; 3. raras vezes, raios e troves, embora estas coisas tenham tambm a sua 
utilidade.

Como deve proceder-se para utilizar este modelo.

9.  imitao do sol, o diretor da escola esforar-se- por levar a juventude a cumprir o 
seu dever:

1.

I. Com exemplos constantes, mostrando que  um modelo vivo de todas aquelas coisas 
para as quais os alunos devem preparar-se. Se falta isto, tudo o resto
 vo.

2.

II. Com palavras de formao, de exortao e de censura, com a condio de que, quer 
ensine, quer admoeste, quer mande, quer repreenda, mostre sempre bem
claramente que faz tudo com amor paternal, com inteno de edificar a todos e no de 
arruinar seja quem for. Se o discpulo no v bem claramente este
amor e no est dele convencido, facilmente, no s despreza a disciplina, como at se 
obstina contra ela.

3.

III. Todavia, se houver algum aluno com um esprito to infeliz para quem estes remdios 
suaves no sejam suficientes, importa recorrer a remdios mais
violentos, para que nada do que foi planeado seja abandonado, e antes de ele ser dado por 
incorregvel, como um terreno imprprio para qualquer cultura,
do qual nada h a esperar. Talvez, acerca de alguns, ainda hoje seja verdadeiro o seguinte 
provrbio: o frgio no se corrige seno  fora de pancadas
[2].
Ao menos, esta disciplina, se no aproveitar quele a quem  aplicada, aproveitar, 
todavia, aos outros, pelo medo que lhes incute, desde que se tenha o
cuidado de no recorrer, por qualquer motivo, como freqentemente acontece, a remdios 
extremos, para que os remdios extremos se no esgotem antes dos
casos extremos.

Resumo.

10. O resumo do que se disse e do que vai dizer-se seja o seguinte: a disciplina tenda para 
que, naqueles que preparamos para Deus e para a Igreja, formemos
e confirmemos constantemente a tmpera das inclinaes, de modo a tornar tal tmpera 
semelhante quela que Deus exige aos seus filhos, confiados  escola
de Cristo, para que exultem com tremor (Salmo 2, 11), e trabalhando na sua salvao 
com temor e tremor (Filipenses, 2, 12), gozem no Senhor (Ibid, 2,
2) isto , para que possam e saibam, no s amar, como tambm reverenciar os seus 
formadores, e no s se deixem conduzir de boa vontade onde devem ser
conduzidos, mas at desejem vivamente ser conduzidos. Esta tmpera das inclinaes no 
pode obter-se com meios diversos daqueles que apontmos j: bons
exemplos, palavras carinhosas, amor constantemente sincero e manifesto; somente em 
casos muito extraordinrios, fulminando e trovejando abertamente, mas,
mesmo ento, sempre com a inteno de que a severidade termine sempre no amor, se  
isso possvel.

Por uma aplicao semelhante.

11. Efetivamente, quem viu alguma vez (seja-me ainda lcito esclarecer este ponto com 
um exemplo) um ourives formar uma pequena imagem s  fora de golpes?
Ningum. As imagens pequenas fazem-se melhor, fundindo-as que martelando-as. E se 
lhe fica preso algum pedacito de metal suprfluo e intil, o artista
habilidoso no o bate impetuosamente com o martelo, mas extrai-o suavemente com o 
martelinho, ou desprende-o com a lima, ou corta-o com a pina, e, fazendo
tudo com cautela, acaba por polir e alisar a sua obra. E julgamos ns poder formar uma 
pequena imagem do Deus vivo, uma criatura racional, com impetos
irracionais?

Outro exemplo.

12. Tambm o pescador que pensou apanhar peixes em guas mais profundas, com uma 
rede maior, no prende  rede apenas pedaos de chumbo que a mergulhem
na gua e a obriguem a arrastar-se pelo fundo, mas, do lado oposto, prende-lhe pedaos de 
cortia que a mantenham  superfcie da gua. De modo semelhante,
quem resolveu fazer uma pesca de virtudes com a juventude, por um lado, dever domin-
la pela severidade para a tornar temente, humilde e obediente, e,
por outro lado, pela afabilidade, dever conduzi-la ao amor e ao zelo alegre. Felizes os 
artfices desta tmpera! Feliz a juventude que tem tais mestres!

13. Tem aqui cabimento a opinio do eminente Eilhard Lubin, Doutor em Teologia, o 
qual, no prefcio ao Novo Testamento, editado em grego, latim e alemo,
dissertando acerca da reforma das escolas, escreveu estas palavras: A outra coisa  que 
tudo o que se prope  juventude, que seja adaptado  sua capacidade,
lhe seja exigido de modo que nada faam contra a vontade e  fora, mas, tanto quanto  
possvel, espontaneamente e de boa vontade, e com verdadeiro prazer
do esprito. Por isso, sou de opinio de que as varas e as vergastas, instrumentos servs e 
de modo algum convenientes para pessoas livres, se no empreguem
nas escolas, mas sejam afastadas para longe, e sejam empregadas com escravos ou com 
maus servos de esprito servil. Estes devem ser notados a tempo e devem
ser afastados das escolas, igualmente a tempo, no s por causa da sua ndole, prpria de 
espritos servs, mas tambm por causa da sua perversidade, que
quase sempre anda emparelhada com aquela; e se a estas pssimas qualidades se 
acrescentam os meios do saber e das artes, ento estas e aqueles transformam-se
em armas de vileza e sero espadas nas mos de loucos furiosos que, com elas, se 
degolaro a si mesmos e aos outros. H, todavia, outros gneros de penas
que podem ser aplicadas aos jovens que nasceram livres e de alma liberal, etc.
[3].

Captulo XXVII

AS INSTITUIES ESCOLARES
DEVEM SER DE QUATRO GRAUS,
EM CONFORMIDADE COM A IDADE
E COM O APROVEITAMENTO

A prudncia dos filhos do sculo deve ser imitada pelos filhos da luz.

1. Os artesos comeam por fixar aos seus aprendizes um certo tempo (dois anos, trs 
anos, etc., at sete anos, conforme a sua arte  mais sutil ou mais
complexa), e, dentro desse espao de tempo, o curso das lies deve estar terminado; e 
cada um, depois de instrudo em tudo o que diz respeito quela arte,
de aprendiz torna-se oficial da sua arte, e depois mestre. Convm, portanto, fazer o 
mesmo nas nossas escolas, e estabelecer para as artes, para as cincias
e para as lnguas, um determinado espao de tempo, de modo que, dentro desse perodo, 
os alunos terminem todo o curso geral dos estudos e saiam dessas
oficinas de humanidade homens verdadeiramente instrudos, verdadeiramente 
morigerados e verdadeiramente piedosos.

Para uma educao perfeita do homem todo, requer-se todo o tempo da juventude: 24 
anos.

2. Para obter este escopo, tomamos, para exercitar os espritos, todo o tempo da juventude 
(efetivamente, no nosso caso, no se trata de aprender uma s
arte, mas o complexo de todas as artes liberais, juntamente com todas as cincias e 
algumas lnguas), desde a infncia at  idade viril, ou seja 24 anos,
repartidos em perodos determinados, os quais se devem dividir tomando por guia a 
natureza. Efetivamente, a experincia mostra que o corpo do homem, em
geral, cresce em estatura, at  idade de vinte e cinco anos, e no at mais tarde; depois, 
robustece-se, adquirindo vigor. E este crescer lento (com efeito,
o corpo de certos animais, muito maior, em alguns meses, ou ento em um ano ou dois, 
atinge o seu mximo desenvolvimento)  de crer que a divina providncia
o tenha reservado  natureza humana, precisamente para que o homem tenha todo o tempo 
necessrio para se preparar para realizar as funes da vida.

Deve ser repartido em quatro escolas.

3. Dividiremos, portanto, em quatro partes distintas os anos da idade ascendente: infncia, 
puercia, adolescncia e juventude, atribuindo a cada uma destas
partes seis anos e uma escola peculiar, de modo que:

I. O regao materno seja a escola da infncia;
II. A escola primria (ludus literarius) , ou escola pblica de lngua verncula, seja a 
escola da puercia;
III. A escola de latim ou o ginsio seja a escola da adolescncia;
IV. A Academia e as viagens sejam a escola da juventude.

     E  necessrio que a escola materna exista em todas as casas; a escola de lngua 
verncula, em todas as comunas, vilas e aldeias; o ginsio, em todas
as cidades; a Academia em todos os reinos e at nas provncias mais importantes.

Os trabalhos de cada uma destas escolas no devem diferir quanto  matria, mas quanto  
forma.

4. Embora estas escolas sejam diversas, no queremos, todavia, que nelas se aprendam 
coisas diversas, mas as mesmas coisas de maneira diversa, ou seja,
todas aquelas coisas que podem tornar os homens verdadeiramente homens, os cristos 
verdadeiramente cristos, os sbios verdadeiramente sbios, mas segundo
a idade e o grau da preparao antecedente, e conduzindo sempre mais acima. Segundo as 
leis do mtodo natural, as disciplinas no devem ser ensinadas separadamente,
mas sempre todas em conjunto, da mesma maneira que uma rvore cresce sempre toda, 
em cada uma das suas partes, e isto durante este ano, para o ano que
vem e at daqui a cem anos, enquanto estiver verdejante.

Diferena das escolas em razo da forma dos exerccios.

5. Haver, todavia, uma trplice diferena. Primeiro, porque nas primeiras escolas todas as 
coisas sero ensinadas de modo geral e rudimentar; nas escolas
seguintes, tudo ser ensinado de maneira mais particularizada e distinta. Da mesma 
maneira que uma rvore que, em cada ano, se expande em novas razes
e em novos ramos, e assim cada vez mais se revigora e cada vez mais frutos produz.

1. Porque numa escola importa ensinar de uma maneira, e noutra de outra.
2. Porque numa escola  necessrio insistir mais numas coisas, e noutras.

6. Segundo, porque, na primeira escola, na materna, se devem exercitar sobretudo os 
sentidos externos, para que se habituem a aplicar-se bem aos prprios
objetos e a conhec-los distintamente. Na escola primria, devem exercitar-se os sentidos 
internos, a imaginao e a memria, juntamente com os seus rgos
executores, as mos e a lngua, lendo, escrevendo, pintando, cantando, contando, 
medindo, pesando, imprimindo vrias coisas na memria, etc. No ginsio,
com o estudo da dialtica, da gramtica, da retrica e das outras cincias positivas e artes, 
ensinadas terica e praticamente, formar-se- a inteligncia
e o juzo de todas as coisas recolhidas atravs dos sentidos. Finalmente, as Academias 
formaro sobretudo aquelas coisas que dizem respeito  vontade,
ou seja, as faculdades que ensinam a conservar a harmonia (e, quando esta  perturbada, a 
refaz-la), servindo-se da Teologia para a alma, da filosofia
para a mente, da medicina para as funes vitais do corpo e da jurisprudncia para os bens 
exteriores.

Motivo desta gradao.

7. Com efeito, o verdadeiro mtodo de formar adequadamente os espritos consiste 
precisamente em que, primeiro, as coisas sejam apresentadas aos sentidos
externos, aos quais impressionam imediatamente. E quando a sensao externa imprimiu 
nos sentidos internos as imagens das coisas, estes, excitados por
essas imagens, devem aprender a exprimi-las e a reproduzi-las, tanto interiormente por 
meio da reminiscncia, como exteriormente por meio das mos e da
lngua. Depois destes trabalhos preparatrios, entre a inteligncia em ao, e, por meio de 
minuciosas observaes, confronte todas as coisas entre si
e pondere-as, para lhes apreender as razes, o que formar a verdadeira inteligncia das 
coisas e o verdadeiro juzo acerca das mesmas. Finalmente, habitue-se
a vontade (que  o centro do homem e a diretora de todas as suas aes) a exercer 
legitimamente o seu imprio sobre todas as coisas. Querer formar a vontade
antes da inteligncia (como querer formar a inteligncia antes da imaginao e a 
imaginao antes dos sentidos)  trabalho perdido. Mas, infelizmente,
procedem assim aqueles que ensinam s crianas a lgica, a potica, a retrica e a tica, 
antes das coisas reais e sensveis; agem como quem quisesse fazer
danar uma criancinha de dois anos, que ainda mal se sustem em p. Mantemo-nos firmes 
na nossa opinio de, em tudo e sempre, tomar a natureza por guia;
e assim como esta manifesta as suas faculdades, umas aps as outras, assim tambm ns 
somos de opinio de que, para o desenvolvimento de uma, devemos esperar
pelo desenvolvimento da outra.

3. Porque uns se exercitam nestas, e outros naquelas.

8. A terceira diferena reside em que as escolas inferiores, a materna e a primria, 
exercitam a juventude de ambos os sexos; a escola de latim deve educar
sobretudo, de modo perfeito, os adolescentes que aspiram a coisas mais altas que os 
trabalhos manuais; e as Academias devem formar os doutores e os futuros
condutores dos outros, para que, nem s igrejas, nem s escolas, nem s administraes 
pblicas, faltem dirigentes competentes.

As quatro escolas correspondem s quatro pares do ano.

9. Estas quatro espcies de escolas podem, no sem razo, comparar-se s quatro partes 
do ano: a escola materna faz lembrar a amena primavera, embelezada
de rebentos e de florinhas de vria fragrncia; a escola primria representa o vero, que 
nos mostra as espigas cheias e ainda certos frutos precoces;
o ginsio corresponde ao outono, que recolhe os ricos frutos dos campos, dos jardins e das 
vinhas, e os guarda nos armazns da mente; e, finalmente, a
academia deve assemelhar-se ao inverno que prepara, para os vrios usos, os frutos 
recolhidos, para que possa ter-se com que viver durante todo o resto
da vida.

Tambm as rvores crescem gradualmente em quatro tempos.

10. Esta maneira de instruir e educar acuradamente a juventude pode comparar-se tambm 
ao cultivo dos jardins. Com efeito, as criancinhas de seis anos,
bem exercitadas pelos cuidados dos pais e das amas, parecem semelhantes s arvorezinhas 
que foram carinhosamente plantadas, enraizaram bem e comeam a
lanar pequeninos ramos. Os adolescentezinhos de doze anos assemelham-se s 
arvorezinhas que j tm ramos e lanam rebentos frutferos; mas no se v ainda
bem que  que contm esses rebentos; ver-se- em breve. Os adolescentes de dezoito 
anos, que possuem j conhecimento pleno das lnguas e das artes, assemelham-se
s plantas que esto todas revestidas de flores e, com isso, oferecem um belo espetculo 
aos olhos e um agradvel odor ao nariz e prometem frutos saborosos
para a boca. Finalmente, os jovens de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, j plenamente 
cultivados com os estudos acadmicos, lembram as rvores cheias
de frutos, os quais  tempo de colher e de utilizar de vrias maneiras.
     Mas cada uma destas coisas deve ser exposta de uma maneira mais pormenorizada.

Captulo XXVIII

PLANO
DA ESCOLA MATERNA

Devem procurar-se primeiro as coisas principais.

1. Todos os ramos principais que uma rvore vir a ter, ela f-los despontar do seu tronco, 
logo nos primeiros anos, de tal maneira que, depois, apenas
 necessrio que eles cresam e se desenvolvam. Do mesmo modo, todas as coisas, em 
que queremos instruir um homem para utilidade de toda a vida, devero
ser-lhe plantadas logo nesta primeira escola. Que isto  possvel, tornar-se- claro a quem 
percorrer todos os gneros de estudos. Mostr-lo-emos com poucas
palavras, resumindo todas essas coisas em vinte pontos
[1].

Catlogo das matrias a serem ensinadas nestas escolas.
I.

2. A chamada Metafsica tem precisamente aqui o seu incio, pois todas as coisas, a 
princpio, so apreendidas pelas crianas com conceitos gerais e confusos:
enquanto vem alguma coisa, ouvem, saboreiam, apalpam, advertem que alguma coisa 
existe, mas no julgando que coisa seja em espcie, e s mais tarde, pouco
a pouco, distinguindo o que seja. Comeam, portanto, a entender os seguintes termos 
gerais: alguma coisa, nada, existe, no existe, desta maneira, de outra
maneira, onde, quando, etc., semelhante, dissemelhante, etc., as quais coisas so 
precisamente os fundamentos da cincia metafsica.

II.

3. Nas cincias fsicas, nestes primeiros seis anos, pode conduzir-se a criana de modo a 
no ignorar o que seja a gua, a terra, o ar, o fogo, a chuva,
a neve, o gelo, a pedra, o ferro, a planta, a erva, a ave, o peixe, o boi, etc. E deve tambm 
aprender a nomenclatura e o uso dos membros do seu prprio
corpo, ao menos dos externos. Estas coisas aprendem-se facilmente nesta idade e lanam 
os fundamentos da cincia natural.

III.

4. A criana entende os rudimentos da tica, quando comea a distinguir e a designar a luz 
e as trevas e a sombra, e as diferenas entre as vrias cores:
branco, preto, vermelho, etc.

IV.

5. Ser o incio da astronomia, conhecer aquilo a que se chama cu, sol, lua, estrelas, e 
notar que estas coisas nascem e se pem todos os dias.

V.

6. Aprende os primrdios da geografia, quando comea a entender o que  um monte, um 
vale, um campo, um rio, uma aldeia, um castelo, uma cidade, segundo
as ocasies que lhe oferece o lugar onde  educada.

VI.

7. Lanam-se os fundamentos da cronologia, se a criana entende o que significa hora, 
dia, semana, ano, e o que significa vero, inverno etc., e ontem,
no dia anterior, amanh, depois de amanh, etc.

VII.

8. Constitui o incio da histria poder recordar-se e passar em resenha os fatos acontecidos 
h pouco, como  que tal ou tal indivduo se comportou nesta
ou naquela situao, embora estas coisas sejam tratadas puerilmente.

VIII.

9. Lanam-se as razes da aritmtica, se a criana entende que significa pouco e muito, se 
sabe contar ainda que seja at dez, se nota que trs so mais
que dois e que trs mais um so quatro, etc.

IX.

10. Possuiro os rudimentos da geometria, se entenderem a que  que chamamos grande e 
pequeno, comprido e breve, largo e estreito, grosso e fino. Igualmente,
se entendem a que  que chamamos linha, cruz, crculo, etc, e vem medir certas coisas 
com o palmo, com o brao, com os dedos, etc.

X.

11. Iniciam tambm o estudo da esttica, se vem pesar as coisas com a balana, e 
aprendem a pesar qualquer coisa com a mo, para saberem se  pesada ou
leve.

XI.

12. Comeam o tirocnio das artes mecnicas, se se lhes permite, e at se lhes ensina a 
fazer qualquer coisa: por exemplo, transportar uma coisa daqui para
alm, ordenar as coisas desta ou daquela maneira, construir e destruir, unir e desunir, etc., 
como s crianas, nesta idade, d prazer. Estas coisas, como
no so seno tentativas para produzir coisas segundo o modelo da natureza, no s no 
devem ser proibidas, mas at devem ser fomentadas e prudentemente
dirigidas.

XII.

13. A arte dialtica da razo desponta j aqui e lana os seus grmens: observando que as 
conversas se fazem por meio de perguntas e de respostas, as crianas
habituam-se tambm a perguntar qualquer coisa e a responder s perguntas que lhes so 
feitas. Importa apenas ensinar-lhes a interrogar aptamente e a responder
diretamente s perguntas, para que se habituem a fixar o pensamento no tema proposto, e 
a no divagar.

XIII.

14. A gramtica infantil consistir em pronunciar corretamente a lngua materna, isto , 
em proferir articuladamente as letras, as slabas e as palavras
[2].

XIV.

15. Iniciam o estudo da retrica, se imitam os tropos e as figuras contidas nas conversas 
familiares. Em primeiro lugar, importa ensinar-lhes que o gesto
deve corresponder s palavras e que o tom da voz deve corresponder  qualidade da 
conversa, de modo que aprendam a pronunciar com voz mais alta as ltimas
slabas das perguntas e, com voz mais baixa, as ltimas slabas das respostas, e coisas 
semelhantes, que a prpria natureza como que ensina; e, se qualquer
coisa passa das medidas, pode, com prudente mtodo formativo, corrigir-se facilmente.

XV.

16. A criana adquirir o gosto pela poesia, se, nesta primeira idade, lhe ensinarem muitos 
pequenos poemas, sobretudo de sentido moral, quer rtmicos,
quer mtricos, de que esto bem providas todas as lnguas.

XVI.

17. Adquirir os primrdios da msica, aprendendo alguns dos mais fceis salmos e hinos 
sagrados, o que ter lugar nos exerccios quotidianos de piedade.

XVII.

18. Os rudimentos de economia domstica consistiro em aprender de cor o nome das 
pessoas de que consta a familia, ou seja, quem se chama pai, me, criada,
criado, inquilino, etc., e igualmente aprendendo os nomes das partes da casa: trio, 
cozinha, quarto, estbulo, etc., e dos utenslios domsticos: mesa,
prato, faca, copo, etc., juntamente com o seu uso.

XVIII.

19. Quanto  poltica, a criana inicia-se nela mais dificilmente, pois os conhecimentos 
desta idade com dificuldade se projetam fora de casa. Pode, todavia,
ser iniciada, se lhe fazem observar que certas pessoas da cidade se reunem na Cmara, as 
quais so chamadas Senadores; e, de entre estes, um tem o nome
de Presidente, outro o de Secretrio, outro o de Notrio, etc.

XIX.

20. A moral (tica)  a disciplina que, na escola materna, dever, antes de todas, receber 
fundamentos solidssimos, se queremos que as virtudes sejam como
que congnitas  juventude bem formada. Por exemplo
[3]:

(1) a temperana: observe-se a capacidade do estmago, e nunca se permita s crianas 
que tomem alimentos, alm dos necessrios para saciar a fome e a sede.
(2) a limpeza na mesa, nos vestidos e tambm nos brinquedos e nos objetos de adorno das 
crianas deve ser esmerada.
(3) a venerao devida para com os superiores.
(4) a obedincia, sempre pronta e solcita, s ordens e s proibies.
(5) a veracidade religiosa em todas as coisas, de tal maneira que nunca se lhes permita que 
mintam ou enganem, quer a brincar quer a srio (pois a brincadeira,
em coisas no boas, pode acabar por degenerar num dano srio).
(6) aprendam a justia, no tocando, nem levando para casa, nem guardando para si, nem 
ocultando nada sem licena do dono, e nada fazendo que cause tristeza
ou inveja a outrem.
(7) eduquem-se sobretudo para a caridade, para que estejam sempre prontas a distribuir 
pelas outras daquilo que tm, todas as vezes que algum, impelido
pela necessidade, a elas se dirige; mais ainda, a faz-lo espontaneamente. Com efeito,  
esta a virtude mais crist e recomendada acima de todas pelo esprito
de Cristo; se, principalmente com ela, na frigidssima velhice do mundo presente, se 
aquecer o corao dos homens, conseguiremos a salvao da Igreja.
(8) as crianas devem ser tambm exercitadas em, trabalhos e ocupaes contnuas, quer 
de carter srio quer de carter ldico, para que a ociosidade se
lhes torne insuportvel.
(9) habituem-se as crianas, no somente a no tagarelarem constantemente e a no 
dizerem tudo o que lhes vem  boca, mas tambm a guardar silncio quando
a ocasio o exige, como  o caso quando outros falam, quando est presente alguma 
pessoa de elevada categoria, quando se produz algum acontecimento que
exige o silncio.
(10) Nesta primeira idade, devem ser formadas sobretudo na pacincia, da qual tero 
necessidade durante toda a vida; de tal maneira que, antes que as paixes
irrompam mais violentamente e lancem razes, sejam domadas, e as crianas se habituem 
a deixarem-se guiar pela razo e no pela paixo, e a refrearem e
a no darem largas  ira, etc.
(11) a cortesia e solicitude em servir os outros  o mais belo ornamento da juventude e, 
mais ainda, da vida inteira. Devem, por isso, ser nela exercitadas,
durante estes primeiros seis anos, para que sempre que se lhes oferea a ocasio de servir 
e de ser agradvel aos outros, o faam imediatamente.
(12) Deve acrescentar-se tambm a urbanidade das atitudes, para que nada faam 
ineptamente ou tolamente, mas faam tudo com a devida modstia. A esta virtude
pertencem a afabilidade das atitudes, cumprimentar, responder aos cumprimentos, pedir 
por favor quando necessitam de qualquer coisa, dizer muito obrigado
quando recebem qualquer benefcio, fazendo uma modesta inclinao de cabea, beijando 
as mos, e coisas semelhantes.

XX.

21. Finalmente, as crianas de seis anos podem ser introduzidas no estudo da religio e da 
piedade
[4],
de modo a aprenderem de cor os principais pontos do catecismo e os fundamentos do 
cristianismo e, tanto quanto a idade o permite, os comecem a entender
e a pr em prtica. E assim, compenetradas do sentimento da divindade, vendo Deus 
presente em toda a parte e considerando-o como vingador justssimo do
mal, se habituem a no cometer nada de mal; e, ao contrrio, amando-o, venerando-o, 
invocando-o, louvando-o, como remunerador benignssimo do bem, e dele
esperando misericrdia na vida e na morte, se habituem a no deixar de fazer nada de 
quanto bem se aperceberam que lhe agrada e a viver sob o olhar de
Deus e (como diz a Escritura) a andar com Deus
[5].

Utilidade da infncia formada desta maneira.

22. Assim, poder dizer-se dos filhos dos cristos aquilo que o evangelista disse do 
prprio Cristo: que ele crescia em sabedoria, em idade e em graa,
diante de Deus e dos homens (Lucas, 2, 52).

Porque  que, a este propsito, se no pode prescrever nada de mais pormenorizado.

23. Estas sero as metas, estas sero as tarefas da escola materna. Mas no se pode 
explicar mais pormenorizadamente, ou seja, no se pode mostrar por meio
de quadros que programa se deva desenvolver em cada ano, em cada ms, em cada dia 
(como mostraremos ser necessrio na escola primria e na de latim)
[6];
e no se pode pormenorizar, como no programa das escolas que vm a seguir, por duas 
razes. Em primeiro lugar, porque os pais, ocupados com os negcios
domsticos, no podem observar to estritamente a ordem como nas escolas pblicas, 
onde se no faz outra coisa seno educar a juventude. Em segundo lugar,
porque o engenho e o desejo de aprender se manifestam de modo muito diverso nas 
crianas, sendo umas mais precoces e outras mais lentas. Algumas crianas
de dois anos falam j desenvoltarnente e so capazes de tudo; outras, dificilmente, aos 
cinco anos, esto ao nvel daquelas. Por isso,  necessrio confiar
inteiramente  prudncia dos pais a formao das criancinhas desta primeira idade.

Salvo duas grandes ajudas:
I. O informador da escola materna.

24. Pode, todavia, fazer-se utilmente duas coisas.
     Primeira: compilar um livro de conselhos para os pais e para as amas, para que no 
ignorem os seus deveres. Neste livro, devem expor-se, uma por uma,
todas as coisas em que  necessrio formar a infncia, e dizer de que ocasies deve 
aproveitar-se para agir, e quais as maneiras e as regras que devem
observar-se na fala e no gesto para incutir nas crianas as primeiras noes elementares. 
Um opsculo deste gnero (sob o ttulo O informador da escola
materna)
[7]
ser por ns escrito.

II. O exercitador dos sentidos.

25. Outra coisa que poder ser til aos exerccios da escola materna ser um Livrinho de 
Imagens, a colocar nas mos das prprias crianas. Com efeito,
como nesta escola se deve sobretudo exercitar os sentidos a receber as impresses das 
coisas mais fceis, e a vista ocupa um lugar importante entre os
sentidos, conseguiremos o nosso objetivo se colocarmos sob os olhos das criancinhas 
todas as primeiras noes de histria natural, de tica, de astronomia,
de geometria, etc., mesmo segundo a ordem do programa didtico, h pouco delineado. 
Neste livro, com efeito, pode pintar-se montes, vales, plantas, aves,
peixes, cavalos, bois, ovelhas, homens de vrias idades e de vrias estaturas, e 
principalmente a luz e as trevas, o cu com o sol, a lua, as estrelas,
as nuvens, as cores fundamentais, e tambm os utenslios domsticos e os dos artesos: 
panelas, frigideiras, talhas, martelos, tesouras, etc. De igual
modo, podem pintar-se pessoas com os seus distintivos, como um rei com o cetro e a 
coroa, um soldado com as armas, um cocheiro com o coche, um lavrador
com a charrua, um carteiro a distribuir cartas, e, em cima de cada figura, uma inscrio a 
indicar o seu significado: cavalo, boi, co, rvore etc.
[8].

Utilidade deste livro.

26. A utilidade deste livro  trplice: 1. ajuda a imprimir as coisas na mente das crianas, 
como dissemos j; 2. atrai os espritos tenros a procurar em
qualquer outro livro coisas para se divertir; 3. faz aprender a ler mais facilmente, pois, 
como as figuras das coisas tm o seu nome escrito por cima,
poder comear-se a ensinar a ler, ensinando a ler as letras desses nomes.

Captulo XXIX

PLANO
DA ESCOLA
DE LNGUA NACIONAL

A escola de lngua nacional deve ser anterior  de latim.

1. No captulo IX, demonstrei que toda a juventude, de um e outro sexo, deve ser enviada 
s escolas pblicas. Agora acrescento que toda a juventude deve
ser confiada, primeiro, s escolas de lngua nacional, embora alguns sejam de opinio 
contrria. Zepper, no livro 1, cap. 7, da sua Poltica eclesiastica
[1],
e Alsted, no cap. 6 da sua Escolstica
[2],
aconselham a mandar s escolas de lngua nacional apenas as raparigas e os rapazes que 
viro a dedicar-se s artes mecnicas; mas aconselham a enviar,
no  escola de lngua nacional, mas diretamente  escola de latim, as crianas que, 
segundo a inteno de seus pais, aspiram a uma mais profunda cultura
do esprito. Alsted acrescenta: discorde quem quiser; eu proponho o caminho e o 
mtodo que gostaria de ver seguido por aqueles que desejaria o mais bem
instrudos possvel. Ora, o mtodo da nossa Didtica obriga-nos a discordar.

Porque:

2. Discordamos porque: 1. queremos dar a todos aqueles que nasceram homens uma 
instruo geral capaz de educar todas as faculdades humanas. Importa, portanto,
conduzi-los todos, em conjunto, at onde  possvel conduzi-los todos em conjunto, a fim 
de que todos se animem, se encorajem e se estimulem mutuamente;
2. queremos que todos se formem em todas as virtudes, e, por isso, tambm na modstia, 
na concrdia e no servio mtuo. No devem, portanto, separar-se
to cedo uns dos outros, nem deve oferecer-se a alguns ocasio de se julgarem mais que 
outros e de os desprezarem; 3. querer determinar,  volta dos seis
anos, qual a vocao de cada um, se para os estudos ou para os trabalhos e artes manuais, 
parece um verdadeiro ato de precipitao, pois, naquela idade,
no se manifestam ainda bem nem as foras do engenho nem as inclinaes da alma; e 
umas e outras desenvolvem-se muito melhor depois; precisamente como
se no pode ver quais as ervas que se devem arrancar e quais as que se devem conservar 
num jardim, enquanto so novinhas, mas pode ver-se quando esto
j crescidas. E no se abra a escola de latim apenas aos filhos dos ricos, ou dos nobres, ou 
apenas daqueles que exercem as magistraturas, porque no so
somente os filhos destes que nascem para subir aos altos graus nas magistraturas, mas 
tambm os outros, que, por isso, no devem ser postos de parte como
gente sem esperana. O esprito sopra onde quer, e nem sempre comea a soprar em 
determinado tempo.

3. A quarta razo , para ns, que o nosso mtodo universal no aspira apenas a possuir 
essa ninfa, geralmente objeto de um ardente amor, que  a lngua
latina, mas procura tambm o caminho a seguir para que possam dominar-se igualmente 
as lnguas vernculas de todos os povos (para que todos os espritos
louvem, cada vez mais, o Senhor). Seria inoportuno perturbar uma tal inteno com um 
salto to desmedido por cima de toda a lngua nacional.

4. Em quinto lugar, querer ensinar uma lngua estrangeira a quem no domina ainda a sua 
lngua nacional,  como querer ensinar equitao a quem no sabe
ainda caminhar.  prefervel, portanto, fazer as coisas separadamente, como 
demonstrmos no captulo XVI, fundamento IV. Do mesmo modo que Ccero dizia
que lhe era impossvel ensinar a aprender a quem no sabia falar
[3],
tambm o nosso mtodo proclama que no convm ensinar o latim a quem no sabe ainda 
a sua lngua nacional, pois estabeleceu que esta deve dar a mo  outra
e servir-lhe de guia.

5. Finalmente, como a instruo que ns procuramos dar  uma instruo prtica,  
possvel, com igual facilidade, conduzir os alunos ao conhecimento do
material lingustico com a ajuda de livros escritos em lngua nacional, que contenham a 
nomenclatura das coisas. Procedendo assim, os alunos aprendero
a lngua latina muito mais facilmente, pois bastar que adaptem s coisas por eles j 
conhecidas a nova nomenclatura latina e que depois, com prudente
gradao, acrescentem ao conhecimento prtico das coisas o seu conhecimento terico.

Objetivos e metas da escola de lngua nacional.

6. Mantendo, portanto, a nossa hiptese de quatro espcies de escolas, dilinearemos como 
se segue a escola de lngua nacional. O objetivo e a meta da escola
de lngua nacional  ensinar a toda a juventude, dos seis aos doze (ou treze) anos de idade, 
aquelas coisas que lhe sero teis durante toda a vida. Ou
seja:

I. Ler correntemente tudo aquilo que, em letras tipogrficas ou  mo, est escrito na 
lngua nacional.
II. Escrever, primeiro caligraficamente, depois rapidamente, e, por ltimo, em 
conformidade com as regras gramaticais da lngua nacional, as quais devem
ser expostas do modo mais familiar, e devidamente aplicadas por meio de exerccios.
III. Contar, por meio de nmeros ou de clculos, conforme a necessidade.
IV. Medir, segundo as regras da arte, de qualquer maneira, o comprimento, a largura, a 
distncia, etc.
V. Cantar melodias das mais correntes; e aos que tiverem mais aptides para isso, ensinar 
tambm os rudimentos da msica.
VI. Aprender de cor a maior parte das salmdias e dos hinos sagrados que so usados em 
vrios lugares, para que, alimentados pelos louvores de Deus, saibam
(como diz o Apstolo)
[4]
ensinar-se e admoestar-se a si mesmos, mediante os salmos, os hinos e os cnticos 
espirituais, cantando-os em louvor de Deus nos seus coraes.
VII. Alm do catecismo, saibam na ponta da lngua as histrias e as mximas principais 
de toda a Sagrada Escritura, para que as saibam recitar.
VIII. Aprendam de cor, entendam e comecem a pr em prtica os ensinamentos morais, 
expressos em regras e ilustrados com exemplos, adaptados  capacidade
da sua idade.
IX. Acerca das condies econmicas e polticas, conheam o suficiente para 
compreenderem aquilo que todos os dias vem fazer em casa e na sociedade.
X. No ignoraro a histria geral do mundo: a criao, a queda, a redeno e o modo 
como  sabiamente regido por Deus.
XI. Aprendam as coisas principais da cosmografia, relativas  forma redonda do cu, ao 
globo terrestre suspenso no meio do espao, ao oceano que envolve
a terra, s vrias sinuosidades dos mares e dos rios, s principais partes do mundo, aos 
mais importantes Estados da Europa, e, sobretudo, as cidades,
os montes, os rios e tudo o que h de mais notvel na sua ptria.
XII. Finalmente, devem adquirir conhecimentos vrios, de ordem geral, acerca das artes 
mecnicas, quer apenas com o objetivo de no serem to crassamente
ignorantes que no saibam o que se faz na vida humana, quer para que, mais tarde, com 
maior facilidade, a natureza revele aquilo para que cada um  mais
fortemente inclinado.

Porque  que nesta escola se propem objetivos to amplos.

7. Se todas estas coisas forem capazmente ministradas nesta escola de lngua nacional, 
acontecer que, no s aos adolescentes que entram para a escola
latina, mas tambm aqueles que passam a exercer o comrcio, a agricultura ou os ofcios 
manuais, nada se deparar que seja de tal maneira novo do qual
no tenham j haurido o gosto aqui; e, por isso, tudo aquilo que cada um, mais tarde, 
dever fazer, exercendo a sua prpria arte, ou ouvir dos oradores
sagrados ou de outros, ou, enfim, dever ler em qualquer livro, nada mais ser que, ou 
uma mais rica dilucidao ou uma deduo mais particular de coisas
j antes conhecidas; e os homens experimentaro por si mesmos que so realmente aptos 
para aprender, para fazer e para julgar melhor todas as coisas.

Meios aptos para atingir estes fins.

8. Para atingir este objetivo, temos os seguintes meios:

I. As classes.

I. A populao da escola de lngua nacional, que, durante seis anos, se dedicar aos 
estudos, deve distribuir-se em seis classes (separadas, se possvel,
mesmo quanto ao lugar, para que se no perturbem mutuamente).

II. Os livros.

II. A cada classe sejam destinados livros de texto prprios, que contenham todo o 
programa prescrito para essa classe (quanto  instruo,  moral e  piedade),
para que, durante o espao de tempo em que os jovens so conduzidos pelo caminho 
destes estudos, no tenham necessidade de nenhum outro livro, e com a
ajuda destes livros possam ser conduzidos infalivelmente s metas fixadas. Com efeito,  
necessrio que estes livros contenham todo o programa de lngua
nacional: por exemplo, todos os nomes das coisas que as crianas, segundo a sua idade, 
so capazes de entender, e os principais e mais usados modos de
dizer.

A matria dos livros das vrias classes  a mesma: s a forma  diferente.

9. Portanto, em conformidade com o nmero de classes, estes livros sero seis, diferentes 
entre si, no tanto pelas matrias tratadas, como pela forma.
Com efeito, todos trataro de todas as coisas; mas o primeiro apresentar os aspectos mais 
gerais, mais conhecidos, mais fceis; o seguinte promover a
inteleco de aspectos mais especiais, mais desconhecidos e mais difceis, ou oferecer 
um modo novo de considerar as mesmas coisas, para fazer saborear
novas delcias aos espritos, como dentro em breve se mostrar.

Nestes livros, tudo dever ser adaptado  ndole da idade.

10. Deve, todavia; haver a preocupao de que, nesses livros, tudo seja adaptado aos 
espritos infantis, os quais, por natureza, so inclinados para as
coisas agradveis, jocosas e ldicas, e aborrecem, em geral, as coisas srias e severas. 
Portanto, para que possam aprender as coisas srias que, a seu
tempo, sero de utilidade ao homem srio, e aprend-las com facilidade e prazer, importa 
misturar por toda a parte o til ao agradvel, o qual atraia os
espritos por meio dos seus encantos quase contnuos, e os conduza at onde desejamos.

Para aliciar as crianas, adornem-se os livros com ttulos bonitos.

11. Que os livros sejam tambm ornados com ttulos que, pela sua suavidade, aliciem a 
juventude, e, ao mesmo tempo, exprimam elegantemente todo o contedo
do livro. Espero que esses ttulos sejam tirados das espcies dos jardins dessa amenssima 
propriedade que  a escola. Efetivamente, porque a escola se
compara a um jardim, porque  que o livrinho da primeira classe se no h-de chamar 
Canteiro de violetas, o da segunda Roseiral e o da terceira Vergel,
etc.?
[5].

Nestes livros, todos os termos tcnicos devem ser expressos em lngua nacional.

12. Acerca destes livros, e acerca da sua matria e da sua forma, falaremos mais 
pormenorizadamente noutro lugar. Acrescento apenas isto: porque estes livros
so escritos em lngua nacional, tambm os termos tcnicos devem ser expressos na 
lngua nacional, e no deve usar-se de termos latinos ou gregos.

Porqu?
1.

Razo: I. Queremos proporcionar  juventude que entenda tudo sem perda de tempo. Ora, 
as palavras de uma lngua estrangeira, antes de serem entendidas,
devem ser explicadas; e, mesmo depois de explicadas, no so entendidas, mas apenas se 
cr que signifiquem aquilo que significam, e, conseqentemente,
retm-se com grande dificuldade. Ao passo que, quando se trata de palavras familiares, 
no  necessria outra explicao alm desta: tal palavra significa
tal coisa; e imediatamente se entende e se imprime na memria. Queremos, portanto, que 
os empecilhos e os instrumentos de suplcio estejam ausentes desta
primeira informao, para que tudo corra como um rio. II. Alm disso, queremos que se 
cultivem as lnguas nacionais, no  maneira dos franceses que conservam
termos latinos e gregos que o povo no entende ( a censura formulada por Stevinus)
[6],
mas exprimindo todas as coisas com palavras que o povo entenda, como o aconselha o 
mesmo Stevinus aos seus compatriotas belgas e o mostrou elegantemente
na sua Matemtica
[7].

Trs objees.

13. Pode objetar-se, e costuma objetar-se, que nem todas as lnguas so to ricas de modo 
a poderem traduzir igualmente bem os vocbulos gregos e latinos.
Objeta-se ainda que, mesmo que essas lnguas traduzam bem esses vocbulos, todavia, os 
eruditos, habituados aos seus termos, no os abandonam. Finalmente,
objeta-se que  melhor que as crianas, que devem ser iniciadas no estudo do latim, se 
habituem j aqui  lngua dos eruditos, para que no seja necessrio
depois aprender duas vezes os termos tcnicos.

Resposta  primeira objeo.

14. Mas responde-se a essas objees. A culpa no  das lnguas, mas dos homens, se 
alguma lngua se revela obscura, mutilada e imperfeita para significar
aquilo que  necessrio. Tambm os latinos e os gregos tiveram de inventar primeiro as 
palavras e de as fazer entrar no uso corrente; a princpio, pareceram-lhes
to speras e obscuras, que eles prprios duvidaram se as deviam ou no cultivar; mas, 
depois que foram aceites, no h nada de mais significativo.  o
que se verifica com as palavras ente, essncia, substncia, acidente, qualidade, quididade, 
etc. No faltaria, portanto, nada a nenhuma lngua, se aos
homens no faltasse o engenho.

A segunda.

15. Quanto  segunda objeo: que os eruditos conservem para si a sua lngua; ns agora 
pensamos apenas nos ignorantes e no modo de os levar tambm a entender
as artes liberais e as cincias, isto , no modo de lhes no falar com boca de estrangeiro e 
numa lngua extica.

A terceira.

16. Finalmente, aquelas crianas que, mais tarde, se dedicaro ao estudo das lnguas, 
sentiro to pequeno incmodo por saberem os termos tcnicos na sua
lngua ptria, como por chamarem a Deus Pai, na sua lngua, antes que em latim.

III. Terceiro requisito: um bom mtodo, o qual consta de quatro leis.

17. O terceiro requisito ser um mtodo fcil de apresentar estes livros  juventude, o qual 
condensaremos nas regras seguintes:

I. No se dediquem diariarnente aos estudos pblicos seno quatro horas: duas antes e 
duas depois do meio dia. As outras podero ser passadas utilmente
nos trabalhos domsticos (principalmente nas famlias mais pobres) ou em quaisquer 
recreaes honestas.
II. As horas da manh devem ser consagradas a cultivar a inteligncia e a memria; as da 
tarde, a exercitar as mos e a voz.
III. Nas horas da manh, portanto, o professor prelecionar a lio marcada no horrio, 
enquanto todos os alunos estaro a ouvir; e, se for necessrio explicar
qualquer ponto, f-lo- do modo mais familiar, para que seja impossvel que os alunos no 
entendam. Ento, mandar que, por ordem, os alunos releiam, de
modo que, enquanto um l claramente e distintamente, os outros, olhando para os seus 
livrinhos, acompanhem em silncio. E, se se continuar a fazer assim,
durante meia hora ou mais, acontecer que os mais inteligentes tentem recitar aquela lio 
sem livro e, finalmente, tambm os mais lentos. Note-se que
as lies devem ser muito breves, adaptadas aos tempos dos horrios e  capacidade das 
inteligncias infantis.
IV. Estas lies radicar-se-o ainda melhor na mente dos alunos, nas horas de depois do 
meio dia, nas quais no queremos que se trate nenhum tema novo,
mas que se repita a mesma lio da manh: em parte, transcrevendo os prprios livros 
impressos, e em parte fazendo sabatinas, a ver quem repete com mais
prontido as lies anteriores ou quem escreve, canta e conta com mais segurana e 
elegncia, etc.

Porque aconselhamos que os alunos copiem os livros com a sua prpria mo.

18. No  sem razo que aconselhamos que todas as crianas copiem com a sua prpria 
mo, o mais asseadamente possvel, os seus livros impressos. Efetivamente:

1. Este trabalho serve para imprimir tudo mais profundamente na memria, pois ocupa os 
sentidos durante mais tempo, nas mesmas matrias. 2. Com este exerccio
quotidiano de escrita, as crianas adquiriro o hbito de escrever caligraficamente, 
rapidamente e ortograficamente, hbito muito necessrio para os estudos
ulteriores e para os negcios da vida. 3. Para os pais, ser um argumento evidentssimo de 
que, na escola, os seus filhos se ocupam daquilo de que devem
ocupar-se, e podero mais facilmente julgar do aproveitamento dos filhos e at quanto 
estes acaso os superam a eles mesmos.

Conselho acerca do estudo das lnguas dos povos vizinhos.

19. Reservamos as coisas mais particulares para outra ocasio. Advertimos, todavia, que, 
se algumas das crianas quiserem dedicar-se ao estudo das lnguas
dos povos vizinhos, faam-no nesta altura, em que tm dez, onze ou doze anos, ou seja, 
entre a escola de lngua nacional e a escola latina. O que se far
muito facilmente se forem enviados para um lugar onde se fale todos os dias, no a sua 
lngua materna, mas aquela que querem aprender, e se os livros de
texto da escola de lngua verncula (j deles conhecidos, quanto  matria) so por eles 
lidos, copiados, decorados e objeto de exerccios escritos e orais,
nessa nova lngua.

Captulo XXX

PLANO
DA ESCOLA LATINA

Meta desta escola: quatro lnguas e toda a enciclopdia das artes.

1. Fixamos as metas a esta escola, de modo que, com quatro lnguas, se abranja toda a 
enciclopdia das Artes, ou seja, de modo que, conduzindo devidamente
os adolescentes por estas classes, consigamos:

I. Gramticos competentes para fornecer, de modo perfeito, as razes de todas as coisas, 
em latim e na lngua nacional e, se necessrio, em grego e em hebreu.
II. Dialticos peritos em definir, distinguir, argumentar e em rebater os argumentos dos 
outros.
III. Retricos ou Oradores capazes de discorrer elegantemente sobre qualquer tema.
IV. Matemticos e
V. Gemetras, tanto para as vrias necessidades da vida, como porque estas cincias 
preparam e aguam o engenho para as outras.
VI. Msicos, prticos e tericos.
VII. Astrnomos, versados, ao menos, nas coisas fundamentais, ou seja, na doutrina da 
esfera e no cmputo, pois, sem estas, a Fsica, a Geografia e a maior
parte da Histria so cegas.

2. Estas so as to decantadas sete Artes liberais, que o vulgo julga deverem ser ensinadas 
pelo professor de Filosofia. Mas, para que os alunos subam mais
alto, queremos que haja tambm:

VIII. Naturalistas (Physici) que conheam a composio do mundo, a natureza dos 
elementos, as diferenas dos animais, as propriedades das plantas e dos
minerais, a estrutura do corpo humano, etc., considerando estas coisas, tanto em geral, 
como so em si mesmas, e ainda como coisas criadas para utilidade
da nossa vida, o que compreende a parte que diz respeito  medicina,  agricultura e a 
todas as outras artes mecnicas.
IX. Gegrafos que tenham gravado na mente o globo terrestre, os mares, as suas ilhas, os 
rios, os Estados, etc.
X. Cronologistas que saibam de cor a sucesso das vrias pocas, desde o comeo do 
mundo, e as suas divises.
XI. Historiadores que saibam enumerar a maior parte das mais notveis transformaes do 
gnero humano, dos principais Estados e da Igreja, e bem assim os
vrios costumes e ritos dos povos e dos homens.
XII. Moralistas que conheam exatamente os gneros e as diferenas das virtudes e dos 
vcios, e saibam fazer observar aquelas e levar a fugir destes, considerando
tanto a sua idia geral como a sua aplicao prtica, relativamente  vida econmica, 
poltica, eclesistica, etc.
XIII. Finalmente, queremos fazer Telogos que, no s conheam os fundamentos da sua 
f, mas possam eles prprios ir hauri-los nas Sagradas Escrituras.

3. Desejamos que, terminado este curso de seis anos, os adolescentes sejam, em todas 
estas coisas, se no perfeitos (como efeito, nem a idade juvenil pode
atingir a perfeio, nem  possvel, em seis anos de instruo, esgotar o oceano), pelo 
menos possuidores de slidos fundamentos, onde poder assentar
uma cultura mais perfeita.

Caminho para atingir estes objetivos: seis classes.

4. Ser necessrio que, repartindo-se a instruo por seis anos, haja seis classes, as quais, 
comeando a enumerar desde a mais baixa, podem receber os
seguintes nomes:

I. Gramtica
II. Fsica
III. Matemtica
IV. tica
V. Dialtica
VI. Retrica.

Porque  que, depois a gramtica, no deve vir imediatamente a dialtica?

5. Espero que ningum mova uma campanha contra ns, pelo fato de pormos em primeiro 
lugar a gramtica, como se ela fosse a porteira das outras disciplinas.
Porm, aqueles que consideram os costumes como se fossem leis, talvez se admirem que 
coloquemos a dialtica e a retrica depois das cincias positivas.
Convm, todavia, fazer assim, pois estamos convencidos de que se deve ensinar as coisas 
antes do modo das coisas, isto , a matria antes da forma, e de
que o nico mtodo capaz de nos fazer progredir, de maneira segura e rpida,  aquele que 
consiste em adquirir conhecimento das coisas antes de se comear,
ou a julg-las a fundo ou a exp-las com estilo florido. Procedendo de modo diverso, ter-
se-  disposio todos os modos de discorrer e de falar, mas
ser-se- pobre quanto s coisas a examinar e a aconselhar; e, ento, que poder examinar-
se ou aconselhar-se? Assim como  impossvel que uma virgem d
 luz, se primeiro no concebeu, assim tambm  impossvel que algum fale das coisas 
racionalmente, se primeiro no tomou conhecimento das coisas. As
coisas, em si mesmas, so aquilo que so, ainda que a razo ou a lngua se no ocupem 
delas; mas a razo e a lngua apenas trabalham com as coisas e dependem
delas: sem as coisas, ou se reduzem a nada, ou tornam-se sons sem pensamento, por efeito 
de um esforo, ou estpido ou ridculo. Portanto, uma vez que
o raciocnio e o discurso se fundam nas coisas,  absolutamente necessrio que o 
fundamento seja lanado primeiro.

Porque que  que a moral se coloca depois das cincias naturais.

6. Embora muitos faam o contrrio, homens doutos demonstraram que as cincias 
naturais devem colocar-se antes das cincias morais. Lpsio, no Livro I,
captulo 1, da sua Fisiologia, escreve: Agrada-nos a opinio dos grandes autores, e 
consentirei e deliberarei que a Fsica se ensine em primeiro lugar.
Nesta parte (da Filosofia)  maior o prazer, apto para atrair e para prender; e h tambm 
uma dignidade maior e um esplendor que excita a admirao; finalmente,
uma preparao e cultivo da alma de modo a ouvir-se com fruto as lies da tica
[1].

Porque  que, a exemplo dos antigos, se no pe a matemtica antes da fsica?

7. Quanto  matemtica, poderia duvidar-se se ela deve seguir ou anteceder a fsica.  
certo que os antigos principiaram a observao das coisas pelos estudos
matemticos e, por isso, as matrias a estudar se chamaram {Oacv~}, ou seja, disciplinas; 
e Plato no admitia na sua Academia nenhum agemetra (
). A razo  evidente, porque as cincias que tratam de nmeros e de quantidades 
baseiam-se, mais que outras, nos sentidos e, por isso, so mais fceis
e mais certas, e concentram e fixam a fora imaginativa, e, finalmente, porque dispem e 
excitam a estudar outras coisas mais afastadas dos sentidos.

Primeira Resposta.

8. Tudo isto  verdade. No entanto, a este propsito, devemos fazer algumas 
consideraes, uma vez que: 1. se aconselhou a exercitar os sentidos na escola
de lngua nacional e a aguar os espritos com as coisas sensveis; portanto, os nossos 
alunos j no sero totalmente agemetras (
). 2. O nosso mtodo procede sempre gradualmente. Portanto, antes de chegar s mais 
sublimes especulaes das quantidades,  bom que se demore um pouco
a ensinar as coisas concretas acerca dos corpos, porque estes servem como que de 
passagem para atingir e apreender melhor as coisas abstratas. 3. Ao programa
da classe de matemtica, ns acrescentamos vrias coisas artificiais, cujo conhecimento 
fcil e verdadeiro dificilmente pode adquirir-se sem o ensino das
cincias naturais, e, por isso, colocamos primeiro estas cincias. Mas, se as razes dos 
outros ou mesmo a prtica convencerem que  melhor proceder diversamente,
no temos inteno de nos opor. Mas, por enquanto, estamos convencidos das nossas 
razes.

A Fsica deve ser precedida da Metafsica: mas de qual?

9. Depois de adquirido um conhecimento mediano da lngua latina (atravs do Vestbulo e 
da Porta, a que consagramos a primeira classe), aconselhamos que
se apresente aos alunos uma cincia generalssima, a qual  chamada cincia primeira, e 
vulgarmente Metafsica (em nosso entender, seria mais correto chamar-lhe
profsica (
) ou hipofsica {
}, ou seja, preparao para o estudo da fsica). Esta cincia deve descobrir aos alunos os 
primeiros e os mais profundos fundamentos da natureza, como,
por exemplo, os requisitos necessrios, os atributos e as diferenas de todas as coisas, e 
dar a conhecer as leis mais gerais, as definies, os axiomas,
o modelo e a estrutura de todas as coisas. Quando tiverem adquirido estes conhecimentos 
(e, com o nosso mtodo, ser muito fcil), podero dirigir as observaes
para todos os particulares, pois a maior parte deles parecero j conhecidos, e nada 
parecer absolutamente novo, a no ser a aplicao das leis gerais
aos casos particulares. Destas coisas gerais, a que se pode dedicar, ao mximo, um 
trimestre (com efeito, entendem-se muito facilmente, pois so como que
princpios que qualquer dos sentidos apreende e admite s pela sua prpria luz), passe-se 
imediatamente  observao do mundo visvel, para que as maravilhas
da natureza (reveladas na profsica) se tornem cada vez mais claras por meio de exemplos 
particulares escolhidos na prpria natureza: Este estudo constituir
a classe de Fsica.

A seguir  Fsica vem a Matemtica; depois, a tica.

10. Da essncia das coisas, passar-se- ento a uma observao mais acurada sobre os 
acidentes das coisas. A este estudo damos o nome de classe de Matemtica.

11. Imediatamente a seguir, os alunos devero fazer especulaes sobre o prprio homem 
com as aes da sua vontade livre, como senhor das coisas, para aprenderem
a ver o que est e o que no est sob o nosso poder e sob o nosso arbtrio, como convm 
governar todas as coisas segundo as leis do universo, etc.
     Isto ensinar-se- no quarto ano, na classe de tica. Mas estudem-se todas estas coisas, 
j no apenas historicamente, isto , pela prtica, como acontecia
nos rudimentos da escola de lngua nacional, mas teoricamente, para que os alunos se 
habituem a considerar as causas e os efeitos das coisas. Mas abstenham-se
os professores de misturar com o programa destas primeiras quatro classes algo de 
controverso, pois queremos reservar estas coisas integralmente para a
quinta classe, como se segue.

Classe de Dialtica.

12. Na classe de Dialtica, depois de apresentadas, de modo breve, as regras do 
raciocnio, queremos que se percorra o programa da Fsica, da Matemtica
e da tica, e se ventile tudo o que de mais importante l se contm, que seja objeto das 
controvrsias dos eruditos. Ento ensinar-se-: Qual a origem
da controvrsia? qual o seu estado atual? qual a tese e a anttese? com que argumentos 
verdadeiros ou provveis se defende esta ou aquela? Procure-se depois
descobrir o erro, a ocasio de erro e a falcia dos argumentos da tese oposta, e, bem 
assim, a fora dos argumentos a favor da tese verdadeira, ou ainda,
se ambas as asseres contm algo de verdadeiro, tente-se a conciliao. Assim, com o 
mesmo trabalho, far-se-, por um lado, uma agradabilssima repetio
do programa j estudado, e, por outro lado, uma utilssima explicao das coisas que no 
foram entendidas, e, com economia de tempo e de fadiga, ensinar-se-
ainda a arte de raciocinar, de investigar as coisas desconhecidas, de esclarecer as 
obscuras, de distinguir as ambguas, de determinar as gerais, de defender
as verdadeiras com as armas da prpria verdade, de rejeitar as falsas e, enfim, de ordenar 
as coisas confusas com contnuos exemplos, com um mtodo breve
e eficaz.

Classe de Retrica.

13. A ltima classe ser a de Retrica, na qual queremos que se faam exerccios 
verdadeiramente prticos, fceis e agradveis, de todas as coisas ensinadas
at aqui, e atravs dos quais se torne evidente que os nossos alunos aprenderam alguma 
coisa e que no estiveram na escola inutilmente. Na verdade, segundo
a mxima socrtica fala para que saiba quem s
[2],
queremos formar a lngua para uma sbia eloqncia queles de que at agora formmos 
principalmente a mente para a sabedoria.

14. Apresentadas, portanto, de novo, brevssimas e clarssimas regras de eloqncia, 
passe-se aos exerccios, ou seja,  imitao dos melhores mestres na
arte de dizer. No convm, todavia, demorar-se sempre nas mesmas matrias, mas deve 
percorrer-se novamente todos os campos da verdade e da variedade das
coisas, e os jardins da honestidade humana e os parasos da sabedoria divina, para que 
tudo aquilo que os alunos sabem que  verdadeiro, bom e til, isto
, agradvel e honesto, o saibam tambm dizer bem e, se necessrio, o saibam inculcar 
fortemente. Para este efeito, estando j de posse, graas aos estudos
precedentes, de um cabedal de conhecimentos no desprezvel, ou seja, de um razovel 
conhecimento de coisas de toda a espcie, de palavras, de frases,
de adgios, de sentenas, de histrias, etc., adquiriro nesta classe uma nova bagagem.

O estudo da histria deve distribuir-se por todas as classes.

15. Acerca destas coisas particulares, falaremos de novo, se necessrio, pois a prtica nos 
ensinar tudo o resto. Seja-me lcito acrescentar apenas isto:
Porque  evidente que o conhecimento da histria  uma parte belssima da instruo e  
como que os olhos de toda a vida, sou de opinio de que a histria
seja distribuda por todas as classes deste sexnio, para que os nossos alunos no ignorem 
tudo aquilo que de memorvel fez ou disse a antiguidade. ,
todavia, para desejar que este estudo seja ministrado com prudncia, para que no 
aumente o trabalho dos alunos, mas at o torne mais suave, e seja para
eles como que o condimento dos estudos mais severos.

E como.

16. Pensamos que ser possvel compilar, para cada classe, um livrinho especial, que 
contenha um certo gnero de fatos histricos, segundo o programa seguinte,
distribudo pelas seis classes:

I. Compndio de histria sagrada.
II. Histria das cincias naturais.
III. Histria das artes e das invenes.
IV. Histria da moral: exemplos mais excelentes de virtudes, etc.
V. Histria dos ritos: acerca dos vrios ritos dos povos, etc.
VI. Histria Universal, ou seja, histria de todo o mundo e dos principais povos, mas 
sobretudo da Ptria de cada um. Tudo ser exposto resumidamente, tratando
apenas das coisas necessrias e omitindo as que no tm importncia.

Advertncia acerca do mtodo continuamente uniforme destas escolas.

17. Acerca do mtodo especial que deve usar-se nestas escolas, nada direi agora, a no ser 
o seguinte: desejamos que as quatro horas de lies pblicas
sejam assim divididas: as duas horas da manh (aps um exerccio de piedade) dediquem-
se quela cincia ou quela arte, da qual a classe toma o nome; que
a Histria ocupe a primeira hora depois do meio dia, sendo a segunda hora consagrada a 
exerccios da pena, da palavra e das mos, em conformidade com o
que  requerido pela matria de cada classe.

Captulo XXXI

DA ACADEMIA

Porque se trata aqui da Academia.

1. Em verdade, o nosso mtodo no se estende at a Academia (Universidade). Mas que 
mal h em abordar este tema, para dizer quais so os nossos votos a
seu respeito? Dissemos atrs
[1]
que, por direito, se deve deixar s Academias as partes mais elevadas e complementares 
de todas as cincias e todas as faculdades superiores.

Trs votos a seu respeito.

2. Desejamos, portanto, que nas Academias:

I. Se faam estudos verdadeiramente universais, de tal maneira que nada exista nas letras 
e nas cincias humanas que l se no ministre.
II. Se adotem os mtodos mais fceis e mais seguros, para imbuir todos aqueles que as 
freqentam de uma erudio slida;
III. Que os cargos pblicos no sejam confiados seno queles que nelas se prepararam 
com sucesso, e que so dignos e idneos para que se lhes entregue
com segurana o governo das coisas humanas.

     Vejamos agora, modestamente, o que nos parece exigir cada um destes votos.

I. Que sejam verdadeiramente Universidades.

3. Para que os estudos acadmicos sejam universais, h necessidade: de Professores de 
todas as cincias, artes, faculdades e lnguas, eruditos e ardorosos,
que extraiam de si, como de reservatrios vivos, e comuniquem a todos todas as coisas; e 
de uma Biblioteca seleta dos vrios autores e de uso inteiramente
comum.

II. Que tenham um mtodo verdadeiramente universal.

4. Os trabalhos da Academia prosseguiro mais facilmente e com maior sucesso, se, em 
primeiro lugar, s para l forem enviados os engenhos mais seletos,
a flor dos homens; os outros enviar-se-o para a charrua, para as profisses manuais, para 
o comrcio, para que, alis, nasceram.

Onde deve observar-se:

5. Se, em segundo lugar, cada um se aplicar ao estudo daquela disciplina para a qual, 
segundo certos indcios mostram, a natureza o destinou. Com efeito,
assim como, por instinto natural, um se torna msico, poeta, orador, naturalista, etc. 
melhor que outro, assim tambm um  mais apto que outro para a teologia,
para a medicina ou para a jurisprudncia. Mas, quanto a isto, peca-se demasiado 
freqentemente, pois queremos, a nosso arbtrio, fazer um Mercrio de qualquer
madeira
[2],
sem atender s inclinaes da natureza. Daqui resulta que, lanando-nos ns, a despeito da 
nossa natureza, nestes ou naqueles estudos, nada fazemos que
seja digno de louvor, e, freqentemente, somos mais competentes em qualquer outra coisa 
acessria (
) que na nossa prpria profisso. Seria, portanto, de aconselhar que, no termo da Escola 
Clssica, fosse feito, pelos Diretores das Escolas, um exame pblico
s capacidades dos alunos, para que pudessem deliberar quais dos jovens deviam ser 
enviados para a Universidade e quais os que deviam destinar-se aos outros
gneros de vida; e, igualmente, de entre aqueles que fossem destinados para prosseguir os 
estudos, quais os que deveriam dedicar-se  Teologia, ou  Poltica,
ou  Medicina, etc., tendo em conta as suas inclinaes naturais e ainda as necessidades 
da Igreja e do Estado.

III.

6. Em terceiro lugar, convm estimular os engenhos hericos para tudo, para que no 
faltem homens que saibam muito (
), ou saibam tudo (
), ou sejam sbios em tudo (
).

IV.

7. Deve, todavia, haver o cuidado de que s vo para as Universidades os alunos 
diligentes, honestos e solcitos, e que elas no tolerem os falsos estudantes,
os quais esbanjam, no cio e no luxo, o tempo e o dinheiro, dando mau exemplo aos 
outros. Assim, onde no h peste, no h contgio; todos se esforaro
por cumprir o seu dever.

V. Conselho acerca do resumo de autores de toda a espcie.

8. Dissemos que, na Academia, se devia estudar todo o gnero de autores. Ora, para que 
este estudo no seja demasiado penoso, e, contudo, seja til, seria
para desejar que se pedisse s pessoas doutas, aos filsofos, aos telogos, aos mdicos, 
etc. que prestassem  juventude estudiosa o mesmo favor que os
gegrafos prestam aos estudiosos da geografia, encerrando provncias inteiras, reinos e 
mundos em mapas, e pondo extensssimas partes da terra e do mar
sob os olhos, de modo a poderem ser observadas com um s golpe de vista. Efetivamente, 
porque  que, do mesmo modo que os pintores representam ao vivo
as regies, as cidades, as casas e as pessoas, se no h-de representar Ccero, Lvio, 
Plato, Atistteles, Plutarco, Tcito, Glio, Hipcrates, Galeno,
Celso, Santo Agostinho, S. Jernimo e tantos outros? No digo que se deva fazer apenas 
extratos de sentenas e florilgios (como foi feito por alguns),
mas que se resumam as obras inteiras s coisas substanciais.

Qudrupla utilidade desses livros.

9. Estes resumos dos autores teriam uma grande utilidade. Em primeiro lugar, para 
aqueles que no tm tempo para ler obras extensas, para que ao menos adquirissem
um conhecimento geral desses autores. Em segundo lugar, para aqueles que (segundo o 
conselho de Sneca)
[3]
desejassem familiarizar-se apenas com um autor (pois nem todas as coisas convm 
igualmente a todos) pudessem escolher mais facilmente e mais judiciosamente,
quando, tendo saboreado vrios autores, tivessem sentido que este ou aquele est mais em 
relao com os seus gostos. Em terceiro lugar, esses resumos prepararo
muito bem para uma leitura mais frutuosa aqueles que devero estudar as obras 
completas, da mesma maneira que, para um viajante, o fato de ter conhecido
no mapa a corografla de determinada regio, o ajuda a observar com mais facilidade, com 
mais segurana e com maior prazer todas as particularidades que,
a seguir, lhe caem sob os olhos. Finalmente, esses brevirios serviro a todos, para fazer 
mais rapidamente as revises necessrias dos autores e para
deles extrair a substncia que se fixa no esprito e se transforma em alimento vital.

Conselho acerca da edio desses compndios.

10. Poderiam esses sumrios dos autores ser editados em separado (para uso dos mais 
pobres ou daqueles que no tm possibilidades de estudar integralmente
os grandes volumes) e, depois, serem juntados aos respectivos autores, para que, quem se 
prepara para ler uma obra inteira, possa primeiro apreender o
resumo de toda ela.

VI. Conselho acerca da criao, na Academia, de Colgios Gelianos

11. Quanto aos exerccios acadmicos, no sei se deverei introduzir Colquios (
) pblicos, segundo o modelo dos Colgios de Glio
[4];
ou seja, quando um professor trata publicamente de determinado tema, devem distribuir-
se pelos alunos todos os melhores autores que tratam desse assunto,
para que os leiam privadamente. E, acerca de tudo quanto o professor prelecionou na lio 
antes do meio dia, far-se- uma discusso, na aula de depois
do meio dia, em que participaro todos os alunos. Proceder-se- do seguinte modo: os 
estudantes apresentaro questes, ou sobre determinado ponto que acaso
algum no tenha entendido, ou sobre uma dificuldade que algum tenha encontrado, ou 
sobre uma opinio discordante que algum tenha descoberto no seu autor,
e coisas semelhantes. Compete ao professor, como presidente da reunio, dizer quando  
que  lcito a determinado aluno (seguindo-se, contudo, uma ordem
determinada) responder e aos outros, a seguir, julgar e pronunciar-se sobre se a resposta  
satisfatria, e, finalmente, terminar a controvrsia. Assim,
parece que tudo aquilo que muitos leram se pode juntar num todo, no somente para que 
aproveite a todos, mas ainda para que tudo se imprima melhor nos
espritos e, conseqentemente, todos faam progressos verdadeiramente slidos na teoria 
e na prtica das cincias.

III. Terceiro voto:
no conceder a coroa seno aos vitoriosos.

12. Parece que, a partir destes exerccios coletivos, possa ser satisfeito, sem muita 
dificuldade, o nosso ltimo voto, e que  tambm o voto de todas as
pessoas de bem: No sejam admitidos nos cargos pblicos seno aqueles que so dignos. 
Conseguir-se- este desiderato, se isso no depender do arbtrio
privado de uma ou duas pessoas, mas da conscincia e do testemunho pblico de todos. 
Por isso, uma vez por ano, do mesmo modo que as escolas dos graus
inferiores devem ser visitadas pelos seus diretores, recebam tambm as Academias a 
visita de inspetores do Estado, que procurem conhecer o empenho com
que foram feitas todas as coisas, quer da parte dos professores, quer da parte dos alunos. 
Verificaro aqueles que mais se distinguiram pela sua diligncia
e, para atestar publicamente o seu valor, conferir-lhes-o o grau de Doutor ou de Mestre.

Medo da vitria.

13. Se se no quer fazer apenas uma pardia, mas autnticas Disputas, para a colao dos 
graus acadmicos, ser convenientssimo que o candidato (ou vrios
ao mesmo tempo) se coloque, sem o seu moderador, no meio da sala. E ento os mais 
doutos e os mais versados na prtica proponham-lhe que faa tudo o que
julgarem melhor para verificar o seu progresso terico e prtico. Por exemplo: questes 
vrias, tiradas de um texto (da Sagrada Escritura, de Hipcrates,
do Cdigo de Direito, etc.), perguntando-lhe: onde vem escrita esta, ou aquela, ou 
aqueloutra coisa? Como pode estar de acordo com isto ou com aquilo?
Conhece algum autor que est em desacordo? Qual? E que argumentos apresenta? E como 
resolver a questo? E outras coisas semelhantes. Quanto  prtica,
proponham-se ao candidato vrios casos: de conscincia, de doenas, de processos. E 
pergunte-se-lhe: como procederia neste ou naquele caso? E porque procederia
assim? Insista-se com novas perguntas e com novos casos, at que se torne evidente que 
ele  capaz de emitir juzo acerca das coisas, sabiamente e com
verdadeiro fundamento. Quem no esperaria que os alunos poriam toda a diligncia no 
estudo, se soubessem que teriam de enfrentar um exame to pblico,
to srio e to severo?

Das viagens.

14. Quando s viagens (a que demos um lugar neste ltimo sexnio, ou no fim dele), no  
necessria nenhuma advertncia, a no ser talvez dizer que nos
agrada, e est de acordo com os nossos princpios, a opinio de Plato, o qual proibia  
juventude viajar antes de acalmar a excessiva impetuosidade da
idade ardente e antes de adquirir a prudncia e a capacidade necessria para viajar
[5].

Acerca de uma escola das escolas: qual o seu objetivo e a sua utilidade.

15. E nem sequer  preciso mostrar quo necessria seria uma escola das escolas ou uma 
Sociedade Didtica (Collegium Didacticum)
[6],
a fundar em qualquer parte, ou, se isso no for possvel, ao menos entre os eruditos 
interessados em promover, dessa maneira, a glria de Deus, mesmo sem
uma presena corporal. Os trabalhos desta sociedade devem tender para descobrir, cada 
vez mais, os fundamentos das cincias, para depurar e difundir pelo
gnero humano, com melhor sucesso, a luz da sabedoria e para fazer sempre prosperar os 
interesses humanos com novas e utilssimas invenes. Efetivamente,
se no queremos estar sempre agarrados ao mesmo caminho, ou at andar para trs, temos 
de pensar em fazer progredir as boas empresas. Mas, como para isto
no basta, nem um homem s, nem apenas a vida de um homem,  necessrio que muitos 
homens juntamente e sucessivamente continuem a obra comeada. Este colgio
universal seria para as outras escolas o que o estmago  para os membros do corpo, ou 
seja, a oficina vital que a todos forneceria suco, vida e fora.

16. Mas voltemos quelas coisas que nos falta ainda dizer acerca das nossas escolas.

Captulo XXXII

DA ORGANIZAO
UNIVERSAL E PERFEITA
DAS ESCOLAS

Recapitulao do que foi dito.

1. Discorremos largamente acerca da necessidade e do modo de reformar as escolas. No 
ser fora de propsito que faamos o resumo, quer dos nossos votos,
quer dos nossos conselhos.  o que vamos fazer.

Resumo dos votos a satisfazer para que a arte didtica atinja a preciso e a elegncia da 
arte tipogrfica.

2. Desejamos que o mtodo de ensinar atinja tal perfeio que, entre a forma de instruir 
habitualmente usada at hoje e a nossa nova forma, aparea claramente
que vai a diferena que vemos entre a arte de multiplicar os livros, copiando-os  pena, 
como era uso antigamente, e a arte da imprensa, que depois foi
descoberta e agora  usada
[1].
Efetivamente, assim como a arte tipogrfica, embora mais difcil, mais custosa e mais 
trabalhosa, todavia,  mais acomodada para escrever livros com maior
rapidez, preciso e elegncia, assim tambm, este novo mtodo, embora a princpio meta 
medo com as suas dificuldades, todavia, se for aceite nas escolas,
servir para instruir um nmero muito maior de alunos, com um aproveitamento muito 
mais certo e com maior prazer, que com a vulgar ausncia de mtodo (
).

Vantagens da imprensa sobre o manuscrito.

3.  fcil pensar quo pouco til pde parecer o esforo do primeiro inventor da imprensa, 
dado o uso to livre e to rpido da pena. Mas os fatos mostram
quantas vantagens trouxe esta inveno. Em primeiro lugar, dois rapazes podem imprimir 
mais exemplares de determinado livro, do que, no mesmo tempo, o
faziam talvez duzentos copistas. Em segundo lugar, esses manuscritos sero diferentes 
quanto ao nmero, forma e disposio das folhas, das pginas e das
linhas; ao contrrio, os livros impressos so de tal maneira correspondentes uns aos outros 
que nem um ovo  to semelhante a outro ovo; e isto verifica-se
relativamente a todos os exemplares, o que  uma particularidade cheia de elegncia e de 
atrativos. Em terceiro lugar, no  certo que as cpias feitas
 pena sejam corretas, se se no revem, se no se confrontam e se no se corrigem 
cuidadosamente todas e cada uma delas, o que se no pode fazer sem um
multplice trabalho, que provoca o tdio. Ao contrrio, corrigidas as provas tipogrficas 
de um s exemplar, todos os outros, sejam eles quantos milhares
forem, ficaro corrigidos; o que parece algo de incrvel para quem no conhece a arte 
tipogrfica, mas , de fato, verdade. Em quarto lugar, para escrever
(quando se escreve com a pena), nem todo o papel  bom, mas somente o que  mais 
forte, que no deixe trespassar a tinta, ao passo que pode imprimir-se
em qualquer espcie de papel, mesmo sobre papiro muito fino e transparente, sobre linho, 
etc. Finalmente, podem imprimir elegantemente livros, mesmos aqueles
que no sabem escrever elegantemente, porque executam o trabalho, no com as prprias 
mos, mas por meio de caracteres propositadamente preparados para
isso.

Vantagem do mtodo perfeito (o que preconizamos) relativamente ao mtodo usado at 
hoje.

4. Parece que nada acontecer de diferente se, a tudo aquilo que diz respeito  nossa nova 
forma universal de instruir, dermos um reto ordenamento (efetivamente,
no afirmamos que a nossa j seja assim; apenas louvamos o mtodo universal,
), de tal maneira que: 1. com um menor nmero de professores, se possa ensinar um 
nmero muito maior de alunos, que com o mtodo at aqui usado; 2. e os
alunos se tornem verdadeiramente instrudos; 3. e recebam uma instruo polida e cheia 
de gravidade; 4. e se admitam a esta cultura mesmo aqueles que no
so dotados de grandes inteligncias e at os de inteligncia lenta; 5. finalmente, sero 
hbeis para ensinar, mesmo aqueles a quem a natureza no dotou
de muita habilidade para ensinar, pois a misso de cada um no  tanto tirar da prpria 
mente o que deve ensinar, como sobretudo comunicar e infundir na
juventude uma erudio j preparada e com instrumentos tambm j preparados, 
colocados nas suas mos. Com efeito, assim como qualquer organista executa
qualquer sinfonia, olhando para a partitura, a qual talvez ele no fosse capaz de compor, 
nem de executar de cor s com a voz ou com o rgo, assim tambm
porque  que no h-de o professor ensinar na escola todas as coisas, se tudo aquilo que 
dever ensinar e, bem assim, os modos como o h-de ensinar, o
tem escrito como que em partituras?

Investigao mais particular deste assunto.

5. Mas retomemos a comparao que fomos buscar  tipografia e utilizemo-la para 
explicar melhor ainda em que consiste o mecanismo regular do nosso mtodo
e para mostrar claramente que  possvel imprimir as cincias no esprito da mesma 
maneira que, externamente,  possvel imprimi-las no papel, com tinta.
E que razo haver para que se no possa forjar um nome susceptvel de convir  nossa 
nova Didtica, como o termo didacografia (
), modelado sobre a palavra tipografia? Mas exponhamos o assunto parte por parte.

Anlise da arte tipogrfica quanto aos materiais e aos trabalhos.

6. A arte tipogrfica tem os seus materiais e os seus trabalhos. Os materiais principais so: 
o papel, os tipos, as tintas e o prelo; os trabalhos so:
a preparao do papel, a composio, a paginao, colocar tinta nos tipos, a tiragem das 
folhas, a secagem, a correo das provas, etc., e cada uma destas
coisas faz-se de uma maneira especial, e se se faz da maneira prescrita, tudo corre 
normalmente.

E igualmente da arte didtica.

7. Na Didacografia (agrada-me usar esta palavra), as coisas passam-se precisamente da 
mesma maneira. O papel so os alunos, em cujos espritos devem ser
impressos os caracteres das cincias. Os tipos so os livros didticos e todos os outros 
instrumentos propositadamente preparados para que, com a sua ajuda,
as coisas a aprender se imprimam nas mentes com pouca fadiga. A tinta  a viva voz do 
professor que transfere o significado das coisas, dos livros para
as mentes dos alunos. O prelo  a disciplina escolar que a todos dispe e impele para se 
embeberem dos ensinamentos.

Que papel se requer.

8. O papel  bom, seja qual for a sua natureza; no entanto, quanto mais puro for, tanto 
mais nitidamente recebe e representa as coisas impressas. Assim
tambm o nosso mtodo admite todas as inteligncias, mas faz progredir melhor as que 
so mais brilhantes.

Relao entre os tipos e os livros didticos.

9. A analogia entre os tipos metlicos e os nossos livros didticos (tais como ns 
queremos)  muito grande. Efetivamente, em primeiro lugar, assim como
 necessrio fundir, polir e adaptar os tipos, antes de se comear a impresso dos livros, 
assim tambm  necessrio preparar os instrumentos do novo mtodo,
antes de comear a pr em prtica esse novo mtodo.

2.

10. Exige-se uma tal abundncia de tipos que seja suficiente para os trabalhos que se quer 
executar. Igualmente,  necessria grande abundncia de livros
e de instrumentos didticos, porque  molesto, aborrecido e prejudicial comear um 
trabalho e no o poder continuar por falta dos meios necessrios.

3.

11. O tipgrafo perfeito tem tipos de todas as espcies, para que nunca se encontre 
desprovido de qualquer dos tipos de que acaso venha a precisar. Do mesmo
modo,  necessrio que os nossos livros contenham tudo aquilo que pertence  plena 
cultura dos espritos, para que a ningum esteja vedado aprender aquilo
que pode aprender.

4.

12. Os tipos, para que possam estar sempre  mo para qualquer uso, no se devem deixar 
espalhados aqui e alm, mas devem ser colocados ordenadamente em
caixas e em caixotins. Do mesmo modo, os nossos livros, tudo o que nos oferecem para 
aprendermos, no o devem oferecer de modo confuso, mas repartido do
modo mais distinto possvel, em tarefas de um ano, de um ms, de um dia e de uma hora.

5.

13. Retiram-se das caixas apenas os tipos de que temos necessidade para executar 
determinada obra, deixando-se os outros sem se lhes tocar. Tambm se devem
colocar nas mos das crianas somente os livros didticos de que tm necessidade na sua 
classe, para que os outros no sejam ocasio de distrao e de
confuso.

6.

14. Finalmente, o tipgrafo serve-se de um componedor para dispor linearmente os 
caracteres em palavras, as palavras em linhas, as linhas em colunas, para
que nada fique fora de proporo. Do mesmo modo, aos educadores da juventude,  
necessrio dar normas, em conformidade com as quais executem as suas obras,
isto , devem escrever-se para uso deles Livros-roteiros que os aconselhem quanto ao que 
ho-de fazer, em que lugar e de que modo, para que se no caia
em erro.

Dois gneros de livros didticos.

15. Os livros didticos sero, portanto, de dois gneros: verdadeiros livros de texto para os 
alunos, e livros-roteiros (informatorii) para os professores,
para que aprendam a servir-se bem daqueles.

Que  a tinta didtica.

16. Dissemos que a tinta didtica  a voz do professor. Efetivamente, assim como os 
caracteres, quando esto enxutos, permanecem tambm (pela ao do prelo)
impressos no papel, mas no deixam, todavia, seno vestgios cegos, que, pouco depois, 
desaparecem, mas, embebidos de tinta, nele imprimem imagens visibilssimas
e quase indelveis, assim tambm as coisas que os mudos professores das crianas, os 
livros de texto, colocam diante delas, so realmente mudas, obscuras
e imperfeitas, mas, quando aos livros se junta a voz do professor (que explica tudo 
racionalmente, segundo a capacidade dos alunos, e tudo ensina a pr
em prtica), tornam-se cheios de vida, imprimem-se profundamente nos seus espritos, e 
assim, finalmente, os alunos entendem verdadeiramente aquilo que
aprendem. E como a tinta da imprensa  diferente da que se usa com a pena, ou seja, no  
feita com gua, mas com leo (e aqueles que desejam receber o
grande elogio de serem verdadeiramente artistas tipogrficos, usam leo purssimo e p 
de carvo de noz), assim tambm a voz do professor, mediante um
mtodo didtico suave e simples, deve insinuar-se, como leo finssimo, no esprito dos 
alunos, e juntamente consigo, deve insinuar as coisas.

A disciplina  o prelo didtico.

17. Finalmente, aquilo que para os tipgrafos faz o prelo, nas escolas s a disciplina o 
consegue realizar, a qual no d a ningum a possibilidade de no
receber a cultura ministrada. Portanto, assim como na imprensa qualquer papel, que deve 
transformar-se em livro, no pode fugir ao prelo (embora o papel
mais forte seja apertado mais fortemente, e o mais delicado mais delicadamente), assim 
tambm quem vai  escola para se instruir deve sujeitar-se  disciplina
comum.

     Os graus da disciplina so os seguintes: primeiro, uma ateno contnua. Efetivamente, 
como a diligncia e a inocncia das crianas nunca nos oferecem
uma confiana segura (so filhos de Ado),  necessrio acompanh-las com os olhos, 
para qualquer parte que se voltem. Em segundo lugar, a repreenso,
com a qual se chamam ao caminho da razo e da obedincia aqueles que exorbitam. 
Finalmente, o castigo, se recusam obedecer aos sinais de repreenso e s
advertncias. Mas todas estas penas disciplinares devem ser aplicadas com prudncia, e 
sem outro fim que no seja tornar todos os alunos punidos mais desejosos
de tudo fazerem com a maior seriedade.

Confronto proporcionado dos trabalhos.

18. Disse tambm que se requeriam trabalhos determinados, feitos de modo determinado. 
Resumirei tambm este assunto em breves palavras.

19. Quantos devero ser os exemplares de um dado livro, outras tantas devero ser as 
folhas a encher com o mesmo texto e com os mesmos caracteres; e dever
manter-se o mesmo nmero de folhas, desde o princpio do livro at ao fim, sem o 
aumentar nem o diminuir, pois, de outro modo, alguns exemplares resultam
defeituosos. Do mesmo modo, o nosso mtodo didtico exige necessariamente que todos 
os alunos de uma escola sejam confiados ao mesmo professor, para que
os eduque e instrua com os mesmos preceitos e os forme gradualmente, desde o princpio 
at ao fim, no admitindo nenhum na escola depois do princpio das
lies, nem deixando que nenhum se v embora antes do fim. Assim se conseguir que 
um s professor seja suficiente para uma populao escolar mesmo muito
numerosa, e que todos aprendam tudo, sem lacunas nem interrupes. Ser necessrio, 
portanto, que todas as escolas pblicas se abram e se encerrem uma
vez por ano (temos razes para aconselhar que isso se faa no Outono, de preferncia a 
fazer-se na Primavera ou noutra altura), para que, em cada ano,
o programa de cada classe possa ser desenvolvido e todos os alunos (a no ser que a 
deficincia mental de alguns o impea), conduzidos em conjunto para
a meta, sejam promovidos em conjunto  classe superior, precisamente como acontece nas 
tipografias, em que, tirada a primeira folha para todos os exemplares,
se passa  segunda,  terceira, e assim sucessivamente.

20. Os livros mais elegantemente impressos tm os captulos, as colunas e os pargrafos 
claramente distintos, com certos espaos vazios (requeridos, quer
pela necessidade, quer por uma melhor viso), tanto marginais como interlineares. 
Tambm o mtodo didtico deve necessariamente prescrever perodos de
trabalho e perodos de repouso, de determinada durao, para recreaes honestas. 
Efetivamente, esse mtodo prescreve programas para serem desenvolvidos
em um ano, em um ms, em um dia e em uma hora... E se se observarem bem estas 
prescries,  impossvel que cada classe no percorra todo o seu programa,
e assim, em cada ano, no atinja a sua meta. Temos boas razes para aconselhar que se 
no dispendam a trabalhar nas escolas pblicas mais de quatro horas
por dia: duas antes e duas depois do meio dia. E se ao Sbado se fizer feriado de tarde e o 
Domingo for todo consagrado ao culto divino, teremos 22 horas
semanais de aula e (concedidos ainda os feriados necessrios para as festas mais solenes) 
teremos cerca de mil horas por ano. E, em mil horas, quantas
coisas se podem ensinar e aprender, se se procede sempre metodicamente.

21. Terminada a paginao da obra que deve ser impressa, vai buscar-se o papel e 
estende-se no seu lugar prprio, para que esteja  mo e no haja nada
que atrase os trabalhos. Igualmente, o professor coloca os alunos diante dos seus olhos, 
para que os veja e para que todos o vejam sempre, como, no captulo
XIX, questo 1, ensinmos que devia fazer-se.

4.

22. Mas o papel, para que se torne mais apto para receber a impresso, costuma 
humedecer-se e amolecer-se. Do mesmo modo, importa na escola incitar constantemente
os alunos a que estejam atentos, utilizando os processos de que falmos no mesmo 
captulo.

5.

23. Feito isto, embebem-se de tinta os tipos metlicos, para que a sua imagem fique 
claramente impressa no papel. Tambm o professor ilustrar sempre com
a prpria voz a lio que d em determinada hora, lendo-a, relendo-a e explicando-a, de 
modo a poder entender-se tudo claramente.

6.

24. Imediatamente a seguir, as folhas so colocadas, uma de cada vez, debaixo do prelo, 
para que os caracteres metlicos imprimam a sua prpria figura em
todas e em cada uma das folhas. Do mesmo modo, o professor, depois de ter mostrado 
suficientemente o sentido de um trecho, e mostrado com alguns exemplos
a facilidade de o imitar, mande fazer o mesmo a cada um dos alunos, para que,  medida 
que ele avana, eles o sigam, e passem do estado de discentes ao
de cientes.

7.

25. Depois de impressas as folhas, expem-se ao ar e ao vento, para que sequem. Na 
escola, faa-se a ventilao das inteligncias por meio de repeties,
de exames e de sabatinas, at que se tenha a certeza de que todo o programa se fixou na 
mente dos alunos.

8.

26. Por ltimo, terminada a tiragem do livro, recolhem-se todas as folhas impressas e 
pem-se em ordem, para que possa ver-se claramente se os exemplares
esto completos e ntegros, sem defeitos e em estado de serem expedidos e postos  
venda, de serem lidos e utilizados. Isto mesmo faro os exames pblicos,
no fim do ano, quando os inspetores das escolas verificarem o aproveitamento dos alunos, 
para constatarem a sua solidez e a sua coeso, que so a prova
de que tudo o que devia ser aprendido foi, de fato, completamente aprendido.

Concluso.

27. Neste momento, fiquem ditas estas coisas de maneira geral; reservem-se as coisas 
mais particulares para ocasies particulares
[2].
Por agora, basta ter feito ver que, assim como, descoberta a arte tipogrfica, se 
multiplicaram os livros, veculos da instruo, assim tambm, descoberta
a didacografia (
) ou mtodo universal (
)  possvel multiplicar os jovens instrudos, com grande proveito para a prosperidade das 
coisas humanas, segundo a mxima a multido dos sbios  a salvao
do mundo (Sabedoria, 6, 26). E porque nos esforamos por multiplicar a instruo crist, 
para infundir em todas as almas consagradas a Cristo a piedade,
o saber e a honestidade dos costumes,  legtimo esperar aquilo que os orculos divinos 
nos ordenam que esperemos: que um dia a terra se encha do conhecimento
do Senhor, como o mar est cheio de gua (Isaas, 11,9).

Captulo XXXIII

DOS REQUISITOS NECESSRIOS
PARA COMEAR
A PR EM PRTICA
ESTE MTODO UNIVERSAL

Lamenta-se que as boas idias nem sempre so postas em prtica.

1. Creio que j no haver ningum que, ponderada sob todos os seus aspectos a 
importncia da nossa causa, no advirta como seria feliz a condio dos reinos
e das repblicas crists, se fossem criadas escolas tal como ns as preconizamos. Creio 
dever agora acrescentar o que me parece indispensvel para que
os meus projetos no continuem apenas projetos, mas possam, de qualquer maneira, 
tornar-se uma realidade. No sem razo, com efeito, Joo Cecilio Frey
se admira e se indigna de que, no decurso de tantos sculos, ningum tenha tido a ousadia 
de remediar os costumes to brbaros dos colgios e das academias
[1].

Tambm por causa das escolas.

2. Desde h mais de cem anos, espalhou-se uma grande quantidade de lamentaes sobre 
a desordem das escolas e do mtodo, e, sobretudo nos ltimos trinta
anos, pensou-se ansiosamente nos remdios. Mas com que proveito? As escolas 
permaneceram tais quais eram. Se algum, particularmente, ou em qualquer escola
particular, comeou a fazer qualquer coisa, pouco adiantou: ou foi acolhido pelas 
gargalhadas dos ignorantes, ou coberto pela inveja dos malvolos, ou
ento, privado de auxlios, sucumbiu ao peso dos trabalhos; e, assim, at agora, todas as 
tentativas tm resultado vs.

Importa pr em movimento uma mquina preparada para se pr em movimento.

3.  necessrio, portanto, procurar e encontrar um processo pelo qual uma mquina to 
bem construda, ou ao menos, a construir sobre bons fundamentos, seja
posta em movimento, com a ajuda de Deus, mas primeiro importa afastar com prudncia e 
fortaleza os obstculos que at agora lhe tm impedido o movimento,
e que podem continuar a impedir-lho, se no so afastados.

Cinco impedimentos  reforma das escolas universais.
1.

4. Podem notar-se os seguintes impedimentos. Por exemplo: primeiro, falta de pessoas 
conhecedoras do mtodo, as quais, abertas escolas por toda a parte,
possam dirigi-las de modo que produzam o slido fruto por ns desejado. (Efetivamente, 
acerca da nossa Porta, j aceite nas escolas, um homem eminente
escreveu-nos dizendo que, em muitos lugares, apenas falta uma coisa: pessoas idneas 
que a saibam inculcar na juventude).

2.

5. No entanto, mesmo que houvesse professores assim competentes, ou que aprendessem 
facilmente a desempenhar as suas funes em conformidade com os nossos
planos, como seria possvel remuner-los convenientemente, se tivessem de fixar-se em 
todas as cidades, em todas as aldeias e em todos os lugares onde
nascem e se educam homens para Cristo?

3.

6. E, alm disso, com que subsdios poderiam ajudar-se os filhos dos mais pobres a 
freqentar a escola?

4.

7. Sobretudo, parece serem de temer os pseudo-sbios, cujo corao se compraz na rotina 
dos velhos hbitos e que olham tudo quanto  novo com um franzir
de sobrancelhas e uma pertinaz relutncia, e outras coisas parecidas, de menor 
importncia. Mas facilmente pode encontrar-se remdio para tais dificuldades.

5.
N.B.
Aqui est o principal da questo.

8. Uma s coisa  de extraordinria importncia, pois, se ela falta, pode tornar-se intil 
toda uma mquina to bem construda, ou, se est presente, pode
p-la toda em movimento: uma proviso suficiente de livros pan-metdicos
[3].
Efetivamente, da mesma maneira que, fornecendo o material tipogrfico,  fcil encontrar 
quem o possa, saiba e queira utilizar, e quem oferea qualquer
soma para imprimir bons e teis livros, e quem compre esses livros, de preo acessvel e 
de grande utilidade, assim tambm seria fcil, uma vez preparados
os meios necessrios para a pan-didtica, encontrar os fautores, os promotores e os 
diretores de que ela precisa.

 necessrio um colgio de doutores que coopere na realizao da empresa.

9. Portanto, o ponto central de toda esta questo est na preparao de livros pan-
metdicos. E esta preparao depende da constituio de uma sociedade
de homens doutos, hbeis, ardorosos para o trabalho, associados para levar a bom termo 
uma empresa to santa, e nela colaborando, cada um segundo os seus
meios. Mas esta empresa no pode ser obra de um s homem, principalmente se est 
ocupado em outras coisas, e no tem conhecimento de tudo aquilo que 
necessrio colocar na pan-metdica (
); e talvez at, para realizar tal trabalho, no seja suficiente a vida de um homem, se tudo 
se fizer dentro da mxima perfeio.  necessria, portanto,
uma sociedade de pessoas escolhidas.

Estas pessoas tm necessidade do favor, da ajuda e da autoridade pblica.

10. Para constituir, porm, esta sociedade,  necessria a autoridade e a liberalidade de 
qualquer rei, prncipe ou repblica, de um local tranqilo e solitrio,
de uma biblioteca e de todas as outras coisas indispensveis. Importa, portanto, que, 
tratando-se de um projeto to santo, que visa devotamente a aumentar
a glria de Deus e a salvao dos homens, ningum procure contrari-lo, mas antes todos 
se esforcem por serem ministros da benignidade divina, disposta
a fazer-nos participantes de si mesma por processos sempre novos e com tanta 
liberalidade.

Splica
1. aos pais.

11. Por isso, vs, carssimos pais, a cuja f Deus confiou preciosssimos tesouros, as suas 
pequeninas imagens vivas, enquanto ouvis que se discutem estes
salutares projetos, inflamai-vos de zelo e nunca cesseis de rogar ao Deus dos deuses pelo 
feliz sucesso da nossa empresa; insisti com as vossas splicas,
com os vossos votos, com os vossos sufrgios e as vossas solicitaes junto dos magnates 
e das pessoas instrudas; entretanto, educai os vossos filhos
no temor de Deus, preparando assim dignamente o caminho para aquela cultura mais 
universal.

2. Aos formadores da juventude.

12. Vs tambm, formadores da juventude, que com f consagrais os vossos esforos a 
plantar e a regar as pequeninas plantas do paraso, fazei srios votos
para que essas pequeninas plantas, conforto das vossas fadigas, se tornem belas o mais 
cedo possvel e se preparem para serem teis no mximo grau. Efetivamente,
sendo vs chamados a plantar os cus e a fundar a terra (Isaas, 51, 16), poder 
acontecer-vos coisa mais agradvel que ver o fruto abundantssimo das
vossas fadigas? Que esta vossa celeste vocao, assim como a confiana em vs 
depositada pelos pais, entregando-vos os seus filhos, seja como que um fogo
na medula dos vossos ossos que vos no d a paz e, por meio de vs, tambm aos outros, 
at que o fogo desta luz, inflame e ilumine brilhantemente toda
a nossa ptria.

3. s pessoas ilustradas.

13. E vs tambm, pessoas instrudas, a quem Deus dotou de sabedoria e de juzo 
penetrante, para que possais julgar destas coisas e, com o vosso prudente
conselho, melhorar sempre mais os projetos bem ideados, no hesiteis em trazer tambm 
as vossas centelhas, e mesmo at os vossos archotes e os vossos foles,
para atiar melhor este fogo sagrado. Que cada um de vs pense nestas palavras de Cristo: 
Eu vim trazer o fogo  terra, e que quero eu, seno que ele
se acenda? (Lucas, 12, 49). Se Ele quer que o seu fogo arda, ai daquele que, podendo 
trazer qualquer coisa para inflamar essas chamas, no traz seno
talvez os fumos da inveja, da denigrao e da oposio. Lembrai-vos da remunerao que 
promete aos servos bons e fiis que empregam os talentos que lhes
foram confiados para negociar, de modo a ganharem outros, e como ameaa os 
preguiosos que enterram os seus talentos! (Mateus, 25). Temei, portanto, que
s vs sejais instrudos, e esforai-vos por fazer progredir tambm os outros na instruo. 
Sirva-vos de estmulo o exemplo de Sneca, que afirma: Desejo
transfundir nos outros tudo aquilo que sei. E igualmente: Se a sabedoria me fosse dada 
com a condio de a manter fechada e de a no comunicar, recus-la-ia
(Carta 27)
[4].
No negueis, portanto, a ningum, de todo o povo cristo, o vosso saber e a vossa 
sabedoria, mas dizei antes com Moiss: Quem me dera que todo o povo de
Deus profetizasse! (Nmeros, 11,29). Uma vez que, formar bem a juventude,  formar 
tambm e reformar a Igreja e o Estado
[5],
ns, que no ignoramos isto, havemos de estar para a ociosos, enquanto os outros esto 
vigilantes?

Neste assunto, no se excetua ningum.

14. Um s esprito nos anime, suplico-vos, para que tudo aquilo que, seja quem for, possa 
trazer para a realizao de um objetivo to comum e to salutar,
aconselhando, advertindo, exortando, corrigindo, estimulando, no deixe de o fazer, para 
honra de Deus e proveito das geraes futuras. E que ningum pense
que isto no  obrigao sua. Efetivamente, mesmo que algum pudesse julgar que no 
nasceu para a escola ou ainda que no foi destinado para as funes
da vocao eclesistica, poltica ou mdica, pensaria mal se julgasse que estava 
dispensado da obrigao comum de favorecer a reorganizao das escolas.
Na verdade, se queres ser fiel  tua vocao, e quele que te chamou, e queles para os 
quais foste enviado, s obrigado, no s a servir pessoalmente
a Deus,  Igreja e  Ptria, mas tambm a procurar, como homem prudente, que, depois de 
ti, haja quem faa o que tu fizeste. A Scrates foi tributado louvor,
porque, podendo prestar utilmente o seu contributo  ptria, exercendo qualquer outro 
cargo, preferiu dedicar-se  educao da juventude, dizendo que
era mais til ao Estado quem tornava muitos cidados idneos para o governo do Estado, 
que quem o governava efetivamente
[6].

Condenao de um preconceito e splica aos doutos.

15. Peo tambm e suplico, em nome de Deus, que nenhum douto despreze estas coisas, 
pelo fato de virem de um homem menos instrudo que ele. Na verdade,
s vezes, mesmo um campons diz coisas muito oportunas, e talvez o que tu no sabes o 
saiba um burrinho, como disse Crsipo
[7].
E Cristo disse tambm: O esprito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas no sabes 
de onde ele vem, nem para onde vai
[8].
Juro diante de Deus que no fui movido a fazer estas coisas, nem pela confiana na minha 
inteligncia, nem pela sede da fama, nem pela esperana de da
tirar algum proveito pessoal; mas o amor de Deus e o desejo de tornar melhores as coisas 
dos homens, pblicas e particulares, estimula-me de tal maneira
que no posso deixar envolto no silncio aquilo que um oculto instinto me sugere 
constantemente. Se algum, portanto, podendo fazer andar para a frente
os nossos desejos, os nossos votos, as nossas advertncias e os nossos esforos, em vez 
disso, lhes faz resistncia e os combate, saiba que declarar guerra,
no a ns, mas a Deus,  sua conscincia e  natureza humana que quer que os bens 
pblicos sejam comuns, de direito e de fato.

4. Aos telogos.

16. Dirijo-me tambm a vs,  telogos, pois facilmente vejo que vs, com a vossa 
autoridade, podeis fazer muito para promover ou para deter a minha empresa.
Se vos agradar mais det-la, verificar-se- aquilo que S. Bernardo costumava dizer: 
Cristo no tem inimigos mais nocivos que aqueles que tem  sua volta,
nem que aqueles que, de entre estes, detm o primado
[9].
Mas ns esperamos coisas melhores e mais condizentes com a vossa dignidade. Deveis 
pensar que o Senhor confiou a Pedro que apascentasse, no s as suas
ovelhas, mas tambm os seus cordeiros, e, em primeiro lugar, os cordeiros (Joo, 21, 15). 
E a razo disto  que os pastores apascentam mais facilmente
as ovelhas que os cordeiros, porque as ovelhas esto j habituadas s pastagens da vida, 
em virtude da ordem que regula o rebanho, e do cajado, que regula
a disciplina. Se algum prefere alunos rudes, sem dvida trai a prpria ignorncia! Com 
efeito, que ourives se no alegra, se da fbrica lhe  fornecido
ouro purssimo? Qual  o sapateiro que no prefere trabalhar com couros e peles bem 
curtidas? Sejamos, portanto, tambm ns, filhos da luz
[10],
prudentes nas nossas empresas, e desejemos que as escolas nos forneam alunos o mais 
bem formados possvel.

Splica contra a inveja.

17. Que a inveja,  servos do Deus vivo, no entre sequer no corao de um de vs! Sois 
condutores dos outros para a caridade, a qual no sente rivalidade,
no  ambiciosa, no  egosta, no pensa mal, etc.
[11].
No sintais inveja, se os outros fazem o que nem sequer vos veio  cabea; tomemos antes 
exemplo uns dos outros, para que (segundo as palavras de S. Gregrio)
todos cheios de f possamos conseguir tocar qualquer coisa em honra de Deus, para que 
encontremos os instrumentos da verdade
[12].

5. Aos governantes.

18. Venho a vs, que em nome de Deus presidis s coisas humanas,  dominadores dos 
povos e governantes; a vs principalmente se dirigem as nossas palavras,
porque vs sois os Nos, a quem, para a conservao da semente santa, no meio de to 
horrendo dilvio de confuses mundanas, a divina providncia encarregou
de construir a Arca (Gnesis, 6). Vs sois aqueles Prncipes que deveis, mais que os 
outros, concorrer com as vossas ofertas para a construo do santurio,
para que os artistas, que o Senhor encheu do seu esprito, a fim de que excogitem coisas 
engenhosas, no sejam constrangidos a retardar os trabalhos que
devem executar (xodo, 36). Vs sois os Davides e os Salomes que tm a obrigao de 
chamar os arquitetos para construir o templo do Senhor, e de lhes
fornecer, com abundncia, os materiais necessrios (Reis, I, 6; Crnicas, I, 29). Vs sois 
os centuries, que Cristo amar, se vs amardes as suas criancinhas
e para elas construirdes sinagogas (Lucas, 7, 5).

Splica aos mesmos.

19. Peo-vos, por Cristo, suplico-vos, pela salvao dos nossos filhos, escutai-me! A coisa 
e sria, muito sria, pois diz respeito  glria de Deus e 
salvao dos povos. Estou convencido da vossa devoo,  pais da Ptria, e, se viesse 
algum prometer-vos conselhos sobre o modo de fortificar, com pequena
despesa, todas as nossas cidades, sobre o modo de instruir toda a juventude na arte militar, 
de tornar navegveis todos os nossos rios e de os encher de
mercadorias e de riquezas, ou sobre o modo de conduzir o Estado e os particulares a uma 
maior prosperidade e segurana, os vossos ouvidos, no somente
ouviriam esse conselheiro, mas at lhes ficariam gratos por se ter mostrado to 
devotamente solcito do vosso bem-estar e do dos vossos concidados. Ora,
no nosso caso, trata-se de algo muito mais importante, pois mostra-se o caminho 
verdadeiro, certo e seguro de conseguir, com abundncia, homens tais que,
para negcios deste gnero ou outros semelhantes, serviro a Ptria sem fim, uns aps 
outros. Se, portanto, Lutero, de santa memria, exortando as cidades
da Alemanha a erigir escolas, escreveu com razo: Quando, para edificar cidades, 
fortalezas, monumentos e arsenais, se gasta uma s moeda de ouro, devem
gastar-se cem para educar bem um s jovem, para que este, quando homem feito, possa 
guiar os outros pelos caminhos da honestidade. Efetivamente, o homem
bom e sbio (acrescenta Lutero)  o mais precioso tesouro de todo o Estado, pois nele, 
mais que nos esplndidos palcios, mais que nos montes de ouro e
de prata, mais que nas portas de bronze e nos ferrolhos de ferro, est..., etc.
[13] (
Estas idias concordam com as de Salomo: Eclesiastes, 9, 13); se, repito, achamos que 
so sbias estas palavras quando afirmam que nada se deve poupar
para educar bem um s jovem, que haver ento de dizer-se, quando se escancara a porta 
para uma cultura to universal e to certa de absolutamente todos
os espritos? E quando Deus promete infundir em ns os seus dons, no gota a gota, mas 
envi-los como que em torrente? Quando se v que a sua salutar ajuda
se aproxima tanto, que conosco habita na terra a sua glria?

Exortao.

20. Abri,  princpes, as vossas portas e desempedi as portas do mundo, para que entre o 
rei da glria (Salmo 24, 7). Trazei ao Senhor,  filhos dos fortes,
trazei-lhe glria e honra. Seja cada um de vs aquele David que fez este juramento ao 
Senhor, esta promessa ao Deus de Jacob: No entrarei na tenda da
minha casa, no subirei ao estrado do meu leito, no darei sono aos meus olhos, nem 
repouso s minhas plpebras, at que encontre um lugar para o Senhor,
uma morada para o seu Tabernculo (Salmo 131, 2-5). No olheis, portanto, a nenhuma 
despesa; dai ao Senhor e Ele vos retribuir a cem por um. Efetivamente,
embora exija com todo o direito quem diz:  minha a prata e  meu o ouro (Ageu, 2, 9), 
todavia,  cheio de benignidade aquilo que acrescenta (exortando
o povo a edificar o seu templo): Fazei a prova para ver se eu no abrirei para vs as 
cataratas do cu, e no lanarei sobre vs as benos at  abundncia
(Malaquias, 3, 10).

Orao a Deus.

21. Tu, portanto,  Senhor, nosso Deus, d-nos um corao alegre para servirmos a tua 
glria, cada um dentro das suas possibilidades. Com efeito,  tua
a magnificncia, a fora, a glria e a vitria. Tudo o que existe no cu e na terra  teu; teu 
 o reino,  Senhor, e tu ests acima de todos os prncipes.
Tuas so as riquezas, tua  a glria, a fora e a potncia; nas tuas mos est magnificar e 
confirmar seja o que for. Com efeito, que somos ns, que tudo
recebemos s das tuas mos? Somos peregrinos e forasteiros diante de ti, assim como 
todos os nossos antepassados; os nossos dias sobre a terra so como
uma sombra, e deles no h adiamento.  Senhor, nosso Deus, aquilo que preparamos em 
honra do teu santo nome, tudo veio das tuas mos. D aos teus Salomes
um corao perfeito para fazerem tudo o que conduz  tua glria (Crnicas, I, 29). 
Confirma,  Deus, aquilo que em ns operaste (Salmo 67, 29). Sejam difanas
as tuas obras para com os teus servos e as tuas belezas para com os filhos deles. 
Finalmente, esteja conosco a suavidade de Jeov, nosso Deus, e que seja
Ele a dirigir as obras das nossas mos (Salmo 90, 16). Espermos em ti,  Senhor; no 
sejamos confundidos eternamente. Amen.

Notas do Tradutor

Saudao aos Leitores
[1] - CCERO, De divinatione, Lib. II, c. 2,  4.

[2] - Melanchthon a Camerarius, em 19 de Setembro de 1544. Corpus Reformatorum (Ph. 
Melanch. Opera Omnia, Halle, 1834 e ss.), V, 481.

[3] - S. GREGRIO NAZIANZENO, Oratio sec. apolog., 16 (MIGNE, Patrologia 
Graeca, vol. 35, col. 425).

[4] - RATKE (1571-1635) era bem conhecido de Comnio pelos relatos dos seus 
colaboradores Ch. Helwig e J. Jungius: Kurzer Bericht von der Didactica oder
Lebrkunst Wolfgangi Ratichii, Glessen, 1614, e Artickel auff welchen fhrnehmlich die 
Ratichianische Lehr Kunst berubet, Leipzig, 1616. (Estes dois estudos
foram reimpressos por P. STTZNER, Ratichianische Schriften, Leipzig, 1892-93).

[5] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino-
Germanicae editionis pars prima ... Cum praeliminari... epistola, in qua
de Latina lngua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617. Comnio cita pela 2a. 
edio: Rostock, 1626 (Cf. Opera Didactica Omnia, pars II, col.
71 e ss.).

[6] - CHRISTOPH HELWIG (1581-1617) escreveu, de colaborao com Ratke, uma 
Didtica, publicada postumamente: Christophori Helvici... libri didactici grammaticae
universalis Latinae, Graecae, Hebraicae, Chaldaicae, una cum generalis Didacticae 
delineatione et speciali ad colloquia familiaria applicatione, Glessen,
1619.

[7] - STEPHANUS RITTER, Nova Didactica, das ist wohlmeinender und in der Vernunft 
wohlbegrndeter Unterricht, durch was Mittel und Weis die Jugend die lateinische
Sprach mit viel weniger als sonsten anzuwendeten Mh und Zeit fassen und begreifen 
mge, 1621.

[8] - ELIAS BODINUS, Bericht von der Natur-und vernunftsmessigen Didactica oder 
Lehrkunst: Nebenst bellen and sonnenklaren Beweiss, wie heutigen Tages der
studirenden Jugend die rechten fundamenta verruckt und entzogen werden, Hamburgo, 
1621.

[9] - PHILIPP GLAUM, Disputatio Castellana de methodo docendi artem quamvis intra 
octiduum, Glessen, 1621.

[10] - EZECHIEL VOGEL, Ephemerides totius lnguae latinae unius anni spatio duabus 
singulorum dierum profestorum horis juxta praemissam didacticam ex vero
fundamento facili methodo docendae et discendae, 2a. ed., Leipzig, 1631. (Cf. Opera 
Didactica Omnia, pars II, col. 81).

[11] - JACOB WOLFFSTIRN, Schola privata, hoc est nova et compendiosissima ratio 
informandae pueritiae a primis litterarum (linguae Latinae et Germanicae)
elementis usque ad perfectam grammatici sermonis cognitionem, Bremen, 1619. (2.a ed., 
1641).

[12] - JOH. VAL. ANDREA (1586-1654). Dos escritos deste telogo de Wrtternberg, 
tm interesse pedaggico: Theophilus sive Consilium de Christiana religione
sanctius colenda, vita temperantius instituenda et literatura rationabilius docenda, 
Stuttgart, 1649; e a Utopia Christianopolis - Reipublicae Christianopolitanae
descriptio, Estrasburgo, 1619.

[13] - JANUS CAECILIUS FREY, Via ad divas scientias artesque, lnguarum notitiam, 
sermones extemporaneos nova et expeditissima, Paris, 1628.

[14] - TERTULLIANUS, De anima liber, 24.

[15] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamenti... Cum 
praeliminari... epistola, in qua de latina lingua compendiose a pueris addiscenda
exponitur, p. 16c.

[16] - Salmo 8, 3.

A todos aqueles...
[1] - Cntico dos Cnticos, 4, 14.

[2] - Atos dos Apstolos, 17, 28.

[3] - HORCIO, Epist. I, 10, 24: naturam expellas furca, tamen usque recurret...

[4] - Salmo 35, 10.

[5] - Apocalipse, 2, 12.

[6] - Salmo 36, 10.

Utilidade da Arte Didtica
[1] - CCERO, De divinatione, II, 2, 4.

[2] - JOO STOBAIOS, Anthologion (Florilegiu), cap. 95: (
). Edio de A. MEINEKZ, Leipzig, 1855, II, 103;, onde, todavia, o termo  atribudo, 
no a Digenes, mas ao discpulo de Protgoras, Diotgenes. Comnio
utilizou provavelmcntc a traduo, muito divulgada, de C. GESSNER, Zurich, 1543.

[3] - Mateus, 12, 39; Lucas, 11, 29.

[4] - J. V. ANDREA, Theophilus, (ed. de Leipzig. 1706, p. 16).

Captulo I
[1] - Ptaco  um dos sete sbios da Grcia. Esta mxima e a sua histria foram 
extensamente elucidadas por ERASMO, nos Adagia, Chil. 1, cent. VI, 95 (Opera
Omnia, edio de J. CLERICUS, vol. II. Leide, 1703, p. 258).

Captulo II
[1] - S. P. FESTUS, De verborum significatu: abitio (ed. de W. M. LINDSAY, Leipzig, 
1913, p. 21).

Captulo V
[1] - Efsios, 2, 3.

[2] - J. LUS VIVES (1492-1540), De concordia et discordia ia humano genere, em Opera 
Omnia, Basileia, 1555, vol. II, p. 764.

[3] - O que est entre parntesis  um aditamento de Comnio.

[4] - SNECA, Epist. 92,  29-30,ed. de O. HENSE, Leipzig, 1914, p. 398; ed. de A. 
BELTRAM, Roma, 1931, II, 48. Comnio cita por outra edio.

[5] - Cfr. Physicae Synopsis, XI, 21, ed. de J. REBER, p. 308 e s.

[6] - ARISTTETES, Metafsica, I, no Princpio (Academia de Berlim, ed. de BEKKER, 
980).

[7] - S. BERNARDO, Epstola 106,  2 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 182, col. 242).

[8] - Livro da Sabedoria, 11, 20.

[9] - SNECA, De beneficiiis, IV, 6.

[10] - Por exemplo, Mateus, 13, 3 e Lucas, 8, 5.

[11] - ARISTTELES,
, III, 4 (ed. de BEKKER, 430 a)

[12] - CCERO, Tusculanarum Disputationum, III, 1, 2.

[13] - ARISTTELES,
, I, 3 (cd. de BEKKER, 720 b).

[14] - SNECA, Epist. 95, 50.

[15] - No cap. IV do Timeu, encontra-se o sentido desta frase, embora no  letra.

[16] - CCERO, De natura deorum, I, 42, 117.

[17] - LACTNCIO, Divinarum institutionum, lib. IV, 28.

[18] - Marcos, 10, 14.

[19] - HORCIO, Epist. I, 1, 39 e s.

Captulo VI
[1] - Numerosos relatos sobre descobertas deste gnero podem ler-se em J. A. L. SINGH e 
R. M. ZINGG, Wolf children and feral man, University of Denver Publications,
Nova York e Londres, 1941.

[2] - No foi possvel localizar esta passagem em Dresser.

[3] - PH. CAMERARIUS, Oper. horarum subcisivarum cent. I, 75, Frankfurt, 1602.

[4] - SIMON GOULART, Trhsor dhistoires admirables, Paris, 1600, etc. Nesta obra, h 
um captulo intitulado Enfans nourris parmi les loups.

[5] - PLATO, Leis, VI, 12, 766 a.

[6] - DIGENES LARCIO, De vitis philosophorum, VI,  65.

Captulo VII
[1] - CCERO, Cato Maior de Senectude, c. 21,  78.

[2] - SNECA, Epist. 36, 4.

[3] - HORCIO, Epist. I, 2, 69.

Captulo VIII
[1] - Cfr. MARTINHO LUTERO, W. A., 15, 34 (Clemen, 2, 448).

[2] - FLVIO JOS, Antiquilatum judaicarum, I, 106.

[3] - OVDIO, Ars amatoria, III, 595 e s.

Captulo IX
[1] - Deuteronmio, 1, 17; Romanos, 2, 11; Pedro, I, 1, 17.

[2] - SANTO AGOSTINHO, De spiritu et littera (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 44, col. 
199 e ss.).

[3] - VIRGLIO, Georg., 1, 145 C s.

[4] - Eclesistico, 39, 40.

[5] - JUVENAL, VI, 448-450.

[6] - EURPEDES, Hyppolitos, V, 640 e ss.

Captulo X
[1] - Aqui Comnio tem em vista, sem dvida, no apenas a obra matemtica de 
Pitgoras, mas a sua interpretao do Universo como harmonia e nmero.

[2] - G. AGRCOLA (1494-1555), Bermannus sive de re metallica libri XII, Basileia, 
1530 (ed. crtica, Berlim, 1920).

[3] - CHR. LONGOLIUS (circa 1488-1522), humanista francs, travou clebre disputa 
com Erasmo sobre se devia imitar-se  letra a linguagem de Ccero, ou
se era prefervel adaptar o latim  evoluo das vrias pocas. Foi ridicularizado por 
Erasmo no dilogo Ciceronianus. Cfr. ALLEN, Erasmi Epistolas,
especialmente a 914 e a 935.

[4] - Nas Opera Didactica Omnia, Comnio escreveu que isto fora afirmado por um 
profeta: Verbo, totum hominem esse formandum ad humanitatem, reparandamque
in nobis totam divinam imaginem, ad archetypi sui similitudinem: ut schola haec esse 
incipiat vere, quod esse debebant omnes, humanitatis officina, coelique
et terrae plantarium, ut per prophetam loquitur Deus (Pars III, col. 3-4).

[5] - Embora no literalmente, o sentido desta frase encontra-se na Apologia de Plato, 36 
e s.

[6] - Livro dos Provrbios, 15, 15.

[7] - Cfr. Leges illustris gymnasii Lesnensis, Ratione morum, 1.

[8] - Entre esses outros lugares: Livro dos Provrbios, 9, 10; Livro de Job, 28, 28; Salmo 
110, 10.

Captulo XI
[1] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn 
Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 44-47. (Clemen II, 456 e as.).

[2] - EILHARDUS LUBINUS, Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino- Germanicae 
editionis pars prima... Cum praeliminari... epistola in qua consiliu,n de
Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 7-8 b.

[3] - VIRGLIO, Aeneis, VIII, 560.

Captulo XII
[1] - Acerca do barco de Hiero, que Arquimedes ps em movimento, escreveram 
PLUTARCO, Marcellus, 14 e ATHENAIOS, Deipnosophistae, V, 206 d.

[2] - Fernando de Castela. Provavelmente, Comnio colheu estes dados no livro de G. 
BENZONI, Historia dei Mondo Nuovo, Veneza, 1565.

[3] - Comnio considera Joo Fust o inventor da imprensa. Com efeito, a tradio familiar 
dos Fust afirma que Gutenberg aprendeu de Fust.

[4] - A descoberta da plvora pelo monge Berthold Schwarz no  historicamente certa.

[5] - Sobre este aforismo, ver ERASMO, Adagia, Chil. II, cent. IV, 45 (Opera, ed. de J. 
CLERICUS, Leiden, 1703-1706, vol. II, col. 537).

[6] - Comnio extraiu, por certo, esta narrativa do Florilegium Magnum, editado por J. 
LANG (captulo: Discipulus), Frankfurt, 1621, p. 865.

[7] - ARISTTELES, Metafsica, I, no princpio (ed. de BERKER, 980 a).

[8] - Ver o captulo V,  7 e o cap. XI.

[9] - Cfr. OVDIO, Ars amatoria, III, 397: ignoti nulla cupido.

[10] - PLUTARCO, Temistocles, cap. 2; ERASMO, Apophthegmata V, Themistocles, 17 
(ed. de J. CLERICUS, vol. IV, col. 342).

[11] - ERASMO, Apophthegmata V, Themistocles, 18 (ed. de J. CLERICUS, vol. IV, col. 
244).

[12] - PLUTARCO, Alexandre, cap. 6. O aditamento, todavia, no provm de Plutarco, 
mas do Florilegium Magnum editado por J. LANG, Frankfurt, 1621, captulo:
Educatio.

[13] - A doutrina dos antdotos desempenhou papel importante na filosofia e na 
medicina medievais. Sobre o Antidotarium, ver STEPHEN DIRSAY, Histoire
des Universits, vol. I, Paris, 1933, p. 104 e ss.

[14] - CATO, De agricultura, cap. 5, 6.

[15] - PLUTARCO, De educatione puerorum, cap VI.

Captulo XIII
[1] - Cfr. o captulo XII, 5.

[2] - Cfr. o captulo XII, 5 e o cap. XIII, 8.

Captulo XIV
[1] - ARISTTELES, Metafsica, IV, 3 (ed. de BEKKER, 1005 b).

[2] - Cfr. CCERO, De Officiis, I, 28, 100.

[3] - HIPCRATES, Aforismos.

[4] - DIONISIUS CATO, Dicta Catonis ad filium suum, edio de E. BAHRENS, em 
Poeta lat. min., III, Leipzig, 1881, p. 225: Rem tibi quam noces aptam, dimittere
noli; fronte capillata, post haec occasio calva (Dist. II, 26). Cfr. tambm COMENIUS, 
Orbis pictus: Prudentia.

[5] - M. MANILIUS, Astronomicon, IV (ed. de A. E. HOUSMAN, Londres, 1920)  16.

Captulo XV
[1] - Com Sneca (De brevitate vitae, 1, 2), Comnio atribui a Aristteles uma afirmao 
que, mais corretamente, pertence a Teofrasto. Cfr. CCERO, Tuscul.,
III, 28,  69.

[2] - HIPCRATES, no princpio dos Aforismos.

[3] - H. GUARINONIUS, Die Grewel der Verwstung menschlichen Greschlechts, 
Ingolstadt, 1610, cap. IV.

[4] - O humanista e filsofo italiano Pico della Mirandola faleceu aos 32 anos (1494).

[5] - SNECA, Epist. 93,  1-8.

[6] - JUVENAL, Satirae, X, 356.

[7] - Informatorium der Mutter Schul, nova edio de J. HEUBACH, Heidelberg, 1960, 
cap. V p. 14 e ss.

[8] - HESODO,
, V, 361 e s.

[9] - SNECA, De brevitate vitae, I,  3.

Captulo XVI
[1] - Reales disciplinas praemitti organicis: A palavra organicis contm uma referncia 
s obras lgicas de Aristteles, o conjunto das quais  conhecido
pelo nome de Organon.

[2] - SNECA, Epist. 95, 38.

[3] - J. SCALGERO (1540-1609), clebre fillogo e historiador (filho do igualmente 
clebre Jlio Csar Scalgero) foi, durante muito tempo, considerado
o fundador da filologia histrica.

[4] - HUGO DE S. VICTOR, In Ecclesiasten Homilia XVII (MIGNE, Patrologia Latina, 
vol. 175, col. 237 e ss.).

Captulo XVII
[1] - ARISTTELES, Fsica, I, cap. 8 (ed. de BEKKER, 191 b) e Cap. 9 (ed. de 
BEKKER, 192 a).

[2] - Comnio tirou esta citao, por certo, do Florilegium Magnum, ed. de J. LANG, 
Frankfurt, 1621, col. 1496, Captulo: Institutio.

[3] - CCERO, Tuscul., II, 5, 13.

[4] - ISCRATES, Orat. ad Demonicum,  18.

[5] - QUINTILIANO, Instit. Orat., I, 3, 8.

[6] - Captulo XIX,  50.

[7] - HORCIO, Epist. II, 3, 343: Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci.

[8] - Cap. XIX,  50 e ainda no Informatorium der Mutter Schul, V, 14 e ss.

[9] - Comnio aduz Melanchthon e P. Ramus, sem dvida pelo fato de as Gramticas 
deles haverem sido traduzidas para checo.

[10] - Cfr. QUINTILIANO, Instit. Orat., I, 2, 27 e s.

[11] - Dados mais pormenorizados sobre este conselho encontram-se na Scholae 
Pansophicae Pars II, em Opera Didactica Omnia, pars III, col. 36 e ss. Conselhos
semelhantes podem ler-se na Cidade do Sol de Campanella.

Captulo XVIII
[1] - S. JERNIMO, Epist. 53,  9 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 22, col. 549).

[2] - Ver o captulo XIX,  50.

[3] - ESOPO, Fbulas 200 e 200b; FEDRO, Fbulas de Esopo, I, 3.

[4] - HORCIO, Epist. I, 19, 19.

[5] - O jesuta polaco REH0R KNAPSKI (1564-1638) comps o Thesaurus Polono-
Latino-Graecus (Cracvia, 1621-32) que, no seu tempo, foi famoso. Comnio aprecia
esta obra no cap. XXII,  15.

[6] - Captulos XXI e XXII.

[7] - Sobre a Pansofia, Comnio escreveu vrias obras. Ver a nossa Introduo 
[Disponvel apenas na edio em papel da Fundao Calouste Gulbenkian - N.E.
da verso para eBook].

[8] - QUINTILIANO, Instit. Orat., XI, 2, 1.

[9] - J. LUIS VIVES, De Tradendis disciplinis lib. III, em Opera, Basileia, 1555, vol. I, p. 
468.

[10] - J. LUIS VIVES, Introductio ad Sapientiam, 180-183, em Opera, Basileia, 1555, vol. 
II, p. 77.

[11] - PERSIUS FLACCUS, Satirae, I, 27.

[12] - J. FORTIUS (Ringelberg), De ratione studii, em II. Grotii et aliorum 
Dissertationes de studiis instituendis, Amesterd, 1645, captulo De ratione
docendi (no  letra). Cfr. Opera Didactica Ominia, pars III, col. 758 e ss.

Captulo XIX
[1] - CCERO, Epist. ad famil., VII, 29, 2; ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VII, 3 (edio 
de J. CLERICUS, II, 263).

[2] - SNECA, Epist. 29, 1.

[3] - Cfr. OVDIO, Fasti, I, 321.

[4] - PLNIO, Naturalis historiae liber XXIX, I, 2.

[5] - Ver o captulo XX,  10.

[6] - SNECA, Epist. 9, 20.

[7] - Captulo V,  5.

[8] - SNECA, Epist. 9, 20.

[9] - SNECA, Epist. 84, 2.

[10] - SANTO AGOSTINHO, Epist. 143,  2 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 33, col. 
585).

[11] - Captulo XVIII,  44-47.

[12] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn 
Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 44-47 (Clemen, II, 456 e ss.).

[13] - SNECA, Epist. 48, 12.

[14] - CCERO, De Officiis, I, 31, 110: invita, ut aiunt, Minerva, id est adversante et 
repugnante natura.

Captulo XX
[1] - PLAUTO, Truculentus, V, 489; ERASMO, Adagia, chil. II, cent. VI, 54 (ed. de J. 
CLERICUS, II, 602).

[2] - HORCIO, Epist. II, 3, 180-182.

[3] - ROBERT FLUDD (1574-1637), Utriusque cosmi, majoris scillicet et minoris, 
metaphysica, physica atque technica historia (Prima Pars: Macrocosmi; Secunda
Pars: Microcosmi historia), Frankfurt, 1626, no captulo Philosophia vere christiana seu 
meteorologica.

[4] - O fato de empregar a palavra Utopia no nos garante que Comnio tenha lido a obra 
de Thomas Morus com esse ttulo.

[5] - ARISTTELES, Metafsica, I, cap. 2 (edio de BEKKER, 982).

Captulo XXI
[1] - No foi possvel localizar esta citao.

[2] - Esta frase no  de Quintiliano, mas de Sneca, Epist. VI, 5.

[3] - Citado em alemo por Comnio.

[4] - TERNCIO, Andria, verso 171.

[5] - VIRGLIO, Aeneis, I, 14.

[6] - CCERO, De divinatione, II, 42, 87.

[7] - QUINTILIANO, Instit. Orat., II, 3, 3. Comnio volta a aduzir o mesmo exemplo no 
captulo XXV,  23.

[8] - OVDIO, Ars amatoria, II, 675 e s.

Captulo XXII
[1] - COMENIUS, Janua lnguarun, reserata, sive seminarium lnguarum et scientiarum 
omnium, Leszno, 1631.

[2] - CCERO, De fin., III, 2, 4.

[3] - CCERO, De Oratore, III, 10, 38.

[4] - Ver o Repertorium Vestibulare sive lexici latini rudimentum, em Opera Didactica 
Omnia, pars III, col. 175 e ss.

[5] - Ver a Sylva Latinae Linguae, vocum derivatarum copiam explicans, sive lexicon 
Januale, em Opera Didactica Omnia, pars III, col. 219 e ss.

[6] - REHOR KNAPASKI (1564-1638), Thesaurus Polono-Latino-Graecus, Cracvia, 
1621-32.

Captulo XXIII
[1] - SNECA, Epist. 88, 1.

[2] - J. LUIS VIVES, Introductio ad Sapientiam, I (Opera, Basileia, 1555, II, 70 e s.).

[3] - Ne quid nimis. Cfr. ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VI, 96 (ed. de J. CLERICUS, II, 
259).

[4] - Tem em vista, sem dvida, a conhecida passagem de PLUTARCO, De audiendo,  3.

[5] - Ventres pigri: Cfr. a Epstola a Tito, I, 12.

[6] - Inutilia pondera terrae: expresso homrica (
).

[7] - Captulo XXI,  5.

[8] - SNECA, Epist. 31, 4.

[9] - VIRGLIO, Georg., III, 272.

[10] - HORCIO, Epist. I, 2, 69 e s.

[11] - L. J. M. COLUMELLA, De rustica, XI, I, 26: Nam illud verum est M. Catonis 
oraculum nihil agendo homines male agere discunt.

Captulo XXIV
[1] - Captulo IV,  6.

[2] - Ver o Livro de Job, cap. 32 e ss.

[3] - Salmo 138, 14.

[4] - LUTERO, no Prlogo da edio das suas obras escritas em alemo, 1539: Da wirstu 
drey Regel innen finden, durch den gantzen Psalm (nml. den 119) reichlich
furgestellet. Und heissen also: Oratio, meditatio, tentatio (W. A., 50, 659).

[5] - xodo, 22, 29-30; 23, 19.

[6] - Lucas, 16, 19 e ss.

[7] - Expresso decalcada em VIRGLIO, Aeneis, 1, 94.

[8] - ANDREAS GERARDUS HYPERIUS escreveu acerca do estudo da Sagrada 
Escritura pelos telogos no segundo livro de De Theologo seu ratione studii theologici
libri IV, Basileia, 1559; e acerca do estudo da Sagrada Escritura em geral no De sacrae 
scripturae lectione et meditatione quotidiana, Basileia, 1563.

[9] - ERASMO, Opera, ed. de J. CLERICUS, vol. V, Leide, 1704, col. 140 A B.

[10] - Ibid., col. 140 CD.

[11] - Ibid., col. 144 AC.

[12] - ERASMO, Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam, 
Ausgew. Werke, edio de H. HOLBORN, Mnchen, 1933, p. 293 (CLERICUS, V, 132)
SANTO AGOSTINHO, De doctrina christiana, II, 9 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 34, 
col. 42).

[13] - Gnesis, 22, 16 e ss.

[14] - Aluso, sem dvida,  escada da viso de Jacob: Gnesis, 28, 12 e ss.

[15] - FULGENTIUS, Epist. II,  12-21 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 65 cols. 315-
317).

[16] - Lucas, 16, 19 e ss.

[17] - PRISCIANUS (+ 526), Institutiones Grammaticae. Este livro foi considerado, 
durante toda a Idade Mdia, e at  poca de Comnio, a obra de maior
autoridade para o estudo da Gramtica Latina.

[18] - Pedro, I, 5, 5; Tiago, 4, 6.

[19] - Joo, 1, 29.

[20] - Mateus, 3, 17; Marcos, 1, 11.

[21] - Salmo 117, 22; Mateus, 21,42; Marcos, 12, 10; Efsios, 2,20.

Captulo XXV
[1] - Da vasta bibliografia sobre este tema, citamos apenas: H. I. MARROU, Histoire de 
lducation dans lantiquit, 3e. d., ditions du Seuil, Paris,
1955, p. 423-425; J. V. ANDREAE, Theophilus (1a. ed., 1649), Dilogo III: De literatura 
christiana. Comnio foi nitidamente influenciado por esta obra.
Ver ainda MARTINHO LUTERO, W. A., 15, 52 (Clemen, II, 462).

[2] - CRISSTOMO, Comentrio  segunda Epstola a Timteo, Homilia LX, 1 (MIGNE, 
Patrologia Latina, vol. 62).

[3] - CASSIODORO, Expositio in Psalterium, ps. 15, ltimo captulo (MIGNE, Patrol. 
Lat., vol. 70, col. 116).

[4] - Cfr. HORCIO, Epist. II, 3, 268 e s.: Vos exemplaria Graeca nocturna versate manu, 
versate diurna.

[5] - Pedro, I, 2, 9.

[6] - O imperador Juliano Apstata (sc. IV) afastou-se do cristianismo por influncia da 
filosofia neo-platnica. Os seus escritos filosficos haviam sido
reeditados em 1583.

[7] - Leo X foi Papa precisamente no tempo da Reforma (1513-1521). Comnio reflete 
aqui as opinies tendenciosas dos protestantes acerca do Papado, expressas,
por exemplo, na obra de J. BALE, The Pageant of Popes, Londres, 1574.

[8] - Tal conselho carece, sem dvida, de autenticidade.  certo, todavia, que, destes dois 
cardeais e amigos, da poca do Renascimento, Sadoleto era partidrio
do movimento bblico, ao passo que Bembo, at  sua posterior viragem, seguia um 
humanismo muito mundano.

[9] - No se refere tanto aos catlicos romanos, como aos humanistas italianos hereges do 
sc. XVI. Comnio travou polmica, de modo especial, com o Sozzinianismo.
Sobre o movimento dos Eretici italiani, ver D. CANTIMORI, Eretici italiani dei 
cinquecento. Ricerche storiche, G. C. Sansoni Editore, Firenze, 1939.

[10] - Primeiro Livro dos Reis, 5, 2.

[11] - S. JERNIMO, Epist. ad Damasum, no. 114.

[12] - SANTO ISIDORO DE SEVILHA, Sententiarum Libri, III c. 13, 2, 3 (MIGNE, 
Patrol. Lat., vol. 83, col. 686).
[13] - CCERO, De fin., III, 5, 16.

[14] - MELANCHTON, Theol. hypotyposes, de pecato, em Corpus Reformatorum, 
XXI, col. 101 e s.

[15] - SANTO AGOSTINHO, Epist. 137,  7 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 33, col. 
524).

[16] - Comnio pensa aqui sobretudo em ALSTED, Triumphus bibliorum sacrorum seu 
Encyclopoedia biblica, exhibens triunphum philosophiae, jurisprudentiae
et medicinae sacrae itemque sacrosanctae theologiae, quatenus illarum fundamenta ex 
Scriptura V. et N. T. colliguntur, Frankfurt, 1625.

[17] - ERASMO, Parabolae sive similia. Ex Aristotele, Plinio, Theophraste (ed. de J. 
CLERICUS, I, 606 c).

[18] - Ibid., I, 615 e s.

[19] - ERASMO, Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam, 
Ausgw. Werke, ed. de H. HOLBORN, Mnchen, 1933, p. 190 (ed. de J. CLERICUS,
V, 82).

[20] - Ver cap. XXI,  12 e cap. XXV,  23, e suas respectivas notas.

[21] - Trata-se, no de Santo Agostinho, mas de S. GREGRIO MAGNO, Moralium libri 
(MIGNE, Patr. Latina, vol. 75, col. 515).

Captulo XXVI
[1] - Prisciano  um clebre gramtico do sc. VI, autor das Institutiones Grammaticae 
que foram livro de texto em quase todas as escolas da Europa, at
depois da Renascena.

[2] - CCERO, Pro Flacco, 27, 65; ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VIII, 36 (ed. de J. 
CLERICUS, II, 311).

[3] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamanti Graeco-Latino-
Germanicae editionis pars prima... Cum praeliminari... epistola, in qua
consilium de Latina lngua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 16-17.

Captulo XXVIII
[1] - Cfr. Informatorium der Mutter Schul, cap. IV,  7-11; e cap. VI-VIII.

[2] - Sobre um to amplo conceito de gramtica, ver E. R. CURTIUS, Europische 
Literatur und lat. Mittelalter, Bern, 1948, p. 50.

[3] - Cfr. Informatorium, cap. IV,  7; e cap. IX.

[4] - Cfr. Informatorium, cap. IV,  5 e s.; e cap. X.

[5] - Gnesis, 5, 22-24.

[6] - Cap. XXIX e XXX.

[7] - Esta obra tem o seguinte ttulo: Schola Infantiae sive de provida juventutis primo 
sexennio educatione. Vem publicada nas Opera Didactica Omnia,
pars I, col. 198 e ss.

[8] - Sobre este tema, ver o Orbis sensualium pictus.

Captulo XXIX
[1] - WILHELM ZEPPER, no cap. VI de De politia ecclesiastica, Herborn, 1607, 
recomenda que se no erijam escolas de lngua materna, onde as haja de latim.
Ver ainda A. MOLNAR, Lexicon Latino-Graeco-Ungaricum, vol. I, Frankfurt, 1645.

[2] - J. H. ALSTED, Encyclopaedia septem tomis distincta, Herborn, 1630, cap. VI, p. 
1513. S devem freqentar a escola de lngua materna os meninos qui
artibus mechanicis aliquando se applicabunt.

[3] - CCERO, De oratore, III, 10. 38.

[4] - Colossences, 3, 16.

[5] - Os nome que Comnio escolheu para esses seis livros so Violarium, Rosarium, 
Viridarium, Sapientiae Labyrinthus, Spirituale Balsamentum, Paradisus
Animae. Ver Opera Didactica Omnia, pars I, col. 248 e s.

[6] - SIMON STEVIN (1548-1620), matemtico e fsico holands que escreveu em 
flamengo.

[7] - Problematum geometr. libri V, Anturpia, 1583. Livro I.

Captulo XXX
[1] - JUSTO LPSIO, Physiologiae Stoicorum libri tres, Anturpia, 1604, Livro, I, Diss. 1, 
p. 2.

[2] - XENOFONTE, Memorabilia Socrat., I, 6, 15; ERASMO, Apophthegmata III, 
Socratica 10 (ed. de J. CLERICUS, IV, 156).

Captulo XXXI
[1] - Captulo XXVII,  6.

[2] - ERASMO, Adag., chil, II, cent. IV, 45 (ed. de J. CLERICUS, II, 537).

[3] - SNECA, Epist. 2, 2.

[4] - As clebres Noctes Aticae de A. Gellius esto escritas em forma de colquios.

[5] - PLATO, Leis, XII, cap. 5 (949 E - 950 D).

[6] - Esta idia de uma Sociedade de Professores  mais amplamente desenvolvida por 
Comnio na Via lucis, cap. 18.

Captulo XXXII
[1] - Veja-se, a este propsito, o opsculo de COMNIO, Typographeum vivum, hoc est, 
ars compendiose, et tamen copiose ac elegauter, sapientiam non chartis
sed ingeniis imprimendi, em Opera Didactica Omnia, pars IV, col. 85-96.

[2] - Cfr. Typographeum vivum,  19 e ss.

Captulo XXXIII
[1] - JANUS CAECILIUS FREY (+1631), Via ad divas scientias artesque, lnguarum 
notitiam, sermones extemporaneos nova et expeditissima, Paris, 1628, cap.
II, seo 1.

[2] - Cfr. HORCIO, Epist. II, 3, 355.

[3] - Sobre estes livros, ver cap. XXII,  19 e ss.; cap. XXVIII,  23 e ss.; e cap. XXX,  
16.

[4] - SNECA, Epist. 6, 4. No texto l-se, erradamente, Epist. 27.

[5] - Cfr. CCERO, De divinatione, II, 2, 4.

[6] - XENOFONTE, Memorab. I, 6, 15. ERASMO, Apophthemata III, Socratica 10 (ed. 
de J. CLERICUS, IV, 156).

[7] - ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VI, 1 (ed. de J. CLERICUS, II, 220).

[8] - Joo, 3, 8.

[9] - S. BERNARDO, Sermonis de Sanctis, I, 3 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 183, col. 
362).

[10] - Lucas, 16, 8

[11] - Corntios, I, 13, 4.

[12] - S. GREGRIO MAGNO, Moralium libri XXX, cap. 27,  81 (MIGNE, Patrol. 
Lat., vol. 76, col. 569).

[13] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn 
Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 50 e 34, (Clemen, II, 445 e 448).

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